
Volume 2 - Capítulo 9
Sword Art Online
O alarme de Asuna estava programado para tocar às 7:50 toda manhã.
Por que um horário tão estranhamente específico? Porque o alarme de Kirito tocava exatamente às 8:00. Ela gostava de acordar dez minutos antes e, no conforto da cama, ficar observando o homem que dormia ao seu lado.
Naquela manhã, também, depois que Asuna acordou com a suave melodia de instrumentos de sopro de madeira, ela rolou cuidadosamente e, com o queixo nas mãos, contemplou o rosto adormecido de Kirito.
Ela havia se apaixonado há meio ano. Tinham se tornado parceiros de aventura há duas semanas. E haviam se casado e se mudado para esta floresta no vigésimo segundo andar há apenas seis dias. Ela o amava mais do que qualquer pessoa no mundo, mas a verdade é que Kirito ainda guardava muitos mistérios para ela. Isso podia até ser dito de seu rosto adormecido: quanto mais ela olhava, mais difícil era dizer sua idade real.
Devido à sua natureza excêntrica e distante, ela geralmente o considerava mais velho do que ela. Mas quando ele estava dormindo profundamente, como agora, havia uma inocência juvenil em seu rosto que o fazia parecer um garotinho.
Ela sabia que poderia simplesmente perguntar quantos anos ele tinha. Podia ser tabu falar sobre a vida real aqui, mas eles eram marido e mulher. Esqueça as idades — eles deveriam trocar nomes e endereços reais, coisas que os ajudariam a se reencontrar quando este pesadelo acabasse.
Mas Asuna estava com dificuldades para abordar o assunto.
Ela tinha medo de que, no instante em que falasse sobre a vida real, sua vida de casada — este sonho maravilhoso — se tornasse virtual, falsa. Esta vida cotidiana na floresta era sua única reality — a coisa com que mais se importava. Mesmo que nunca escapassem deste mundo e seu corpo estivesse fadado a definhar sem ela, ela não teria arrependimentos, desde que enfrentassem o fim juntos.
É por isso que eu quero que o sonho dure um pouco mais… Asuna estendeu a mão e traçou a bochecha de Kirito. Ele realmente parece tão jovem quando está dormindo.
Ela não tinha dúvidas sobre a força dele a essa altura. Ele vinha acumulando uma quantidade astronômica de experiência desde o teste beta, ganhara status massivos através de inúmeras batalhas, e tinha a vontade e o julgamento para usá-los com maestria. Ele havia perdido em seu duelo contra Heathcliff, o líder dos Cavaleiros do Sangue, mas Kirito ainda era o jogador mais forte do jogo, Asuna sabia. Não importava quão terrível fosse o desafio, ela nunca se preocupara em batalha ao seu lado.
Mas, ao olhá-lo dormindo ao seu lado, ela não podia deixar de associá-lo a um irmão mais novo, frágil e ingênuo. Ela tinha que protegê-lo do mal.
Ela suspirou suavemente, inclinou-se e passou os braços ao redor do corpo dele.
— Eu te amo, Kirito… vamos ficar juntos para sempre — ela sussurrou.
Ele se mexeu e abriu lentamente os olhos. Seus olhares se encontraram a uma curta distância.
— Uau! — Asuna saltou para trás. Ela recuperou o equilíbrio ajoelhada nas cobertas, com o rosto vermelho vivo. — B-bom dia, Kirito. Você… ouviu aquilo…?
— Dia. Ouvi o quê? — ele respondeu, abafando um bocejo e acenando para ela.
— N-nada, nada!
Após o café da manhã com ovos, pão preto, salada e café, levou apenas dois segundos para limpar a mesa. Asuna bateu palmas.
— Certo! Onde vamos passear hoje?
— Puxa. — Kirito fez uma careta. — Deve haver um jeito melhor de dizer isso.
— Mas todo dia é tão divertido!
Asuna não estava mentindo nem um pouco.
