Sword Art Online

Volume 4 - Capítulo 14

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Está tudo bem agora, pensei.

Se este fosse para ser o meu último momento, eu de bom grado me consumiria até o nada sem um único arrependimento. Minha vida estava destinada a terminar com aquele mundo. Eu a mantive apenas para poder alcançar este instante e me sentir completo…

Não, isso não está certo. É aqui que começa. Agora, o mundo de espadas e batalhas finalmente acabou, e podemos começar uma jornada juntos em um novo mundo — a realidade.

Eu levantei minha cabeça.

— Vamos. Vamos voltar para o mundo real.

Após nosso abraço, Asuna e eu ainda estávamos de mãos dadas, e Yui se agarrava ao outro braço de Asuna. Olhei para ela.

— Yui, você consegue deslogar a Asuna daqui?

Ela semicerrou os olhos e franziu a testa por um momento, depois balançou a cabeça.

— O status atual da mamãe está preso por um código bem complicado. Vou precisar de um console do sistema para desfazê-lo.

— Um console — repeti, duvidoso.

A voz de Asuna estava tensa. — Tenho quase certeza de que vi algo assim no andar de baixo do laboratório. Ah, o laboratório é o—

— O corredor branco e vazio?

— Sim. Você veio por lá?

— Sim — assenti. Asuna pareceu pensativa.

— Havia alguma coisa… estranha?

— Não, não vi nada no caminho…

— Bem… pode haver alguns capangas do Sugou à espreita. Só espero que sua espada funcione com eles!

— Espere — Sugou?! — O choque, e depois a compreensão, me inundaram. — Isso é… obra do Sugou? Ele te trancou aqui?

— Sim, mas não é só isso. Ele está fazendo coisas terríveis aqui…

O rosto de Asuna estava sombrio, com uma raiva profunda, mas ela balançou a cabeça e parou por aí.

— Eu te conto o resto quando voltarmos à realidade. Pelo que entendi, Sugou não está no escritório agora. Temos que aproveitar esta oportunidade para invadir o servidor e libertar todo mundo… Vamos.

Eu tinha muitas perguntas a fazer, mas trazer Asuna de volta era prioridade sobre qualquer outra coisa. Assenti e me virei.

Asuna pegou Yui no colo e eu segurei sua mão, correndo de volta para o batente da porta destruída. Depois de alguns passos, eu estava me curvando para passar pelo batente, e foi quando aconteceu.

Alguém estava observando.

Senti um formigamento desagradável na nuca. Era a mesma sensação que eu tinha em SAO quando era alvo, não de um monstro, mas de outro jogador com o cursor laranja de um assassino.

Instantaneamente, soltei a mão de Asuna e coloquei a minha na espada. Assim que estava puxando o punho, a gaiola foi encharcada por um líquido. Então, com um som profundo de respingo, uma substância escura e pegajosa nos cobriu completamente.

Mas não era bem isso; eu conseguia respirar, mas o ato era trabalhoso. Quando tentei me mover, havia uma pressão incrível, como estar preso em um fluido espesso e viscoso. Meu corpo estava esmagadoramente pesado. Era uma agonia apenas para ficar de pé.

Ao mesmo tempo, a cor estava se esvaindo do mundo. O vermelho profundo do pôr do sol que preenchia a gaiola estava se transformando em escuridão diante dos meus olhos.

— O-o que é isso? — gritou Asuna. Sua voz estava distorcida, como se comprimida por uma incrível pressão da água.

Profundamente perturbado por este fenômeno, tentei me virar e segurar Asuna e Yui em segurança ao meu lado — mas meu corpo não cooperava. A pura aderência do ar se agarrava a mim como se por sua própria vontade maligna.

Com o tempo, o mundo inteiro ficou na escuridão total. Mas… isso também não era inteiramente verdade. Eu podia ver claramente os vestidos brancos de Asuna e Yui. Era como se todas as outras superfícies do mundo tivessem sido pintadas de um preto perfeito.

Trinquei os dentes e me concentrei em mover minha mão direita. As barras da gaiola estavam bem ao meu lado. Tentei agarrar uma e me livrar do espaço imobilizador, mas minha mão estendida não tocou em nada.

