Sword Art Online

Volume 3 - Capítulo 4

Sword Art Online

“...Kazuto Kirigaya. Prazer em conhecê-lo.”

Olhei para Shouzou enquanto apertava a mão de Sugou. Ele inclinou a cabeça ligeiramente enquanto acariciava o queixo.

“Opa, desculpe por isso. Eu sei, as coisas que aconteceram nos servidores de SAO são todas confidenciais. Mas foi uma história tão dramática que é difícil não falar sobre ela. Ele é filho de um grande amigo meu. Nossas famílias são próximas há anos.”

“Sobre isso, senhor.” Sugou virou-se para Shouzou, soltando minha mão. “Eu esperava que pudéssemos oficializar tudo até o final do próximo mês.”

“Entendo... e você tem certeza disso? Você ainda é tão jovem; há muito tempo para começar uma nova vida.”

“Meu coração está decidido sobre isso há anos. Eu gostaria de poder colocar Asuna naquele vestido... enquanto ela ainda é tão bonita.”

“...De fato. Talvez seja hora de tomar uma decisão difícil.”

Ouvi a conversa deles, sem saber do que estavam discutindo. Shouzou olhou de volta para mim.

“Bem, está na hora de eu ir. Vejo você mais tarde, Kirigaya.”

Com um aceno rápido, Shouzou Yuuki virou seu corpo imponente e caminhou até a porta. Ela se abriu e fechou novamente. Apenas o homem chamado Sugou ficou.

Ele andou lentamente ao redor do pé da cama para ficar do outro lado, então pegou uma mecha do cabelo dela e começou a esfregá-la audivelmente com os dedos. Algo no gesto me encheu de repulsa.

“Ouvi dizer que você morou junto com a Asuna dentro do jogo,” ele disse suavemente, ainda olhando para ela.

“...Sim.”

“Isso torna as coisas... complicadas... entre nós, então.”

Ele levantou a cabeça e olhou nos meus olhos. Naquele instante, entendi que minha primeira impressão sobre aquele homem não poderia ter sido mais errada.

Aqueles olhos estreitos tinham pupilas pequenas que lhe davam um olhar perverso. Ambos os cantos de sua boca se curvaram para cima em um sorriso que não poderia ser descrito com nenhuma outra palavra além de malicioso. Um arrepio percorreu minha espinha.

“Veja bem, o assunto que mencionei há pouco...” Ele se vangloriou. “Diz respeito ao meu casamento com a Asuna.”

Fiquei sem palavras. Do que diabos ele estava falando? O significado de suas palavras penetrou lentamente em minha pele, como ar congelante. Após vários segundos de silêncio, gaguejando, encontrei minha voz.

“Você não pode... possivelmente...”

“Verdade. Legalmente, não podemos nos casar porque a Asuna não está consciente e não pode dar consentimento. No papel, a família Yuuki está simplesmente me acolhendo como um filho adotivo. Na verdade, ela sempre me odiou.”

Ele traçou um dedo pela bochecha de Asuna.

“Os pais dela parecem nunca ter tido a menor ideia. Mas eu sempre soube que se o assunto do casamento surgisse, havia uma grande probabilidade de ela recusar. É exatamente por isso que essa situação se encaixa tão bem nos meus planos. Espero que ela durma por mais um tempo.”

Seu dedo se aproximava cada vez mais dos lábios dela.

“Pare com isso!”

Agarrei a mão dele sem pensar e a afastei do rosto dela. Minha voz estava rouca de raiva.

“Você está dizendo... que está se aproveitando do coma da Asuna?”

Sugou sorriu maliciosamente de novo enquanto puxava a mão. “Aproveitando? Na verdade, está totalmente dentro do meu direito legal. Kirigaya, você sabe o que aconteceu com a Argus, os desenvolvedores de SAO?”

“Ouvi dizer que foram dissolvidos.”

“Sim. Além dos custos de desenvolvimento, as reparações astronômicas pelo Incidente os levaram à falência. A manutenção do servidor de SAO foi consignada à equipe de engenharia de imersão total da RCT: meu departamento.”

Sugou contornou a cabeceira da cama para me encarar. Ele aproximou o rosto do meu, ainda com aquele sorriso demoníaco.

“O que significa que a vida da Asuna está agora inteiramente sob minha supervisão e controle. E isso não me dá direito a pelo menos uma pequena compensação?” ele sussurrou no meu ouvido, e eu soube.

Ele estava usando a situação de desamparo de Asuna, sua própria vida, para seus próprios fins egoístas.

Enquanto eu estava ali, petrificado de choque, Sugou finalmente desfez o sorriso malicioso que usava e falou friamente.

“Não tenho ideia do tipo de promessas que vocês dois fizeram enquanto estavam dentro do jogo, mas eu agradeceria se você parasse de visitar o hospital. E, por favor, mantenha distância da família Yuuki.”

Cerrrei os punhos, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Vários segundos glaciais se passaram. Finalmente, Sugou se afastou, sua bochecha se contraindo como se estivesse prestes a explodir em gargalhadas.

“Faremos a cerimônia aqui no hospital no próximo mês. Sabe de uma coisa? Vou te mandar um convite. Tenho que ir, então aproveite ao máximo seu encontro final — herói.

Queria ter minhas espadas, pensei desesperadamente. Eu o atravessaria pelo coração com uma e cortaria sua cabeça com a outra. Ciente da minha raiva ou não, Sugou deu um tapinha no meu ombro e saiu da sala.

