O Grande Sistema Demoníaco

Volume 2 - Capítulo 216

O Grande Sistema Demoníaco

Fechando a porta com tudo atrás de si, assim que Jayden foi tentar respirar fundo começou a tossir incontrolavelmente e seus olhos começaram a coçar, formando pequenas lagrimas nos cantos dos olhos.   

Só pelo estado da porta toda enferrujada, suja e com o dourado quase todo apagado, ela já estava assumindo que o interior não estaria muito diferente. Mas ao contrário das suas expectativas, a situação era ainda pior do que imaginava. 

Tendo em consideração a posição de Abby na família, o quarto dela era bem pequeno. O lugar não era nem um quinto do tamanho do seu e podia ser comparado com o de um serviçal, do que da filha de uma das famílias mais importantes do país. 

As paredes que eram para serem vermelhas, agora estavam cobertas de pó, deixando tudo cinza. E todas as superfícies, como cômodas e mesas, também estavam com o mesmo tom cinza e enferrujados. 

As cortinas penduradas no fundo do quarto, que levavam para a pequena sacada, estavam desgastadas, rasgadas e com marcas de queimados. 

A cama, que sem dúvida um dia foi vermelha, estava posicionada em uma das paredes e com condições similares, a cortina transparente ao redor estava cheia de pó tornando-se quase opaca e com marcas de queimados por toda parte. A esse ponta, ela não duvidaria se um rato passasse pelo chão ou que tivesse uma colônia de ratos embaixo da cama suja. 

E apesar de não precisar de luz, Jayden percebeu que não importasse o quanto mexia no interruptor, a luz não acendia de jeito nenhum. 

O cheiro de pó queimado impregnava o nariz das duas, e ambas seguraram suas vontades de tossir. 

Era quase como se o quarto estivesse sido abandonado, na verdade, Jayden achava que esse era o caso. Começou a até duvidar se o banheiro ainda funcionaria e como que os pais de Abby concordaram de trazê-la para esse lugar nojento. Entretanto, ela não tinha tempo para perguntar esse tipo de coisa, com tudo acontecendo. 

Instintivamente respirando fundo, pó entrou em suas narinas novamente, a fazendo tossir mais ainda. O olhar de Jayden logo caiu sobre Abby, que estava parada na sua frente, como se estivesse esperando para ela falar algo. 

No entanto, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Jayden precisava confirmar algumas coisas antes. 

“Tem alguma câmera aqui? Ou tem algum cristal de cancelamento de ruído instalado?”

A voz de Jayden saiu baixa, porém audível, fazendo Abby responder sem pensar duas vezes com uma expressão seria no rosto e sussurrando. 

“Não, não tem câmeras aqui, mas tem um cristal de ruído. Esse quarto não deve ter sido mexido por anos desde que sai, já que meus pais realmente me odiavam, então com certeza não vai ter câmeras. A única coisa que ainda deve estar funcionando é o banheiro.” 

“Bem, bom saber disso.” Jayden respondeu com um sorriso. 

Por algum motivo, Jayden sempre acreditava nas palavras de Abby sem pensar duas vezes, o que demonstrava sua confiança na amiga. Ela não tinha nem a vontade de vasculhar o quarto, mas, no final, acabou dando algumas bisbilhotadas só por precaução de Abby estar errada. Mas, como esperava, apesar de não ter procurado muito, não encontrou absolutamente nada. 

“Tudo limpo, não achei nadica de nada.” 

“Eu te avisei.” Abby respondeu com um riso descontraído, fazendo Jayden sentir como nos velhos tempos.  

Ela teve sorte que o que Abby disse era verdade. se tivesse alguma câmera extremamente pequena escondida, Jayden não conseguiria encontrá-las e seria exposta. Esse descuido é devido à confiança em Abby que parecia completamente certa de suas palavras, sem nem mencionar o fato de que ela poderia estar errada já que ela não esteve aqui em anos, fato que ela ignorou e achou completamente normal. 

Agora que não tinha câmeras, Jayden fechou os olhos e seu corpo começou a mudar: sua altura diminuiu dois centímetros a menos que Abby e o cabelo preto e curto de antes, agora crescia e se tornava azul-escuro. Seu rosto adorável, charme e suas formas volumosas ressurgiram no corpo dela, à medida que retornava à sua aparência habitual. O rosto de Abby se iluminou quando finalmente pode ver o rosto da melhor amiga depois de ser sequestrada, e Jayden retornou o sentimento com um sorriso adorável. 

Tirando a sujeira do corpo e da armadura, Jayden respirou fundo, só para tossir novamente. 