Não era apenas uma ilusão. Tínhamos sido mergulhados em um mundo desconhecido de escuridão.

— Yui—

Eu ia pedir uma explicação, mas ela de repente se contorceu de dor nos braços de Asuna e gritou.

Aaah! Papai, mamãe… Cuidado! Algo… ruim está—

Mas antes que ela pudesse terminar, uma luz roxa percorreu seu pequeno corpo. Ela brilhou intensamente — e então os braços de Asuna estavam vazios.

— Yui?! — Asuna e eu gritamos juntos. Mas não houve resposta.

Apenas nós dois restamos na escuridão espessa e lamacenta. Estendi a mão desesperadamente, tentando puxar Asuna para o meu lado. Ela fez o mesmo, seus olhos arregalados de medo.

Mas antes que nossos dedos pudessem se tocar, fomos assaltados por uma gravidade tremenda.

Era como se eu tivesse sido jogado no fundo de um pântano muito, muito fundo. Caí de joelhos, incapaz de suportar a pressão. Asuna desabou também, com ambas as mãos no chão invisível.

Ela olhou nos meus olhos e murmurou: — Kiri…to…

Eu queria dizer a ela que estava tudo bem, que eu a manteria segura não importava o quê. Mas antes que eu pudesse, uma voz aguda e pegajosa ecoou triunfantemente pela escuridão.

— E então, estão gostando do meu novo feitiço? Está planejado para a próxima atualização, mas estou me perguntando se não seria um pouco forte demais?

A voz estava distorcida por uma alegria descontrolada, mas eu a reconheci. Era a voz que havia me ridicularizado como um "herói" diante da forma comatosa de Asuna.

— Sugou! — rosnei, lutando para me levantar.

— Tsc, tsc! Sem usar esse nome aqui, por favor. Não é apropriado se dirigir ao seu rei pelo nome. Você se dirigirá a mim como Vossa Majestade, Rei Oberon das Fadas!

Sua voz subiu ainda mais para um guincho no final, e algo atingiu minha cabeça com força. Estiquei o pescoço para ver um homem parado bem ao meu lado. Uma perna em meias brancas terminava em uma bota extravagantemente bordada que pressionava minha cabeça, rolando para a esquerda e para a direita.

Mais acima, vi um corpo coberto por uma toga em um tom venenoso de verde e, sobre ele, um rosto tão perfeito que parecia falso. Mas é claro que era falso; era um semblante belo criado do zero, tão desprovido de vida real que era hediondo. Os lábios carmesins estavam torcidos em um familiar sorriso de escárnio.

Apesar da forma diferente, eu nunca confundiria este homem com ninguém além de Sugou. O homem que fora o alvo de todo o meu ódio, aquele que roubou a alma de Asuna e a trancou neste lugar…

— Oberon — não, Sugou! — gritou Asuna. Ela estava apoiada no chão, mal conseguindo levantar a cabeça. — Eu vi o que você está fazendo aqui! Os crimes que está cometendo… Você não vai se safar deles, pode ter certeza disso!

— Ah, é? E quem vai me impedir? Você? Ele? Deus, talvez? Desculpe, querida, só há um Deus neste mundo: Eu!

Ele riu hediondamente e aplicou mais pressão na minha cabeça. Incapaz de suportar o peso extra, caí no chão.

— Pare com isso, seu covarde!!

Sugou se inclinou, ignorando o insulto de Asuna, e puxou minha espada da bainha. Ele estendeu a ponta do dedo e fez a lâmina girar sobre ele, perfeitamente vertical.

— Devo dizer, Kirigaya — ah, perdão, devo chamá-lo de Kirito? Eu realmente não esperava que você viesse até aqui. Não sei se isso faz de você corajoso ou um idiota. Dada a sua situação miserável atual, eu arriscaria dizer que é o segundo. Heh! Ouvi dizer que meu passarinho havia escapado da gaiola, então corri de volta para dar a ela uma disciplina muito necessária, apenas para descobrir que — surpresa! Uma barata havia se esgueirado para dentro da gaiola! Junto com algum outro pequeno e estranho pedaço de código…

Sugou parou de falar e passou a mão esquerda para abrir o menu. Ele olhou para a tela azul com uma carranca nos lábios por um instante, depois bufou e fechou a janela.

