
Volume 2 - Capítulo 12
Sword Art Online
Como se a onda de frio de ontem nunca tivesse acontecido, uma brisa quente roçava a grama. Atraídos pelo calor agradável, vários pássaros estavam empoleirados nas árvores do jardim, observando os humanos abaixo com aparente interesse.
Eles haviam movido uma grande mesa para o espaçoso pátio da frente da igreja de Sasha para uma festa de jardim fora de estação. Cada vez que a comida saía da grelha — como por mágica — as crianças comemoravam com alegria.
— E pensar que existia comida neste mundo que podia ser tão gostosa…
Thinker, o oficial de mais alta patente do Exército, devorava o churrasco especial de Asuna com uma expressão de pura felicidade. Yuriel sentava-se ao lado dele, radiante. No primeiro encontro, ela parecia uma guerreira fria como o gelo, mas sentada ao lado de Thinker, ela havia se transformado na imagem de uma jovem esposa alegre.
Eles não tiveram tempo de sentar e observar bem o Thinker com toda a comoção de ontem. Agora que ele estava sentado do outro lado da mesa, viram um homem gentil e de boa índole, bem diferente de sua posição de líder de uma enorme guilda militar.
Ele era apenas um pouco mais alto que Asuna, mas bem mais baixo que Yuriel. Sua constituição um pouco roliça estava vestida com roupas sem graça, e ele não usava nenhuma armadura. Yuriel também não estava com seu uniforme do Exército hoje.
Thinker ergueu seu copo vazio para aceitar a oferta de mais vinho de Kirito e inclinou a cabeça em agradecimento.
— Asuna, Kirito, vocês me fizeram um favor incrível. Eu nem sei como agradecer…
— Acredite em mim, eu recebi muita ajuda do MMO Today ao longo dos anos. — Kirito sorriu.
— É um nome que não ouço há séculos. — O rosto redondo de Thinker abriu um largo sorriso. — Na época, aquelas atualizações diárias eram um fardo enorme. Eu costumava pensar comigo mesmo, ‘Fazer um site de notícias não é essa moleza toda’ — mas eu trocaria em um segundo agora por administrar uma guilda. Eu deveria ter entrado no ramo de jornais de SAO.
A mesa ecoou em risadas.
— Então… o que aconteceu com o Exército? — perguntou Asuna. O sorriso de Thinker desapareceu.
— Kibaou e seus seguidores foram expulsos, algo que eu deveria ter feito há muito tempo… Minha aversão a confrontos deixou a situação sair do controle. Na verdade, estou pensando em dissolver o Exército por completo.
Os olhos de Asuna e Kirito se arregalaram. — Isso seria um passo e tanto.
— O Exército ficou grande demais para o seu próprio bem. Estou pensando em dissolvê-lo para poder construir uma organização mais pacífica e cooperativa. Afinal, seria irresponsável me livrar dele e simplesmente abandonar tudo pelo que trabalhamos.
Yuriel apertou a mão de Thinker e continuou por ele.
— Estamos pensando em redistribuir os recursos do Exército não apenas entre os membros, mas entre todas as pessoas aqui nesta cidade. Elas sofreram por nossa causa, afinal… Sinto muito pelo que aconteceu com você, Sasha.
Os grandes olhos de óculos de Sasha piscaram de surpresa com o pedido de desculpas repentino. Ela apressadamente acenou com as mãos em protesto.
— N-não, de forma alguma. As boas pessoas do Exército também ajudaram algumas das crianças no campo.
Sua aceitação fácil trouxe o calor de volta à mesa.
— A propósito, — Yuriel perguntou hesitante, — e a garota de ontem — Yui, era esse o nome…?
Asuna trocou um olhar com Kirito, depois sorriu de forma tranquilizadora. — Yui está… de volta em casa.
Ela levou a mão direita ao peito. Um colar fino brilhava em seu pescoço, um que não estava lá no dia anterior. Um pingente de prata pendia no centro de delicados elos de prata e, no centro desse pingente, havia uma grande pedra translúcida. Quando ela traçou o formato de lágrima, sentiu como se um leve calor fluísse para a ponta de seus dedos.
Depois que Yui desapareceu em meio àquelas pequenas luzes e Asuna choramingou contra o chão frio de pedra, Kirito de repente gritou ao seu lado.