Embora fosse doloroso lembrar, até se apaixonar por Kirito, o primeiro ano e meio como prisioneira em SAO havia deixado seu coração gelado.
Ela havia reduzido seu tempo de sono para aumentar suas habilidades e nível. Assim que alcançou o posto de vice-líder dos Cavaleiros do Sangue, ela atacou os labirintos do jogo em um ritmo que gerou reclamações de seus companheiros de guilda. Seu único propósito era zerar o jogo e escapar. Todo o resto era insignificante para ela.
De certa forma, Asuna tinha que amaldiçoar sua má sorte por não ter conhecido Kirito antes. Desde o primeiro encontro, seus dias foram preenchidos com mais cor e surpresas agradáveis do que ela já havia experimentado na vida real. Somente com ele ela sentia que suas experiências aqui valiam a pena ser lembradas.
O que significava que cada segundo que passavam juntos era como uma joia delicada para Asuna. Ela queria visitar todos os lugares que pudesse, falar com ele sobre todos os assuntos que existiam.
Asuna fez bico, com as mãos nos quadris. — Então você não quer sair e se divertir?
Kirito sorriu em resposta e abriu seu mapa. Ele o colocou em modo visível para mostrar a Asuna. O mapa mostrava a série de florestas e lagos que compunham o andar.
— Este é o lugar. — Ele apontou para uma área de floresta um pouco distante da casa deles.
Como Aincrad inteiro tinha formato de ovo e o vigésimo segundo andar ficava mais perto da base, era relativamente espaçoso, com uns bons oito quilômetros de diâmetro. Havia um lago enorme no meio do andar, em cuja margem sul se situava a vila de Coral, o principal assentamento do andar. O labirinto ficava na margem norte. Todo o resto era coberto por belas florestas de coníferas. A casa de Asuna e Kirito ficava perto do perímetro, quase na ponta sul do andar, e Kirito havia escolhido um local talvez a uma milha e meia a nordeste.
— Ontem, ouvi um boato na vila… sobre as profundezas das florestas aqui… e o que poderia estar à espreita.
— Hã? — Asuna respondeu ao olhar enigmático de Kirito, confusa. — O que tem lá?
— Um fantasma.
Após um momento de silêncio, ela hesitantemente o pressionou por mais detalhes.
— Quer dizer… tipo, monstros do tipo astral? Espectros e banshees, esse tipo de coisa?
— Não, não, a coisa de verdade. O fantasma de um jogador… um ser humano. Uma garotinha.
— Uh…
Seu rosto se contraiu incontrolavelmente. Ela era mais suscetível a histórias de fantasmas do que a média das pessoas, ela sabia. Os labirintos de castelos antigos nos pavorosos andares de terror, o sexagésimo quinto e o sexagésimo sexto, eram tão ruins que ela teve que arranjar desculpas para não participar da conquista deles.
— M-mas isto é um jogo; é tudo digital. Não pode haver fantasmas aqui! — Ela se forçou a sorrir desesperadamente.
— Você tem certeza disso? — Kirito sabia do medo de Asuna de fantasmas e, alegremente, aumentou a pressão. — E se for o espírito vingativo de uma jogadora que morreu e agora assombra seu NerveGear ainda ativo? E entra no jogo tarde da noite para assombrar os campos…
— Pare!!
— Ha-ha-ha, desculpe. Essa passou dos limites. Olha, eu não acho que realmente haverá um fantasma lá, mas se vamos explorar, por que não escolher um lugar que possa ter algo legal para encontrar?
— Aww… — Asuna fez bico, olhando pela janela.
O tempo estava bom para a estação — o inverno se aproximava rapidamente. A luz quente do sol iluminava a grama no quintal. A natureza física de Aincrad significava que você nunca via o sol diretamente, exceto no início da manhã e ao pôr do sol, mas o sistema de iluminação do jogo garantia que tudo ficasse uniformemente iluminado durante o dia. E, no momento, poderia ser a hora do dia menos provável para encontrar fantasmas.
