A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 425

A Virtude do Demônio

— Espera, espera, espera, eu sei exatamente do que você está falando, mas como exatamente isso ajuda a aprender a linguagem antiga? — questionou Eiro, e Merlin explicou.

— Bem, é simples: você troca a mana contida na placa com a sua e, ao fazer isso, estuda as palavras como normalmente faria.

—… Tão simples assim? — murmurou Eiro. — Eu já fiz bastante a primeira parte, mas eu só tinha que estudar enquanto fazia isso?

— Espera, como você teve a ideia de fazer isso? — perguntou Merlin um pouco confuso. — Em primeiro lugar, como você encontrou aquele lugar? Era bem escondido!

— Ah, alguns Goblins começaram a usar a área como uma vila. Porque, como você viu ao criar a laje, você consequentemente criou uma mina de Pedras Mágicas lá. Os Goblins gostavam de quão brilhantes as pedras mágicas eram e se acomodaram ali. Porém, não precisa se preocupar, aqueles caras estão completamente sob o meu controle. Agora que sou um nobre, toda aquela área pertence à minha baronia, então aquele lugar estará seguro de qualquer forma.

— Huh. Uma mina de pedras mágicas pode ser criada tão facilmente assim? — questionou Merlin. — Que curioso. Se importaria se eu desse uma olhada naquele lugar alguma hora?

— Oh, claro, posso te mostrar tudo em breve — respondeu Eiro. — Mas é bom saber disso, se eu conseguir aprender a linguagem antiga, isso realmente possibilitará muitas coisas para mim.

— Claro que sim, isso é apenas o começo do estudo do conceito de Arcano. Posso te dar alguns diários sobre o processo de transformar mana pura em mana ‘arcana’. Você precisa de um controle profundo sobre sua mente para fazer isso, no entanto. Então tenha cuidado — adicionou Merlin, enquanto os sinos para as próximas aulas soaram pelo prédio.

— Acho que temos que parar por ora — suspirou Eiro um pouco desapontado, antes de se levantar. Bavet se fundiu novamente com seu corpo e mudou sua aparência mais uma vez. — Falo com você em breve, então.

— Venha a hora que quiser — disse Merlin com um sorriso, enquanto Eiro saía do escritório. Assim que saiu, seu sorriso suave desapareceu.

— Bem, merda.

— Hm? O que está errado? — perguntou Sarius, e Eiro resmungou baixinho.

— Tinha alguma coisa estranha, só não sei o que.

— Espera, sério? Tipo, com Merlin? — questionou a Salamandra, e Eiro apenas assentiu. Sarius resmungou alto.

— Então por que diabos você disse a ele que você é a porra de um Demônio e que a vila dos monstros existe? Que tipo de idiota você é?

— Não é como se eu sentisse que Merlin é uma pessoa ruim, sinto uma certa confiança nele, sabendo que ele cresceu com Jura. Algumas coisas simplesmente não se encaixam, como se ele estivesse escondendo algumas coisas — explicou Eiro. Logo, ouviu um sussurro em sua orelha, vindo de Bavet.

— Do que exatamente você está falando?

Eiro resmungou baixinho.

— Certo. Parece que Merlin e Jura eram extremamente próximos, mas faz tanto tempo que eles não se encontram que Nelli nunca o viu antes? E se eles trocavam cartas todos os anos, como ele não sabia sobre mim? Jura contou a Armodeus sobre mim, e parecia que Merlin era mais próximo de Jura do que Armodeus era agora. Claro, Merlin não estava mentindo, ele não disse uma única mísera mentia, na verdade. O que também é estranho.

— Então? Merlin é uma pessoa estranha, mas você também não pode ser chamado de normal — comentou Gondos, e Eiro suspirou.

— Acho que você está certo. Mas, pelo menos não havia nenhuma hostilidade vinda dela, então tenho certeza de que posso confiar nele.

— Certo — murmurou Nelli. — Ainda parece meio arriscado, sabe? Jura nunca falou sobre ele.

— Nunca? — perguntou Eiro, e Nelli concordou.

— Nunca.

— Isso é um pouco estranho, eu acho. Mas tenho certeza de que não há nada com o que se preocupar. Se algo acontecer… sempre posso chamar a Necromante Mestre para me ajudar — ressaltou o Demônio.

—

Eiro sentiu o vento soprar em seu corpo enquanto cavalgava Lugo ao lado da sua carruagem, aquela aprimorada por Armodeus. No momento, ela estava vazia e era puxada por alguns cavalos. O Demônio estava a caminho da Vila dos Monstros, afinal, considerado trazer alguns deles de volta como o primeiro lote de ‘servos’ da mansão.

Assim que chegou à área acidentada da entrada da vila, Eiro já conseguia dizer que a vila estava indo muito bem. Conseguia ouvi-los conversando, vivendo em harmonia. Mas a primeira coisa que fez não foi entrar.

Colocou a carruagem em um lugar seguro e então começou a usar magia de terra para alterar a área ao redor do caminho que passava por ali. Ele queria garantir que ninguém parasse ali, eliminando qualquer local possível. Mais tarde, quando tivesse mais tempo e vontade para isso, criaria um caminho novo.

Assim que terminou, voltou à carruagem e a levou até a entrada do túnel. Com um aceno rápido, a grande rocha foi empurrada para o lado e, para a surpresa de Eiro, o próprio túnel havia mudado bastante. Não era mais uma caverna natural, mas sim um túnel reto e escavado, que levava diretamente à vila.