Assim que se recompôs, estendeu os braços para ambos os lados. Logo, sons de ossos se quebrando e pele rasgando encheram o quarto. O corpo de Jayden alongou-se de um modo bizarro, até adquirir o volume necessário para abrigar outra pessoa, e se desprendeu de sua forma principal. Aquela massa de carne e sangue mudou e se transformou imediatamente, abrindo os olhos para contemplar o mundo pela primeira vez. Era uma cópia exata e perfeita de Preston, mas muito, muito mais fraca, que se ajoelhou, preparada para receber as instruções de seu mestre. 

Não muito depois, outro clone apareceu do corpo de Jayden. Este também abriu os olhos, que eram de um vermelho vivo e claro. O vestido carmesim era um foco de brilho no ambiente sombrio. E, é claro, essa pessoa era ninguém menos que Abby. 

De olhos arregalados, sem conseguir soltar um pio, Abby paralisou no meio da sala, profundamente abalada pelo que havia acabado de assistir. 

Ela sempre soube que Jayden era capaz disso, mas nunca imaginou que seria a esse ponto. A última vez que a viu fazendo clones, Jayden levou quase cinco minutos e isso com muita concentração. Mas, agora, ela conseguiu criar dois simultaneamente como se fosse a coisa mais fácil do mundo. 

“Vocês dois já sabem o que devem fazer, certo?” Jayden disse, com ar de autoridade. Ambos serventes assentiram com a cabeça antes de olharem para seu mestre. 

“Sim, senhora.” 

“Agora vão e me sejam úteis.” Sua voz saiu fria, um completo contraste com a voz que usa quando conversa com Abby. 

E, sem hesitarem, os dois clones saíram do quarto, com o clone de Preston abrindo a porta e curvou-se enquanto segurava para o clone de Abby passar elegantemente. 

“Esses dois são apenas clones, então não possuem tanta inteligência assim, mas deve ser o suficiente para ganhar tempo para fugirmos. Eles ficam ‘vivos’ por 24 horas, o que é mais do que suficiente. Isso deve tirar aqueles dois serventes do nosso pé.” Jayden disse calma, olhando para a direção da janela. 

“Bom, eu queria muito fazer milhares de perguntas, mas estamos sem tempo. Podemos conversar com calma quando voltarmos para a escola e ver o Moby, talvez ele consiga arrumar sua conexão mental.”  

Ao ouvir o nome de Moby, a expressão de Abby ficou tensa enquanto assistia Jayden ir para a varanda, cerrou as mandíbulas, mas logo balançou a cabeça em negação. Jayden não notou nada, pois estava de costas para ela. 

“Estou tão feliz agora… Finalmente vou poder ver meu lorde… Vamos logo! Não consigo esperar mais nenhum segundo!” Ela disse, sua expressão mudando para um sorriso sombrio que Jayden não conseguiu ver. 

Com força, Jayden pegou a maçaneta da porta antes de responder Abby. 

“Fico feliz e-“ 

De repente, Jayden parou o que estava fazendo. Seus olhos se arregalaram e fechou o punho com ainda mais força enquanto suor escorria por seu rosto pálido como de um fantasma, algo que escondeu de Abby. 

Uma voz, muito familiar, ecoou por sua mente, a fazendo perceber algo que não tinha antes… Não queria acreditar nas palavras que estava ouvindo, mas, por alguma razão, no fundo do seu coração, Jayden sabia que era verdade. Era como se sua vida inteira tivesse sido uma mentira, como se sua realidade tivesse sido virada do avesso. Mas, as palavras dessa pessoa. As palavras do seu mestre estavam revelando uma verdade que estava sendo muito cabeça dura para realizar. 

“Jayden, você está bem? Algo de errado?” A voz carinhosa de Abby soou atrás de si. 

Limpando o suor do rosto e esconde suas emoções, Jayden colocou sua melhor poker face e virou para Abby antes de responder. 

“Caramba, parece que tem muitos guardas patrulhando lá fora. Sem chances que vamos conseguir fugir sem sermos pegas…” Ela disse, mentindo entre os dentes. 

“Esses desgraçados! Tenho certeza que não estão atrás da gente, mas mesmo assim estão me atrapalhando em ver meu Lorde!” O ódio e irritação estavam claras na voz de Abby, mas Jayden não sentiu nada além de desprezo enquanto forçava um sorriso. 