— …Deve ter escapado. O que era aquilo? Como você chegou aqui, afinal?

Fiquei brevemente aliviado por Yui não ter sido totalmente deletada, pelo menos.

— Eu voei até aqui. Eu tenho asas.

— Hmph, tanto faz. Eu posso simplesmente obter a resposta direto do seu cérebro.

— …O quê?

— Você não achou que eu criei todo esse esquema por diversão, achou? — Sugou balançou a espada levemente na ponta do dedo, sorrindo venenosamente. — Com a generosa ajuda dos ex-jogadores de SAO, minha pesquisa sobre os fundamentos da manipulação de pensamentos e memórias está quase oitenta por cento completa. Em muito pouco tempo, alcançarei um feito sem precedentes e divino: controle absoluto sobre a alma humana! E ainda por cima, tenho um novo cobaia para brincar. Que divertido! Mal posso esperar para vasculhar suas memórias e reescrever suas emoções! Estou arrepiado só de pensar nisso!

— Você… não pode fazer uma coisa dessas…

Suas alegações eram tão absurdas que mal consegui processá-las. Sugou colocou o pé de volta na minha cabeça e bateu o dedo do pé para cima e para baixo.

— Você não aprendeu sua lição — você está conectado com o NerveGear de novo, não está? O que o torna não menos indefeso do que qualquer um dos meus cobaias. As crianças são tão estúpidas. Até um cachorro sabe que cometeu um erro quando leva um chute.

— Não… não, você não pode fazer isso, Sugou! — gritou Asuna, com o rosto pálido. — Não se atreva a machucá-lo!

— Passarinho, está próximo o dia em que poderei transformar seu ódio em subserviência com o apertar de um botão — respondeu Sugou, intoxicado com seu próprio poder. Ele agarrou minha espada e pomposamente passou os dedos pela lâmina.

— Mas! Antes que eu recrie suas almas ao meu gosto, vamos fazer uma pequena festa! Finalmente… o momento que eu estava esperando — o convidado perfeito chegou. Realmente valeu a pena testar os limites da minha paciência!

Ele se virou e abriu os braços. — Estou gravando tudo o que acontece neste espaço para a posteridade! Certifiquem-se de sair bem na câmera!

— . . .

Asuna mordeu o lábio, olhou-me diretamente nos olhos e disse: — Deslogue imediatamente, Kirito. Você tem que expor a conspiração dele no mundo real. Eu ficarei bem.

— Asuna!

Por um momento, fui partido em dois pela indecisão. Mas tão rapidamente quanto, concordei e acenei com a mão esquerda. Com tanta informação, eu poderia ser capaz de mobilizar uma equipe de resgate, mesmo sem provas físicas. Se eles pudessem apreender o servidor de ALO dentro da RCT Progress, tudo ficaria claro.

Mas minha janela não apareceu.

— Ah-ha-ha-ha! — Sugou se curvou com a força de sua risada. — Eu te disse, este é o meu mundo! Ninguém pode escapar dele!!

Ele andou por aí, soluçando de rir, e então de repente levantou a mão esquerda. Com um estalar de dedos, duas correntes tilintantes caíram da escuridão infinita acima.

Um anel largo de ouro brilhava opacamente na ponta de cada corrente. Sugou pegou um deles e o prendeu no pulso de Asuna com um clique. Ele deu um pequeno puxão na corrente, que se estendia para a escuridão.

— Aaah!

A corrente começou a se retrair, e Asuna foi erguida pela mão direita. Parou no ponto exato em que as pontas de seus pés mal tocavam o chão.

— O que você pensa que está fazendo? — exigi, mas Sugou me ignorou e pegou o outro anel, cantarolando para si mesmo.