Tochas foram colocadas ao longo das paredes para iluminar a área e, no fim do túnel, Eiro podia ver um tipo de portão de madeira.

— Huh… — murmurou enquanto caminhava pelo túnel, com a carruagem logo atrás. Assim que chegou ao outro lado, bateu no portão de madeira algumas vezes. Uma fenda estreita se abriu, revelando apenas um par de olhos. Com um forte sotaque orcês, a criatura atrás dela perguntou.

— Senha?

Eiro suspirou fundo, retirando sua máscara.

— Abra este maldito portão antes que eu arranque sua cabeça. Essa senha é boa o suficiente para você?

O Orc pareceu se virar e falar com outra criatura em orcês, mas Eiro estava apenas irritado.

— Bavet — resmungou, e o Slime voou de seu ombro na forma de um pássaro. —Transforme-se em uma chave e abra isso.

— Certo. Parece muito básico, não deve ser tão difícil — respondeu o Slime, que pressionou seu corpo contra o buraco da chave. Instantes depois, Eiro pôde ouvir um estalo e começou a empurrar o portão.

— Você já esqueceu do rosto do seu mestre? — perguntou Eiro com um sorriso irônico, olhando para o Orc das Terras Altas azul na sua frente. O Orc parecia confuso, e o Diabrete levantou as sobrancelhas.

— Espera, não te reconheço. Você é novo por aqui?

— Não… novo. Você… novo — grunhiu o Orc, E Eiro suspirou.

— Onde está Boju?

Os dois Orcs pareciam confusos, e Eiro revirou os olhos.

— Habojugikatsuge. O chefe dos Orcs.

De imediato, os guardas Orcs acenaram a cabeça com sorriso amplos e apontaram para uma estrutura em particular em direção ao fim da ravina. Parte dela estava esculpida na parede e parte foi criada usando tijolos de pedra e madeira. Provavelmente era ali que Gobo, Kitsue e Boju estavam. Assim como os dois Fogos-Fátuos. Mikey e… Ariella. Era um pouco estranho para Eiro que duas pessoas conectadas a ele compartilhassem um nome tão raro.

Já havia perguntado à Nefilim sobre isso, mas ela não conhecia ninguém com o mesmo nome.

Assim, Eiro passou pelos Orcs, que não pareciam conhecê-lo, e foi até o outro lado da vila. Os dois guardas o seguiam confusos, enquanto o Demônio estava simplesmente irritado. Pelo menos a maioria dos outros monstros o reconheceu, então os Orcs logo compreenderam que Eiro deveria estar aqui.

Mas Eiro não pôde deixar de ficar impressionado com o progresso da vila. As minas ainda estavam funcionando, mas algumas haviam sido fechadas pois não havia mais nada, e foram transformadas em casas para os habitantes da vila.

Quando chegou à grande construção, Eiro entrou e não demorou muito para que visse aquele que mais queria ver: Gobo.

Assim que o Hobgoblin o avistou, correu até Eiro com um grande sorriso.

— Mestre! — exclamou. — Bem-vindo! Não esperava que voltasse tão cedo!

— Obrigado, Gobo. É bom vê-lo de novo. A vila parece ótima, aliás, então bom trabalho.

— É uma honra ouvir isso de você, Mestre! Quer que eu lhe mostre a vila? — perguntou Gobo com um sorriso animado, mas Eiro balançou a cabeça.

— Está tudo bem, primeiro, preciso perguntar sobre Mikey e Ariella. Onde eles estão? — questionou o Demônio. Ele conseguia senti-los por perto, mas emanavam uma sensação diferente da última vez que os viu.

— Ah! Você ficará orgulhoso, Mestre! Os dois conseguiram evoluir enquanto você estava longe! — exclamou Gobo, e Eiro ficou quase perplexo com o fato em si.

— Eles evoluíram? — perguntou ele. — Isso é impossível. Eles são Mortos-Vivos criados por mim, então não deveriam ser capazes de evoluir sem a minha interferência.

— Bem, eles evoluíram… — comentou Gobo e, logo, Eiro conseguiu ver que o Hobgoblin estava definidamente certo. Aqueles dois estavam muito diferentes do que costumavam ser. Para começar, nenhum dos dois era a fagulha de antes. O tamanho deles não mudou muito, apenas suas formas; Mikey se transformou em uma figura minúscula, meio humanoide, vestindo uma capa, com o rosto completamente escondido na escuridão. Ou melhor, ele era feito daquela escuridão sombria em si. Havia algumas luzes semelhantes à vaga-lumes flutuando ao redor dele.

Ao lado dele, o Fogo-Fátuo Ariella. Ela tinha uma forma básica semelhante, só que com a cabeça exposta e duas pequenas asas angelicais nas costas.

Isso só reforçou a ideia de Eiro de que ela estava ainda mais conectada à outra Ariella.

Mas, por enquanto, estava completamente confuso. Não deveria ser possível que eles evoluíssem dessa forma. Não era assim que os Mortos-Vivos funcionavam. Hannah era basicamente a única Morta-Viva capaz disso, já que era sua própria Necromante, mas isso deveria ser impossível para outros Mortos-Vivos.

Havia apenas uma exceção a essa regra que Eiro conseguia imaginar… e seria caso alguém com poderes como os do Rei dos Monstros criasse Mortos- Vivos.

…

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