A Única Coisa que Posso Melhorar é a Força

Capítulo 181

A Única Coisa que Posso Melhorar é a Força

A maior lição que aprendi ao curar com Kantrilla foi que a cura era exaustiva. Eu estava preparado para o cansaço mágico. Era um trabalho árduo, como qualquer outro tipo de magia. Não, o mais exaustivo eram as próprias pessoas. Tantas precisavam de ajuda, e só podíamos fazer tanto. 

Às vezes, tudo o que precisavam era de uma palavra de conforto, mas outras não ficariam bem – e nem todas sobreviviam. A parte mais difícil era não podermos sequer tentar salvar os casos mais graves, porque gastaríamos muita mana para nenhum resultado. 

Contudo, pessoas com ferimentos graves ou doenças terminais eram uma coisa; o pior eram aqueles que não estavam envolvidos em acidentes. Trabalhando com aqueles que não podiam pagar por um curandeiro, não era surpreendente encontrar algumas pessoas feridas em brigas de gangues – mas ferimentos por facadas, no geral, não eram tão problemáticos. 

Uma mulher entrou com um olho roxo e um lábio partido. Em termos de ferimentos, eram triviais. Mesmo sem magia, ela se curaria sem grandes dificuldades. No entanto, não eram o tipo de coisa que acontecia por acidente. A mulher não disse nada enquanto Kantrilla fazia perguntas, então ela não insistiu. 

“Pronto, tudo feito.” 

Kantrilla aplicou um unguento e usou um pouco de magia de cura. O unguento reduziria o inchaço, e a magia aceleraria o tempo de recuperação de uma semana para um dia ou menos. 

“Você já pode ir.” 

A mulher hesitou. Em vez de sair, ficou ali, segurando o braço com força. Era claro que queria algo, mas, se não falasse, não podíamos realmente ajudar. 

“Senhor, você não pode entrar na área de tratamento!” uma voz veio da recepção. 

Depois disso, um homem invadiu o local. 

“Aí está você, mulher! Eu ainda não tinha terminado de falar com você antes de fugir!”  

Ele era um homem grande – provavelmente cerca de um metro e oitenta e ombros largos. Ele estendeu a mão e agarrou o braço da mulher. 

Eu hesitei, o que me fez demorar um segundo para reagir… Mas, quando o outro braço dele se moveu, meus instintos de combate assumiram o controle. 

“Senhor, você não pode colocar as mãos em um de nossos pacientes”  

Era o que eu teria dito se tivesse tempo ou inclinação diplomática. Em vez disso, tudo o que consegui dizer foi “tire as mãos”, depois que já o tinha derrubado no chão, com um braço torcido e o punho quebrado. Eu poderia ter feito o mesmo sem quebrar o punho? Com certeza, mas essa ideia sequer passou pela minha cabeça.

 

“Saia de cima de mim, seu–!” 

O homem tentou se levantar, mas qualquer movimento fazia dor percorrer o braço dele. Além disso, eu era muito mais pesado do que aparentava. Ele talvez fosse mais pesado do que eu, mas ainda assim eu tinha pelo menos noventa quilos. Não que eu me pesasse com frequência. 

“Atacar alguém em um local de cura é absolutamente proibido.” 

Eu queria arrancar o braço dele – e podia fazer isso, também. Contudo, meu lado racional lembrou que esse tipo de comportamento geralmente não era bem-visto. 

Kantrilla já havia ido até a porta. 

“Você – Vá procurar o guarda da cidade mais próximo e traga-o aqui!” 

Era fácil manter o homem preso – eu tinha a vantagem da posição e da Força. Ele devia ter uns duzentos e cinquenta pontos de Força – bom para um não-aventureiro, mas nada incrível. Além disso, ela era desperdiçada nele. Logo, os guardas chegaram. Não foi difícil fazer com que o levassem algemado – o testemunho de curandeiros não era algo a ser ignorado. 

Com isso, poderíamos ter dado o caso como encerrado. Dia salvo. Tudo em paz, e poderíamos voltar para casa com a satisfação de termos sido boas pessoas. Eu gostaria de dizer que teria tomado a decisão certa, mas não precisei – Kantrilla tomou antes de mim. 

“O que devemos fazer?” Kantrilla sussurrou para mim. 

A mulher ainda estava parada ao lado, sem ter ido embora. 

“Eu não sei.” Balancei a cabeça “É óbvio que ela não quer voltar para onde estava. O que podemos fazer?” 

Muitos diriam que nada – esse era apenas o jeito do mundo. Não se pode ajudar todos. Meus pais teriam dito que isso era uma ideia tola. Obviamente, eu não poderia ajudar todos de uma vez. Nem mesmo poderia ajudar todos um de cada vez.  

No entanto, eu poderia ajudar algumas pessoas. Se essas pessoas ajudassem outras, a matemática simples dizia que isso era algo bom. 

“Você tem algum dinheiro?” perguntei à mulher. 

Ela assentiu e abriu a bolsa de moedas. Virou uma pequena pilha de cobre na mão – todo o conteúdo – e ofereceu para mim e para Kantrilla. 

Balancei a cabeça. 

“Não quero isso. Esta é uma clínica gratuita, lembra?” 

Olhei para as moedas que ela tinha. Não muito. Talvez vinte ou trinta moedas de cobre… Duas ou três de prata. Ainda assim, era algo. 

“Você pode ficar em uma hospedaria perto daqui.” 

Ela balançou a cabeça, finalmente falando. 

“… Muito caro.” 

“Bem, sim. Contudo, aventureiros têm desconto em algumas hospedarias. Ainda seria uma prata por noite, mas isso inclui ao menos uma refeição.” 

“… Eu não sou uma aventureira.” 

Ela claramente não era… Mas isso não significava que não poderia ser. Olhei para Kantrilla, que assentiu. Ela entendeu pelo menos parte do meu plano, e seria mais fácil para ela falar com a mulher. Era uma oportunidade para ela. Embora a guilda de aventureiros não gostasse de pessoas abusando do sistema, se ela realmente se tornasse uma aventureira, não haveria reclamações. 

Eu poderia pagar pela estadia dela na hospedaria – mas isso não seria tão bom. Se ela pudesse pagar por si mesma, mesmo com o pouco que tinha, isso seria um incentivo na direção certa. Não que eu tivesse pensado em todos esses detalhes na hora. Mesmo assim, todo o incidente me deu uma ideia interessante. Eu só precisava falar com o Sábio Norwood… E com Timmy.

 

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