Não tenho nenhuma lembrança do caminho de volta para casa. A próxima coisa que soube foi que estava sentado na minha cama, olhando para a parede.

Meu casamento com a Asuna.

A vida da Asuna está agora inteiramente sob minha supervisão e controle.

Suas palavras ecoavam na minha cabeça, sem parar. Cada vez que o faziam, eu era perfurado por um ódio tão afiado e quente quanto metal derretido.

Mas... talvez meu ego estivesse falando mais alto.

Sugou era próximo da família Yuuki há anos e era essencialmente o noivo de Asuna. Ele conquistou a confiança de Shouzou Yuuki e ocupava uma posição de grande responsabilidade na RCT. Havia sido decidido anos atrás que ele um dia se casaria com Asuna, e eu era apenas um garoto que ela conheceu em um jogo online. Talvez a raiva que eu sentia, a indignação por perder Asuna, não passasse da frustração de uma criança que foi privada de seus brinquedos.

Para nós, o castelo flutuante Aincrad era o único mundo que existia. Era nisso que acreditávamos. As palavras que trocamos, as promessas que fizemos, todas aquelas memórias eram como joias brilhantes em minha mente.

Mas a dura pedra de amolar da realidade as estava reduzindo. Ela lascava aquelas joias.

Quero ficar com você para sempre, Kirito, ela havia dito com um sorriso — um sorriso que estava lenta, mas seguramente, se apagando.

“Me desculpe... Sinto muito, Asuna. Eu... não posso fazer nada...”

Desta vez, as lágrimas que eu estava lutando para conter finalmente caíram, pingando em meus punhos cerrados.

“O banho está livre, irmãozão,” Suguha chamou para a porta do quarto de Kazuto no segundo andar. Não houve resposta.

Ele havia voltado do hospital à noite, mas imediatamente se trancou em seu quarto e não saiu para jantar.

Suguha colocou a mão na maçaneta e hesitou. Mas disse a si mesma que se ele estivesse cochilando sem cuidado, poderia pegar um resfriado, e então girou a maçaneta.

Ela girou e clicou, e a porta se abriu um pouco. Estava escuro lá dentro. Ela pensou que ele devia estar dormindo, até que uma onda de ar gélido a atingiu, e ela estremeceu. Kazuto devia ter deixado a janela aberta.

Suguha entrou no quarto furtivamente, balançando a cabeça. Fechou a porta e se aproximou da janela do lado sul do quarto, e ficou surpresa ao descobrir que Kazuto não estava deitado dormindo, mas sentado na beirada da cama, com a cabeça baixa.

“Ah, hum... desculpe, pensei que você estivesse dormindo.”

Depois de alguns momentos, Kazuto falou, sua voz rouca e fraca.

“Posso só... ficar sozinho por um tempo?”

“M-mas está tão frio aqui...” Suguha estendeu a mão e tocou seu braço. Estava frio como gelo. “Meu Deus, você está congelando! Você vai pegar um resfriado. Vamos, você precisa de um banho.”

Foi então que Suguha percebeu as luzes da noite entrando pela janela, brilhando nas bochechas de Kazuto.

“O... o que há de errado?”

“Nada,” ele murmurou, com a voz embargada.

“Mas...”

Kazuto de repente levou as mãos à testa, como se para bloquear o olhar incompreensivo dela. Quando falou novamente, sua voz era dura e zombeteira.

“Sou um caso perdido... Jurei a mim mesmo que não iria reclamar na sua frente.”

Naquele instante, Suguha soube instintivamente. Suave e hesitante, ela falou.

“Aconteceu alguma coisa... com a Asuna?”

Seu corpo enrijeceu. Parecia que ele arrancou a voz da garganta.

“A Asuna... está indo... para longe. Muito além... do meu alcance...”

Isso não lhe dizia nada de específico. Mas a visão dele encolhido, derramando lágrimas como uma criança, abalou Suguha profundamente.

Ela fechou a janela, puxou as cortinas e ligou o aquecedor antes de se sentar ao lado dele na cama. Após um momento de hesitação, ela passou os braços ao redor de seu corpo frio. Ela pôde sentir a tensão se esvair dele.

Suguha sussurrou em seu ouvido. “V-vamos, aguente firme. Não desista da pessoa que você realmente ama...”

Foi preciso tudo de si para encontrar aquelas palavras, e quando elas saíram de sua boca e ecoaram em seus ouvidos, a dor ameaçou rasgá-la por dentro. Era a dor de algo ganhando vida dentro de seu peito. Suguha estava agudamente ciente do quanto ela realmente o amava naquele momento.

Não posso continuar mentindo para mim mesma.

Ela se inclinou para trás e gentilmente rolou Kazuto para a cama, depois puxou as cobertas. Sob o calor delas, ela passou o braço ao redor de suas costas novamente.

Enquanto esfregava suavemente suas costas, seus soluços convulsivos se transformaram na respiração pacífica do sono. Ela fechou os olhos e disse a si mesma: Eu tenho que desistir. Preciso enterrar isso fundo, bem fundo dentro de mim.

O coração de Kazuto pertence a ela, não a mim.

Uma única lágrima sua escorreu pela bochecha de Suguha e caiu nos lençóis.

Eu flutuava em um calor doce e agradável.

Era a maravilhosa sensação de flutuar pouco antes de acordar. A luz do sol que se infiltrava pelos galhos da floresta acariciava suavemente minha bochecha.

