Casamento Predatório

Capítulo 302

Casamento Predatório

Muitos Kurkans morriam depois de serem escravizados. A criança compartilharia do mesmo destino. Mais uma vez, o Rei abaixou o olhar e encontrou aqueles brilhantes olhos dourados.

Eles ainda brilhavam, cheios da ferocidade de bestas, e o Rei sentiu um arrepio na espinha, seguido rapidamente por um acesso de raiva. Como podia sentir medo de uma criança? Não conseguia entender, e isso o fazia querer torcer o pescoço do menino imediatamente.

Mas o Rei reprimiu essas emoções. Mostrar sua raiva era admitir sua fraqueza. A criança morreria de qualquer jeito. Ele nunca mais veria aqueles olhos dourados.

***

O nome da criança era Isha.

Ele nunca soube o rosto de seus pais. Nascera durante uma guerra civil em Kurkan, e seus pais foram arrastados para lutar contra os puristas, só para serem derrotados.

O preço da derrota era a morte.

Seus pais sacrificaram suas vidas para salvá-lo, e seu bebê de olhos dourados foi acolhido por outros Kurkans. Sua vida não foi fácil; ele era órfão, catando comida nos campos de batalha para sobreviver. Várias vezes escapou da perseguição de puristas fanáticos antes de ser finalmente capturado e vendido a um negreiro, como tantos outros mestiços.

Ele deveria morrer. Mas Isha sobreviveu, porque o negreiro não cumpriu sua promessa ao Rei de Kurkan.

Em vez disso, o negreiro matou outra criança Kurkan de tamanho similar, jogando-a para animais selvagens serem destroçados. Os restos dilacerados foram enviados ao Rei, como prova da morte de Isha.

“Finalmente tenho um sangue puro, não posso matá-lo.”

O negreiro o confundira com um Kurkan de sangue puro, e Isha não fez nenhuma tentativa de corrigi-lo. O homem provavelmente não acreditaria nele mesmo que tentasse explicar que era mestiço.

Foi uma noite cruel.

Isha ouviu os gritos da criança que morreu em seu lugar. Enquanto olhava para as incontáveis estrelas espalhadas pelo céu noturno, ainda podia sentir o cheiro do sangue daquela criança. A vida de Isha fora preservada pela morte dele.

“Que você descanse como a areia do deserto…” sussurrou ele, sentindo-se impotente.

E com aquela fraca oração fúnebre, Isha foi levado ao leilão.

Naquele lugar, tudo tinha um preço. Humanos e Kurkans eram vendidos juntos como se fossem gado, a preços que variavam de algumas moedas a joias preciosas. Nenhuma pessoa sã poderia jamais conceber a miséria daquele lugar.

Isha era considerado uma raridade ali. Todos os escravos Kurkans eram valiosos, mas sua aparência o tornava único.

“Qual a situação em Estia?”

“Boa. Fácil trazer produtos frescos, já que fica perto dos selvagens.”

Os negreiros conversavam entre si. Sentados com taças de vinho nas mãos e beliscando uma grande variedade de comida nos pratos diante deles. Um deles passou o dorso da mão pela boca, limpando um pouco de vinho enquanto olhava para Isha. De pé em um canto com os pulsos e tornozelos acorrentados, Isha virou lentamente a cabeça em direção ao negreiro. Os olhos do homem estavam cheios de interesse.

“É ele?”

“Sim”, disse o negreiro que o levara ao leilão. Seu rosto estava vermelho de embriaguez. “Ele é vicioso, não se aproxime dele.”

“Acho que não, ele parece tão calmo.”

“Não seja ridículo”, retrucou o negreiro. “Matei um mestiço para manter este vivo. Mas então…”

Ele parou e estalou a língua.

“Ele vai render um bom lucro, se for bem domado.”

Os outros negreiros riram quando ele se gabou de que Isha alcançaria o maior preço no leilão. Depois de mostrar Isha a eles, o negreiro chamou um dos servos de fora da sala.

“Leve-o embora e ensine-o a obedecer.”

“Sim, senhor.”

O servo o arrastou para longe, e toda a decoração ornamentada dos aposentos dos negreiros desapareceu. As paredes de pedra lisa ficaram ásperas. Em vez de tapetes elegantes, o chão estava repleto de cadáveres de ratos.

Ele foi levado a um porão na parte mais profunda da casa de leilões, onde os gritos de escravos que já haviam sido trazidos perfuravam seus ouvidos. O sorriso do servo era malicioso enquanto ele agarrava Isha pelo pescoço.

“Agora você vai aprender a obedecer”, disse ele, e Isha mostrou os dentes. Ele tinha a sensação de que iria viver um inferno.

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