
Capítulo 304
Casamento Predatório
Os Kurkans descendentes de felinos geralmente eram de baixa estatura. Mel reclamou por um bom tempo de suas desvantagens hereditárias.
“Tomara que o Haban esteja bem”, acrescentou em voz baixa. “Ele deve ser mais alto que eu agora…”
Por um instante, uma melancolia rara encheu seus olhos, mas ele continuou falando alegremente.
“Ele era um menino que morava na minha casa ao lado”, explicou a Isha. “Ele não era só muito gentil, era muito forte também. Quando voltarmos para casa, vou apresentá-lo a você.”
Uma tristeza persistente pairava em seus olhos, mas Mel sabia que não adiantava se afogar nela. Não importava a situação, ele sempre tentava ser feliz. Isha teve muitas ocasiões para rir por causa de Mel, e os outros Kurkans gravitavam em torno dele como se fosse um sol. Mel cuidava de todos eles como um irmão mais velho.
“Você tem que controlar o seu gênio”, repreendeu Mel a Isha um dia, depois que um dos domdores lhe dera uma surra particularmente violenta. Isso era engraçado porque Isha sempre ficava calado, não importava o que os domdores fizessem com ele. “Típico.”
Mel havia feito ataduras rasgando roupas velhas e as amarrou firmemente sobre os ferimentos de Isha.
“Tá doendo”, reclamou Isha, fazendo uma careta.
“Achei que ele tinha te tirado a língua também, mas olha você aí falando.”
“Eu aprendi tudo, só não quero ouvir aquele canalha.”
“Nossa…”
Embora Isha tivesse aprendido rapidamente a etiqueta exigida pelos domdores, ele sempre recebia surras severas por desobediência. Mel balançou a cabeça e mudou de assunto.
“Queria tanto ver o sol”, disse ele. “Estou preso nesse porão há tanto tempo.”
Quando viviam no deserto, parecia que a cada dia poderiam ser assados pelo sol, mas neste lugar só havia o brilho fraco das tochas. Mel sentia falta do sol escaldante.
“Quando voltarmos para casa, vamos ficar do lado de fora o dia inteiro”, disse ele enquanto terminava as ataduras de Isha.
“Você não vai durar dez minutos antes de correr para a sombra”, riu Isha, pensando naquelas areias quentes. As lembranças de sua terra natal haviam se esvaído de sua memória, como se fossem desbotadas.
Havia meses desde que ele chegara a este lugar. Agora, a única coisa que parecia real era aquela escuridão sombria, e andar naquela areia dourada e quente do sol e beber água fresca no oásis pareciam sonhos. Uma palavra veio a ele, a coisa que ele se lembrava mais claramente.
“…tamarindos”, murmurou ele, lembrando-se do sabor. “Quero comer tamarindos.”
Fazia tanto tempo que ele não comia nada doce. Mel se animou imediatamente.
“Tamarindos!”, exclamou. “Eu comeria uma árvore inteira deles.”
As outras crianças se aproximaram animadas.
“Eu também quero comer tamarindos!”
“São tão deliciosos…”
Mel sorriu.
“Quando voltarmos para casa, vamos comer até estourarmos de tanto comer”, garantiu a eles.
Havia silêncio. Então…
“Será que realmente vamos conseguir voltar?”, perguntou alguém, desanimado.
“Claro”, disse Mel instantaneamente. Ele encontrou os olhos de todos enquanto o olhavam. “Nós somos Kurkans. Nunca esqueçam disso. Eles não são donos de nossos espíritos.”
Isha não conseguia entender por que ele fazia isso. Como ele conseguia se doar tanto para os outros? Devia ser exaustivo. Quando os dois meninos ficaram sozinhos novamente, ele teve que perguntar.
“Por que você nunca desiste?”, perguntou ele, em voz baixa.
“Porque eu sou um Kurkan”, respondeu Mel, como se fosse óbvio. Isha o encarou, e Mel bagunçou o cabelo, envergonhado. “Tudo bem, vou responder sério. De certa forma… estou agindo como um líder.”
Ele disse isso com voz tímida e um sorriso sem jeito.
“Então, eu não posso mostrar fraqueza.”
Mas ao contrário de sua voz, havia determinação em seus olhos. E parecia mesmo que nada poderia quebrá-lo. Talvez ele fosse aquela flor rara que floresce no inferno.
Mas não importa o quão bela fosse a flor, o inferno ainda seria o inferno.