Eu me inclinei mais para abraçá-la enquanto ela dormia ao meu lado. Sua respiração era constante de sono, e abri os olhos para ver...

“O q...”

Engoli o grito na garganta e pulei para trás um ou dois palmos, ainda de costas. No segundo seguinte, sentei-me e olhei ao redor descontroladamente.

Não era a mesma floresta de sempre no vigésimo segundo andar de Aincrad com a qual eu sempre sonhava. Eu estava no meu quarto de verdade, na minha cama de verdade... mas não estava sozinho.

Levantei cuidadosamente o cobertor, ainda em choque, mas o abaixei com a mesma rapidez para poder balançar a cabeça e limpar as teias de aranha do sono. Puxei o cobertor de volta: cabelo preto curto. Sobrancelhas vivas.

Suguha estava dormindo profundamente, vestindo seu pijama, com o rosto enterrado no meu travesseiro.

“M-mas que diabos está acontecendo aqui...?”

Tentei desesperadamente me lembrar do que havia acontecido na noite anterior. Certo — parecia me lembrar de ter tido uma conversa com Suguha depois de voltar do hospital. Eu estava perdido em angústia, e Suguha tinha feito o seu melhor para me consolar. Depois disso, devo ter adormecido...

“O que eu sou, uma criancinha...?”

Após um breve acesso de mortificação total, olhei de volta para o rosto inocente e adormecido de Suguha. Certamente ela não precisava dormir na mesma cama para me confortar...

Pensando bem, uma coisa semelhante tinha acontecido comigo em Aincrad. Havia a domadora de feras que conheci por volta do quadragésimo andar. Ela me lembrava Suguha. Ela também tinha adormecido na minha cama, e eu fiquei igualmente confuso sobre o que fazer na época.

Não pude deixar de sorrir. Asuna e Sugou ainda pesavam muito em minha mente, mas a dor que rasgava meu peito de alguma forma havia se derretido durante a noite.

Todas as memórias do que havia acontecido em Aincrad eram como joias preciosas para mim, fossem felizes ou tristes. O importante era que eram todas memórias verdadeiras. Eu mesmo não podia depreciá-las. Jurei a Asuna que nos encontraríamos novamente no mundo real. Ainda devia haver algo que eu pudesse fazer sobre isso.

De repente, as últimas palavras de Suguha antes de eu adormecer ecoaram em meus ouvidos.

Não desista...

“É... você tem razão,” murmurei, inclinando-me para frente para cutucar a bochecha de Suguha. “Levanta, Sugu, já é de manhã.”

“Nng,” ela resmungou infeliz, tentando puxar o cobertor sobre a cabeça. Desta vez, belisquei sua bochecha e a puxei.

“Acorde. Você está perdendo um tempo valioso de treino matinal.”

“Muhh...”

Suguha finalmente abriu um olho sonolento.

“Ah... bom dia, irmãozão,” ela murmurou, sentando-se.

Ela me olhou com curiosidade por um momento, depois começou a olhar ao redor do quarto. Finalmente, seus olhos cansados se arregalaram. Suas bochechas ficaram cada vez mais vermelhas.

“Ah—! Hum—! Eu não—!”

Suguha estava vermelha até as orelhas, sua boca se movendo sem som. Ela finalmente pulou de pé e explodiu para fora do quarto com um estrondo enorme.

“Nossa.” Cocei a cabeça, levantando-me. Abri minha janela e respirei fundo, deixando o ar frio fluir sobre meus membros letárgicos.

Eu estava preparando uma roupa nova para trocar depois de um banho rápido iminente quando recebi O Aviso.

Um ding eletrônico soou atrás de mim, e me virei para minha mesa. O indicador de e-mail na parte superior da moldura do meu PC de painel estava piscando. Sentei-me na cadeira e toquei o mouse para ativar o monitor.

Os computadores mudaram bastante nos dois anos em que estive “fora”. O último prego no caixão do armazenamento clássico de disco rígido havia sido martelado, e até mesmo seu sucessor, o drive de estado sólido, havia sido substituído por MRAM de alta velocidade. Isso significava que não havia mais nenhum tempo de atraso discernível de qualquer tipo durante a computação. No instante em que ativei o programa de e-mail, minha caixa de entrada estava totalmente atualizada, descendo em ordem cronológica. O remetente da última mensagem na parte inferior da tela era alguém familiar: Agil.

Agil, o guerreiro do machado, tinha uma loja geral em Algade, a cidade principal do quinquagésimo andar de Aincrad. Eu o encontrei em Tóquio cerca de três semanas antes. Tínhamos trocado contatos de e-mail na época, mas esta foi a primeira mensagem que recebi dele. O título era: “Olhe isso.” Talvez ele estivesse com pressa quando a enviou, porque não havia uma única palavra no corpo da mensagem, apenas uma imagem em anexo.

Curioso, abri a imagem no visualizador. No instante seguinte, levantei-me da cadeira e me inclinei mais perto da tela para ver melhor.

Era uma imagem misteriosa. As cores e a iluminação fortes me disseram que não era uma fotografia, mas uma captura de tela de um mundo virtual e poligonal. Em primeiro plano, havia barras douradas desfocadas e fora de foco. Atrás delas, havia uma mesa e uma cadeira brancas. Sentada na cadeira estava uma mulher vestindo um vestido do mesmo tom de branco. Mas o vislumbre de seu perfil lateral através das barras parecia exatamente com—

“Asuna...?”