— Tenho muitos adereços arranjados para você. Isso servirá por enquanto, contudo — disse ele, prendendo o outro anel no pulso esquerdo de Asuna. A segunda corrente chacoalhou para cima, e Asuna ficou pendurada no ar pelos braços. A poderosa gravidade ainda estava em efeito, e suas delicadas sobrancelhas estavam contorcidas de dor.

Sugou cruzou os braços em apreciação e assobiou grosseiramente.

— Legal. Você não consegue expressões assim com as mulheres NPCs.

— …!

Asuna o fuzilou com o olhar, depois fechou os olhos contra a dor. Ele riu e caminhou lentamente por trás dela. Ele agarrou um punhado de seu longo cabelo e o levou ao nariz, respirando fundo.

— Mmm, que cheiro adorável. Foi bem difícil recriar o cheiro da verdadeira Asuna no jogo — tive que esconder um analisador de odores em seu quarto de doente. Parece-me que você deveria apreciar esse tipo de atenção aos detalhes.

— Pare com isso, Sugou!

Uma raiva incontrolável surgiu em mim. Chamas vermelhas percorreram meus nervos e, por um momento, consegui quebrar o peso que me prendia.

— Gr… uh…

Me levantei do chão com a mão direita. Assim que me coloquei de joelhos, concentrei toda a minha força para tentar ficar de pé.

Sugou colocou a mão na cintura e balançou a cabeça teatralmente. Ele caminhou até mim, com a boca torcida.

— Santo Deus. A plateia não deveria fazer parte do show… De volta a rastejar!

Ele chutou minhas pernas por baixo de mim, e eu caí no chão.

Gaah!

Todo o ar saiu dos meus pulmões. Levantei-me do chão e ergui a cabeça para ver Sugou, os cantos de sua boca para cima em um sorriso venenoso, brandindo minha espada sobre mim com toda a sua força.

Gakh!

A sensação do metal grosso perfurando meu corpo cortou as chamas que haviam queimado todos os meus nervos. A lâmina saiu do meu peito e se cravou profundamente no chão. Não havia dor, mas fui assaltado por uma sensação extremamente áspera e desagradável.

— K-Kirito!! — gritou Asuna. Olhei para ela, tentando dizer que estava bem. Mas antes que eu pudesse falar, Sugou inclinou a cabeça para o céu e gritou.

— Comando do sistema! Ajustar absorvedor de dor para o nível oito!

De repente, senti dor nas costas — dor real — como se tivesse sido perfurado por uma broca afiada.

— Ngk… ahg…

Sugou sorriu com deleite ao meu sofrimento óbvio. — Heh-heh. Ah, isso é só o aperitivo, meu amigo. Vou aumentar em etapas à medida que avançamos. Se eu ajustar o nível de absorção para três ou menos, você permanecerá em estado de choque mesmo depois de deslogar.

Ele bateu palmas com satisfação e se virou para Asuna.

— S-solte o Kirito agora mesmo, Sugou! — ela gritou, mas ele não mostrou sinais de obedecer.

— São pirralhos como ele que eu mais odeio. Sem habilidades, sem poder por trás dele, mas ele com certeza sabe como abrir a boca, o pequeno verme. Bem, sabemos o que acontece com insetos — eles são pregados em caixas de exibição. Além disso, você está realmente em posição de se preocupar com ele, passarinho?

Ele estendeu a mão e traçou a bochecha de Asuna por trás. Ela virou a cabeça, tentando se libertar, mas a poderosa gravidade a impedia de se mover.

As pontas dos dedos dele percorreram todo o rosto de Asuna antes de deslizar pelo pescoço dela. Suas feições estavam contorcidas de nojo.

— Pare com isso… Sugou! — gritei, tentando desesperadamente me levantar de novo. Asuna conseguiu um sorriso corajoso e trêmulo.

— Está tudo bem, Kirito. Não vou deixar que isso me machuque.

Sugou imediatamente gargalhou em sua voz aguda. — É isso que eu gosto de ouvir. Por quanto tempo você conseguirá manter esse orgulho — trinta segundos? Uma hora? Um dia inteiro? Faça o seu melhor para prolongar meu prazer, querida!

