
Volume 2 - Capítulo 10
Sword Art Online
Uma melodia suave fluía pela mente de Asuna enquanto ela cochilava na luz branca da manhã. Era seu alarme de despertar, uma melodia suave de oboé. Ela se deixou levar pela melodia familiar na leveza do sono. Com o tempo, cordas leves se juntaram à canção, clarinetes ecoaram a melodia principal, e um leve murmúrio começou…
Murmúrio?
Não era ela cantando junto. Asuna abriu os olhos.
A garota de cabelos pretos em seus braços, com os olhos ainda fechados, murmurava junto com o som do alarme de despertar de Asuna.
Ela não estava perdendo o ritmo. Mas isso era impossível. Asuna havia configurado seu alarme para ser audível apenas para si mesma, então não deveria ser possível para mais ninguém ouvir a música tocando dentro de sua cabeça.
Mas havia algo mais importante do que isso no momento.
— K-Kirito! Kirito, acorde! — Asuna chamou seu marido, que ainda dormia na outra cama. Eventualmente, ela o ouviu se levantar, murmurando sonolento.
— Bom dia… O que foi?
— Venha rápido!
As tábuas do assoalho rangeram. Kirito se inclinou sobre Asuna para espiar a cama. Seus olhos se arregalaram.
— S-sim.
Asuna balançou suavemente a garota em seus braços. — Acorde, querida… Abra seus olhos.
Os lábios da garota pararam de se mover. Seus longos cílios tremeram, e então seus olhos se abriram lentamente por completo.
Pupilas negras e úmidas fixaram-se diretamente nas de Asuna, bem de perto. Depois de piscar várias vezes, os lábios pálidos da garota começaram a se abrir.
— Ah… uh…
Sua voz era frágil e cristalina, como o tilintar de talheres delicados. Asuna a ajudou a se sentar.
— Graças a Deus você está acordada! Você sabe o que aconteceu com você?
A garota se calou por vários segundos, depois balançou a cabeça negativamente.
— Entendo… Qual é o seu nome? Consegue dizer?
— No… me… Meu… nome… — Ela inclinou a cabeça e uma mecha daquele cabelo preto brilhante caiu sobre sua bochecha. — Yu… i. Yui. Esse é… meu nome.
— Yui! Que nome bonito. Eu sou Asuna, e este é o Kirito.
Asuna virou a cabeça para indicar seu parceiro, e os olhos de Yui seguiram seu gesto. Ela alternou o olhar entre Asuna e Kirito, que estava se inclinando para ver mais de perto.
— A… una. Ki… to.
Seus lábios se moveram hesitantes, lutando com os sons. Asuna sentiu a ansiedade da noite anterior retornar. A garota parecia ter cerca de oito anos e, com base no tempo desde que ela devia ter se conectado, ela estaria na verdade mais perto dos dez agora. Mas a maneira hesitante como ela falava era mais parecida com a de uma criança aprendendo a falar.
— Yui, por que você estava sozinha no vigésimo segundo andar? Seu papai ou sua mamãe estão por perto?
Yui baixou os olhos e não disse nada. Após um momento de silêncio, ela balançou a cabeça.
— Eu não… sei. Eu não… sei de nada…
Eles a levaram para uma das cadeiras à mesa e lhe deram uma xícara de leite quente adoçado, que ela pegou com as duas mãos e começou a bebericar. Asuna puxou Kirito para o lado para conversar, verificando Yui com o canto do olho.
— O que você acha que devemos fazer, Kirito?
Ele mordeu o lábio, carrancudo enquanto pensava, e então finalmente baixou a cabeça.
— Parece que ela perdeu a memória. Mas o mais preocupante é a maneira como ela está agindo. Ela pode ter sofrido algum dano cerebral…
— É… eu estava pensando a mesma coisa.
— Droga! — Seu rosto se contorceu, como se estivesse à beira das lágrimas. — Eu já vi muitas coisas horríveis neste mundo… mas esta tem que ser a pior. É tão cruel…
Quando ela viu os olhos dele umedecidos, Asuna sentiu algo subir em seu peito. Ela o abraçou.
— Vai ficar tudo bem, Kirito. Tenho certeza de que podemos fazer algo para ajudá-la.
— …Sim. Sim, você tem razão…
Ele ergueu o olhar, colocou as mãos nos ombros dela e se aproximou da mesa. Asuna o seguiu. Kirito arrastou a outra cadeira para perto de Yui e sentou-se.
— Ei, Yui, querida. Tudo bem te chamar de Yui? — ele perguntou animadamente. Ela ergueu os olhos da xícara e assentiu.
— Ótimo. Então você pode me chamar de Kirito.
— Ki… to.
— É Kirito. Ki-ri-to.
— …
Yui franziu o rosto em concentração silenciosa.
— …Kiito.
Ele sorriu e deu um tapinha na cabeça dela.
— Acho que é um pouco difícil de dizer. Você pode me chamar do que quiser. O que for mais fácil para você.
Yui ficou em profundo pensamento. Asuna pegou sua xícara vazia, reabasteceu com mais leite e a colocou de volta na mesa, mas Yui ainda não havia se movido.
Com o tempo, ela levantou lentamente a cabeça para olhar para Kirito e falou hesitante.
— …Papai.
Ela se virou para Asuna.
— Auna é… mamãe.
Asuna estremeceu inconscientemente. Não estava claro se Yui os havia confundido com seus pais de verdade ou se estava simplesmente buscando esses papéis na coisa mais próxima que podia encontrar em Aincrad, mas Asuna não estava pensando nisso. Ela tentou desesperadamente conter as emoções que brotavam dentro dela.
— Isso mesmo… é a Mamãe, Yui-chan — disse ela, radiante.
Yui finalmente exibiu o primeiro sorriso. Aqueles olhos inexpressivos finalmente brilharam sob sua franja reta e, por um instante, ela foi como uma boneca que ganhou vida.
— Mamãe!
O coração de Asuna palpitou quando viu a pequena mão estendida em sua direção.
— Uhk…
Ela mal conseguiu reprimir o soluço que ameaçava sair de sua garganta, mas conseguiu manter o sorriso. Asuna levantou Yui da cadeira e apertou a menina contra o peito, sentindo uma lágrima de muitas emoções misturadas brotar e escorrer por sua bochecha.
Depois de outra caneca de leite quente e um pãozinho, Yui aparentemente estava cansada de novo. Sua cabeça começou a balançar para frente e para trás, exausta.
Asuna observava Yui do outro lado da mesa, enxugando os olhos. Ela se virou para Kirito.
— Eu… eu…
Ela não conseguia colocar seus sentimentos em palavras.