A resolução era ruim; parecia ser uma seção de uma imagem muito maior ampliada consideravelmente. Mas eu reconheceria aquele longo cabelo castanho em qualquer lugar. Suas mãos estavam cruzadas em cima da mesa, e seu rosto parecia perdido em dor. Após um exame mais atento, ela parecia ter asas translúcidas brotando de suas costas.

Peguei meu terminal portátil da mesa e rolei impacientemente pela minha lista de contatos. Os poucos segundos de tom de discagem pareceram intermináveis. Após um clique, ouvi a voz profunda de Agil.

“Alô—”

“O que é essa foto?!”

“...Normalmente, é de boa educação dizer quem está ligando primeiro, Kirito.”

“Sem tempo! Apenas me diga!”

“Olha, é uma longa história. Você pode vir até minha casa?”

“Estarei aí. Estou saindo agora.”

Desliguei sem esperar por uma resposta e peguei minhas roupas. Depois do banho mais rápido do mundo, calcei meus sapatos e subi na minha bicicleta, com o cabelo ainda pingando. O caminho familiar para a estação de trem nunca pareceu tão longo.

O café-bar de Agil ficava em um beco lotado no bairro de Okachi, no distrito de Taito, em Tóquio. A fachada da loja era feita de madeira preta fuliginosa, e apenas uma pequena placa de metal afixada sobre a porta indicava que havia um negócio ali. A placa era decorada no formato de dois dados, com os dizeres DICEY CAFÉ.

Um sino seco soou quando empurrei a porta. O homem grande e careca atrás do balcão ergueu o olhar e sorriu com a minha entrada. Não havia mais ninguém lá dentro.

“Ei, isso foi rápido.”

“Este lugar está tão vazio quanto da última vez que visitei. Estou impressionado que tenha ficado aberto nos últimos dois anos.”

“Cale a boca, temos um grande movimento à noite.”

Nossas brincadeiras leves eram as mesmas do outro mundo.

Eu tentei entrar em contato com Agil no final do mês anterior. Um agente do Ministério de Assuntos Internos conseguiu me dar uma lista dos nomes e endereços de tantos amigos do jogo quanto eu conseguia me lembrar. Sem dúvida, muitos jogadores estavam procurando se reunir com Klein, Nishida, Silica e Lisbeth, mas eu decidi dar a eles mais tempo para voltarem à vida normal antes de contatá-los. Quando toquei no assunto na minha primeira visita, Agil retrucou: “Ah, então eu não mereço esse tipo de consideração?”

Quando soube que Agil — nome real Andrew Gilbert Mills — também administrava um negócio na vida real, fez todo o sentido. Ele era um negro, nativo de Tóquio de segunda geração, e abriu seu café-bar combinado no bairro familiar de Okachi quando tinha vinte e cinco anos. Ele foi abençoado com uma clientela fiel e uma bela esposa, e justo quando tudo parecia prestes a decolar, ele caiu prisioneiro de Sword Art Online. Quando finalmente voltou após aqueles dois anos no jogo, ele esperava que o negócio tivesse acabado, mas sua esposa arregaçou as mangas e manteve a loja funcionando o tempo todo. A história aqueceu meu coração.

Era o tipo de lugar com muitos clientes habituais. Os móveis de madeira tinham o brilho profundo do polimento e do cuidado, e a intimidade aconchegante do interior, com apenas quatro mesas e um balcão, tornava a visita confortável.

Puxei um banquinho com assento de couro, pedi um café impacientemente e comecei a falar sobre o assunto em questão.

“O que aquilo significava?”

Ele não respondeu. Em vez disso, ele pegou um pacote retangular debaixo do balcão e o deslizou para mim. Eu o parei com um dedo.

O pacote cabia na palma da minha mão, claramente uma caixa de videogame. Procurei por uma plataforma e notei um logotipo no canto superior direito que dizia AMUSPHERE.

“Nunca ouvi falar deste console...”

“Isso é porque o AmuSphere foi lançado enquanto estávamos do outro lado. É um sucessor do NerveGear.”

“...”

Agil me deu uma explicação rápida enquanto eu olhava com desconfiança para o logotipo de dois anéis entrelaçados.

Após o desastre que causou, o NerveGear foi vilipendiado por toda parte, uma máquina demoníaca de escravidão. Mas, aparentemente, o mercado havia falado, e ainda havia uma demanda por jogos de realidade virtual de imersão total. Mal meio ano após o Incidente SAO, uma empresa de hardware diferente revelou seu próprio modelo, “mas seguro desta vez”, com tanto sucesso que os consoles de TV tradicionais agora eram uma minoria na indústria de jogos. Este AmuSphere era uma grande força nos jogos, em parte graças a muitos títulos no mesmo gênero de SAO.

Tudo fazia sentido para mim, mas eu não estava com pressa para saber mais. Eu não queria reviver aquela experiência em particular.

“Então este é outro VRMMO, então?”

Dei outra olhada na caixa. A capa era uma ilustração de uma grande lua cheia nascendo sobre uma floresta profunda e escura. Um garoto e uma garota segurando espadas estavam em silhueta, voando através do disco dourado. Eles estavam vestidos com trajes típicos de fantasia, e grandes asas translúcidas brotavam de suas costas. Um logotipo ornamentado adornava a parte inferior da capa: ALFHEIM ONLINE.

“ALf...heim...Online? O que significa?”