Enquanto falava, ele agarrou a fita vermelha que adornava o colarinho do vestido de Asuna e a arrancou do tecido. O tecido vermelho voou silenciosamente pelo ar como sangue, caindo em uma pilha flácida ao meu lado.

Pele branca e pura apareceu pelo rasgo largo no corpete do vestido. Asuna fez uma careta de vergonha, os cantos de seus olhos firmemente fechados se contraindo.

Sugou inclinou a cabeça em apreciação, sorrindo enquanto acariciava sua pele. Seus lábios se abriram em um amplo crescente, e uma língua vermelha e vívida se estendeu. Eu podia praticamente ouvir o som pegajoso enquanto ele lambia sua bochecha.

— Heh-heh! Quer saber no que estou pensando agora? — ele sussurrou loucamente em seu ouvido, a língua ainda estendida. — Assim que eu me divertir com você aqui, visitarei seu quarto de hospital. Posso trancar a porta, desligar as câmeras, e será nosso pequeno paraíso, só você e eu. Vou montar um belo monitor grande, reproduzir a filmagem da gravação de hoje e aproveitar tudo de novo com seu corpo real. Primeiro, roubo a pureza do seu coração — e depois, arruíno a castidade do seu corpo! Que fascinante! Que forma única de entretenimento, não acha?

Sua gargalhada em falsete borbulhou, encheu a escuridão e se extinguiu.

Os olhos de Asuna se arregalaram por um momento, mas ela corajosamente cerrou os lábios. O medo imparável se transformou em duas gotas claras que permaneceram em seus cílios. Sugou estalou a língua para prová-las.

— Ahh… doce, tão doce! Continue, me dê mais lágrimas!

Uma raiva branca e ofuscante queimou meu cérebro. Tudo o que eu via eram faíscas.

— Sugou… seu filho da puta!! — gritei, arranhando o chão freneticamente na tentativa de me levantar. Mas a espada que me atravessava não se movia. Eu podia sentir lágrimas se formando em meus próprios olhos agora. Rastejei como um inseto miserável, me contorcendo e urrando.

— Maldito seja… Eu vou te matar! Eu juro! Você vai morrer pela minha mão!!

Mas meus gritos foram quase abafados pelo som da risada louca de Sugou.

Se você pudesse me dar força agora…

Rezei fervorosamente, tentando me mover nem que fosse uma fração de centímetro para a frente, puxando-me contra o chão com as pontas dos dedos.

Se você me der forças para me levantar, abrirei mão de qualquer coisa. Minha vida, minha alma, qualquer coisa que você queira. Eu prometerei tudo ao diabo ou a um demônio se isso me ajudar a derrubá-lo e devolver Asuna para onde ela pertence.

Sugou estava passando as mãos pelos braços e pernas de Asuna. Cada movimento de sua mão devia enviar sinais eletrônicos de nojo para seus centros sensoriais, pois Asuna mordia o lábio com força suficiente para tirar sangue enquanto suportava a profanação.

Embora a imagem entrasse em meus olhos, tudo o que meu cérebro via era um branco puro e ardente. As chamas da raiva e do desespero me consumiam. Meus neurônios estavam se transformando em cinzas. Uma vez que eu me transformasse em um amontoado de matéria seca e branca como osso, eu não pensaria mais em nada. Não precisaria.

Eu achava que podia fazer qualquer coisa com uma única espada ao meu lado. Eu era o herói que estava no auge de dez mil. O herói que derrotou o feiticeiro do mal e salvou o mundo.

Era um mundo virtual, apenas um jogo, desenvolvido por uma empresa com base em princípios de marketing básicos, e eu tinha imaginado que era real. Que a força que encontrei no jogo era força real. Eu fiquei desapontado com a fraqueza do meu corpo real quando fui libertado — exilado, mais precisamente — do mundo de SAO? Uma parte de mim desejava poder voltar para lá, onde eu poderia ser o maior herói que o mundo já conheceu?