— Me desculpe. Eu só… não sei o que fazer…
Kirito olhou para ela com simpatia por um tempo. Eventualmente, ele disse: — Você quer ficar aqui e cuidar dela até que ela recupere a memória, certo? Eu sei como você se sente — eu me sinto da mesma maneira. Mas é um dilema real… Isso só significa que vai demorar muito mais para podermos voltar a avançar no jogo, o que significa que vai demorar muito mais para ela ser libertada desta prisão.
— Sim… esse é um bom ponto.
O nível de Asuna era uma coisa, mas Kirito era, sem exagero, uma das forças mais poderosas para o avanço do jogo. Como jogador solo, ele havia contribuído com mais mapeamento de labirintos do que várias guildas importantes juntas. A lua de mel deles deveria durar apenas algumas semanas, mas Asuna não conseguia se livrar de um sentimento de culpa por estar monopolizando Kirito por tanto tempo.
— Devemos começar fazendo o que podemos — disse Kirito, observando Yui enquanto ela começava a cochilar. — Iremos para a Cidade dos Inícios para ver se seus pais ou irmãos estão por perto. Ela é obviamente bem única dentro do jogo, então se alguém a conhecer, devemos ser capazes de encontrá-los.
— …
A ideia dele era sensata. Mas Asuna percebeu, com um sobressalto, que não queria deixar aquela garotinha. Ela sonhara com essa vida a sós com Kirito por tanto tempo, mas de alguma forma, ela não tinha resistência em aumentar esse número para três. Era quase como se Yui fosse filha deles. Quando Asuna pensou no que isso significava, ela ficou vermelha até as orelhas.
— …? O que foi?
— N-nada!! — Ela balançou a cabeça furiosamente. — D-de qualquer forma, devemos visitar a Cidade dos Inícios quando Yui acordar. Podemos colocar um anúncio na seção de classificados do jornal também.
Asuna falou rapidamente, limpando a mesa enquanto evitava propositadamente olhar para Kirito. Yui agora dormia profundamente em sua cadeira, mas em comparação com a noite anterior, seu rosto adormecido de alguma forma parecia estar em paz.
Eles moveram Yui para a cama, onde ela dormiu pelo resto da manhã. Asuna começou a se preocupar que ela pudesse ter caído em outro estado comatoso, mas a garotinha acordou novamente assim que o almoço estava sendo preparado.
Asuna assou uma torta de frutas — não um de seus pratos habituais — só para Yui, mas ela parecia mais interessada no sanduíche coberto de mostarda que Kirito estava devorando.
— Você tem certeza, Yui? É bem picante.
— Uhh! Eu quero a mesma coisa que o Papai.
— Bem, se você está pronta para isso, vá em frente. É importante experimentar coisas novas.
Kirito entregou um sanduíche a Yui, e ela abriu sua pequena boca o mais largo possível para dar uma mordida enorme. Eles a observaram de perto. Yui mastigou, com uma expressão de concentração severa no rosto, depois engoliu e sorriu.
— Gostoso.
— Você tem coragem! — Kirito riu e afagou sua cabeça. — Teremos que ir com um prato principal ultra-picante para o jantar hoje à noite.
— Não vamos nos empolgar! Isso não está no cardápio.
Mas se eles encontrassem o guardião de Yui na Cidade dos Inícios, eles estariam sozinhos novamente quando voltassem. Asuna sentiu a solidão tocar seu coração mais uma vez.
Yui ajudou a terminar o resto dos sanduíches e estava feliz bebendo chá com leite quando Asuna lhe perguntou: — Quer fazer um passeio lá fora esta tarde, Yui?
— Passeio?
Ela parecia confusa. Kirito considerou a melhor maneira de explicar.
— Vamos procurar seus amigos, Yui.
— O que são… amigos?
Kirito e Asuna se entreolharam. Muitas coisas sobre a “condição” de Yui eram um mistério. Não era tanto que sua idade mental tivesse regredido de alguma forma, mas que sua memória havia desaparecido em alguns pontos.
Para consertar isso, a melhor solução seria encontrar seu verdadeiro guardião, alguém que pudesse cuidar dela, disse Asuna a si mesma.
— Um amigo é alguém que vai te ajudar, Yui. Vamos, vamos nos preparar.
Yui parecia cética, mas assentiu e levantou-se obedientemente.
O vestido branco de mangas bufantes que ela usava era feito de um material transparente, nem de perto apropriado para o clima de início de inverno lá fora. Sentir frio não faria você pegar uma gripe ou sofrer dano — embora não houvesse garantias se você corresse nu pela neve — mas certamente era desagradável.
Asuna percorreu seu inventário e pegou itens de roupa grossa, depois encontrou um suéter que servia na garotinha. De repente, ela parou.
Para vestir equipamentos e roupas, você precisava anexá-los ao manequim no seu menu de status. SAO tinha dificuldade em modelar objetos macios como tecidos e líquidos, então as roupas eram tratadas menos como objetos distintos para interagir e mais como uma extensão do corpo do jogador.
Kirito percebeu a hesitação de Asuna e perguntou diretamente a Yui.
— Você pode abrir sua janela, Yui?
Como suspeitavam, ela apenas olhou para eles, sem entender.
— Ok, apenas deslize seu dedo para baixo no ar. Assim. — Kirito moveu o dedo e uma janela roxa retangular apareceu sob sua mão. Yui imitou desajeitadamente sua ação, mas nada aconteceu.
— Era o que eu temia. O sistema deve estar com algum bug. E que bug terrivelmente fatal, não poder verificar seu status. Você não pode fazer nada.
Kirito mordeu o lábio. Yui estava agitando o dedo indicador direito sem sucesso, então tentou com a mão esquerda. Uma janela roxa brilhante apareceu imediatamente.
— Aí está!
Yui riu de alegria, enquanto Asuna e Kirito trocaram um olhar chocado por cima da cabeça dela. O que estava acontecendo?
— Posso dar uma olhada, Yui?
Asuna se agachou para olhar a janela dela, mas a tela de status era visível apenas para a própria jogadora por padrão, então havia apenas uma tela roxa em branco ali.
— Aqui, deixe-me ver sua mão. — Asuna pegou a pequena mão de Yui e moveu o dedo indicador dela sobre o local onde ela achava que se lembrava que a caixa de seleção do modo de visibilidade estaria.
Sua mira foi certeira, pois informações de aparência familiar surgiram abruptamente na janela com um bipe. Apesar da situação, era incrivelmente rude dar uma espiada na tela de status de outra pessoa, então Asuna fez o possível para não olhar para nada além da lista de itens de Yui.
— O-o que é isso?! — ela exclamou surpresa enquanto seus olhos percorriam a janela.
A tela superior do menu de um jogador em SAO é dividida em três áreas básicas. No topo está o nome do jogador no alfabeto inglês e duas barras finas representando HP e EXP. A metade direita da tela abaixo disso é o manequim exibindo o equipamento do jogador. A metade esquerda da tela é uma lista de botões de comando. Os ícones podem ser personalizados a partir de inúmeros designs de amostra, mas o layout básico é imutável.
