
Capítulo 61
Casamento Predatório
O clima do almoço ficou tenso como se alguém tivesse jogado um balde de água gelada na mesa, causando arrepios nos presentes. Embora o continente desprezasse os Kurkans, chamando-os de bárbaros, esse tipo de comentário só era feito pelas costas.
Ninguém jamais ousaria dizer isso na frente deles, muito menos para o próprio rei!
Cerdina encarou Blain, chocada com a franqueza dele na presença dos Kurkans, principalmente de Ishakan.
Na tensão glacial, olhos dourados e brilhantes colidiram com olhos azuis gélidos. Uma batalha interna se travava enquanto Blain lançava um olhar furioso para Ishakan. Um ódio implacável transparecia em seu olhar.
“Estou dizendo isso por preocupação.”
Ishakan, que nunca havia perdido uma luta na vida, não era do tipo a evitar a provocação de Blain. Em vez disso, riu do príncipe, que exibia suas garras e emanava hostilidade abertamente. Era um sorriso que parecia a provocação de uma criança brincalhona.
Ele inclinou levemente a cabeça para trás e arqueou as sobrancelhas.
Vendo seu olhar indolente, Blain cerrou a mandíbula, impedindo que uma série de palavras venenosas escapasse de sua boca. Ele absolutamente detestava o homem à sua frente.
“Estia não parece ter muita intenção de fazer amigos.” Leah olhou para Ishakan com olhos trêmulos, mas o olhar dele estava fixo em Blain, sem percebê-la. “Eu achei que vocês tinham o mesmo objetivo, mas agora, não tenho tanta certeza.”
O riso descontraído desapareceu. Com a boca fechada em uma linha reta, uma tempestade se formava em seus olhos dourados.
“O almoço de hoje é um interrogatório?”
“Não.” Foi Leah quem respondeu em nome da família Estian, quebrando o silêncio.
“Um mal-entendido, meu rei.”
“…”
Ishakan voltou o olhar lentamente. Ele observou Leah com uma expressão impassível.
Consciente da gravidade da situação, Leah rapidamente tentou consertar as coisas para Blain. “O príncipe deseja a paz com os Kurkans mais do que qualquer outra pessoa. Ele é quem está abolindo a escravidão de seu povo.”
Ela não sabia o que Blain ou Cerdina estavam pensando, mas estava desesperada para manter a paz em Estia.
Blain abriu a boca para dizer algo, mas parou quando sentiu Leah apertar seu antebraço. Felizmente, ele ficou calado novamente.
“No entanto, ele disse algo sem pensar, já que não é muito bom em expressar seus sentimentos.” Ela suspirou antes de continuar: “Posso pedir perdão em seu nome?”
Todos sabiam que tudo o que Leah dissera era pura bajulação, uma tentativa de apaziguar o rei Kurkan ofendido. A questão era se ele decidiria aceitar ou não o pedido de desculpas.
Logo, Ishakan, que estava olhando para Leah sem piscar, fez uma pergunta.
“…é trabalho do príncipe investigar a escravidão?”
“Sim.”
Ishakan soltou uma gargalhada, como se estivesse de bom humor. Ao contrário, Leah ficou em silêncio. Não havia como Blain se interessar pelos Kurkans ou pelo tráfico de escravos. Tudo era obra de Leah. Mas, como sempre, o que Leah conquistava se tornava mérito de Blain.
Esse arranjo havia se tornado tão natural que Leah se acostumara a ser roubada. Sua vida inteira não era dela.
Ishakan lançou um olhar para Leah e abaixou a voz suavemente.
“Esta é a segunda vez, princesa.”
Era uma resposta sem sentido. Mas apenas Leah entendeu.
“…Obrigada.”
Por causa de Leah, Ishakan se conteve novamente. Paciência não era uma virtude dos Kurkans, especialmente para alguém do status de Ishakan. Ela já não sabia como retribuir o fato dele controlar a própria fúria por ela, duas vezes.
O almoço continuou apesar da atmosfera desconfortável. A conversa formal foi interrompida, e ninguém mencionou a discussão acalorada que havia acontecido há alguns instantes. Os serviçais aguardavam cuidadosamente, sem ousar se mover para não cometer um erro e desobedecer. Eles estavam andando sobre ovos.
Leah cortou finamente o cordeiro aromático em pequenos pedaços. Era como se uma pedra estivesse presa em sua garganta. Ela não conseguia engolir; sentia dor até mesmo para fazer um esforço. Seu apetite havia desaparecido completamente, mas ela continuou enchendo a boca, mantendo-se ocupada.
De repente, uma voz suave falou.
“Leah.”
Seu corpo enrijeceu quando a rainha a chamou.
“Como está a comida hoje?” Cerdina sorriu brilhantemente ao dizer isso.
Em seguida, ela usou seu garfo de prata para pegar um pedaço de cordeiro com creme de leite e ervas, e o colocou na boca. Era um aviso da rainha.
Assim, Leah deixou os talheres enquanto observava Cerdina comer. Ela estava inconscientemente comendo demais, sua maneira de desviar sua atenção de Ishakan.
Seu coração havia se acalmado. Por vários dias, por causa de sua doença repentina, ela pôde comer à vontade sem a interferência de Cerdina. Claro, era ridiculamente pouco em comparação com uma refeição típica, mas estava muito além do padrão da rainha.
“A princesa não está comendo demais?”
Isso foi dito com a intenção de humilhá-la. Gulosa.
“Eu não acho que como muito”, respondeu Leah, abaixando a cabeça.
“Ah, a comida deve ser terrível.” No momento em que essas palavras saíram da boca de Ishakan, Cerdina soltou um suspiro irritado. O fato de a comida estar ruim era o mesmo que uma ofensa a ela.
Leah olhou para Cerdina nervosa. A expressão facial da rainha ficou azeda desde a discussão de Ishakan com seu amado filho.
“É porque o rei não gostou? Deveríamos ter preparado alguma comida Kurkan, mas eu queria mostrar a vocês a cultura de Estia, então…”
Ela sorriu, escovando o vestido de seda que brilhava ao sol. Ishakan ficou encantado, achou a atitude dela ridiculamente engraçada, que ela ousou roubar seu presente para Leah.
“Eu até pensei em usar roupas Kurkan. Ah, estou envergonhada.”
Não haveria uma terceira vez. Ishakan não tinha mais paciência. Sua grande mão de bronze pegou uma taça de vinho, o conteúdo rico e profundo formando um vermelho brilhante. Ele se levantou e, sem hesitação, jogou o conteúdo sobre a cabeça de Cerdina.
“Argh!”
Cerdina gritou. Seu rosto perfeitamente maquiado e seu cabelo impecável estavam encharcados de álcool. O vestido que ela usava também tinha uma grande mancha. As roupas preciosas que não podiam ser compradas nem com a riqueza de uma família nobre estavam arruinadas.
“Oh, meu Deus.”
Cerdina o olhou com fúria. O vinho escorria de seu cabelo e de seu queixo. Ela estava completamente encharcada.
Além disso, Ishakan ainda tinha a audácia de sorrir. Diversão e irritação dançavam em seus olhos dourados.
“Foi minha culpa, Vossa Alteza. Vou mandar um vestido novo para a senhora.”
Mas, ao contrário de sua boca sorridente, seus olhos estavam frios.
“Desta vez, em uma cor que combine com a rainha.”