
Volume 3 - Capítulo 3
Sword Art Online
Eles entraram descalços no dojo, fizeram a reverência habitual e começaram a se preparar para o duelo. Felizmente, o falecido avô deles era quase do tamanho de Kazuto, então ele encontrou uma armadura que, embora empoeirada, lhe servia bem. Eles terminaram de apertar as amarras de seus capacetes ao mesmo tempo e se encararam no centro da sala. Outra reverência.
Suguha se levantou da posição formal de joelhos e segurou sua amada shinai na altura do peito. Kazuto, enquanto isso…
— O que é isso, irmãozão?
No momento em que Suguha viu a postura de Kazuto, ela caiu na gargalhada. Era absolutamente bizarra. Seu pé esquerdo estava estendido para a frente, o direito para trás. Sua cintura estava agachada, a ponta da shinai em sua mão direita quase tocando o assoalho, enquanto sua mão esquerda estava meramente apoiada no cabo.
— Se houvesse um juiz aqui, ele com certeza te daria uma bronca!
— Ainda bem que não tem. Este é o meu estilo pessoal.
Suguha retomou sua posição, incrédula. Kazuto afastou ainda mais os pés, baixando seu centro de gravidade.
Bem quando ela firmou o pé de trás para um avanço que pegaria facilmente seu capacete desprotegido, Suguha hesitou. A postura de Kazuto era absurda, mas havia uma espécie de naturalidade nela. Sua defesa parecia cheia de brechas fáceis de explorar, mas ela sentiu que não podia simplesmente avançar sem cautela. Era como se ele estivesse usando uma postura que praticara por anos e anos...
Mas isso não podia estar certo. Kazuto só havia praticado kendo por dois anos, dos sete aos oito. Ele não teria aprendido nada além do básico.
Ele subitamente entrou em movimento, como se sentisse a hesitação dela. Kazuto deslizou para a frente, ainda agachado, sua shinai subindo rapidamente pela direita. A velocidade em si não era surpreendente, mas o movimento era, e Suguha foi pega de surpresa. Ela só pôde agir por reflexo.
A partir do seu pé direito avançado, ela desferiu um golpe para baixo, na manopla esquerda de Kazuto. Seu tempo foi perfeito — ou teria sido, se ela não tivesse atingido o ar.
A esquiva dele foi impossível. Kazuto retirou a mão esquerda do cabo da shinai e a trouxe para perto do corpo. Aquilo não deveria ser possível. Agora, sua shinai disparou em direção ao capacete exposto de Suguha. Ela esticou o pescoço apressadamente para evitar o golpe.
Eles circularam e recuaram para criar um espaço entre si. A mente de Suguha havia mudado para um modo completamente diferente. Havia uma tensão agradável e familiar, todo o sangue em seu corpo ameaçando ferver. Desta vez, era a sua vez de atacar. Ela desferiu seu melhor golpe, um ataque "kote-men", da manopla ao capacete—
Mas Kazuto se esquivou com perfeição mais uma vez. Ele retraiu o braço, torceu o corpo e evitou a ponta da lâmina dela por um fio de cabelo. Secretamente, Suguha estava chocada. Ela era conhecida em sua equipe pela rapidez de seus golpes e não conseguia se lembrar da última vez que errara múltiplos ataques de forma tão espetacular.
Agora ela atacava com força total, em modo de ataque completo. A ponta de sua espada brilhava a uma velocidade estonteante. Mas Kazuto se esquivava de todos os golpes. Olhando para os olhos dele através da grade do capacete, Suguha pensou que ele via cada um com precisão perfeita.
Irritada, ela se aproximou para travar cabo com cabo. A pressão das pernas e do centro de força de Suguha desequilibrou Kazuto. Sem perder o ritmo, ela desferiu um poderoso golpe por cima da cabeça.
— Yaaah!!
Quando ela se deu conta, era tarde demais. O golpe implacável atingiu Kazuto em cheio no centro de sua máscara. Um thwack agudo ecoou pelo dojo.
Ele tropeçou vários passos para trás até conseguir recuperar o equilíbrio.
— Meu Deus, você está bem? — ela gritou, mas ele acenou com a mão para tranquilizá-la.
— Uau... eu desisto. Você é muito durona, Sugu. Heathcliff não é páreo para você.
— Tem certeza de que está tudo bem...?
— Sim. Mas vamos parar por hoje.
Kazuto deu vários passos para trás e fez algo ainda mais bizarro. Ele balançou a shinai para frente e para trás, depois tentou colocá-la nas costas. No instante seguinte, ele congelou e, em seguida, coçou a parte de fora do capacete. Agora Suguha estava realmente preocupada.
— Tem certeza de que o golpe na sua cabeça não...?
— N-não, não! É um velho hábito. — Ele se ajoelhou e começou a desamarrar suas proteções.