Mas por alguma razão, o topo do menu de Yui apenas apresentava o nome sinistro “Yui-MHCP001”, sem indicadores de HP, EXP, ou mesmo nível. Havia um manequim de equipamento, mas apenas dois botões no lado esquerdo: ITENS e OPÇÕES.
Kirito notou que Asuna congelou e se aproximou para ver por si mesmo, depois prendeu a respiração. Yui parecia não ter ideia do significado de seu menu, e ela olhava para os dois com curiosidade.
— Isso poderia ser… outro bug do sistema? — Asuna se perguntou, mas Kirito resmungou no fundo da garganta.
— Eu não sei… Isso parece menos um bug do que algo que foi projetado para ser assim. Droga! Acho que nunca fiquei tão frustrado por não haver GMs por perto.
— Eu nunca nem pensei em querer um GM, já que SAO mal tem lag, muito menos bugs importantes. Acho que não adianta quebrar a cabeça com isso…
Asuna desistiu e moveu o dedo de Yui para tocar o botão ITENS. Ela colocou o suéter na superfície da janela e ele brilhou por um segundo antes de desaparecer na lista de inventário. Assim que apareceu lá, Asuna arrastou o nome para a figura do equipamento na janela.
Com um som de sino, o corpo de Yui brilhou por um instante, e ela de repente estava vestindo um suéter rosa claro.
Seu rosto brilhou. Ela estendeu os braços e se examinou. Asuna então adicionou uma saia da mesma cor, meias pretas e sapatos vermelhos, antes de devolver o vestido original de Yui para a janela.
Yui estava radiante com sua nova roupa, esfregando a bochecha no tecido macio do suéter e puxando a barra da saia.
— Bem, vamos?
— Papai, me carrega.
Ela ergueu as mãos, e Kirito a pegou com um braço ao redor de sua cintura, sorrindo timidamente. Ele olhou para sua esposa.
— Asuna, certifique-se de estar preparada com seu equipamento regular caso algo aconteça. Estaremos na cidade, mas é território do Exército.
— Sim… não podemos ser descuidados demais.
Asuna assentiu e verificou rapidamente seu próprio inventário, depois se levantou com Kirito e foi para a porta. Ela realmente esperava que eles encontrassem quem quer que fosse responsável pela garota, mas também estava com medo de se despedir dela por algum motivo. Eles a haviam encontrado há apenas um dia, mas de alguma forma, nesse curto período, a garota havia monopolizado todas as partes ternas do coração de Asuna.
Fazia vários meses desde a última visita deles à Cidade dos Inícios, no primeiro andar de Aincrad.
Asuna saiu do portão de teletransporte e parou, olhando ao redor com um coração conflituoso para a praça maciça e seus edifícios.
Esta era a maior cidade de Aincrad, é claro, e tinha mais recursos necessários para a aventura do que qualquer outro lugar no jogo. Os preços eram baratos e a hospedagem era abundante, o que tornava este o local mais eficiente para uma cidade natal.
Mas, até onde Asuna sabia, nenhum de seus conhecidos de alto nível ainda frequentava a Cidade dos Inícios. A presença do Exército era uma razão para isso, mas a maior devia ser a memória daquele momento — quando todos estavam nesta praça, olhando para aquele teto.
Asuna Yuuki nascera de um empresário e uma acadêmica, e cresceu com as esperanças deles firmemente impressas em sua mente desde que se lembrava. Ambos os pais eram resolutos e duros consigo mesmos, e embora fossem gentis com Asuna, ela tinha pavor de como reagiriam se ela os decepcionasse de alguma forma.
Deve ter sido o mesmo para o irmão dela. Asuna e seu irmão mais velho frequentaram a escola particular que seus pais escolheram, nunca se meteram em problemas e mantiveram as melhores notas. Depois que seu irmão saiu de casa para a faculdade, Asuna dedicou sua vida inteira a realizar as esperanças de sua família. Ela treinou em várias disciplinas e só passava tempo com amigos que seus pais aceitavam. Com o tempo, no entanto, Asuna começou a sentir como se seu mundo fosse minúsculo e comprimido. Parecia que tudo estava afunilado em um único caminho estreito: o ensino médio que seus pais escolheram, a faculdade que seus pais escolheram, o parceiro de casamento que seus pais escolheram. Ela ficou apavorada com a ideia de ser enfiada dentro de uma concha incrivelmente pequena e resistente, para nunca escapar daquela prisão.
Seu irmão voltou para casa e conseguiu um emprego na empresa de seu pai. Ele usou seus contatos para conseguir um NerveGear e uma cópia de SAO, seus olhos brilhando enquanto ele falava com entusiasmo sobre o primeiro VRMMO do mundo. Asuna nunca tinha sequer tocado em um videogame antes, mas suas descrições de um novo mundo misterioso despertaram algo dentro dela.
Claro, se ele simplesmente o tivesse guardado em seu quarto para seu próprio uso, ela teria esquecido completamente do NerveGear. Mas o momento foi ruim; ele estaria no exterior a trabalho no dia do lançamento de Sword Art Online, então, por um capricho repentino, Asuna pediu para pegar o jogo emprestado por um dia. Tudo o que ela queria era ver um mundo diferente daquele em que vivia…
E tudo mudou.
Ela ainda se lembrava vividamente da emoção quando passou de Asuna, a estudante, para Asuna, a aventureira, descendo para uma cidade desconhecida cheia de pessoas desconhecidas.
Mas logo depois, quando o deus vazio que pairava sobre suas cabeças anunciou que aquilo havia se tornado um jogo de morte inescapável, a primeira coisa em que Asuna pensou foi em sua lição de matemática inacabada.
Eu tenho que voltar e terminar isso, ou minha professora vai me repreender amanhã. Seria uma mancha inaceitável na vida de Asuna. A verdadeira gravidade de sua situação ia muito além disso, é claro.
Uma semana, duas semanas — os dias se passaram impiedosamente sem qualquer salvação do exterior. Asuna se enfiou em um quarto de pousada na Cidade dos Inícios, encolhida em sua cama, atormentada pelo pânico. Às vezes, ela gritava e batia nas paredes. Era o inverno de seu terceiro e último ano do ensino fundamental. Haveria provas em breve, e depois um novo período. Sair do curso agora significava o fim de sua vida como ela a conhecia.
A vida cotidiana de Asuna mergulhou na loucura, até que ela chegou a uma certeza profunda e sombria:
Seus pais não estariam preocupados com o bem-estar de sua filha; eles estariam terrivelmente desapontados por ela ter falhado em seus exames, tudo por causa de um estúpido videogame. Seus amigos lamentariam sua situação, depois teriam pena de seu fracasso e, eventualmente, a usariam como motivo de piada.