— Cardinal!!
Ela ergueu o rosto lacrimejante e o encontrou gritando para o teto.
— Não pense que vai se safar de tudo sempre!
Kirito rangeu os dentes e saltou para o console preto no centro da sala, tocando no teclado holográfico que ainda estava visível acima da pedra. Por um instante, o choque a fez esquecer sua dor.
— K-Kirito… o que você está—?
— Talvez eu ainda consiga invadir o sistema usando a conta de GM, — ele murmurou, seus dedos se agitando descontroladamente. Uma grande janela se abriu, e a sala foi iluminada pelo brilho de um texto que passava rapidamente. Asuna observou em silêncio enquanto Kirito tentava vários comandos diferentes. Uma pequena barra de progresso apareceu, preenchendo-se da esquerda para a direita. Bem quando estava prestes a terminar—
O console de pedra inteiro brilhou com uma luz branca e fria, e Kirito foi jogado para trás enquanto uma explosão rasgava o ar.
— K-Kirito!!
Ela correu para ajudá-lo a se levantar.
Kirito sentou-se, balançando a cabeça, mas havia um leve sorriso em seu rosto exausto. Ele estendeu o punho direito para ela, bem fechado. Confusa, ela estendeu a palma da mão aberta.
Quando ele abriu o punho, um grande cristal em forma de lágrima caiu na mão de Asuna. Uma luz branca pulsava firmemente no centro da joia complexa e brilhante.
— O que é isso…?
— Antes que os privilégios de acesso que Yui usou para iniciar o console expirassem, consegui separar os arquivos de programa da Yui do sistema e materializá-los como um objeto no jogo. É o coração da Yui… Ela está bem aí dentro.
E como se sua força de vontade estivesse completamente esgotada, Kirito caiu de volta no chão e fechou os olhos. Asuna olhou de perto para a joia em sua mão.
— Eu sei que você está aí, Yui… minha doce e pequena Yui…
As lágrimas jorraram novamente. Como se para responder ao chamado de Asuna, a luz suave no centro do cristal pulsou uma vez, mais brilhante que o normal.
Depois de se despedirem com tristeza de Sasha, Yuriel, Thinker e as crianças, Asuna e Kirito atravessaram o portão de teletransporte para o vigésimo segundo andar, onde foram recebidos por um vento frio que trazia o cheiro da floresta. A jornada deles durou apenas três dias, mas quando Asuna respirou fundo, parecia que eles haviam partido há muito mais tempo.
Que mundo grande e vasto…
Ela ponderou sobre os mistérios deste estranho reino flutuante. Cada um dos andares virtualmente incontáveis tinha seus próprios residentes, rindo, chorando e seguindo com suas vidas. Bom, para ser justa, a maioria deles provavelmente estava sofrendo mais do que se divertindo. E ainda assim, eles continuavam suas próprias batalhas pessoais.
E onde é o meu lugar?
Asuna olhou para a base do andar de cima enquanto caminhavam penosamente pelo caminho de volta para casa.
Eu tenho que voltar para a linha de frente, ela percebeu de repente. Muito em breve, terei que empunhar minha espada novamente e voltar à batalha. Não sei quanto tempo vai levar, mas tenho que continuar lutando até ter terminado este mundo e trazido um sorriso de volta a cada pessoa viva neste jogo. Eu tenho que lhes trazer alegria… Era o que Yui queria.
— Ei, Kirito.
— Hmm?
— Se vencermos o jogo e este mundo desaparecer, o que acontece com a Yui?
— Boa pergunta… Provavelmente estou no limite do espaço de memória. Eu configurei a memória local do meu NerveGear para armazenar em cache uma parte dos dados do ambiente do programa cliente dentro da unidade. Provavelmente será complicado extraí-la de uma forma que seja reconhecível como Yui, mas… acho que vai dar certo.
— Ótimo.
Asuna se inclinou e abraçou Kirito.
— Então poderemos ver a Yui novamente no mundo real. Nossa primeiríssima filha.
— Sim. Tenho certeza que sim.
Asuna olhou para o cristal que brilhava entre eles. Boa sorte, mamãe, ela pensou ter ouvido fracamente.
(Fim)