Não é de admirar que, quando soube que a mente de Asuna estava presa em um novo mundo de jogo, presumi que poderia resolver tudo sozinho, em vez de deixar que aqueles com poder verdadeiro, os adultos do mundo real, resolvessem. Devo ter ficado muito feliz em recuperar meu poder imaginário, esmagando outros jogadores e satisfazendo meu feio orgulho e autoestima.

Nesse caso, esta era a minha justa punição. Isso mesmo — eu era uma criança, brincando com o poder que outra pessoa me deu. Eu não conseguia nem superar o simples sistema de ID que concedia a uma pessoa privilégios de administrador do sistema. A única coisa em que eu era bom em ganhar para mim mesmo era o arrependimento. Se eu não conseguisse lidar com isso, minha única fuga era me retirar completamente da minha mente.

— Você vai simplesmente fugir?

Não, estou apenas encarando a realidade.

— Desistindo? Para o poder do sistema que você uma vez negou?

Não posso evitar. Ele é o mestre do jogo, eu sou apenas um jogador.

— Você mancha a memória daquele duelo com essas palavras. Você me mostrou que a vontade humana poderia superar um sistema de computador. Você me ajudou a perceber as possibilidades futuras que nossa batalha poderia trazer.

Batalha? Não tem sentido. Um bando de números subindo e descendo.

— Você sabe que isso não é verdade. Agora, levante-se. Pegue sua espada.

— Levante-se, Kirito!!

Foi como um raio rasgando minha mente, a voz o trovão resultante. Todos os meus sentidos errantes se conectaram em um único momento. Meus olhos se abriram bruscamente.

— Ugh… ah… — não consegui produzir nada além de grunhidos secos. — Urh… rrgh…

Eu rangei os dentes e gemi como um animal perto da morte, mas apoiei uma mão no chão e me ergui sobre um cotovelo. Tentar levantar meu corpo apenas enterrava a espada pesada mais fundo na base das minhas costas.

Eu não podia simplesmente ficar ali e rastejar miseravelmente com essa coisa me prendendo. Eu não me deixaria ser esmagado por um ataque tão sem alma. Cada uma das inúmeras lâminas que sofri em SAO era mais pesada do que esta. Mais dolorosa.

— Gr… raaah!! — uivei brevemente, usando cada grama da minha força e força de vontade para me levantar. A ponta da espada saiu do chão e finalmente caiu das minhas costas, tilintando ao meu lado.

Sugou observou minha ascensão instável com a boca aberta. Ele tirou as mãos de Asuna e me encarou, depois encolheu os ombros teatralmente.

— Oh, céus. Eu fixei as coordenadas daquele objeto permanentemente, mas ele ainda assim se soltou. Deve haver alguns bugs restantes no sistema. Aqueles programadores inúteis e incompetentes — ele murmurou, caminhando e puxando o punho para trás para me socar.

Minha mão disparou e pegou a dele no ar.

— Oh…? — Ele me olhou com suspeita novamente. Eu abri minha boca e falei uma série de comandos que estavam adormecidos em minha mente por meses.

— Login de sistema. ID 'Heathcliff'. Senha…

Depois disso veio uma complexa variedade de letras e números. Assim que terminou, a gravidade esmagadora que me puxava para baixo finalmente desapareceu.

— O-o quê? Que ID era esse?! — gritou Sugou, com os dentes à mostra. Ele arrancou o punho de mim, saltando para trás e balançando a mão esquerda para baixo para abrir a janela azul do sistema. Mas antes que seus dedos pudessem operar os botões, eu inseri outro comando de voz.

— Comando do sistema, ajustar privilégios de supervisor. Definir ID 'Oberon' para o nível um.

A janela de Sugou desapareceu abruptamente. Ele olhou para frente e para trás, do espaço vazio entre suas mãos para o meu rosto várias vezes, depois passou a mão novamente, irritado.

Nada aconteceu. O pergaminho mágico que concedia a Sugou seus poderes de rei das fadas havia sido levado embora.

— Um… um ID com uma autorização maior que a minha…? Isso é impossível… Não pode ser… Eu sou o governante, o criador… Eu sou o imperador deste mundo… Deus… — ele balbuciou, sua voz tão aguda que parecia estar tocando em velocidade dupla. Suas belas feições estavam torcidas e hediondas.