“Não esquenta, vai ficar tudo bem. Bom, agora que vamos ficar presas aqui por um tempo, por que não me fala o que aconteceu para que seus pais voltassem a gostar e respeitar você de novo? Principalmente sua irmã, se tudo o que me disse antes é verdade, então duvido que tudo isso tenha acontecido do nada. Por favor, se ainda somos amigas, me diga a verdade…” Os olhos de Jayden tornaram-se linhas finas, que expressavam preocupação, carinho, mas mortais, enquanto encarava a alma de Abby profundamente. 

“Bem, como consegui ficar em primeiro na prova e consegui mostrar que não sou mais um membro fraco e inútil da-“ 

As palavras de Abby foram interrompidas por uma Jayden com lagrimas nos olhos, que a seguravam fortemente pelos braços. 

“Por favor! Estou te pedindo, me diga a verdade! Todos esses meses, a nossa amizade só foi um meio para manipular Moby e eu?!” As palavras de Jayden ecoaram pela mente de Abby. 

Novamente, quando ouviu o nome de Moby, sua cabeça começou a doer como se fosse explodir a qualquer momento. Com a mandíbula cerrada, Abby agarrou seus cabelos e se livrou das mãos de Jayden, enquanto balançava a cabeça para se livrar de pensamentos indesejáveis.  

Respirando fundo, com os olhos bem abertos, ela tentava acalmar os nervos, ignorando a poeira que entrava em nos olhos. Com uma expressão triste no rosto, ela tirou as mãos da cabeça e as levou ao coração que batia profundamente, antes de começar a falar.   

“Eu não estou mentindo! Por que você não acredita em mim? Eu não tenho ninguém além de você, Alex e meu lorde, e agora parece que você está me abandonando e perdeu a confiança em mim! Eu sou realmente um lixo! Nada é o que parece! Eu ainda odeio minha família com todo meu coração e nada vai mudar isso!” Abby gritou com força. Rios de lagrimas escorriam por seu rosto enquanto olhava para a expressão de tristeza, choque e surpresa no rosto de Jayden. 

Com um semblante melancólico e voz de angústia, Jayden falou, estendendo a mão direita em direção a Abby, que estava claramente em agonia. 

“A-Abby, e-eu-” 

Mas antes mesmo que Jayden tivesse a chance de começar a falar, um flash de luz vermelho acendeu o quarto por um segundo antes de desaparecer. E no instante seguinte, a visão de Jayden começou a ficar turva. Uma sensação dormente quente preencheu seu estomago. A queimação parecia nunca ter fim, enquanto continuava a dilacerar suas células. Levando a mão até o estomago, apenas viu um rio de sangue jorrando de si enquanto sua mão era colorida por vermelho sangue. 

“Puta merda… o que está acontecendo… ela acabou de….” Pensou antes de ser interrompida por uma sensação de dor invadir seus pulmões, ficando com dificuldades para respirar ao mesmo tempo que sentia liquido subir por sua garganta. 

Tossindo uma grande quantidade de sangue, ela cerrou os dentes manchados, enquanto apertava com força o ferimento aberto. Tentou ao máximo manter-se de pé, mas acabou caindo no chão por falta de forças, ciente de que estava em um corpo tão frágil quanto vidro. 

Em um instante, o soprar do vento e o som de passos ecoaram atrás dela. A claridade da lua inundou a sala, sem dúvida vindo da porta da sacada que, misteriosamente, estava aberta. 

O som de uma risadinha meiga, porém sinistra, soou atrás dela antes de se mover para sua frente. 

Com o corpo sem forças, Jayden esforçou-se para erguer a cabeça e ver quem estava ali. Em um último esforço, ela reuniu toda a energia para encarar dois ceifadores sorridentes e presunçosos à sua frente com vigor, raiva e determinação no olhar. 

“Minha nossa! Mas que trabalho lindo! Sabia que iria ultrapassar minhas expectativas, irmãzinha! Mas, para você senhorita Griffith, não posso dizer a mesma coisa… Estou muito desapontada com você… Como pode cair numa armadilha tão obvia? Esperava bem mais da única filha da família Griffith…” 

Com sorrisos escancarados e olhos incandescentes, vermelhos e cortantes, estavam rostos de puras bestas, fitando-a como se fosse apenas um pedaço de carne pronto para ser devorado. Era uma cena que ela esperava ver e para a qual já estava mentalmente preparada. Mesmo assim, presenciar isso acontecendo bem na sua frente, ainda era excessivamente pesado e esmagador para sua alma falsa e frágil. Ver a melhor amiga naquele estado era quase insuportável.  

“Porra… ela veio muito mais rápido do que esperava…” 

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