“Na verdade, pronuncia-se mais como Alv-heym. Significa ‘terra das fadas’, aparentemente.”

“Fadas, huh...? Parece bem tranquilo. Um desses MMOs casuais?”

“Acredite ou não, justamente o oposto. Na verdade, é bem hardcore.”

Agil colocou uma xícara fumegante na minha frente e sorriu. Eu a levantei e inspirei o aroma antes de perguntar mais.

“O que o torna hardcore?”

“Totalmente baseado em habilidade. A habilidade do jogador é recompensada, o PK é incentivado.”

“Significa...?”

“Você não tem um ‘nível’. Você só pode aumentar as habilidades através do uso, e seu HP mal aumenta à medida que você joga. A batalha depende da habilidade atlética real do jogador. É como SAO com magia e sem habilidades de espada. As pessoas dizem que os gráficos e a animação estão quase no mesmo nível de SAO, também.”

“Uau... parece impressionante.”

Franzi os lábios em um assobio silencioso. O castelo flutuante Aincrad foi a criação da obsessão fanática do gênio Akihiko Kayaba. Era difícil imaginar que outro desenvolvedor pudesse criar um mundo de RV com a mesma fidelidade.

“Como o PK é incentivado?”

“Quando você cria seu personagem, você escolhe entre várias espécies de fadas, e você pode matar os outros tipos.”

“Uau, isso parece hardcore. Mas um jogo como esse não vai vender muito, mesmo com ótimos valores de produção. Não se for projetado para um mercado tão nichado,” opinei criticamente, mas a boca larga de Agil sorriu novamente.

“Foi o que eu pensei também, mas está vendendo como água. A questão é que você pode voar no jogo.”

“Voar...?”

“Todo mundo é uma fada, então eles têm asas. Tem algum tipo de motor de voo no jogo, e quando você se acostuma, pode voar livremente sem um controle.”

Com isso, não pude deixar de exclamar com fascínio. Muitos jogos de voo haviam chegado ao mercado após o lançamento do NerveGear, mas todos eles eram simuladores de voo que envolviam a manipulação de algum tipo de dispositivo. A razão pela qual nenhum jogo oferecia aos jogadores a capacidade de voar diretamente era simples: os seres humanos não têm asas.

Em um mundo virtual, as ações dos jogadores são fielmente traduzidas para espelhar seus corpos reais. Mas isso significava que o que era impossível na vida ainda era impossível no jogo. O desenvolvedor pode colocar algumas asas em seu modelo, mas que músculos humanos deveriam trabalhar um par de asas?

No final de SAO, Asuna e eu havíamos aumentado nosso poder de salto o suficiente para podermos imitar o “voo” de certa forma, mas isso era simplesmente uma extensão de uma trajetória de salto, não um voo verdadeiro.

“Isso parece incrível. Como você controla as asas?”

“Não sei, mas aparentemente é bem difícil. Dizem que os novos jogadores precisam controlá-lo com um manche em uma mão.”

“...”

Por um instante, fiquei realmente ansioso para experimentar. Rapidamente tomei um gole quente de café para apagar aquele fogo.

“Ok, então esse é o jogo. Mas, mais importante, o que era aquela foto?”

Agil pegou algo debaixo do balcão novamente e colocou uma folha de papel no bar. Era brilhante com filme de impressão. A mesma foto.

“O que você acha?” Agil perguntou. Eu olhei para ela por vários momentos.

“Ela parece... com a Asuna.”

“Então você concorda. É uma captura de tela do jogo, então não posso ampliá-la mais, infelizmente.”

“Apenas me diga, onde foi tirada?”

“Lá dentro. Dentro de ALfheim Online.”

Agil pegou a caixa do jogo de mim e a virou. No centro da contracapa, cercado pela descrição do jogo e capturas de tela, havia uma ilustração do que parecia ser o mundo do jogo. O mapa redondo era dividido em territórios para cada uma das raças de fadas, estendendo-se radialmente para fora de uma árvore maciça no meio.

“Eles a chamam de Árvore do Mundo,” disse Agil, tocando na imagem. “O objetivo do jogador é alcançar a terra no topo da árvore antes que as outras raças consigam chegar lá.”

“Eles simplesmente não voam?”

“Parece que há um limite para o seu tempo de voo. Você não pode voar para sempre. Na verdade, você não pode nem alcançar o galho mais baixo da árvore dessa maneira. Mas sempre há algum idiota que quer tentar. Ouvi falar de um grupo de cinco que ficaram nos ombros uns dos outros, do mais leve ao mais pesado, e tentaram alcançar os galhos como um foguete com tanques de combustível.”

“Ha-ha! Entendo... Isso é bem inteligente, para ser tão estúpido.”

“Bem, o plano deles era bom, e eles chegaram bem perto dos galhos. Eles não alcançaram o mais baixo, mas a quinta e última pessoa tirou algumas capturas de tela como prova da altitude. Uma das fotos mostrava algo estranho: uma enorme gaiola de pássaros pendurada em um dos galhos.”

“Uma gaiola de pássaros...”

Minhas sobrancelhas se franziram com as implicações sinistras daquela palavra. Presa em uma gaiola.

“E depois que a captura de tela foi ampliada o máximo possível, foi isso que restou.”

“Mas este é um jogo legítimo, certo? Por que Asuna estaria lá?”

Peguei a caixa e dei outra olhada. Examinei a parte inferior da caixa retangular. O nome do desenvolvedor era RCT Progress.

“Kirito, que olhar é esse?”

