Escravo das Sombras

Volume 12 - Capítulo 3120

Escravo das Sombras

Traduzido usando Inteligência Artificial



Do outro lado da ponte levadiça, uma multidão de pessoas — os últimos cidadãos a serem conduzidos para a fortaleza interna — aguardava sua vez de atravessar. Os idosos carregavam as menores crianças nos braços, enquanto as que já eram grandes o suficiente para ficar de pé abraçavam suas pernas, observando tudo ao redor com olhos curiosos. 

Aquelas crianças haviam crescido olhando para o magnífico palácio distante do Rei Pedreiro, mas poucas haviam entrado nele alguma vez. Os adultos estavam destruídos pelos horrores da guerra, mas as crianças eram muito mais resilientes — como mal se lembravam de qualquer outra realidade, aquele era simplesmente o mundo que conheciam.

Por isso, a luz em seus olhos ainda não havia se apagado, e elas estavam animadas para ver o castelo de perto.

Ao lado da ponte, um grupo de crianças cercava um babá bastante improvável, disputando sua atenção.

“Tio, tio! Conta pra gente sobre o navio vivo!”

“É verdade que você já lutou contra um deus?”

“Tio… qual é o gosto da poeira estelar? É doce?”

Andarilho da Noite deu uma risada, olhando ao redor com uma expressão desamparada.

“Por que vocês ficam me importunando? Eu deveria estar de vigia! Vão, xô. Procurem suas avós… e, só para constar, eu jamais poderia lutar contra um deus. Afinal, o Deus da Tempestade é minha avó. Como eu poderia desrespeitar meus mais velhos?”

Effie balançou a cabeça.

Andarilho da Noite havia sido responsável por uma tarefa importante antes — era o único capaz de romper o bloqueio, então frequentemente navegava para longe e retornava com suprimentos para alimentar o povo da cidade sitiada.

Mesmo com o porto naquele estado, coberto de destroços de navios e completamente impossível de navegar, ele ainda conseguia fazer isso. O problema era que todos os navios de sua frota haviam afundado, então não havia mais nada em que pudesse navegar. Agora que Andarilho da Noite estava preso em terra, tudo o que podia fazer era se juntar aos defensores da cidade sobre a muralha.

Sua força era extremamente valiosa ali, mas sem suas perigosas viagens, a cidade não tinha mais nenhuma fonte de alimento. Assim, as pessoas vinham morrendo lentamente de fome havia muito tempo.

Effie conhecia muito bem a fome, então sentia a dor delas.

Ao notar sua presença, Andarilho da Noite espantou as crianças sorridentes e levantou-se para cumprimentá-la.

“É uma bela manhã, não é?”

Effie ergueu os olhos.

O céu ainda estava escuro, apenas levemente tingido de lilás pálido no leste.

“Eu diria que ainda é o meio da noite.”

Ela lançou-lhe um olhar.

“Está pronto?”

Andarilho da Noite riu.

“Eu? Acho que sou eu quem deveria perguntar isso a você.”

Ele ficou em silêncio, e a diversão desapareceu de seu rosto. Alguns instantes depois, falou em voz baixa:

“Você ainda pode mudar de ideia, sabia? Não precisa fazer isso pessoalmente.”

Effie sorriu.

“Acho que já passou um pouco da hora para isso.”

Já não havia mais como voltar atrás. Na verdade, fazia tempo que não havia.

Ela deu uma risadinha.

“Ah, mas não me entenda mal. Eu trocaria de lugar com você sem pensar duas vezes. Infelizmente, não foi por você que Azarax desenvolveu essa obsessão nada saudável.”

Ela fez uma breve pausa.

“O que posso dizer? Acho que você não é charmoso o bastante.”

Andarilho da Noite a encarou, indignado.

“Do que você está falando? Meu charme nunca falhou. Aquele desgraçado só não teve a oportunidade de me conhecer, já que eu passava a maior parte do tempo procurando suprimentos. Caso contrário, ele nem olharia para você.”

Effie abriu um largo sorriso.

“O que você disser, vovô.”

A expressão de Andarilho da Noite era bastante divertida.

Ela voltou a olhar para a ponte e perguntou:

“Está tudo preparado?”

Ele hesitou por um instante e então assentiu.

“O castelo está seguro. Kai e Morgan também terminaram os preparativos na cidade. Seishan… bem, você sabe melhor do que eu. Quanto à Ceifadora de Almas, só saberemos quando tudo acabar.”

