
Capítulo 60
Casamento Predatório
“…hah.”
Uma risada seca escapou entre os dentes cerrados. Veias azuis saltaram no dorso de suas mãos. Blain vira a cena explícita acontecendo sob a mesa.
Seu sangue ferveu com a troca provocativa entre Leah e Ishakan. Furioso, Blain atirou com desprezo os talheres que havia pegado para o servo trêmulo, que esperava ansiosamente desde que o príncipe herdeiro se abaixara para pegar o pedaço de porcelana sozinho.
Era a primeira vez que ele via o real fazer aquilo, e a expressão no rosto de Blain depois foi assustadora.
Com postura nervosa e humilde, o servo imediatamente trouxe novos talheres. Blain, que os recebeu a contragosto, não conseguia esquecer a imagem que vira. Suas mãos agarravam a porcelana branca e fria com força. Um aperto tão intenso que, a qualquer momento, parecia que os talheres se quebrariam sob a pressão.
Ao contrário de Blain, que lutava para conter sua raiva, Ishakan levou lentamente a xícara aos lábios e sorriu de lado. Sua postura era tão relaxada que se podia facilmente dizer que ele estava à vontade no almoço.
A julgar por sua atitude, parecia que Ishakan havia agido de propósito para Blain ver.
No momento seguinte, Cerdina inclinou a cabeça e olhou para eles. Seu olhar se estreitou para o servo, uma expressão de insatisfação evidente em seu rosto. Suas sobrancelhas se franziram com desgosto — parecia que a rainha vira Blain pegando os talheres sozinho.
Para um príncipe agir de forma humilde diante do estimado convidado presente, Cerdina respirou fundo e lançou olhares fulminantes ao servo inocente e trêmulo, que tinha medo até mesmo de olhar diretamente em seus olhos.
Leah não encontrava seus sapatos, que haviam escorregado. Ela corou e escondeu os pés bem dentro do vestido, esperando que isso impedisse Ishakan de tocá-la provocativamente novamente.
Ishakan riu baixinho, um brilho de divertimento em seus olhos. Seu ronron baixo lhe fazia cócegas nos ouvidos e a fazia querer se esconder. Sentiu uma cutucada debaixo da mesa e rapidamente colocou os pés de volta nos delicados sapatos que Ishakan havia roubado.
Blain apertava a faca na mão, o aperto tenso dificultava o corte de sua refeição. O aromático cordeiro temperado com tomilho e lavanda defumada que havia sido servido permanecia intocado.
Ele parecia estar tentando se controlar de alguma forma. Mas no momento em que seus olhos encontraram os de Ishakan, que sorria despreocupadamente do outro lado da mesa circular, ele, finalmente, com um gesto brusco, deixou os talheres novamente.
O príncipe furioso, que até então ignorara Ishakan, falou com ele pela primeira vez.
“A comida está ao seu gosto?”
Divertimento brilhou no rosto de Ishakan. Ele parecia estar se divertindo, provocando Blain. Olhou para ele como se perguntasse se ele queria experimentar.
“Ouvi dizer que é difícil conseguir ingredientes no deserto de areia, mas estou preocupado que comida desconhecida não agrade ao seu paladar.”
Embora as palavras de Blain implicassem que a comida que Ishakan estava comendo era muito mais preciosa do que uma refeição normal, a expressão de Ishakan permaneceu a mesma: relaxada e despreocupada. Afinal, ele era um rei, não importava a raridade da comida, o que havia que ele não pudesse conseguir? Ishakan abriu brevemente a boca e arrastou as palavras.
“É isso que estou dizendo. Muito melhor do que eu esperava…”
Ele inclinou a cabeça, os olhos se voltando para Leah. De seus grandes olhos ametistas, ao seu pequeno nariz, lábios carnudos e queixo delicado, ele mapeou seu rosto em seus olhos. Viajando mais, ele chegou onde sua pele de porcelana encontrava o pescoço de seu vestido, que estava suavemente envolto em seus ombros, como um casulo de seda.
Seus olhos a devoraram, examinando cada curva suave e textura da beleza diante dele. Logo, ele alcançou um guardanapo, ricamente bordado com renda. A ponta de seus dedos envolveu-o leisurely enquanto o levava à boca.
“…muito melhor.”
Era estranho conhecer o afeto que ele conseguia expressar com o tom leve, agradável e calmo. Para alguém que era uma fera absoluta na cama e sabia como usar seu corpo masculino para fazer uma mulher se sentir bem, ele era surpreendentemente gentil. Com um carinho indescritível em seus olhos, ele sussurrou.
“Quero ficar em Estia por muito tempo.”
O ranger de dentes pôde ser ouvido do outro lado da mesa. Os olhos de Blain brilharam mortalmente pálidos. O sarcasmo nobre que pretendia humilhar Ishakan na sociedade estiana nem sequer havia deixado um pequeno arranhão. Diante de um homem que era a encarnação feroz de uma besta, palavras afiadas eram fracas; tudo era blá-blá-blá para ele.
Nesse ponto, até mesmo o rei estiano sem tato pareceu reconhecer que a situação havia tomado um rumo estranho. O rei olhou para Blaine e Ishakan perplexo.
No entanto, o rei havia saído há muito da mente dos dois homens. Blain, completamente tomado por sua raiva, esqueceu tudo o que lhe dizia para permanecer calado. A natureza delicada da situação política diante dele desapareceu com sua raiva, e ele abriu a boca, fúria em seus olhos.
“Ouvi dizer que o Rei de Kurkans ainda não se casou.”
Ele disse o que não deveria dizer. “Você vai saquear uma noiva em Estia?”
Surpresa, Leah agarrou seu braço, mas ele imediatamente afastou a mão dela.
“Blain.”
Sentindo a gravidade da situação, o rei estiano também o chamou pelo nome e o advertiu. Mas apesar dos avisos de sua família, Blain se recusou a ouvi-los e os ignorou.
“Pelo menos espero que o rei não faça isso.”
Blain terminou suas palavras torcendo a boca em um sorriso irônico.
“É considerado um ato bárbaro no continente.”