“Nada. Tem mais alguma foto, Agil? Algo que possa mostrar outros como a Asuna, que nunca voltaram de SAO, mantidos cativos neste jogo ALfheim Online?”

A testa pesada do lojista se franziu enquanto ele balançava a cabeça. “Não ouvi falar de nada. Mas saberíamos com certeza se eu soubesse — pode apostar que eu teria chamado a polícia em vez de você.”

“É... tenho certeza que você teria...”

Mas enquanto eu assentia, minha mente voltava às palavras de Nobuyuki Sugou.

Os servidores de SAO estão atualmente sob meu controle, ele havia dito. Mas “sob controle” era uma descrição enganosa. O próprio servidor ainda era uma caixa-preta, imune a qualquer interferência externa, como eu entendia.

Era conveniente para seus fins que Asuna estivesse dormindo dentro da máquina. E agora uma garota que se parece com Asuna foi vista em outro VRMMO, administrado pelo braço editorial da RCT... Poderia ser realmente apenas uma coincidência?

Por um instante, pensei em contatar a equipe de resgate do Ministério, até que percebi quão pouca prova eu tinha para lhes mostrar.

Ergui os olhos para o rosto do robusto dono do café.

“Agil, posso ficar com este jogo?”

“Fique à vontade. Você vai entrar?”

“Sim. Preciso ver por mim mesmo.”

Agil pareceu brevemente preocupado. Eu entendia como ele se sentia. Parte de mim sentia que era loucura, mas não havia como negar os tentáculos do medo que eu sentia lambendo meus pés — havia algo acontecendo aqui.

Afastei o pressentimento e dei-lhe um sorriso.

“Um jogo onde a morte não é permanente? As pessoas hoje em dia são mimadas. Acho que estou no mercado para um novo console de jogos.”

“Não se preocupe, os jogos do AmuSphere rodam em um NerveGear. É basicamente a mesma unidade com segurança reforçada.”

“Ótimo, isso me economiza algum dinheiro,” eu disse espirituosamente. Desta vez, foi a vez de Agil me dar um sorriso irônico.

“Se você tiver coragem de colocar aquele capacete de novo, isto é.”

“Já fiz isso uma dúzia de vezes.”

Essa era a verdade. Eu havia colocado o NerveGear várias vezes, apenas com uma conexão de rede, não iniciado em um jogo. Minha vã esperança era que Asuna tivesse me enviado uma mensagem de algum tipo. Não havia nada, é claro. Nenhuma voz, nenhum texto.

Mas eu estava cansado de esperar. Tomei o último gole do meu café e levantei-me. O estabelecimento não era chique o suficiente para nenhum tipo de sistema eletrônico de troca de dinheiro, então tive que enfiar a mão no bolso para pegar algumas moedas e colocá-las no balcão.

“Bem, estou de saída. Obrigado pelo café — e me avise se souber de mais alguma coisa.”

“Vou colocar essa gorjeta na sua conta. Apenas certifique-se de resgatar a Asuna. Caso contrário, nossa luta não acabou.”

“É... precisamos fazer um encontro offline aqui algum dia.”

Batemos os punhos, e me virei para sair pela porta.

Suguha estava deitada de bruços em sua própria cama, com o rosto enterrado no travesseiro, enquanto chutava as pernas em angústia por minutos a fio.

Era quase meio-dia, mas ela ainda estava de pijama. Era segunda-feira, 20 de janeiro, bem depois do fim das férias de inverno, mas a escola de ensino médio de Suguha tornava a frequência opcional pouco antes do final do ano letivo para os alunos que estavam se formando. Todos estavam ocupados com os exames de admissão para o ensino médio, e se ela fosse ao campus, seria apenas para dar uma passada no clube de kendo.

Ela repassou a memória em sua mente pela enésima vez.

Ela se aninhou sob as cobertas de Kazuto com ele na noite passada, tentando aquecer seu corpo gelado, aconchegando-se, e então adormeceu. Foi a primeira vez que ela realmente amaldiçoou sua capacidade de apagar dez segundos depois de se deitar.

Eu sou tão estúpida, estúpida, estúpida! ela gemeu silenciosamente, batendo no travesseiro com as duas mãos.

Se ela tivesse acordado antes de Kazuto, poderia ter feito uma fuga silenciosa antes que ele percebesse. Em vez disso, ele teve que acordá-la e apontar que ela estava em sua cama. Não havia como ela olhá-lo de novo.

Vergonha, timidez e uma inegável sensação de sua doçura corriam dentro dela, apertando seu peito tão dolorosamente que ela não conseguia respirar. Se ela cruzasse os braços ao redor da cabeça, achava que podia sentir o cheiro de seu irmão em seu pijama. Isso só piorava as coisas.

Preciso balançar meu shinai e limpar a cabeça, ela decidiu, e finalmente se levantou. Suguha gostava de praticar no dojo porque isso a colocava no estado de espírito certo, mas decidiu que o mais importante era sair o mais rápido possível, então vestiu seu agasalho.

Kazuto estava fora a negócios pessoais, sua mãe, Midori, sempre saía para o trabalho de manhã, e seu pai, Minetaka, voltou para a América após as férias, então ela estava sozinha em casa. Ela pegou um muffin de queijo da cesta na mesa de jantar do andar de baixo, enfiou-o rudemente na boca e pegou uma caixa de suco de laranja a caminho do quintal.