Eles deixaram o dojo juntos e foram para a área de lavagem do lado de fora da casa, jogando água nos rostos para tirar o suor. A transição do duelo de uma diversão para algo mortalmente sério os deixou ambos com bastante calor.
— Você realmente me pegou de surpresa lá atrás. Quando foi que você praticou daquele jeito?
— Bem, meu passo é bom, mas o ataque ainda não está à altura. É muito mais difícil recriar aquelas habilidades de espada sem a ajuda do sistema — ele murmurou enigmaticamente. — Ainda assim, foi muito divertido. Talvez eu devesse voltar a praticar kendo.
— Sério? Sério, mesmo?!
Suguha não queria que soasse tão animada. Ela percebeu que seu rosto havia perdido a compostura.
— Você pode me ensinar, Sugu?
— C-claro! Vamos praticar kendo de novo!
— Assim que eu ganhar mais músculos.
Kazuto bagunçou o cabelo dela, e ela sorriu. Só de pensar neles praticando juntos de novo quase a fez chorar de alegria.
— Hum, ei, irmãozão, adivinha?
Suguha não sabia por que ele havia decidido de repente voltar a praticar kendo, mas, em sua empolgação, estava prestes a revelar seu novo hobby para ele. Mas, de repente, pensou melhor e se calou.
— O quê?
— Hum, deixa pra lá. Ainda é um segredo!
— Que seja, esquisitona.
Eles entraram pela porta dos fundos da casa, secando a cabeça com toalhas grandes. A mãe deles, Midori, sempre dormia até perto do meio-dia, então o café da manhã geralmente era tarefa de Suguha, embora agora Kazuto ajudasse a revezar.
— Vou tomar um banho. O que você vai fazer hoje?
— Ah... eu vou para... o hospital...
...
Ela fez a pergunta sem pensar, e agora o ânimo de Suguha voltou um pouco à terra.
— Ah, certo. Você vai vê-la.
— Sim... É a única coisa que eu posso fazer...
Fazia cerca de um mês que Kazuto lhe contara que havia encontrado sua amada naquele outro mundo. Eles estavam sentados lado a lado, encostados na parede do quarto dele, segurando canecas de café enquanto ele contava a história aos pedaços. No passado, Suguha nunca acreditaria que se pudesse apaixonar por alguém em um mundo virtual. Mas agora, ela sentia que entendia. O que realmente a impressionou foi o vislumbre de lágrimas que viu brotando nos olhos dele enquanto falava.
Eles estiveram juntos até o último momento, disse Kazuto. Deveriam ter retornado ao mundo real de mãos dadas. Mas apenas ele voltou. Ela ainda estava dormindo. Ninguém conseguia explicar o que havia acontecido com ela — o que ainda estava acontecendo com ela. Ele a visitou no hospital por três dias seguidos.
Suguha tentou imaginar Kazuto sentado ao lado da cama de sua amada, segurando sua mão, chamando silenciosamente seu nome, como ela havia feito com ele. Toda vez que o fazia, era atingida por uma emoção indescritível; era uma pontada aguda, atingindo o fundo de seu coração. Sua respiração se tornava dolorosa. Fazia com que ela quisesse se abraçar e cair no chão.
Ela queria que Kazuto tivesse um sorriso no rosto para sempre. Ele estava tão mudado após seu retorno, tão mais radiante, que poderia muito bem ser uma pessoa diferente. Ele conversava com Suguha com facilidade, era chocantemente gentil e não parecia estar se forçando a isso. Era como se eles tivessem voltado aos tempos de infância. Por isso era tão doloroso para ela ver lágrimas em seus olhos, dizia a si mesma.
Mas eu já sei…
Suguha sabia que quando ele escondia os olhos ao falar d'Ela, a dor que surgia em seu peito vinha de outra emoção secreta.
Ela o chamou silenciosamente enquanto o observava beber seu copo de leite na cozinha.
Irmãozão, eu sei a verdade.
Suguha ainda não tinha certeza do que mudou quando ele passou de irmão para primo.
Mas ela sabia de uma coisa: algo que nunca havia considerado antes, mas que agora brilhava perpetuamente dentro dela em segredo.
Era o fato de que talvez, apenas talvez, ela tivesse permissão para se apaixonar por seu irmão.
Tomei um banho rápido, me troquei e saí de casa na mountain bike que comprei há um mês. Pedalei devagar e com calma para o sul. Era uma viagem de catorze quilômetros até o meu destino, o que era uma longa distância para percorrer de bicicleta, mas servia como uma boa reabilitação para fortalecimento muscular.
Eu estava indo para a cidade de Tokorozawa, na província de Saitama — um hospital geral de última geração nos arredores da cidade. Em um quarto no último andar, ela dormia silenciosamente.
