Casamento Predatório

Capítulo 59

Casamento Predatório

A atmosfera delicada do almoço era uma fina camada de gelo, que poderia se quebrar a qualquer momento. Entre Leah, Ishakan e Cerdina, uma guerra silenciosa se travava. O desejo sutil de cada um em se promover ou proteger o outro era ocultado pelas suas fachadas.

Só o rei, alheio a tudo, explodiu em um largo sorriso e anunciou o início do almoço.

Um pequeno sino tilintou e um aperitivo foi servido na mesa cuidadosamente arrumada. O dia estava quente e o aroma das flores vindas do jardim era perfumado.

Os pratos preparados pelos cozinheiros do palácio eram tão impecáveis que mereciam admiração. Eles contrastavam com a tensão no ar, um equilíbrio precário, dançando à beira de um precipício, que poderia ruir a qualquer instante.

O rei e Cerdina lideravam a conversa no almoço. Ishakan não participava ativamente, mas respondia moderadamente ao que eles diziam.

“Parece que Estia e Kurkan estão envolvidos em uma guerra de desgaste inútil. Se tivéssemos a chance de conversar antes, paz seria o que teríamos agora.”

“É uma pena, de fato, nossas duas nações terem sacrificado tanto”, Cerdina soltou uma leve risada irônica, a apatia evidente em seu tom. Blain, que silenciosamente pousava o garfo depois de terminar sua comida, torceu a boca e riu.

O almoço prosseguiu com conversas animadas e, após o aperitivo, o prato principal foi servido. Leah, ao provar o primeiro prato – arenque grelhado com creme de leite fresco e levemente azedo – sentiu como se uma farpa estivesse alojada em sua garganta. Achou difícil e doloroso engolir, apesar da textura suave do creme.

Ela torcia para que Blain não se metesse com Ishakan, que estava se esforçando por ela, sem causar uma cena.

…?

Algo tocou seu pé. Inconscientemente, ela olhou para o lado e os olhos de Ishakan se curvaram em um leve sorriso. Seus olhos brilhantes e cintilantes estavam cheios de travessura; Leah só podia imaginar o que ele estava aprontando. Ela o cutucou de volta, seu pé encontrando seus sapatos.

Era um jardim externo, então a mesa do almoço era pequena. Com aproximadamente oito pessoas sentadas ao redor, a disposição das cadeiras era estratégica. Era uma estratégia da família real, para fins diplomáticos. As pessoas mais importantes estavam sentadas mais próximas; diminuindo a distância, a intimidade em seu relacionamento mútuo era enfatizada.

Considerando a estrutura física de Ishakan, ele era alto o suficiente para esticar as pernas até o lado oposto. Talvez ele tivesse batido na cadeira porque ela era um pouco pequena para ele.

Os olhos de Leah se arregalaram enquanto ela se perguntava se deveria pedir ao serviçal para trocar a cadeira. No entanto, seu rosto ficou quente ao pensar nas consequências. Para seu horror, chamar aquilo de erro naquele momento seria uma vergonha total. O movimento sob a mesa havia se tornado cada vez mais explícito.

Um toque suave empurrou os sapatos de Leah. Seus sapatos saíram, escapando das meias de seda que ela usava.

Os sapatos, que estavam pendurados pelo salto, escaparam dos pés de Leah e desapareceram em algum lugar. Ela tentou calçá-los novamente, esticando os pés apressadamente, mas apenas pisou nas folhas macias de grama.

Seu pé tropeçava na grama, procurando seus sapatos, quando de repente, um peso tocou levemente a ponta de seu pé. A ponta de um sapato sólido e bem feito tocou suavemente o pé de Leah. Ela podia sentir o couro bronzeado e fresco sob a seda que o separava de seu pé. Então, ele tocou levemente novamente no topo, para não machucá-la, mas o suficiente para deixar sujeira.

Leah puxou os pés para perto e olhou para baixo. Uma mancha preta se desenhava diante de seus olhos nas meias de seda branca. Leah abraçou os dedos dos pés, o calor subindo em suas bochechas. Olhando para Ishakan com as bochechas coradas e o pescoço quente, ela ficou levemente irritada com suas pequenas travessuras. Ele parecia encantado por poder zombar de Leah, e vê-la em apuros o fazia rir.

Novamente, ela remexeu os pés e implorou com os olhos, suplicando-lhe para não brincar com ela daquele jeito. No entanto, seu momento de alívio foi curto. Logo, uma sensação de cócegas surgiu de seu tornozelo. Um toque suave e delicado traçou seu osso, enquanto a ponta dura do sapato deslizava suavemente por sua panturrilha e voltava.

Uma estranha sensação de formigamento surgiu de seu baixo ventre. Sem nem perceber, suas coxas tremiam.

“Você está doente?”, Leah, que estava distraída com o que estava acontecendo debaixo da mesa, ficou surpresa. Ao lado dela, Blain estava franzindo as sobrancelhas.

“Você está doente? Não me faça perguntar duas vezes.” Blain sussurrou para ela baixinho, uma expressão de preocupação cruzou seu rosto.

Observando o quanto seu rosto havia ficado vermelho pelo calor, ele havia entendido errado que Leah estava doente. Foi porque ele se lembrou de como recentemente havia visto a cena dela vomitando sangue e desmaiando na frente dele.

Do outro lado, o rei e a rainha não demonstraram interesse na situação que estava acontecendo, pois estavam ocupados trocando olhares e palavras de afeição um com o outro.

Leah olhou para cima e para o lado, sentindo os olhares de Ishakan e Blain, e conseguiu lamber os lábios.

…Não.

Suas mãos tremiam, então ela agarrou os talheres com força. Ela queria alcançar debaixo da mesa e afastar as pernas dele, mas era de etiqueta manter ambas as mãos na mesa durante toda a refeição.

“Você parece doente”, afirmou Blain. Sua mão se estendeu para tocar sua bochecha.

Foi então que os sapatos que haviam estado desenhando círculos em seus tornozelos se enterraram em sua saia e subiram por suas panturrilhas. A mudança imediata de posição e a ponta fria contra suas panturrilhas lisas a fizeram prender a respiração e enrijecer.

Blain estreitou os olhos. Lentamente afastando as mãos, ele pegou alguns talheres que estavam à sua frente e os deixou cair no chão. Os servos no fundo correram e tentaram pegá-los, mas ele fez um gesto com a mão, acenando brevemente e se abaixando pessoalmente.

Sua ação de pegar os talheres foi lenta, no entanto, quando ele endireitou as costas novamente, segurando os talheres, o rosto de Blain estava horrivelmente distorcido.

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