Asuna projetou o queixo para o marido, desafiadoramente.
— Tudo bem, vamos então. Mas só para provar que fantasmas não existem.
— Combinado. E se não o encontrarmos hoje, teremos que ir à noite da próxima vez.
— Nem pensar! E se você vai ser tão mau assim, não vou preparar um almoço para você.
— Ugh! Esqueça o que eu acabei de dizer, então.
Ela lhe deu um último olhar furioso, depois sorriu.
— Vamos, vamos nos preparar. Se você cortar o pão, eu cozinho o peixe.
Eram nove horas quando terminaram de embalar seus hambúrgueres de peixe nas lancheiras e saíram pela porta. No gramado da frente, Asuna se virou para Kirito e disse: — Me leve de cavalinho.
— D-de cavalinho? — ele exclamou, atordoado.
— Bem, não tem graça ver as coisas sempre da mesma altura. Deve ser fácil com seu status de força, certo?
— B-bem, isso é verdade, mas… você está muito velha para isso…
— A idade não tem nada a ver com isso! Vamos, não é como se alguém fosse ver.
— Tá bom, tá bom! Certo, então…
Ele se agachou, balançando a cabeça e oferecendo as costas para Asuna. Ela ergueu a saia e se sentou nos ombros dele, com uma perna de cada lado.
— Pronto. E se você tentar se virar e olhar, eu te dou um tapa.
— Isso parece um pouco injusto, não acha?
Kirito se levantou facilmente enquanto resmungava, e ela achou seu nível de visão deliciosamente mais alto do que o normal.
— Uau! Olha, já dá para ver o lago daqui!
— Eu não consigo ver!
— Tudo bem, eu te levo nos ombros mais tarde.
— …
Asuna colocou as mãos na cabeça curvada dele e ordenou: — Marche! Rumo nord-nordeste!
Enquanto Kirito começava a caminhada, Asuna ria de todo o coração de cima de seus ombros, intensamente ciente do quanto esse tempo com ele significava para ela. Sem dúvida, ela estava mais viva agora do que jamais estivera em seus dezessete anos de vida.
Quando eles desceram o caminho — tecnicamente, quando Kirito andou — por cerca de doze minutos, chegaram a um dos muitos lagos do vigésimo segundo andar. Havia vários jogadores pescadores com linhas já lançadas na água, talvez devido ao clima ameno. O caminho passava pelas colinas que cercavam o lago e, embora ainda houvesse alguma distância até a margem do lado esquerdo, os pescadores notaram o par e começaram a acenar. Todos pareciam estar sorrindo, alguns até rindo da cena.
— Você disse que ninguém ia nos ver!
— Ha-ha, acho que viram. Vamos, Kirito, acene de volta.
— De jeito nenhum.
Kirito resmungou, mas não tentou colocá-la no chão. Ela percebeu que ele estava secretamente gostando da diversão.
Eventualmente, o caminho desceu uma colina e adentrou a floresta; eles passaram por enormes pinheiros que se assemelhavam a cedros japoneses. O farfalhar das agulhas, o murmúrio do riacho e o chilrear dos pássaros formavam um belo acompanhamento para a visão calmante de uma floresta densa no final do outono.
Asuna lançou um olhar para os galhos das árvores, que estavam muito mais perto dela do que o normal.
— Essas árvores são bem grandes. Você acha que dá para escalar?
— Hmm — ponderou Kirito. — Acho que o sistema não impede de escalá-las… Quer tentar?
— Não, vamos deixar isso para o tema da nossa próxima aventura. Falando em escalar —
Ela se endireitou o máximo que pôde sobre os ombros dele e olhou para o perímetro externo de Aincrad, através das árvores à frente.
— Existem aquelas coisas como pilares de sustentação na borda externa, que vão até o teto deste andar. O que você acha que acontece se você subir até o topo?