Quando essas emoções sombrias atingiram seu ponto de saturação, Asuna finalmente tomou uma decisão firme e deixou seu quarto. Ela não esperaria por resgate. Ela escaparia por conta própria. Ela seria a heroína que conquistaria a crise. Era a única maneira de reparar os laços que uniam as pessoas ao seu redor.
Asuna organizou seu equipamento, memorizou todo o manual de ajuda e partiu para a natureza selvagem. Ela dormia apenas duas ou três horas por dia, dedicando o resto desse tempo para subir de nível. Ela aplicou toda a sua inteligência e força de vontade à tarefa, e não demorou muito para que ela estivesse entre os melhores jogadores do jogo. Este foi o nascimento de Asuna, a Lâmina Veloz, a guerreira louca.
Agora, dois anos depois, Asuna tinha dezessete anos e pensava em seu antigo eu com um desconforto agudo: não apenas seu estado de desânimo logo após ser presa no jogo, mas a vida dolorosamente comprimida que ela levara antes disso. As memórias trouxeram consigo um monte de autopiedade.
Ela não sabia o que “viver” realmente significava. Ela estava sacrificando sua vida presente por um futuro que ela achava que deveria ter. Para ela, o “agora” não passava de um passo em direção àquele futuro adequado e, uma vez que cada momento passava, transformava-se em nada.
A lição que ela aprendeu ao observar SAO era simples: era inútil ter um sem os outros.
Aqueles que apenas se esforçavam pelo futuro enlouqueciam avançando no jogo, da maneira que ela fez um dia. Aqueles que se apegavam ao passado se escondiam em suas pousadas no primeiro andar. Aqueles que apenas viviam no presente buscavam emoções baratas, às vezes recorrendo ao crime.
Mas mesmo neste mundo, havia algumas pessoas que podiam aproveitar o presente, lembrar o passado e trabalhar para uma eventual fuga. Foi um espadachim de cabelos pretos que lhe ensinou isso, um ano antes. Assim que ela percebeu que queria viver como ele, a vida de Asuna ganhou cor de verdade.
Agora ela estava equipada para quebrar aquela casca dura que o mundo real continha. Ela sentia que estava pronta para viver para si mesma — contanto que estivesse ao lado dele…
Asuna se inclinou para mais perto de Kirito, que ela tinha certeza que sentia sua própria variedade de emoções conflitantes ao ver a cidade. Quando ela olhou para a tampa de pedra sinistra acima deles novamente, a dor era apenas uma sombra do que já foi.
Asuna balançou a cabeça para limpar as teias de aranha dolorosas, depois olhou para Yui, que ainda estava aninhada nos braços de Kirito.
— Yui, você reconhece algum desses prédios?
— Umm…
Yui se concentrou nos prédios de pedra que ladeavam a praça aberta e balançou a cabeça.
— Não sei…
— Bem, a Cidade dos Inícios é uma cidade gigantesca — ofereceu Kirito tranquilizando-a, dando um tapinha em sua cabeça. — Se continuarmos andando por aí, talvez ela se lembre de algo. Vamos dar uma olhada no mercado central por enquanto.
— Boa ideia.
Eles assentiram juntos e seguiram para a avenida principal que corria para o sul.
Enquanto caminhavam, Asuna deu uma olhada crítica ao redor da praça. Ela ficou surpresa ao ver como havia poucas pessoas.
A praça do portão de teletransporte na Cidade dos Inícios era enorme, grande o suficiente para abrigar todos os dez mil jogadores quando os servidores abriram dois anos atrás. Era um círculo perfeito de inúmeras pedras de pavimentação com uma grande torre do relógio pairando sobre o centro e o portão de teletransporte azul ondulante abaixo dela. Ao redor da torre havia uma série de canteiros de flores estreitos e concêntricos, ladeados por um banco branco pitoresco ocasional. Era o lugar perfeito para os jogadores desfrutarem de um breve descanso à tarde em um dia tão lindo, mas todas as pessoas visíveis daqui estavam indo para o portão ou para as saídas da praça, e praticamente nenhuma estava parando ou sentada nos bancos.
As praças de teletransporte das cidades maiores perto do topo de Aincrad estavam sempre cheias de atividade de jogadores. Entre os tagarelas, os recrutadores de grupos, as simples barracas de rua e os vadios, às vezes era difícil até mesmo sair para a cidade.
— Ei, Kirito.
— Hmm? — Ele se virou para olhá-la.
— Quantos jogadores você supõe que estão aqui agora?
— Boa pergunta… há cerca de seis mil sobreviventes, e cerca de trinta por cento deles estão na Cidade dos Inícios, incluindo o Exército. Então, talvez um pouco menos de dois mil?
— Você não acha que parece terrivelmente quieto por aqui para isso?
— Agora que você mencionou… Talvez estejam todos no mercado?
Mas mesmo depois de descerem a rua da praça em direção à área do mercado, onde lojas e barracas se alinhavam no caminho, a cidade estava relativamente vazia. Os gritos enérgicos dos lojistas NPCs ecoavam desoladoramente nas paredes de pedra.
Asuna avistou um homem sentado sob uma grande árvore no meio da avenida e o chamou.
— Hum, com licença.
Ele estava olhando para os galhos acima com um olhar estranhamente sério e respondeu, irritado, de onde estava, em vez de se virar para olhá-la.
— O que você quer?
— Hum… existe algum tipo de centro por aqui para encontrar ou anunciar pessoas perdidas?
O homem finalmente voltou seu olhar para Asuna. Ele a encarou de frente, seus olhos brilhando.
— O que você é, uma forasteira?
— S-sim. Estamos procurando o guardião desta menina. — Ela apontou para Yui, que cochilava levemente nos braços de Kirito.
O homem usava uma túnica de pano simples que tornava difícil discernir sua classe. Seus olhos se arregalaram quando viu Yui, mas logo se fixaram nos galhos acima novamente.
— Criança perdida? Não vejo muitas dessas. Há um monte de crianças reunidas na igreja perto do rio no setor E-7. Tente lá.
— O-obrigada.
Asuna fez uma breve reverência, surpresa por ter conseguido obter alguma informação útil do encontro. De repente, ela se sentiu encorajada a fazer outra pergunta.
— Hum… o que exatamente você está fazendo? E por que a cidade está tão vazia?
Ele fez uma careta, mas seu tom de voz sugeria que ele não se importava em responder.
— Segredo da empresa, você poderia dizer. Mas como vocês são forasteiros… por que não? Vê aquele galho alto lá em cima?
Asuna seguiu seu dedo apontando. Os galhos da grande árvore explodiam em folhas de outono, mas, após um exame mais atento, havia pequenos frutos dourados crescendo aqui e ali.
— As árvores decorativas da cidade são objetos indestrutíveis, é claro, então mesmo se você subir lá, não pode colher a fruta — ou uma única folha, para esse assunto. — Ele continuou. — Algumas vezes por dia, um desses frutos cai. Ele apodrece e desaparece em poucos minutos, mas se você o pegar antes disso, pode vendê-lo aos NPCs por uma boa grana. O gosto também é bom.
