48 horas por dia

Capítulo 19

48 horas por dia

O tiro errado de Zhang Heng chamou a atenção da onça. Ela virou-se rapidamente para ele.

Bell ainda estava lutando com a outra onça, o que significava que Zhang Heng teria que enfrentar esse rei da floresta sozinho. Se ele tivesse esse encontro quando chegou à ilha, teria virado comida de bicho.

Provavelmente ele nem conseguiria lutar com um ganso, muito menos com uma onça.

Mas será que um ano inteiro de prática de arco e flecha não foi para esse momento?

Rapidamente, Zhang Heng pegou outra flecha e a colocou na corda do arco. Ele não tinha pressa de atirar porque ele e a fera ainda estavam bem distantes um do outro.

A essa distância, ele não tinha confiança total de acertar o alvo. Então, ele teve que controlar o medo que estava sentindo e esperar que a onça atacasse primeiro.

Isso pode parecer simples, mas na prática não era fácil.

Porque, para uma profissão de longo alcance, quanto maior a distância, mais seguro seria. Todo atirador conhece a técnica de “kiting” [1] - técnica de manter distância do inimigo, usando a mobilidade para evitar o dano, semelhante à estratégia de “kitear” em jogos.

Ainda assim, a realidade é cruel. Zhang Heng sabia que, em termos de agilidade e velocidade, suas duas pernas nunca superariam a criatura de quatro patas. Ele poderia usar a técnica de "kiting", mas e se a onça resolvesse se juntar à parceira e atacar o explorador?

Então, com as duas onças o cercando, Zhang Heng nunca conseguiria sair da floresta.

Assim, homem e felino assumiram posições de confronto. Zhang Heng manteve a mira e uma postura ereta, como seu instrutor lhe ensinara, regulando sua respiração.

Do outro lado, a paciência da onça finalmente se esgotou, então ela arqueou o corpo e se preparou para pular.

O pânico tomou conta de Zhang Heng. Essa era uma situação completamente diferente de caçar um dodô. Mesmo que ele errasse o alvo, a consequência seria apenas não conseguir comer carne. Mas se sua flecha errasse, com a velocidade da onça, ele nem teria outra chance de carregar o arco.

Quem seria devorado seria ele.

Zhang Heng rapidamente afastou essa confusão de pensamentos e ancorou suas emoções. Naquele instante, a onça se moveu. Foi muito mais rápido do que Zhang Heng havia imaginado. Chutar o chão com as patas traseiras deu à criatura uma força assustadoramente explosiva.

A distância entre eles estava diminuindo rapidamente. A menos de sete metros, finalmente ouviu-se o som da corda do arco sendo liberada.

Poderia-se dizer que esse foi o tiro mais satisfatório de Zhang Heng até agora. Após um longo período de preparação e avaliação, sua mente entrou em um tipo de estado zen, onde o mundo diante dele parecia estar se movendo em câmera lenta e ele conseguia ver o movimento dos bigodes da onça.

Seja força, ângulo ou cálculo — tudo estava perfeito.

Assim que a flecha deixou sua mão, Zhang Heng soube que acertaria o alvo.

E ele estava certo.

A uma distância tão curta, e correndo a toda velocidade, a onça foi incapaz de escapar e só pôde observar a flecha de madeira atingindo sua cabeça.

Mas o que aconteceu a seguir estava completamente fora das expectativas de Zhang Heng. Ele não sabia se a ponta de flecha carbonizada não era letal o suficiente ou se era má sorte, a flecha atingiu o crânio do felino, mas não penetrou mais fundo.

A onça soltou um grito agudo de dor, mas a lesão na cabeça não foi suficiente para matá-la. Em vez disso, provocou a fera, que então avançou em direção a Zhang Heng, derrubando-o no chão.

Zhang Heng empurrou o arco contra o pescoço da onça para impedi-la de lhe rasgar a garganta, mas a onça estava prendendo a parte inferior do seu corpo no chão e estava arranhando freneticamente seu ombro, abrindo buracos sangrentos nele.