— Eu já fiz isso antes.
— O quê?! — Ela se inclinou para olhar o rosto de Kirito de cima. — Por que não me convidou?
— Isso foi antes de sermos tão próximos como somos agora.
— Ah, qual é. Você estava me evitando o tempo todo!
— Uh… eu estava?
— Sim, estava! Eu te chamei para sair várias e várias vezes, e você não queria nem tomar um chá.
— I-isso é porque… Bem, mais importante — disse Kirito, tentando desviar a conversa de seu rumo duvidoso. — Basicamente, não funcionou. Não foi tão difícil escalar, já que a rocha tinha todo tipo de entalhes e apoios, mas a uns oitenta metros de altura, recebi um grito de um erro do sistema dizendo: ‘esta é uma zona proibida!’
— Ha-ha-ha! Viu, não se deve trapacear.
— Não tem graça. Fiquei tão assustado que perdi o apoio e caí…
— Espera, o quê? Essa queda seria fatal.
— Sim, pensei que ia morrer. Se eu tivesse demorado apenas três segundos a mais para pegar meu cristal de teletransporte, estaria na lista dos mortos.
— Nossa, isso é tão perigoso. Nunca mais tente isso.
— Foi você quem deu a ideia!
A floresta ficava mais densa enquanto eles conversavam. Parecia que o canto dos pássaros estava ficando mais esparso, e até a luz por entre os galhos estava mais fraca do que antes.
Asuna deu outra olhada nos arredores e perguntou: — Então… onde fica o lugar para onde deveríamos estar indo?
— Vejamos — disse Kirito, verificando a localização deles no mapa. — Ah, estamos quase lá. Só mais alguns minutos.
— Certo… Então o que exatamente as histórias diziam?
Asuna não queria muito saber, mas não saber também a deixava inquieta.
— Aparentemente, cerca de uma semana atrás, um jogador artesão de madeira veio a esta área para coletar madeira. A madeira desta floresta é supostamente muito boa, e ele estava tão focado em sua tarefa que perdeu a noção do tempo. Quando se virou para ir para casa, viu algo branco passar rapidamente para as sombras de uma árvore próxima.
— …
Isso já era demais para Asuna, mas Kirito não parou.
— Ele entrou em pânico, pensando que era um monstro a princípio, mas estava errado. Disse que parecia um ser humano, uma menina pequena. Roupas brancas e longos cabelos pretos. Ela estava apenas andando lentamente para dentro da floresta. Então ele se concentrou nela, pensando que devia ser um jogador em vez de um monstro.
— …
— Mas não havia cursor.
— Eek…!
Um pequeno grito involuntário ficou preso em sua garganta.
— ‘Não pode ser’, pensou ele, aproximando-se tolamente da garota. Então ele a chamou. A menina parou onde estava… então se virou lentamente para encará-lo, e…
— P-p-pa-pa-pare…
— Foi quando o artesão percebeu, sob a luz da lua… que podia ver a árvore através das roupas brancas dela.
— —!!
Asuna prendeu um grito silencioso e agarrou o cabelo de Kirito.
— Foi quando ele saiu correndo, sabendo que tudo estaria acabado se ela se virasse completamente. Quando estava perto o suficiente para ver as luzes da cidade, pensou que estava seguro. E quando se virou para olhar…
— —?!
— …Seu… estúpido… idiota!!
Asuna saltou dos ombros dele e se preparou para dar um soco forte em suas costas. Mas, de repente, algo branco chamou sua atenção no canto do olho, longe na escura floresta de coníferas.
Com um pressentimento insuportável, Asuna fixou sua visão na coisa. Embora não estivesse no nível de Kirito, sua habilidade de Busca era bastante avançada. O efeito da habilidade foi ativado automaticamente, tornando a área de seu foco muito mais nítida.
A coisa branca parecia flutuar com a brisa. Não era uma planta. Não era uma rocha. Era tecido. Na verdade, era um simples vestido de peça única. Havia duas linhas finas que se estendiam para baixo da bainha — pernas.
