
Volume 2 - Capítulo 213
O Grande Sistema Demoníaco
O sorriso de Abby brilhava mais forte que o sol. Seu cabelo estava solto e refletia a luz que vinha da bola de fogo, dando um tom magnifico de vermelho.
No pescoço e nos braços, ela trazia joias de ouro raras e valiosas. Vestia um modelo exclusivo e caríssimo, com bordados e brasões de várias fênix, o símbolo oficial dos Reid. O vestido parecia até melhor que o que ela havia pego emprestado de Jayden para o evento dos Griffith, já que estava complementado por diversas padrões e acessórios em dourado, que davam mais vida ao esquema de cor unicamente vermelho do seu deslumbrante vestido.
Ao seu lado estava o resto da família: a mãe, bem à direita, seguida do pai e da irmã, que ocupava a extremidade oposta da mesa. À sua esquerda, havia apenas uma pilha imensa presentes meticulosamente arrumados, os prováveis presentes de aniversario dos convidados. Toda a família toda vestia roupas de corte bastante parecido e de igual refinamento.
O pai de Abby, que Jayden sabia ter mesma idade exato do seu próprio pai, parecia alguns anos mais velhos. Sua pele estava lisa, mas com alguns sinais claros de envelhecimento; contudo, não havia um feio sequer de cabelo branco em sua cabeça ruiva, que caía até o maxilar bem definido. Ele ostentava um sorriso radiante enquanto fitava a esposa.
Ela vestia um vestido semelhante ao das duas filhas, mas muito maior e mais chamativo, afinal, era para ser a estrela da festa de seu próprio aniversário de casamento com a marido. Era bem mais jovem que ele, mas as pequenas rugas e as bolsas sob os olhos, cobertos por camadas e camadas de maquiagem, a faziam parecer quase da mesma idade. Seu corpo era extremamente definido e atraente, com toda a gordura nos ‘lugares certos’, o que provavelmente explicava os fartos atributos de Abby e da irmã.
Bem na outra ponta, sentada ao lado do pai, estava Emilia Reid, a mulher por trás da maioria dos problemas de Abby. Até ali ela tinha aquele sorriso convencido e arrogante, só entrando na conversa quando queria. Ela olhava para os convidados com um olhar sutil, mas pesado, tratando-os como se fossem insetos. Jayden se irritou, mas não deu bola, concentrando toda sua atenção na outra extremidade, onde Abby estava.
Normalmente, em momentos em que presencia Abby sorrindo e se divertindo com as bochechas vermelhas, sem nenhuma preocupação no mundo, teria feito Jayden se sentir aquecida por dentro, pois ela ficaria feliz pela sua melhor amiga.
Contudo, o que ela testemunhava agora era uma firme exceção, algo de fato preocupante. As pessoas que ela mais odiava e criticava diariamente com uma paixão feroz, a quem ela dedicava a maior parte de seus desabafos, revelando o profundo buraco negro de rancor que nutria contra elas… Agora estavam ali, conversando como se tivessem acabado de se reencontrar, revivendo velhos tempos. E isso com as mesmas pessoas para as quais Abby supostamente não queria nem ver pintados de ouro.
Tudo aquilo parecia ter sumido de uma hora pra outra, como um passe de mágica.
E mesmo com seus sensos aprimorados, por estar longe da mesa, não conseguiu ouvir o que Abby estava falando, mas sua visão ainda lhe permitiu ver o que acontecia.
A expressão no rosto de Abby, enquanto falava com a família, era muito família, mas também estranhamente obscura e alarmante. Era, sem sombras de dúvida, a mesma que ela usava ao conversar com Moby, quando ele a confortava e a fazia valorizar sua presença. Mas ela também era a mesma que mostrava ao fofocar e brincar com Jayden na ausência de Moby, já que perto dele, que era seu lorde e salvador, ela se sentia sempre tensa demais para fazer qualquer coisa do tipo.
Abby havia lhe explicado que estava acostumada a fingir emoções para agradar os pais e receber o mínimo de castigos por dia. No entanto, mesmo assim, Jayden duvidava que Abby estaria agindo de forma tão natural e convincente, e que os pais a aceitariam tão alegre e feliz, como se tudo estivesse resolvido, sem que houvesse um traço de tensão em seu rosto. Não importava o quanto tentasse racionalizar a cena, ela simplesmente não conseguia. Aquilo parecia estranho e antinatural, quase como se a base e a lógica do universo estivessem se quebrando diante dela.
Se tinha duas coisas que Jayden tinha certeza, era que a gravidade da Terra trazia as coisas caírem e que Abby odeia e quer massacrar a família.
No entanto, vendo isso, ela estava começando a ter suas dúvidas…
Os olhos de Jayden se arregalaram…
Por um breve momento, o pensamento de Abby estar mentindo e sendo falsa com todos, apenas para conseguir se aproximar dela e do Moby, passou por sua mente. Os pensamentos que faziam as palavras do seu mordomo verdadeiras: que Abby era uma espiã e traidora desde do início.