Dois meses antes, eu havia encerrado o jogo da morte que era Sword Art Online ao derrotar seu chefe final, Heathcliff, o Paladino, no septuagésimo quinto andar do castelo flutuante Aincrad. Logo depois, acordei em um quarto de hospital desconhecido e percebi que havia retornado à realidade.
Mas ela — minha parceira de jogo, a mulher que eu amava mais do que qualquer outra, Asuna, a Lâmina Veloz — não veio comigo.
Não demorou muito para descobrir sua localização real. Depois de acordar naquele quarto de hospital em Tóquio, vaguei pelos corredores com pernas incertas até que as enfermeiras me viram. Em menos de uma hora, um homem de terno correu para me ver. Ele alegou ser do Ministério de Assuntos Internos, Escritório do Incidente SAO.
Essa organização de nome imponente foi formada logo após o início do Incidente SAO, mas, naqueles dois anos, eles conseguiram muito pouco. Eu não podia culpá-los. Um movimento errado na tentativa de interferir no servidor e desfazer a proteção programada do mentor Akihiko Kayaba, e dez mil mentes poderiam ter sido fritas em um instante. Nenhum homem poderia arcar com a responsabilidade de fazer essa escolha.
O que eles podiam fazer, no entanto, era providenciar para que as vítimas fossem levadas a hospitais adequados — em si uma notável realização de coordenação — e monitorar os poucos dados de jogadores disponíveis para o mundo exterior.
De alguma forma, eles sabiam meu nível, minhas coordenadas e até que eu estava entre os "clearers", os jogadores de linha de frente responsáveis por avançar no jogo. Foi aparentemente por isso que, quando os jogadores cativos de repente começaram a acordar em um dia de novembro, eles correram para o meu quarto de hospital para me perguntar o que havia acontecido.
Eu dei ao homem de óculos de aros pretos minhas condições. Eu lhe contaria tudo o que sabia. Em troca, ele me diria o que eu queria saber.
O que eu queria era a localização de Asuna, naturalmente. Após alguns minutos de telefonemas frenéticos, o homem voltou, claramente perturbado.
— Asuna Yuuki está internada em uma instalação médica em Tokorozawa. Mas ela não acordou como os outros… Na verdade, ainda existem trezentas vítimas em todo o país que ainda não voltaram.
No início, a hipótese era um simples lag do servidor, dada a enormidade do processo que havia ocorrido dentro do jogo. Mas, com o passar das horas e dos dias, nenhuma atualização sobre a condição de Asuna e dos trezentos como ela chegou.
O público estava em polvorosa, especulando que o plano de Akihiko Kayaba ainda continuava. Mas eu não podia concordar. Eu estive lá, naquele mundo de pôr do sol sem fim, enquanto Aincrad desmoronava atrás de nós. Conversei com ele por alguns breves minutos e me lembrei da lucidez em seu olhar.
Kayaba disse que libertaria todos os jogadores sobreviventes. Naquela altura, ele não tinha motivos para mentir sobre isso. Eu acreditei em sua palavra — que ele estava preparado para seguir em frente daquele mundo e limpar tudo.
Mas, seja por um acidente imprevisto ou pelo plano de outra pessoa, o servidor principal de SAO não foi totalmente reformatado. Ainda era uma caixa preta impenetrável, funcionando. Da mesma forma, o NerveGear de Asuna ainda mantinha seu espírito prisioneiro, conectado àquele servidor. Não havia como eu saber o que estava acontecendo lá. Se ao menos, mais uma vez, eu pudesse retornar àquele mundo...
Suguha ficaria furiosa se soubesse, mas uma vez deixei um bilhete, fui para o meu quarto e coloquei meu NerveGear de volta. Tentei carregar o cliente de Sword Art Online, mas diante dos meus olhos apareceu apenas uma simples mensagem de erro: NÃO FOI POSSÍVEL CONECTAR AO SERVIDOR.
Então, assim que minha reabilitação física terminou e eu pude me locomover novamente, comecei a visitar o quarto de hospital de Asuna com a maior regularidade possível.
O tempo que passava com ela era sempre doloroso. Saber que alguém tão importante para mim foi levado por algo cruel e insensível deixou minha alma ferida. Eu podia senti-la sangrando. Mas não havia mais nada que eu pudesse fazer. Como estou agora, impotente e minúsculo, eu era inútil.
Após quarenta minutos de pedalada lenta e comedida, saí da via principal e entrei em uma estrada menor, que serpenteava por algumas colinas até que um enorme edifício apareceu. Era uma instalação médica de alta tecnologia, operada por uma empresa privada.
Acenei para o agora familiar guarda de segurança ao passar pelo portão da frente, depois estacionei minha bicicleta em um canto do grande estacionamento. Peguei meu passe de visitante no luxuoso saguão do primeiro andar, que parecia mais um hotel do que um hospital, e o prendi no bolso da minha camisa enquanto entrava no elevador.