Era uma menina pequena. Uma jovem de vestido branco, igual à da história de Kirito, observando-os em silêncio.
A consciência de Asuna estava em perigo de se esvair. Ela abriu a boca e conseguiu coaxar algumas palavras, mal mais altas que um suspiro.
— K-Kirito… ali.
Ele seguiu o olhar dela, e então congelou tão solidamente quanto ela.
— V-você só pode estar brincando…
A garota não se moveu. Ela ficou onde estava, talvez a uns trinta metros de distância, olhando para eles. Se ela começar a andar em nossa direção, vou desmaiar, Asuna tinha certeza.
O corpo da garota balançou. Ela caiu no chão de uma forma estranhamente inorgânica, como uma figura animatrônica que acabara de ficar sem energia. Eles ouviram um baque suave quando ela aterrissou.
— Espere um segundo. — Kirito estreitou os olhos. — Isso não é um fantasma!
Ele correu em direção à garota.
— E-espere, Kirito! — gritou Asuna enquanto ele a deixava para trás, mas ele continuou correndo em direção à garota caída. — Ah, francamente!
Asuna não teve escolha a não ser se levantar e segui-lo. Seu coração ainda estava acelerado, mas, por outro lado, ela nunca tinha ouvido falar de fantasmas desmaiando. Simplesmente *tinha* que ser um jogador.
Alguns segundos depois, Asuna chegou ao pé do pinheiro onde Kirito segurava a pequena garota. Ela ainda estava desmaiada: seus olhos de cílios longos estavam fechados, seus braços pendiam moles ao lado do corpo. Asuna deu uma olhada cautelosa no vestido da garota, mas não era transparente.
— V-você acha que ela está bem?
— Acho que… sim — murmurou Kirito, examinando o rosto da garota.
— Mas, pensando bem, ninguém realmente respira ou tem batimentos cardíacos aqui…
A maioria dos processos biológicos humanos básicos é omitida na simulação de SAO. Você pode respirar ativamente e sentir a sensação de ar na traqueia, mas os avatares dos jogadores não realizam a respiração automática. Em estado de tensão ou excitação, você pode sentir seu coração batendo forte, mas é impossível sentir o pulso de outro corpo.
— Ela não se desintegrou… o que significa que deve estar viva. Mas isso é muito estranho… — Ele parou, incerto.
— Estranho como?
— Ela não pode ser um fantasma, porque posso tocá-la. No entanto, não há cursor de alvo…
— Ah…
Asuna fixou o olhar no corpo da garota novamente. Qualquer tipo de objeto vivo e em movimento em SAO, seja jogador, monstro ou até mesmo NPC, sempre teria seu próprio cursor colorido, mas essa garota não tinha. Ela nunca tinha visto esse fenômeno antes.
— Talvez seja algum tipo de bug?
— É o meu palpite. Em um jogo normal, eu chamaria um GM sobre isso, mas obviamente não há GM aqui… Além disso, não é apenas a falta de um cursor. Ela é muito jovem para ser uma jogadora.
Ele estava certo. O corpo aninhado nos braços de Kirito era muito pequeno. Ela não podia ter ainda dez anos. O NerveGear tinha uma restrição de idade preventiva, o que significava que crianças menores de treze anos não podiam usá-lo.
Asuna sentiu a testa da garota. Estava fria e lisa.
— Mas como uma garotinha tão pequena entrou no Sword Art Online? — ela perguntou, mordendo o lábio em preocupação. — Não podemos simplesmente deixá-la aqui. Tenho certeza de que descobriremos mais quando ela acordar. Vamos levá-la para casa conosco.
— Sim, boa ideia.
Kirito se levantou, ainda segurando a garota. Asuna deu outra olhada nos arredores, mas a única coisa notável era um toco de árvore velho e seco, e nada que sugerisse um motivo para a garota estar ali.