Repetindo o processo, Jayden respirou fundo antes de fechar a boca. Os dentes rangeram entre si enquanto tentava afastar esses pensamentos e xingar a si mesma por ousar pensar nisso.
Não era culpa da Abby, certeza que tinha alguma explicação para isso tudo.
Sentiu-se com tanto nojo de si mesma por pensar em tal possibilidade, que quase vomitou ali mesmo.
Se não estivesse em público, ela com certeza teria dado um tapa na própria bochecha para parar de doidice, algo que Moby fazia quase sempre e achava muito efetivo.
Jayden precisa acreditar em Abby, que tudo isso era fingimento e que apenas subestimou suas habilidades de atuação.
Não importasse o que visse e ou ouvisse, ainda não estava preparada para aceitar Abby como uma traidora. E quanto mais pensava sobre o ódio claro de Abby, sua força e determinação, mais esses pensamentos ficavam claros e sumiam. Tinha uma explicação para tudo isso, e Jayden planeja descobrir e salvá-la.
Tudo que precisava fazer era continuar com o plano.
Ela confiava em Abby. Sua primeira melhor amiga. E nada nesse mundo a faria mudar de ideia, Jayden vai fazer de tudo para salvá-la.
Quando despertou de seus pensamentos, percebeu que seus colegas começaram a andar, seguindo o caminho do fogo gélido no chão. E, as expressões nervosas de antes, agora estavam substituídas por expressões calmas e profissionais.
Respirando fundo, Jayden decidiu segui-los, tentando seu máximo para abrir a conexão mental com Abby novamente. Mas, mesmo com a proximidade, tudo que conseguiu ouvir foi o mesmo barulho estático.
Como teste, decidiu tentar entrar em contato com Moby, mas novamente, não recebeu resposta. Contudo, diferente de antes, apenas veio o som de nada o que indicava o funcionamento da conexão estava ativa, mas, por algum motivo, Moby só não respondeu.
De alguma forma, isso acalmou o coração de Jayden, porque provou que Abby estava sendo mantida aqui sem sua permissão e não tinha escolha a não ser obedecer.
Assim que ela e o grupo de empregados terminaram de percorrer o caminho organizado até as cinco mesas, uma voz rouca, profunda e alta ressoou pelo ambiente, capturando a atenção geral.
“Sejam bem vindos, meus queridos convidados! Posso ver que todos chegaram em segurança! Estou muito grato por todos terem vindo ao 20º aniversário de casamento meu e da minha amada esposa, Synthia! Ontem, nossa celebração não ocorreu como planejado, pois minha filha teve outros compromissos! Contudo, asseguro que ela não só apenas refertou a situação como fez um uso inteligentíssimo do tempo! Ela mais do que se redimiu! Ela cresceu tanto durante esses últimos anos, que não consigo estar mais orgulhoso em ver na mulher que se tornou!” O dono da festa, Lukas Reid, dirigiu-se aos convidados de braços abertos. Acabando seu discurso colocando sua mão no ombro de Abby, enquanto a multidão sorria e aplaudia.
Os olhos de Jayden tornaram-se novamente vazios e arregalados ao absorver as palavras. Mas ela logo afastou esses pensamentos, considerando-os como falsos e mentirosos, e seguiu o fluxo dos serventes. Olhou para o prato na mão direita para ver que deveria servir a mesa 3, seção 43.
“Recebi noticias que ocorreu um incidente na escola militar da minha filha, mas felizmente, apenas as crianças pobres que ainda moram lá, então isso não nos afeta!” Ele continuou, fazendo todos caírem em gargalhadas leves junto com seus filhos, que sentados aos seus lados.
“Hoje é dia de festa! Um dos melhores dias da minha vida! Vamos aproveitar a noite inteira! Não deixem nada os atrapalhar! Aproveitem a comida, dancem a noite inteira antes de irmos para algumas atividades que tenho certeza que todos vão gostar!” Lukas anunciou novamente, antes de voltar para o seu lugar. Em seguida, olhou sua esposa e a beijou com paixão, sob os aplausos e cumprimentos da plateia.
Ignorando essa cena nojenta diante de si, Jayden continuou andando para seu caminho designado até chegar na mesa que deveria servir o prato.
“Aqui está seu pedido, jovem mestre, aproveite!”
Com um sorriso forçado, ela depositou o prato na grande travessa de um rapazinho loiro, extremamente baixo, que parecia ter a metade de sua idade. Ele não lhe deu atenção alguma, continuando a bater palmas, como se ela nem estivesse ali. Jayden considerou isso uma benção, já que não estava com ânimo para aturar ladainha desse moleque.
Assim que os aplausos e os gritos pararam, o som da multidão reapareceu e preencheu todo o salão, enquanto todos voltavam a socializar.
Enquanto se afastava da mesa onde havia entregado a comida, Jayden inspecionou o salão à procura dos serventes de seu grupo. Ela notou que metade deles estava de prontidão, circulando pela área à espera de serem chamados, e a outra metade saía pela porta de antes, provavelmente a caminho da cozinha para buscar mais alimentos.