Justo quando ela deu sua primeira grande mordida, Kazuto contornou a casa com sua bicicleta. Seus olhos se encontraram.

“Mmfg!”

Um pedaço de muffin ficou preso em sua garganta, e ela tossiu. Ela se apressou para tomar um gole de suco de laranja e engolir, então percebeu que ainda não tinha enfiado o canudo na folha de alumínio em cima.

“Mmp, mllp!”

“Ah, qual é.”

Kazuto se aproximou e pegou a caixa de suco. Ele enfiou uma das pontas do canudo na tampa e a outra na boca de Suguha. Ela sugou desesperadamente o líquido frio até que finalmente pôde engolir o bocado.

Pwah! Eu... eu pensei que ia morrer engasgada...”

“Nossa, você é tão desajeitada. Você não precisa engolir tudo de uma vez.”

“Ugh,” ela murmurou. Kazuto sentou-se ao lado dela e começou a desamarrar os sapatos. Ela o observou pelo canto do olho enquanto dava outra mordida no muffin.

Abruptamente, ele disse: “Sobre ontem à noite, Sugu...”

Ela tomou outro gole apressado de suco antes que pudesse começar a tossir novamente.

“S-sim?”

“Bem, hum... obrigado.”

“Huh...?”

Suguha não esperava por isso. Ela o olhou com curiosidade.

“Obrigado por me animar ontem. Realmente ajudou. Não vou desistir. Continuarei até resgatar a Asuna.”

Ela sorriu para esconder a pontada de dor em seu peito.

“Bom. Continue assim. Sempre quis conhecê-la.”

“Tenho certeza de que vocês serão ótimas amigas.” Ele bagunçou o cabelo dela e se levantou. “Bem, até mais tarde.”

Suguha se virou e o observou subir as escadas, depois colocou o último pedaço de muffin na boca.

E eu posso continuar também...?

Ela atravessou o quintal para fazer seus alongamentos ao lado do lago. Uma vez que estava bem aquecida, ela pegou o shinai e começou a balançar.

Normalmente, o padrão constante de golpes completos limparia sua mente de todas as distrações, mas desta vez, os pensamentos permaneceram.

Eu realmente posso me apaixonar por ele?

Ela pensou que estava pronta, por um momento, para esquecer a noite anterior — embalando-o na cama. Asuna era a única pessoa no coração de Kazuto, um fato do qual ela estava dolorosamente ciente.

Mas... acho que isso não importa para mim.

Ela não sabia por que Kazuto estava pesando tanto em sua mente ultimamente. Mas seus sentimentos se tornaram tão claros quanto o dia para ela.

Quando o hospital ligou há dois meses, Suguha saiu correndo de casa sem esperar pela mãe. Kazuto sorriu para ela em sua cama de hospital quando a viu, com lágrimas nos olhos. Ele estendeu a mão e disse: “Sugu,” naquela voz familiar... e foi quando esses sentimentos nasceram dentro dela. Ela queria estar com ele sempre. Ela queria conversar mais com ele. Mas forçar isso sobre ele... Ela não podia.

Estou bem só de observá-lo, ela disse a si mesma enquanto balançava a lâmina de madeira no espaço vazio. Ela parou brevemente para verificar o relógio na sala de estar. Passava do meio-dia.

“Ah, droga. Esqueci minha promessa,” ela murmurou. Ela largou a espada e enxugou o suor com a toalha pendurada no galho do pinheiro. Lá no céu, o primeiro vislumbre de azul estava aparecendo entre as nuvens.

De volta ao meu quarto, troquei de roupa, coloquei meu celular no modo ausente e sentei-me na cama. Abri minha mochila e tirei o jogo que Agil me deu. ALfheim Online.

Pelo que ele disse, parecia um empreendimento bem sério. A ausência de um sistema de níveis era uma grande vantagem para mim, no entanto, pois sugeria que eu não seria muito prejudicado por ter começado mais tarde do que todos os outros no jogo.

Normalmente com um MMORPG, antes de começar eu gostaria de ler o máximo de informações que pudesse encontrar na net ou em revistas, mas não estava com humor para isso. Abri o pacote, tirei um minúsculo cartão ROM e o deslizei em um pequeno slot no NerveGear. Após alguns segundos, o LED na frente parou de piscar e ficou aceso.

Deitei-me na cama e segurei o dispositivo bem acima do meu rosto. Ele já havia sido uma maravilha azul-marinho reluzente, mas agora a tinta estava descascando aqui e ali. Este era o conjunto de grilhões que me manteve prisioneiro por dois anos — mas também era um velho amigo que passou pelo inferno comigo sem nunca falhar.

Empreste-me sua força mais uma vez, implorei silenciosamente e baixei o NerveGear sobre minha cabeça. Em seguida veio a cinta do queixo, depois o visor. Fechei os olhos.

Meu coração batendo forte com excitação e apreensão, dei o comando para iniciar o jogo.

“Link start!”

A luz turva que brilhava através de minhas pálpebras fechadas desapareceu abruptamente. Os sinais vindos de meus nervos ópticos foram cancelados, e a verdadeira escuridão me envolveu.

Mas tão abruptamente, um arco-íris de cores dançou diante de minha visão. A luz amorfa se transformou no logotipo do NerveGear. Estava fraco e nebuloso no início, mas depois ficou mais nítido à medida que a conexão do dispositivo com o centro visual do meu cérebro se tornava mais sólida. Eventualmente, uma pequena mensagem abaixo do logotipo apareceu, sinalizando que a conexão visual havia sido estabelecida.