Mesmo depois de saírem apressados da floresta e voltarem para casa, a garota não acordou. Eles a colocaram na cama de Asuna e a cobriram, depois se sentaram na cama de Kirito ao lado e a observaram.
Após um longo silêncio, Kirito finalmente falou em voz baixa.
— Bem, o fato de termos conseguido carregá-la para nossa casa significa que ela não é um NPC.
— Sim… é verdade.
O sistema controlava os NPCs, e os jogadores não podiam movê-los para fora de um certo alcance fixo de coordenadas. Se você tentasse segurá-los ou agarrá-los por mais de alguns segundos, um aviso de assédio apareceria, e você seria afastado por um choque desagradável.
Kirito continuou sua linha de pensamento.
— E não é um evento que inicia uma quest. Se fosse o caso, teria atualizado nossos registros de quest no momento em que a tocamos. O que significa que a explicação mais provável é que ela é de fato uma jogadora e apenas se perdeu naquelas matas.
Ele lançou outro olhar para a cama.
— Se ela não tivesse nenhum cristal ou não soubesse como se teletransportar, acho que teria ficado na Cidade dos Inícios desde o momento em que se conectou, em vez de vagar pela natureza selvagem. Não sei por que ela teria vindo até aqui, mas talvez alguém na Cidade dos Inícios saiba quem ela é… Talvez até encontremos seus pais ou responsáveis lá.
— Concordo com isso. Simplesmente não consigo imaginar uma criança tão pequena conseguindo se conectar sozinha. Ela deve ter vindo para cá com sua família… Só espero que eles estejam bem.
Antes de expressar seu último pensamento, ela se virou para Kirito e o olhou nos olhos.
— Ela vai acordar, não vai?
— Sim. O fato de ela ainda não ter desaparecido significa que ainda há sinais indo e vindo de seu NerveGear. Ela deve estar mais próxima de um estado de sono. Então ela vai acordar eventualmente… eu acredito.
Ele assentiu com firmeza, uma clara nota de otimismo em sua voz.
Asuna saiu da cama e se ajoelhou ao lado da garota adormecida. Ela estendeu a mão e acariciou a pequena cabeça.
Ela era uma garota muito bonita. Quase parecia mais uma fada do que um ser humano. Sua pele era de um branco pálido e delicado, como alabastro. Seus longos cabelos pretos brilhavam à luz, e seu rosto claro e vagamente estrangeiro parecia que seria encantador, assim que ela abrisse os olhos e sorrisse.
Kirito se agachou ao lado de Asuna. Ele hesitantemente estendeu a mão para afagar o cabelo da garota.
— Ela não pode ter, o quê… mais de dez anos? Oito, talvez?
— É o que eu estou supondo… Ela é facilmente a jogadora mais jovem que eu já vi no jogo.
— Com certeza. Conheci uma domadora de feras que era bem jovem, mas mesmo ela tinha pelo menos uns treze anos.
Asuna se virou abruptamente para Kirito, a informação era nova para ela.
— Não sabia que você tinha uma amiga jovem e fofa.
— Sim, às vezes trocamos mensagens… m-mas não é esse o meu ponto! Não há nada entre nós!
— Eu não teria tanta certeza. Você é terrivelmente denso. — Ela se virou, emburrada.
Sentindo que as coisas estavam se voltando contra ele rapidamente, Kirito se levantou apressadamente e disse: — Oh, olhe a hora. Deveríamos almoçar!
— Você ainda vai me contar tudo sobre ela mais tarde. — Asuna o fuzilou com o olhar, depois sorriu, decidindo deixá-lo escapar por enquanto. — Vamos, vamos comer. Vou preparar um chá.
Enquanto a tarde de outono passava preguiçosamente e a luz vermelha do perímetro externo desaparecia na escuridão, a garotinha continuava dormindo profundamente.