Jayden não fazia ideia de qual papel deveria desempenhar, já que Preston não havia revelado essa informação na breve conversa que tiveram. Ainda assim, ela estava mais do que preparada para arriscar e ficar. Afinal, se não estragasse tudo e envergonhasse os outros, a penalidade seria fraca, devido à posição relativamente alta de Preston.
Fingindo circular aleatoriamente pela sala, ela começou a se aproximar, passo a passo, do fundo do salão, onde Abby e sua família estavam sentados, sempre atenta aos vários guardas que patrulhavam a área.
Como a conexão mental estava fora de questão, Jayden precisava encontrar alguma forma de se comunicar para que as duas pudesse conversar a sós.
E, por sorte, para uma situação como essa, eles haviam criado uma palavra secreta para se identificarem. Apesar de ter zombado da ideia na época, Jayden estava extremamente feliz por Moby ter sugerido aquilo no passado.
Parando a sete metros da mesa de Abby, pois sabia que não podia avançar mais, em seguida, falou com a voz profunda e masculina de Preston. O tom era alto o suficiente para que Abby, com sua audição aguçada, conseguisse ouvir sem dificuldade.
*Yawwwn*
“Demônios todos serenes, celebrando enquanto a escola corre um perigo terrível, isso sim é algo que eu valorizo de verdade.”
Como ela esperava, sua voz não gerou nenhuma reação nos convidados e guardas próximos, mas ao olhar para os olhos agora arregalados de Abby, Jayden soube que havia funcionado. Abby instintivamente a fitou, e Jayden retribuiu com um sorriso acompanhado de um aceno. Abby correspondeu com um sorriso próprio, exibindo uma expressão de felicidade e descrença, como se tivesse sido salva, sem nunca esperar ver Jayden naquela situação.
“Mãe, Pai, se me derem licença, preciso ir ao banheiro. Não irei demorar.” Abby disse, com um sorriso radiante no rosto enquanto se levantava. A expressão de alegria e inocência de Abby ainda causava a Jayden um enjoo no estômago, mas, mesmo assim, ela conseguiu forçar uma expressão natural no próprio rosto.
“Oh, está tudo bem, querida, o jantar não vai acabar tão cedo, então não precisa se preocupar. Os banheiros estão logo ali.” Sua mãe, Synthia Reid, respondeu, apontando para um buraco na parede onde os banheiros estavam indicados.
“Mas, acho que você não vai querer usar eles, então pegue um servente para te guiar para o banheiro privado.” Ela continuou, soltando uma leve risada.
“Oh, isso seria ótimo! Será que posso ir até o banheiro do meu quarto? Faz tanto tempo que não vou lá, vai ser uma nostalgia maravilhosa.” Abby disse, com um brilho animado nos olhos.
“Oh! Por que eu diria não a isso, querida? Vou chamar u-“ Sua mãe respondeu antes de ser interrompida por Abby, que apontava para um homem à distância com uma postura perfeita, esperando por ordens.
“Eu quero ele! Ele parece ser legal e respeitoso!”
Com uma falsa expressão de surpresa, Jayden caminhou de forma imediata, segura e elegante em direção à mesa de Abby. Os guardas ao redor ignoraram sua atitude, pois era óbvio que ela havia sido chamada.
“Minha Lady, não pude deixar de notar que a senhorita apontou em minha direção, precisa de alguma ajuda? Este seu humilde servo está pronto para fazer absolutamente qualquer coisa para ajudá-la.” Jayden curvou-se, posicionando sua mão direita no ombro e olhando intensamente para Abby.
A princípio, seus pais recusar a sugestão de Abby em pedir para aquele homem ser seu guia e guarda, mas a demonstração que presenciaram fez com que começassem a repensar a decisão.
Na perspectiva dos pais de Abby, os modos do homem à frente deles eram impecáveis, como se ele tivesse sido treinado profissionalmente por muitos anos na arte da etiqueta. Eles reconheceram o servente como Preston Hemmingwood, filho de um velho amigo de confiança, a quem permitiram trabalhar como servo para a família. Eles sabiam que ele era razoavelmente forte, mas seus modos não os haviam chamado a atenção nos breves encontros anteriores.
Ele parecia um homem transformado; o treinamento do chef principal deve ter, de fato, operado milagres.
A mãe de Abby virou-se para a filha e acenou, dando sua aprovação.
“Jovem rapaz, tome conta da nossa filha e tenha certeza de que nada aconteça com ela.” A voz de Synthia soava inocente, mas continha um toque de malícia e intenção assassina, algo que Jayden estava tão acostumada a ignorar que mal percebeu o que ela estava tentando fazer.
“Não se preocupe, senhora. Juro no nome Hemmingwood que vou manter sua filha segura.” Jayden falou mais uma vez, curvando-se ainda mais e escondendo o sorriso vitorioso e diabólico de satisfação, que se mantinha fora da vista de todos, voltado para o chão. Abby sentia o mesmo, mas sua expressão estava bem guardada sob sua poker face e seu sorriso radiante.