— Oooh.
Asuna havia dominado sua habilidade de Culinária, então o tópico de ingredientes alimentícios despertou seu interesse. — Por quanto eles vendem?
— Promete que não vai contar a ninguém…? Cinco col cada um.
— …
Asuna ficou pasma em silêncio com o olhar satisfeito em seu rosto. Ela não podia acreditar em quão insignificante era a quantia, completamente desproporcional à quantidade de trabalho que era necessário para vigiar esta árvore o dia todo.
— Hum… isso não parece valer a pena… quero dizer, apenas um único verme na selva lhe renderá trinta col.
Agora os olhos do homem realmente se arregalaram. Ele olhou para Asuna como se ela tivesse que ser louca.
— O quê, você está falando sério? Se eu sair para lutar contra monstros, eu poderia morrer!
— …
Asuna não teve resposta. Ele estava certo: lutar contra monstros poderia te matar. Mas de sua perspectiva atual, ele poderia muito bem estar argumentando que nunca se deve andar na calçada, por causa do perigo de ser atropelado por um carro. Era permitir que o medo controlasse sua vida.
Ela estava apenas insensível ao perigo de morrer dentro de SAO, ou era o homem que era excessivamente medroso? No momento, Asuna não tinha certeza. Talvez não houvesse uma resposta “correta” entre os dois. No entanto, sua lógica era provavelmente a opinião predominante aqui na Cidade dos Inícios.
Ele continuou, alheio ao conflito interno de Asuna. — Qual era a outra pergunta mesmo? Por que não há ninguém aqui? Eles ainda estão aqui; eles estão apenas em seus quartos de pousada. Você pode encontrar os coletores de impostos do Exército durante o dia, afinal de contas.
— I-impostos…? O que é isso?
— É um assalto com um nome chique. Cuidado; eles não hesitarão em ir atrás de forasteiros. Espere, um está prestes a cair! Acabei de falar aqui…
Ele se calou, concentrando-se furiosamente. Asuna fez uma reverência em agradecimento, depois percebeu que Kirito não havia dito uma palavra durante toda a conversa.
Ela se virou e o encontrou focado intensamente na fruta amarela, seus olhos estreitados como se estivesse se preparando para a batalha. Ele estava claramente pronto para agarrar a fruta antes que ela caísse no chão.
— Pare com isso!
— M-mas estou curioso.
Asuna o agarrou pela parte de trás de seu colarinho e o arrastou para longe.
— Aww… mas parecem tão saborosos — lamentou ele. Desta vez, ela puxou sua orelha para forçar seu olhar para longe.
— Foco! Onde fica o setor E-7? Ele disse que havia um monte de jogadores jovens na igreja de lá, então vamos dar uma olhada.
— …Tudo beeeem.
Asuna pegou Yui, agora completamente apagada, e acompanhou o ritmo de Kirito enquanto ele se afastava, verificando seu mapa. Yui era do tamanho de uma menina de dez anos, então no mundo real, os braços de Asuna cederiam em poucos minutos, mas graças ao seu status de força, carregar a menina era como carregar um travesseiro de penas.
Eles continuaram para sudeste pelas ruas largas e vazias por mais de dez minutos até chegarem a uma área espaçosa semelhante a um jardim. Árvores coloridas e frondosas assobiavam melancolicamente na brisa fria do início do inverno.
— De acordo com o mapa, aqui é E-7… então onde fica essa igreja?
— É aquilo ali?
Asuna inclinou a cabeça para indicar uma torre alta do outro lado do bosque de árvores no lado direito do caminho. Um ankh metálico feito de uma cruz circulada brilhava sobre as telhas azul-acinzentadas do telhado. Definitivamente era uma igreja. Havia pelo menos uma em cada cidade, e o altar interno oferecia algumas vantagens especiais, como desfazer maldições infligidas por monstros ou abençoar armas para causar dano extra aos mortos-vivos. A magia era quase inexistente em Sword Art Online, então as igrejas eram os lugares mais misteriosos e sobrenaturais do jogo. Com oferendas regulares suficientes, algumas igrejas permitiam o uso de um quarto, funcionando como hotéis de fato.
— Espere um minuto — Asuna chamou Kirito enquanto ele começava a se dirigir para a igreja.
— Hã? O que foi?
— Hum… eu só… quero ter certeza. Se encontrarmos o guardião de Yui aqui, vamos… deixá-la para trás?
— …
Os olhos negros de Kirito estavam suaves de preocupação. Ele se aproximou e envolveu Asuna e a Yui adormecida em seus braços.
— Eu também não quero me despedir dela. Quando ela estava conosco, era quase como se… aquela casinha na floresta fosse um lar de verdade. Eu senti isso também… Mas não é como se nunca mais a víssemos. Se Yui recuperar a memória, tenho certeza de que ela virá nos visitar.
— Hmm… suponho que sim.
Asuna assentiu brevemente, esfregou a bochecha em Yui e se preparou para o que tinha que ser feito.
A igreja era pequena em comparação com a escala da própria cidade. Tinha dois andares e apenas um campanário. Havia várias igrejas na Cidade dos Inícios, e a mais próxima da praça de teletransporte era quase do tamanho de um pequeno solar de castelo.
Asuna empurrou uma das grandes portas duplas com a mão livre. Era uma instalação pública, então não estava trancada. O interior da igreja estava escuro, com apenas a luz das velas no altar à frente brilhando fracamente no chão de pedra. À primeira vista, não havia mais ninguém lá dentro.
Asuna se inclinou na entrada e chamou: — Há alguém aqui?
Sua voz ecoou e se dissipou, mas ninguém respondeu.
— Acho que está vazio…
Mas Kirito discordou, sua voz baixa. — Não, há pessoas aqui. Três na sala da direita, quatro na da esquerda. Um casal no andar de cima também.
— Quão alto você precisa ter sua habilidade de Busca para detectar o número de pessoas atrás das paredes?
— Quando você chega a cerca de novecentos e oitenta. É útil; você deveria chegar lá.
— De jeito nenhum — é tão chato de aumentar, eu enlouqueceria… De qualquer forma, por que você acha que eles estão se escondendo?
Asuna entrou cautelosamente na igreja. O prédio estava em silêncio mortal, mas ela sentia como se pudesse ouvir pessoas prendendo a respiração.
— Hum, com licença! Estamos procurando por alguém! — ela chamou, mais alto desta vez. A porta da direita se abriu uma fresta, e uma voz feminina frágil emergiu.
— Vocês não são… do Exército?
— Não, não sou. Eu desci de um andar superior.
Asuna e Kirito nem sequer estavam com suas espadas, muito menos qualquer armadura de batalha. Os membros do exército usavam seu uniforme de armadura pesada o tempo todo, então um simples olhar provaria a essas pessoas que eles não tinham relação.