Em seguida, veio um ruído ecoante e sinistro de nenhum lugar em particular. Parecia estar se aproximando, e o som distorcido mudou de tom até formar uma harmonia agradável. O jingle solene de inicialização tocou e terminou abruptamente. Conexão de áudio estabelecida.

Agora a configuração passou para a sensação física, depois a gravidade. A sensação da cama nas minhas costas e o peso do meu corpo desapareceram. À medida que cada um dos meus sentidos era calibrado e testado, as marcas de verificação se acumulavam. Com o tempo, a tecnologia de imersão total sem dúvida encurtaria consideravelmente esse processo, mas neste ponto não havia nada que eu pudesse fazer a não ser esperar que o capacete realizasse seu pequeno aperto de mão com cada seção do meu cérebro por vez.

Quando a mensagem final de OK finalmente apareceu, fui mergulhado na escuridão. Eventualmente, um círculo brilhante de luz arco-íris apareceu por baixo, e depois de passar por ele, meus pés virtuais pousaram em um mundo diferente.

Tecnicamente, era apenas um estágio para a criação da conta, ainda envolto em escuridão. O logotipo de ALfheim Online pairava no alto, e uma voz feminina gentil me deu as boas-vindas ao jogo.

Segui as instruções da voz computadorizada e iniciei o processo de criação da conta e do personagem. Um teclado holográfico azul pálido materializou-se na altura do peito e me pediu para inserir um ID de usuário e senha. Digitei a familiar sequência de letras que usei no início de SAO. Se este fosse um MMO totalmente digital, eu seria saudado com opções de pagamento neste ponto, mas a versão de varejo de ALO vinha com um mês grátis de jogo.

Em seguida, veio o nome do meu personagem. Comecei a digitar “Kirito”, mas hesitei. Muito poucas pessoas sabiam que Kazuto Kirigaya no mundo real era conhecido como Kirito online. Apenas a equipe de resgate do Ministério de Assuntos Internos; Shouzou Yuuki, o presidente da RCT, que esteve intimamente envolvido com essa equipe; e Sugou. Depois disso, era Agil e a ainda adormecida Asuna. Mesmo Suguha e meus pais não sabiam.

Nada sobre o que aconteceu em SAO havia sido tornado público, especialmente nomes de personagens. Houve inúmeras batalhas entre personagens dentro do jogo, batalhas que levaram a um número chocante de mortes reais no mundo real. Se as histórias de quem assassinou quem se tornassem públicas, isso sem dúvida desencadearia um emaranhado de processos judiciais intermináveis.

Por enquanto, todas as acusações de assassinato relacionadas ao Incidente SAO foram imputadas unicamente ao ainda desaparecido Akihiko Kayaba. Todos os danos reclamados pelas famílias das vítimas foram cobrados da Argus, a desenvolvedora do jogo, e não demorou muito para que a Argus falisse. Kayaba havia transformado a Argus em uma das principais casas de desenvolvimento e depois a arrasou. Mas, no que dizia respeito ao governo, eles não queriam a possibilidade feia de jogadores processando uns aos outros.

Eu estava preocupado com Nobuyuki Sugou me encontrando, mas o nome em si não era tão notável, então decidi ir em frente e me chamar de “Kirito”. Escolhi masculino para meu gênero, é claro.

Em seguida, a voz feminina me instruiu a criar meu personagem. No entanto, minha única escolha era a raça do jogador. Todos os meus parâmetros cosméticos seriam escolhidos aleatoriamente, e se eu não gostasse do que me foi dado, teria que pagar uma taxa no jogo para recriar a aparência que eu queria. Neste caso, eu não me importava particularmente com minha aparência.

Eu tinha a escolha de nove raças diferentes com tema de fadas para meu personagem. Cada uma tinha suas próprias vantagens e desvantagens, disse a voz. Alguns dos nomes, como salamandra, sílfide e gnomo, eram termos familiares de RPG, enquanto outros — cait sith, leprechaun — eram menos.

A escolha não importava para mim, pois eu não tinha intenção de jogar o jogo seriamente. Mas gostei do motivo todo preto do equipamento inicial dos spriggans, então escolhi aquele e apertei OK.

Com toda a personalização concluída, a voz computadorizada me desejou sorte, e outro vórtice de luz me cercou. De acordo com a explicação, cada raça era teleportada para sua própria cidade inicial. A sensação de chão sob meus pés desapareceu, e fiquei sem peso por um momento antes que a gravidade me puxasse para baixo. Um novo mundo começou a tomar forma a partir da luz. Eu estava no ar, sobre uma pequena cidade envolta em escuridão.

Eu podia sentir minhas primeiras sensações de jogabilidade de imersão total em dois meses aguçando cada nervo virtual que antes fora tão afiado por minha última experiência. As torres estreitas do castelo no centro da cidade se aproximavam.

Quando, de repente—

A imagem congelou. Pequenos fragmentos de material poligonal se estilhaçaram, e ruído digital rastejou sobre minha visão como um relâmpago. O nível de detalhe no jogo ficou cada vez mais grosseiro até se assemelhar a um mosaico digital. O mundo derreteu e se desintegrou.

“O-o que é isso?” lamentei e abruptamente senti-me mergulhar novamente. Caí e caí, escuridão sem fim abaixo de mim.

“Que diabos está acontecendo aquiii—”

Meu grito impotente foi engolido pelo vazio e silenciado.

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