Effie suspirou.

“Então deixo os civis com você. Assim que a ponte for erguida… certifique-se de que a fortaleza permaneça segura.”

Andarilho da Noite permaneceu em silêncio por alguns instantes.

Por fim, assentiu.

“O castelo não cairá. Eu garanto.”

Effie também o deixou para trás.

Ela atravessou a multidão de civis e chegou às ruas vazias e desoladas da cidade. Como a maior parte dos habitantes já havia sido levada para a fortaleza, restavam apenas soldados ali, correndo de um lado para o outro enquanto concluíam os últimos preparativos antes de também recuarem para o interior da fortaleza.

Eles paravam e faziam profundas reverências ao vê-la, com uma emoção indescritível escondida no fundo de seus olhos encovados e assombrados. Suas expressões eram solenes, e tornavam-se ainda mais quando ela os cumprimentava com um sorriso despreocupado.

Em determinado momento, porém, seu sorriso vacilou.

‘O que é isso que eu estou vendo?’

Bem à sua frente… estavam Morgan e Seishan.

A Princesa de Valor e a Princesa de Song estavam sentadas no chão entre os escombros, tendo esquecido completamente qualquer senso de decoro.

Elas estavam… jogando cartas.

Effie piscou e esfregou os olhos, imaginando se estava vendo coisas. Mas não, seus olhos não a enganavam. Morgan e Seishan realmente estavam sentadas sobre os paralelepípedos empoeirados jogando cartas, conversando baixinho entre si.

Ela conseguiu ouvir trechos da conversa.

“Outro ás? Como isso é possível?”

“Isso se chama habilidade, Sua Alteza.”

“Não venha com ‘Sua Alteza’ para cima de mim, descarada. Você está roubando!”

“Como eu poderia estar roubando? Isso nem faz sentido.”

“O que não faz sentido é haver cinco ases em um baralho.”

“Ah, então você tem um par de ases? Hmm… que azar.”

“É claro que tenho. Ou será que eu só quero que você acredite que tenho?”

“Eu acreditarei em qualquer coisa que Sua Alteza disser. Jamais ousaria duvidar de sua honestidade.”

“Como você consegue ser tão irritante?”

“É uma habilidade adquirida com a prática.”

“Então pare de praticar comigo!”

Effie ficou olhando para as duas, boquiaberta.

“O que vocês estão fazendo, suas malucas?”

Morgan e Seishan olharam para ela. Morgan deu de ombros.

“Esperando por você, obviamente.”

Seishan assentiu.

“O quê? Esperava que fôssemos deixá-la completamente sozinha numa bela manhã como esta?”

Morgan lançou um último olhar para as cartas, fez uma careta e se levantou.

“Vamos. Nós a acompanharemos até o portão.”

Effie a encarou por um longo momento e então sorriu.

“É uma honra… Sua Alteza.”

O olho de Morgan estremeceu, e ela forçou um sorriso.

“Mas é claro. Tudo pela nossa estimada Regente do Leste.”

Seishan se levantou, espreguiçou-se e falou com sua voz rouca e sedutora.

“A propósito, sempre quis perguntar… no seu caso, não deveria ser Comissária do Leste? Faria mais sentido.”

Effie apenas a encarou, sem expressão.

“A peste apodreceu seu cérebro?”

Seishan deu de ombros.

“Alguém teria que abrir meu crânio para descobrir.”

Ao ouvir isso, Morgan pareceu se animar.

“Se quiser, isso pode ser providenciado. Eu me voluntario.”

Ignorando as duas, Effie passou por elas.

“Tudo bem, vamos. Eu agradeço. Meu Deus do céu, ainda está escuro lá fora! Uma jovem refinada como eu não deveria estar andando sozinha pelas ruas durante a noite… vai saber que coisas terríveis podem acontecer!”

Com quem fosse tolo o bastante para incomodá-la.

As três seguiram em direção ao portão da cidade, conversando de maneira leve e descontraída. O clima era tão despreocupado que parecia que não caminhavam entre ruínas queimadas, pisando sobre ossos enegrecidos e contornando cadáveres apodrecidos de vez em quando.

Era tão despreocupado, na verdade, que por um breve momento Effie se distraiu da verdade. Do fato de que, naquele dia, sua vida muito provavelmente chegaria ao fim.

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