Eventualmente, a porta se abriu por completo, e uma única jogadora apareceu reluctantemente.
Ela tinha cabelos curtos e azul-escuros, e os olhos verdes por trás de seus grandes óculos de armação preta estavam arregalados de medo. Ela usava um vestido azul-marinho simples e segurava uma pequena adaga na mão, ainda embainhada.
— Vocês realmente… não são os coletores de impostos do Exército…?
Asuna sorriu e assentiu para tranquilizar a mulher.
— Isso mesmo. Acabamos de chegar aqui hoje de cima, porque estamos procurando por alguém. Não temos nada a ver com o Exército.
— De cima? Isso significa que vocês são guerreiros de verdade?
Uma voz aguda e juvenil ecoou de trás da mulher. A porta se abriu completamente e várias pessoas saíram correndo. A porta à esquerda do altar se abriu e mais figuras emergiram.
Asuna e Kirito observaram em silêncio, surpresos, enquanto o grupo de jovens jogadores, não mais do que meninos e meninas, corria para se alinhar de cada lado da mulher de óculos. Eles pareciam ter entre doze e catorze anos e estavam claramente fascinados com a visão desses novos visitantes.
— O que eu disse a vocês? Fiquem escondidos nos quartos dos fundos! — gritou a mulher, que parecia ter cerca de vinte anos. Ela tentou afastar as crianças, mas nenhuma delas deu a menor atenção ao seu comando.
Quase imediatamente, uma das primeiras crianças a aparecer — um menino com cabelo curto e espetado — expressou sua decepção com os visitantes.
— Que diabos? Vocês nem têm espadas. Vocês realmente vieram de cima? Você não tem uma espada? — Ele dirigiu o final de seu desafio a Kirito.
— B-bem, sim, eu tenho, mas… — Kirito respondeu hesitantemente, e os rostos das crianças se iluminaram novamente. — Mostre pra gente, mostre pra gente — eles exigiram.
— Ei! Não sejam rudes com pessoas que vocês nunca viram antes — Sinto muito, eles não estão acostumados com visitantes como estes…
A mulher se curvou tão apologeticamente que Asuna teve que correr para tranquilizá-la. — Não, está tudo bem. Você tem algumas armas guardadas no seu inventário, certo, Kirito? Por que não mostra a eles?
— Hum, ok. — Ele assentiu e abriu sua janela, seus dedos piscando. Cerca de dez armas diferentes se materializaram por sua vez, empilhando-se no banco ao lado dele. Eram armas que ele havia saqueado de monstros recentemente e simplesmente não teve tempo de vender por dinheiro ainda.
Kirito produziu todos os itens extras em seu inventário que não eram peças de equipamento já em uso, depois permitiu que as crianças animadas se aproximassem e vissem. Elas pegaram espadas e maças, exclamando sobre o peso e o fator “legal” de cada uma. Era uma visão de fazer qualquer pai protetor desmaiar, mas na zona segura da cidade, eles não podiam se machucar com as lâminas.
— Eu sinto muito por isso — disse a mulher com clara preocupação, mas o deleite das crianças trouxe um sorriso ao seu rosto. — Por favor, venham por aqui. Vou preparar um chá…
Ela levou Asuna e Kirito para a pequena sala do lado direito da capela e serviu a cada um uma xícara de chá quente e relaxante.
— Agora, você disse que estava procurando por alguém? — a mulher de óculos perguntou, sentada na cadeira em frente a eles.
— Ah, sim. Hum… primeiro de tudo, eu sou Asuna, e este é Kirito.
— Oh! Sinto muito; eu não me apresentei. Meu nome é Sasha. — Eles se curvaram um para o outro.
— E esta é Yui — continuou Asuna, acariciando o cabelo de Yui enquanto ela dormia em seu colo. — Nós a encontramos perdida no vigésimo segundo andar. Ela parece estar… com amnésia…
— Oh, céus. — Os olhos verdes profundos de Sasha se arregalaram por trás dos óculos.
— Ela não tinha equipamento ou itens além das roupas que usava, e era difícil imaginar que ela estivesse morando em um andar superior, então decidimos vir à Cidade dos Inícios para procurar por seus pais ou guardião — qualquer um que pudesse conhecê-la. Recebemos a informação de que havia muitas crianças morando aqui nesta igreja, então aqui estamos.
— Ah, entendo…
O olhar de Sasha caiu para a mesa, suas mãos embalando sua xícara de chá.
— Há cerca de vinte crianças morando nesta igreja, da idade do ensino fundamental ao médio. Acho que são basicamente todas as crianças desta cidade no momento. Quando o jogo começou…
Sua voz era fina, mas ela falava com firmeza.
— Quase todas as crianças da idade deles entraram em pânico e sofreram um verdadeiro trauma mental com a experiência. Algumas delas se aventuraram para fora da cidade para enfrentar o jogo, mas acho que foram uma exceção à regra.
Asuna estava em seu último ano do ensino fundamental quando isso aconteceu, e ela havia experimentado o que Sasha estava descrevendo. Ela sabia que nos dias de solidão trancada em seu quarto de pousada, ela esteve perigosamente perto de um colapso mental total.
— É natural. Eles ainda estão em uma idade em que querem contar com a proteção de seus pais, mas então lhes dizem que não podem sair e podem nunca mais voltar ao mundo real. Essas crianças caíram em um estado de desânimo. Algumas delas até… cortaram suas conexões.
A boca de Sasha se torceu bruscamente.
— Durante o primeiro mês após o início do jogo, eu estava no mundo, subindo de nível para ajudar a vencer o jogo… mas um dia, vi um desses garotos em uma esquina da cidade. Eu simplesmente não podia deixá-lo se virar sozinho, então o trouxe para morar no meu quarto de pousada alugado comigo. Depois que comecei isso, não conseguia parar de pensar em outras crianças em sua situação, então andei pela cidade tentando reunir todas as crianças que pude encontrar. Quando vi, estava fazendo isso aqui mesmo. Vendo pessoas como vocês, que estão lutando por todos nós lá em cima… sinto vergonha de ter desistido da nossa missão.
— Não… não!
Asuna balançou a cabeça, procurando desesperadamente as palavras certas, mas elas ficaram presas em sua garganta. Felizmente, Kirito completou o pensamento para ela.
— Isso não é verdade de forma alguma. Você está lutando à sua maneira, Sasha… e muito mais bravamente do que eu.
— Obrigada. Mas não estou fazendo isso por um sentimento de dever. É muito divertido viver com as crianças. — Sasha sorriu, depois olhou para a Yui adormecida com preocupação.
— De qualquer forma, nos últimos dois anos, pegamos uma única área da cidade a cada dia e vasculhamos cada prédio de lá, procurando por crianças necessitadas. Tenho certeza de que teria notado uma menina tão pequena. Lamento desapontá-la… mas não acho que ela estivesse morando aqui.