As portas se abriram suavemente, apenas alguns segundos depois, no décimo oitavo e último andar. Um corredor vazio continuava para o sul. Este andar era em grande parte reservado para pacientes de longa permanência, então era raro passar por alguém nos corredores. Finalmente, cheguei ao fim, e uma porta verde-clara apareceu. Havia uma placa de identificação com um brilho fosco na parede ao lado da porta.
Yuuki, Asuna. Abaixo do nome, um único slot. Tirei o passe do meu peito e o deslizei pelo leitor. Um som soou, e a porta se abriu automaticamente.
Um passo para dentro e fui envolvido pelo aroma fresco de flores. Apesar da estação de inverno, o quarto estava positivamente explodindo com flores frescas e reais. Mais para dentro do espaçoso quarto, uma cortina estava fechada, e eu me aproximei lentamente.
Por favor, que ela esteja acordada aí dentro. Coloquei a mão na cortina, rezando por um milagre. Silenciosamente, ela se abriu.
Era uma cama de última geração, projetada para cuidados completos ao paciente. A superfície era de um material em gel, o mesmo que a minha havia sido. Um edredom branco e limpo brilhava suavemente à luz do sol. Ela estava embaixo dele, dormindo.
Na primeira vez que visitei este lugar, fui atingido pelo pensamento súbito de que ela talvez não quisesse que eu visse seu corpo na vida real enquanto estava inconsciente. Mas essa preocupação foi completamente banida da minha mente quando vi o quão linda ela estava.
Seu cabelo castanho, rico e lustroso, estava espalhado suavemente sobre as almofadas de apoio. Sua pele era tão pálida que quase se podia ver através dela, mas o cuidado gentil do hospital impedia que tivesse um tom doentio. Havia até um toque de cor de rosa em suas bochechas.
Ela não parecia ter perdido tanto peso quanto eu. A linha esguia de seu pescoço à clavícula era exatamente como eu me lembrava no mundo virtual. Lábios rosa-claro. Cílios longos. Quase parecia que eles poderiam tremer e se abrir a qualquer momento — se não fosse pelo capacete azul-marinho que cobria seu crânio.
Todas as três luzes indicadoras no NerveGear brilhavam em azul. O brilho ocasional, como uma estrela, era a prova de que a conexão estava funcionando. Mesmo agora, sua alma estava cativa em outro mundo.
Peguei sua mão frágil com as minhas duas. Havia um leve calor nela. Não era diferente da mão que eu lembrava — aquela que se agarrava à minha, que tocava meu corpo, que deslizava pelas minhas costas. Minha respiração falhou, e eu segurei desesperadamente as lágrimas.
— Asuna…
O alarme fraco do relógio de cabeceira me trouxe de volta aos meus sentidos. Meus olhos se fixaram nele e fiquei surpreso ao ver que já era meio-dia.
— Tenho que ir agora, Asuna. Voltarei em breve...
Enquanto me levantava para sair, a porta se abriu atrás de mim. Virei-me para ver dois homens entrando no quarto.
— Ah, você está aqui, Kirigaya. Como sempre, agradeço sua preocupação.
Um sorriso se abriu no rosto do homem robusto de meia-idade à frente. Ele usava um terno marrom de três peças bem cortado, e a firmeza de seu rosto, apesar de sua constituição forte, sugeria a vitalidade de um homem de muito sucesso. Apenas os fios prateados em seu cabelo penteado para trás revelavam o custo mental que os últimos dois anos haviam cobrado.
Ele era Shouzou Yuuki, o pai de Asuna. Ela havia mencionado uma ou duas vezes que ele era um empreendedor, mas mesmo assim, não pude esconder meu choque quando soube que ele era na verdade o CEO da fabricante de eletrônicos RCT.
Fiz-lhe uma reverência educada e disse: — Boa tarde. Desculpe por tê-lo incomodado, Sr. Yuuki.
— De modo algum. Venha quando quiser. Tenho certeza de que ela fica feliz.
Ele se aproximou da cabeceira de Asuna e acariciou ternamente seus cabelos. Tudo ficou em silêncio por um momento, então ele ergueu os olhos e fez um gesto para o outro homem com ele.
— Vocês ainda não se conheceram, não é? Este é Sugou, o gerente do nosso laboratório.
Minha primeira impressão foi que ele parecia bastante simpático. Era alto, vestido com um terno cinza-escuro, com óculos sem armação apoiados em seu rosto longo. Os olhos atrás das lentes finas eram linhas estreitas, o que fazia parecer que ele estava sorrindo o tempo todo. Ele era bem jovem — ainda não tinha trinta anos, na minha estimativa.
Sugou estendeu a mão para mim e disse: — Prazer em conhecê-lo. Sou Nobuyuki Sugou. Então você é o herói, Kirito.