
Capítulo 303
Casamento Predatório
Negreiros criaram um centro de treinamento para escravizar crianças Kurkan que seriam vendidas à nobreza. Domadores de escravos ensinavam-lhes etiqueta à mesa, modos de falar, entre outras coisas.
Claro, eles não o faziam gentilmente. Era preciso alguém tão feroz quanto uma besta para domar um Kurkan, e castigos físicos eram muito comuns.
“Kurkans gostam disso”, disse um domador, batendo um chicote na palma da mão. “Não se preocupe. Você vai aprender rápido.”
O domador não poderia estar mais satisfeito com o progresso deles. As crianças Kurkan se amontoaram em um canto, tremendo de medo.
Lentamente, Isha deu um passo à frente e caiu de joelhos. O chicote o atingiu nas costas, e o sangue jorrou da pele rasgada.
Embora ele rangeu os dentes para permanecer em silêncio, um gemido finalmente escapou dele, mas o castigo não terminou mesmo quando ele começou a se encolher sob as chicotadas. Só terminou quando o domador aplicou o número prescrito de golpes, nem mais, nem menos.
Após o último, o domador o chutou, e Isha o olhou com uma expressão inexpressiva, seus olhos dourados brilhando ferozmente. O domador estalou a língua.
“Você vai ter que se comportar melhor se não quiser mais do mesmo amanhã”, disse ele, e se virou, batendo com força a porta de ferro atrás dele. As outras crianças Kurkan rapidamente se aproximaram de Isha.
“Você está bem?”
“Ele é louco…”
Mas elas se dispersaram quando a porta de ferro se abriu novamente para permitir a entrada de um domador diferente.
“Formem fila!”
Isha mancou até o final da fila enquanto o domador distribuía pequenos pães e garrafas de água. Para as crianças Kurkan famintas, parecia comida suficiente apenas para pássaros, mas as refeições eram sempre irregulares. Se elas recebessem comida demais, havia a chance de que se rebelassem.
O domador parou na frente de Isha, que estava silenciosamente suportando a agonia de suas costas dilaceradas.
“Você vai morrer de fome”, disse ele. Parecia que o domador que o chicoteara deixara ordens para que ele não fosse alimentado, para quebrar sua vontade. Tinha uma lógica. Mas o rosto de Isha permaneceu inalterado e o domador franziu a testa. “Maldito, se não fosse pelo seu preço, eu quebraria seu pescoço.”
Ele se virou para olhar para as outras crianças.
“Não deem comida para este!”, ordenou. “Quem der, vai para o buraco.”
Quando ele finalmente saiu, Isha desabou no chão, encostando as costas na parede de pedra fria para aliviar a dor. Enquanto tentava suportar, alguém se aproximou.
“……?”
A criança rasgou a metade do seu pão e ofereceu a Isha. Isha o encarou, sem entender.
“Coma”, disse o menino.
Naquele lugar, o pão era tão precioso quanto ouro. Isha não conseguia acreditar que a criança compartilharia algo tão valioso. Quando Isha permaneceu em silêncio, o menino falou novamente.
“Você precisa comer para seus ferimentos cicatrizarem.”
Isha aceitou o pão e o devorou, limpando as migalhas da boca e depois lambendo os dedos.
“Obrigado.”
Ele foi breve, mas não superficial, e os olhos do outro menino se arregalaram com seu tom gentil.
“Meu nome é Mel”, disse ele, estendendo a mão com um sorriso. “Qual o seu?”
“Isha”, respondeu ele, apertando a mão.
Dizia-se entre os Kurkan que até no inferno, flores desabrocham.
Não era mentira. Mesmo em um lugar de tamanha miséria, eles ainda conseguiam encontrar motivos para rir. Havia até momentos fugazes de felicidade.
Mel era falante e quase sempre estava com Ishakan.
“Você é tão bonito. Em qualquer lugar que você vá, você recebe elogios por isso”, reclamou ele, virando-se para medir sua altura contra a de Isha com a mão. “E você é alto também.”
Kurkans eram muito mais altos que humanos, mas seus corpos não amadureciam totalmente até a cerimônia de maioridade. Eles eram seres criados por magia, então não podiam crescer sozinhos. É claro, nenhum dos dois meninos havia tido sua cerimônia.
“Eu sou o menor Kurkan aqui”, disse Mel emburrado. “Deve ser porque eu sou de uma linhagem de gatos.”