Asuna estava fechando as cortinas e acendendo as lâmpadas de parede quando Kirito voltou da vila. Ele balançou a cabeça sem dizer uma palavra para mostrar que não havia encontrado nenhuma pista sobre a garota.
Era difícil para eles desfrutarem de um jantar alegre dada a situação, então eles compartilharam uma refeição breve de sopa simples e pão, momento em que Kirito abriu os jornais que havia comprado mais cedo.
Os “jornais” não eram como os grandes maços de papel vendidos no mundo real, mas sim uma única folha de pergaminho do tamanho de uma revista. A superfície da folha era uma tela, como uma janela do sistema, com suas informações totalmente roláveis como se fosse um site.
O conteúdo do jornal era apenas uma cópia integral de um site de estratégia administrado por jogadores, completo não apenas com notícias, mas com um manual simples, FAQ, listas de itens e equipamentos, e assim por diante. Entre essas listas havia uma seção de classificados de pessoas procuradas, e era isso que Kirito e Asuna estavam examinando. Talvez alguém estivesse procurando por essa garota. Mas…
— …Nada…
— Nada.
Após muitos minutos de busca, eles desistiram e baixaram os ombros. A essa altura, não tinham outra escolha a não ser esperar que a garota acordasse e lhes contasse sua história diretamente.
Normalmente, eles passavam as horas da noite em entretenimento ocioso — conversando, jogos simples, até mesmo fazendo um passeio noturno — mas era difícil entrar no clima naquela noite em particular.
— Devemos apenas ir para a cama?
— Sim. — Kirito suspirou.
Eles apagaram as luzes da sala de estar e foram para o quarto. A garotinha estava usando uma das camas, então eles teriam que se aconchegar juntos na outra — o que, na verdade, acabavam fazendo todas as noites. Eles se trocaram rapidamente para suas roupas de dormir.
Com a lâmpada apagada, eles deslizaram para a cama.
Kirito tinha muitas habilidades estranhas, uma das quais era sua capacidade de adormecer instantaneamente. Quando Asuna se virou de lado para dizer algo, sua respiração já estava lenta e constante com o sono.
— Puxa — ela murmurou, depois se virou na outra direção, para a cama da garota. Na pálida escuridão azulada, a garotinha de cabelos pretos ainda dormia profundamente. Asuna vinha evitando pensar no passado da garota, mas olhando para ela na escuridão assim, ela inevitavelmente começou a ponderar.
Uma coisa era se ela estivesse junto com algum tipo de guardião, talvez um pai ou irmão mais velho. Mas se ela tivesse vindo para este mundo sozinha e passado os últimos dois anos com medo e solidão, seria uma provação horrível para uma criança de oito ou nove anos. Era difícil imaginar que ela pudesse se manter mentalmente saudável.
E se…? Asuna imaginou o pior. E se ela estivesse vagando por aquela floresta e entrado em coma por causa de alguma cicatriz profunda em sua mente? Aincrad não tinha terapeutas psicológicos, nem gerentes de sistema para ajudar uma pessoa necessitada. Levaria pelo menos mais seis meses até que o jogo pudesse ser zerado, e seria preciso mais do que o trabalho duro de Kirito e Asuna para que isso acontecesse. Na verdade, uma das razões pelas quais eles estavam fazendo essa pausa da linha de frente era que seus níveis eram muito mais altos que o resto da população do jogo, o que dificultava a formação de um grupo equilibrado.
E não importava quão profundo fosse o sofrimento da garota, Asuna não poderia salvá-la disso. Esse pensamento enviou uma dor insuportável por seu coração. Antes que ela percebesse, ela havia saído da cama e se aproximado do lado da garotinha.
Asuna acariciou o cabelo da garota por um momento, depois puxou as cobertas e se deitou ao lado dela. Ela abraçou o corpo minúsculo. A garota não se moveu, mas Asuna sentiu como se visse sua expressão relaxar.
— Boa noite. Espero que você acorde amanhã — ela sussurrou.