— Entendo — murmurou Asuna, depois apertou Yui novamente. Ela se recompôs para olhar no rosto de Sasha. — Hum, não quero ser intrometida, mas como você está ganhando dinheiro suficiente para sobreviver a cada dia?
— Ah. Bem, não sou a única. Há algumas crianças mais velhas que estão trabalhando para proteger este lugar, e elas estão em um nível alto o suficiente para estarem absolutamente seguras nos campos fora da cidade. Elas garantem que tenhamos dinheiro suficiente para comer. Só não é uma quantia muito extravagante.
— Isso é esplêndido, no entanto. Com base no que ouvimos antes, parece que as pessoas por aqui consideram caçar monstros na selva um suicídio, — disse Kirito.
Sasha assentiu. — Acredito que praticamente todos os que restam na Cidade dos Inícios sentem o mesmo. Não posso culpá-los — é absolutamente verdade que o risco de morte está lá fora. Mas, em comparação, estamos ganhando mais do que o jogador médio nesta cidade.
Ela tinha razão. Alugar permanentemente os quartos privados nesta igreja provavelmente custaria cem col por dia, bem mais do que aquele caçador de frutas poderia arrecadar.
— Mas isso só significa que eles nos escolheram como alvo agora…
— Quem?
Os olhos gentis de Sasha tornaram-se duros como aço. Ela estava prestes a explicar quando—
— Senhorita! Senhorita Sasha! Venha rápido!
A porta da sala se abriu com um estrondo, e várias crianças entraram.
— Ei! Mostrem respeito aos nossos convidados!
— Isso é mais importante do que isso! — gritou o garoto ruivo e briguento de antes, com lágrimas nos olhos. — Gin e os outros foram cercados pelo Exército!
— Onde?!
Sasha se levantou de um salto, assumindo o controle instantaneamente.
— No terreno baldio atrás da loja de itens no setor E-5. Cerca de dez soldados bloquearam o beco. Apenas Cotta conseguiu escapar.
— Tudo bem, estou indo. Sinto muito por isso, — Sasha se desculpou, virando-se para Asuna e Kirito, — mas eu tenho que ajudar a salvar as crianças. Continuaremos isso mais tarde, se estiver tudo bem…
— Nós vamos com você, Senhorita Sasha! — gritou o ruivo, e as outras crianças logo se juntaram a ele. Ele correu até Kirito para defender sua causa. — Ei, senhor, deixe-nos usar suas armas! Se aparecermos com elas, o Exército vai fugir!
— De jeito nenhum! — Sasha latiu. — Vocês vão esperar bem aqui!
Kirito observara a cena se desenrolar em silêncio, mas agora ele ergueu a mão para acalmar as crianças. Ele era tipicamente indiferente e distante, mas em momentos como este, ele sempre exibia uma presença súbita. As crianças se aquietaram.
— Lamento desapontá-los, — ele começou calmamente, — mas essas armas são muito poderosas para vocês equiparem. Nós ajudaremos a resgatar seus amigos. Acreditem ou não, esta senhora comigo é incrivelmente poderosa.
Ele lançou um olhar rápido para Asuna, que assentiu em concordância. Ela se levantou e se virou para Sasha.
— Por favor, deixe-nos ajudar com isso. Quanto mais pessoas, melhor.
— Obrigada. É muita generosidade da sua parte.
Sasha fez uma reverência profunda, depois empurrou os óculos para cima na ponte do nariz.
— É melhor corrermos, então!
Sasha saiu correndo pelas portas da igreja e disparou, sua adaga balançando em seu quadril. Kirito e Asuna, ainda segurando Yui, a seguiram. Asuna olhou para trás e viu que um bando de crianças os seguia na retaguarda, mas não parecia que Sasha desperdiçaria energia para mantê-las na igreja.
Eles serpentearam por entre as árvores até o setor E-6 e depois por um beco. Sasha estava os levando por um atalho que ofereceria a rota mais direta. Eles correram passando por lojas de NPCs e por quintais, até que um grupo de figuras bloqueando um beco estreito apareceu à vista. Havia pelo menos dez deles, todos usando equipamentos de cor cinza-esverdeada e preta — o uniforme do Exército.
Sasha mergulhou no beco antes de finalmente parar bruscamente. Os jogadores do Exército notaram sua aproximação e se viraram, com sorrisos maldosos em seus rostos.
— Ora, ora, aí vem a babá.
— Devolvam as crianças — ela ordenou, sua voz dura como aço.
— Você faz parecer que as sequestramos. Não se preocupe, você as terá de volta — depois que lhes ensinarmos uma lição sobre como a sociedade funciona.
— Isso mesmo. Os cidadãos têm o dever de pagar seus impostos.
Os homens riram, suas vozes cruelmente agudas. Os punhos cerrados de Sasha começaram a tremer.
— Gin! Cain! Mina! Vocês estão aí?! — ela gritou por cima dos homens, e uma voz de menina assustada respondeu imediatamente.
— Socorro! Por favor, nos ajude!
— Esqueçam o dinheiro! Dêem tudo a eles agora mesmo!
— Mas… não podemos — lamentou um menino desta vez.
— Kee-hee! — Um dos homens que bloqueava o beco riu involuntariamente. — Você tem atrasado seus pagamentos de impostos, receio… Isso vai custar mais do que apenas dinheiro.
— Isso mesmo. Precisaremos de um tributo de equipamento. Larguem suas armaduras e armas… tudo o que vocês têm.
Enquanto os homens gargalhavam alegremente, Asuna entendeu o que estava acontecendo atrás deles no beco. Esses “coletores de impostos” armados estavam exigindo que as crianças presas removessem tudo o que possuíam, até suas roupas. Uma raiva sanguinária cresceu dentro dela.
Sasha havia chegado à mesma conclusão, e ela atacou os homens como se fosse começar a dar socos.
— Saiam… Saiam do caminho! Ou então eu vou…
— Ou então você vai o quê, Babá? Vai pagar o imposto por eles?
Os homens presunçosos não mostraram sinais de se moverem.
Dentro da zona da cidade, um programa conhecido como código anti-crime estava em vigor o tempo todo, o que significava que era impossível ferir outro jogador ou forçá-lo a se mover contra sua vontade. O outro lado desse código era que jogadores maliciosos também não podiam ser dispersados. O resultado era que certas táticas existiam para o assédio de jogadores — havia a formação de “bloqueio” sendo empregada aqui, que prendia os jogadores em um espaço apertado, ou a “caixa”, na qual as vítimas eram completamente cercadas por todos os lados.
Mas isso só se aplicava ao movimento no chão. Asuna se virou para seu parceiro e disse: — Pronto, Kirito?
— Sim.