— Você sabe que isso não é verdade. Você o roubou. Você roubou este mundo inteiro e as pessoas que restaram nele. Você não é nada além do rei dos ladrões, dançando sozinho no trono que roubou de outra pessoa.

— Por que… seu pirralho… Como ousa falar comigo desse jeito? Você vai se arrepender deste insulto… Vou arrancar sua cabeça e pendurá-la como decoração!

Ele apontou um dedo em forma de garra torcida para mim e gritou: — Comando do sistema! Gerar objeto ID 'Excalibur'!!

Mas o sistema não mais atendia à voz de Sugou.

— Comando do sistema!! Obedeça-me, seu monte de sucata miserável! Seu… seu deus te ordena!!

Desviei o olhar do Sugou choramingante para olhar para Asuna. O vestido não era nada mais do que farrapos pendurados frouxamente em seu corpo agora. Seu cabelo estava despenteado, e rastros de lágrimas brilhavam em suas bochechas. Mas aqueles olhos não haviam perdido o brilho. Sua alma resistente não havia sido quebrada.

Vou acabar com isso logo. Apenas me dê um pouco de tempo, eu disse a ela silenciosamente enquanto olhava em seus olhos cor de avelã. Asuna retornou meu sinal com um leve aceno de cabeça.

A visão da angústia de Asuna acendeu novamente as chamas da raiva dentro de mim. Olhei para cima e disse: — Comando do sistema. Gerar objeto ID 'Excalibur'.

O espaço na minha frente se distorceu, pequenas sequências de números rolando para formar uma espada. Cor e textura fluíram para cima através dela a partir da ponta. Era uma espada longa lindamente detalhada, com uma lâmina de ouro deslumbrante. Eu a reconheci como a espada selada na ponta mais baixa da masmorra no centro de Jotunheim. Havia algo profundamente desagradável em produzir a maior espada do jogo — o material dos sonhos de inúmeros jogadores — com um simples comando falado.

Agarrei o punho da espada e a joguei no Sugou chocado. Assim que ele a pegou desajeitadamente, bati com o pé com força no pomo da minha própria espada; ela tilintou alto e girou no ar. Passei minha mão horizontalmente enquanto a espada caía de volta para a terra, e a peguei perfeitamente.

Com a ponta da minha enorme lâmina escura apontada diretamente para Sugou, eu lancei meu desafio.

— É hora de acertar as contas entre o rei dos ladrões e o assim chamado herói… Comando do sistema, absorvedor de dor para o nível zero.

— O… o quê…?

Esse comando havia elevado a sensação de dor virtual a uma quantidade infinita. O pânico brilhou no rosto do rei das fadas, apesar de sua espada dourada. Ele hesitou um passo, depois outro.

— Não amarele. Ele nunca recuou de nenhuma situação — Akihiko Kayaba.

— K…Kaya… — Ele empalideceu quando ouviu aquele nome. — Kayaba… Heathcliff. Então era você. Você veio para arruinar tudo de novo!

Sugou brandiu sua espada no ar e gritou com uma voz como metal rasgando.

— Você está morto! Você bateu as botas! Como ainda está interferindo na minha vida depois da morte? Você sempre fez isso… sempre! Com um ar presunçoso e sereno, como se entendesse tudo… roubando tudo o que eu sempre quis debaixo do meu nariz!

Ele apontou a ponta de sua espada para mim e continuou. — Seu pequeno cretino… o que você entenderia?! Você tem alguma ideia do que era trabalhar sob o comando dele, competir e ser comparado a ele a cada passo?!

— Eu tenho. Eu perdi para ele em uma luta e tive que ser seu servo — mas nunca quis ser ele. Não sou como você.

— Seu pirralho… seu pirralho… seu pirralho insolente!! — ele gritou, saltando em minha direção com a espada em punho. Assim que ele entrou no meu alcance, eu estiquei minha espada. A ponta roçou a bochecha elegante do rei das fadas.

— Agh! — ele gritou, segurando o rosto e saltando para trás. — Aah… aaaah!

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