Mas a dor lancinante deu a Zhang Heng uma onda de força que ele nunca havia experimentado antes.

Com a morte iminente, ele momentaneamente esqueceu seus medos. Ele sabia que ninguém poderia salvá-lo naquele momento. Se ele quisesse viver, teria que confiar em si mesmo.

Mantendo uma mão no arco, Zhang Heng deixou sua mão livre se debater pelo chão. Sentindo a pressão contra seu pescoço enfraquecer, o olhar da onça ficou selvagem. A fera esticou o pescoço para alcançar o pescoço de Zhang Heng, a saliva de seus dentes afiados pingando no rosto de sua vítima. O cheiro quase deixou Zhang Heng inconsciente.

Ele estava agora em muito mais perigo do que antes.

Mas naquele momento, a mão livre de Zhang Heng conseguiu alcançar a lança que ele havia deixado cair no chão.

A boca pútrida e faminta estava prestes a rasgá-lo quando ele cravou a lança no pescoço da onça. Os olhos da criatura ficaram vazios. Mas Zhang Heng não soltou; em vez disso, ele pressionou mais forte, girando a arma mais profundamente no pescoço do felino.

Ele jogou o arco de madeira de lado e pegou a flecha que estava cravada na onça, e empurrou com as duas mãos com toda a sua força.

Toda aquela adrenalina o fez esquecer a dor em todo o seu corpo. Era uma batalha de vida ou morte. Não havia misericórdia ali. Zhang Heng fez tudo o que pôde para infligir danos à fera selvagem diante dele até que uma voz anunciou em seu ouvido:

[Exterminou com sucesso uma onça adulta sozinho. Pontos de Jogo +10. Você pode visualizar seu painel de personagem para mais informações...]

Só então, Zhang Heng pôde confirmar que era o vencedor dessa carnificina.

Empurrando o pedaço sem vida de carne morta para longe de si, Zhang Heng viu que a luta de Bell com a outra onça também estava chegando ao fim.

O explorador havia perfurado o abdômen inferior da onça com sua faca, e a criatura estava perdendo muito sangue. Seu movimento também estava mais lento e pesado. Parecia que ia seguir os passos de sua parceira.

“E aí, Zhang? Tudo bem?”, perguntou Bell, preocupado. Ele tinha visto que Zhang Heng estava em perigo, mas não tinha conseguido ajudar.

“... Eu sempre quis ter uma saia de pele de tigre, mas acho que pele de onça também serve”, Zhang Heng bufou e caiu no chão com os braços e as pernas abertos. Tendo verificado que estava absolutamente seguro, toda a energia de seu corpo repentinamente se esgotou. Ele nem queria levantar um único dedo.

Quando ele pensou em como tudo o que havia acabado de acontecer era insano, seu coração batendo forte parecia não conseguir se acalmar.

Ele nunca tinha pensado que um dia teria que lutar contra uma fera tão grande de perto. De acordo com a contagem do tempo na realidade, apenas uma hora atrás, ele estava tomando água com limão no bar.

Mas agora, ele era um homem que havia acabado de matar uma onça.

Era bem legal, se você pensar bem. Mas ainda era melhor se algo assim nunca mais acontecesse.

“A pedra do altar quebrou durante a luta, e eu achei isso.” O explorador aproximou-se de seu companheiro assim que cuidou de seu oponente.

“O que é isso?” Zhang Heng olhou para a coisa peluda na mão de Bell. Parecia o rabo de algum animal. O estranho era que, se os aborígenes tivessem escondido essa coisa debaixo da pedra, ela não estaria em tão boas condições depois de tanto tempo.

Ele estava prestes a dizer a Bell para guardar, mas mudou de ideia no último minuto e perguntou ao explorador: “Posso ficar com isso?”

“Claro, você me salvou. Duas vezes agora.” Bell era um cara generoso.

“Obrigado. Essa coisa pode ser útil para mim.”

Zhang Heng mudou de ideia porque, quando pegou a coisa peluda, uma voz o notificou:

[Item de jogo encontrado — Pé de coelho (não identificado)]

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