Eles assentiram um para o outro e saltaram facilmente no ar. Suas estatísticas de agilidade e força alimentaram diretamente a altura do salto, fazendo-os voar bem acima dos rostos atônitos de Sasha e dos soldados e para dentro do terreno baldio bloqueado.
— O qu—?! — Vários dos homens pularam para trás em choque.
Presos em um canto do beco estavam dois meninos e uma menina em sua pré-adolescência, amontoados. Eles já haviam removido seus equipamentos e estavam vestidos apenas com suas simples roupas de baixo. Asuna mordeu o lábio, depois se aproximou das crianças e lhes deu um sorriso tranquilizador.
— Está tudo bem agora. Coloquem seus equipamentos de volta.
As crianças de olhos arregalados assentiram e correram para pegar suas armaduras, mexendo em seus menus.
— Ei… não, não, não! — berrou um dos soldados, que finalmente havia recuperado os sentidos. — Quem você pensa que é? Você está interferindo nos negócios do Exército!
— Eu cuido disso — disse um homem com uma armadura de aparência mais pesada enquanto avançava. Ele parecia ser o líder deles.
— Eu não reconheço vocês. Vocês entendem o que significa desafiar a Força de Libertação de Aincrad? Podemos continuar esta conversa em nosso quartel-general, se quiserem.
Seus olhos estreitos brilharam perigosamente. Ele sacou uma grande espada larga de sua cintura, depois se aproximou preguiçosamente, batendo o lado chato da lâmina contra a palma da mão. A face da espada captou a luz do sol baixo do oeste; sua armadura brilhava opacamente, com o brilho único do metal que nunca fora danificado ou reparado.
— Ou vocês querem levar isso para ‘fora’, onde podemos resolver de verdade? Hã?
Os dentes de Asuna rangeram audivelmente com aquele último comentário. Ela pensara que resolver o assunto silenciosamente era o melhor, mas desde o momento em que viu as crianças assustadas, sua raiva havia passado do limite.
— Kirito, pode pegar a Yui?
Ela entregou a menina adormecida a ele, e ele jogou de volta o florete dela. Ela o pegou, tirou-o da bainha e caminhou até o líder.
— Uh… uh…?
O rosto do homem era uma máscara em branco de incompreensão, sua boca meio aberta. Asuna desferiu uma estocada com força total no rosto estupefato dele.
Luzes roxas. Uma onda de choque explosiva. O rosto feio do homem foi jogado para trás, e ele caiu de bunda, com os olhos arregalados de choque.
— Se você quer uma briga, não precisamos levá-la para fora da cidade.
Asuna diminuiu a distância e seu braço direito brilhou novamente. Outra explosão, outra explosão. O corpo do líder foi arremessado para trás.
— Não se preocupe, você não está perdendo nenhum HP. Mas isso só significa que posso continuar fazendo isso o tempo que eu quiser.
Asuna continuou seu passo firme. O líder olhou para ela, os lábios tremendo. Ele finalmente entendeu o que ela estava fazendo.
Dentro dos limites da zona anti-crime da cidade, uma parede invisível protegia todos os jogadores de ataques de armas e outros danos. Mas essa regra tinha outra consequência: sem dano, um atacante nunca seria identificado pelo sistema como um jogador criminoso.
Havia uma forma de treinamento chamada “batalha em zona” que se aproveitava dessa regra. Mas à medida que as estatísticas e habilidades do atacante aumentavam, a cor e o som do efeito anulador do código se intensificavam, até que as habilidades com espada podiam até mesmo empurrar o alvo um pouco para trás. Para aqueles não familiarizados com isso, o choque era difícil de ignorar, mesmo que não causasse dano de HP.
— A-ah… p-pare… — ele lamentava cada vez que era jogado no chão. — N-não fiquem só olhando… Parem ela!!
Os outros soldados recuperaram os sentidos e sacaram suas armas. Eles vieram de ambos os lados do beco, percebendo que algo estava terrivelmente errado.
Eles formaram um semicírculo ao redor de Asuna, cujos olhos brilhavam da mesma forma que nos dias em que ela era tão determinada e focada quanto uma berserker. Ela saltou sem dizer uma palavra, atacando o grupo de frente.
O beco de repente se encheu de som, o rugido de explosões e gritos.
Três minutos depois, Asuna recuperou a compostura e baixou o florete. Apenas alguns soldados permaneciam no terreno baldio, caídos em choque. O resto havia abandonado seu líder e fugido.
— Hahh…
Ela suspirou e embainhou sua arma, depois se virou — e encontrou Sasha e as crianças da igreja paradas, em silêncio e choque.
— Oh…
Asuna ofegou e deu um passo para trás. Ela olhou para baixo, certa de que sua raiva ardente e incontrolável devia ter aterrorizado as crianças. Mas o menino de cabelo ruivo e espetado explodiu de empolgação, seus olhos brilhando.
— Uau… isso foi incrível, moça! Nunca vi nada igual!
— O que eu te disse? Ela é incrivelmente poderosa. — Kirito sorriu orgulhosamente. Ele ainda carregava Yui na mão esquerda, mas segurava uma espada na direita — ele devia ter cuidado de alguns soldados sozinho.
— Uh… ha-ha.
Asuna riu desconfortavelmente, mas todas as crianças aplaudiram e pularam nela. Sasha apertou as mãos contra o peito, radiante, com lágrimas nos olhos.
Foi quando aconteceu.
— Os corações… de todos — ecoou uma pequena voz. Asuna ergueu os olhos, surpresa. Yui estava agora acordada no braço de Kirito, olhando para o vazio, com a mão direita estendida.
Asuna seguiu a direção de seu olhar, mas não havia nada lá.
— Os corações de todos são… um…
— Yui! Qual é o problema, Yui? — gritou Kirito. Ela piscou algumas vezes, aparentemente perplexa. Asuna correu e segurou a mão de Yui.
— Você se lembra de alguma coisa, Yui?
— Eu… eu…
Ela apertou os olhos, olhou para baixo.
— Eu não estava… aqui… Eu estava no… mais profundo dos profundos…
O rosto de Yui se contorceu enquanto ela tentava se lembrar. Ela mordeu o lábio e, de repente—
— Aaah… aaaah!!
Sua cabeça se inclinou para trás e um grito agudo rasgou sua garganta.
— …?!
Asuna foi atingida por um barulho que ela nunca tinha ouvido antes em SAO — um chiado como estática de rádio. O corpo rígido de Yui começou a vibrar poderosamente, como se fosse se despedaçar.
— Y-Yui! — Asuna gritou, segurando o pequeno corpo na tentativa de acalmá-lo.
— Mamãe… estou com medo, mamãe! — a garotinha lamentou. Asuna a tirou dos braços de Kirito e a abraçou com força. Em poucos segundos, o fenômeno estranho parou e o corpo tenso de Yui relaxou.
— O que foi isso… afinal? — Kirito murmurou baixinho. Sua pergunta ecoou pelo beco silencioso.