A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 390

A Virtude do Demônio

Eiro desceu até o porão, olhando para Ariella e Hannah. As duas ficaram ali o dia todo, escondendo-se de possíveis ‘Caçadores de Mortos-Vivos’ que poderiam vir atrás delas a qualquer momento. O lugar onde elas estavam se escondendo era o quartel dos guardas dentro da mansão.

Bem, mais como uma sala que estava escondida dentro desse quartel. Eiro foi até o guarda-roupa do outro lado do cômodo e passou seu pé sob ele. Deslizou um dos pés para o lado e empurrou sua mana na joia que foi exposta.

Após um segundo, puxou-o e o guarda-roupa deslizou pelo chão, revelando a entrada para a sala além.

— Oi. Espero que não estejam muito entediadas, presas aqui o dia todo — Eiro disse às duas mulheres. Hannah se levantou e caminhou até ele, com muita energia. Se ela pudesse, estaria sorrindo agora.

— Ariella está se lavando na outra sala? — o Demônio perguntou, colocando a mão no crânio da garota. Ela assentiu, então Eiro sorriu para ela e caminhou até o outro lado do cômodo. Sem hesitação, abriu a porta e entrou no banheiro.

— O quê?! — Ariella gritou. Ela se virou para a porta, com o corpo totalmente exposto, já que se limpava e encarou o Demônio. — Saia daqui! O que está fazendo?!

— Hm? Eu só queria conversar com você, o que mais?

— Poderíamos fazer isso quando eu estiver vestida da próxima vez?! — A Nefilim exclamou, mas Eiro coçou a nuca.

— O quê? As pessoas ainda se importam com essas coisas quando adultas? Pensei que só fosse algo da adolescência.

— Você acha que não querer ser visto nua é coisa de adolescente? — Ariella perguntou com um sorriso sarcástico e Eiro assentiu de imediato.

— Sim, não é? Eu não estava ciente disso, desculpe, mas, só para esclarecer, não é como se isso importasse. Eu sei o formato e tamanho exato do seu fígado, então claro já sei como você parece nua.

A Nefilim se cobriu com uma toalha.

— Quer saber? Da próxima vez, que tal você não revelar para a pessoa com quem está se unindo que é um pervertido que quer transar com ela?

— Ariella, acho que você está entendendo errado. Não tenho um pingo sequer de atração sexual por você. Nem por ninguém, aliás. Arc me disse que isso é chamado de ‘Assexual’, mas, de novo, eu também achava que não conseguia sentir sentimentos românticos por alguém e isso não é o caso — Eiro comentou. — Mas isso não é importante agora. Mais do que isso, preciso conversar com você sobre a noite passada.

— Você realmente… é inacreditável. — Tudo bem, mas pelo menos se vire enquanto conversamos — Ariella resmungou. Eiro deu de ombros e fez como pedido.

— Sabe que isso não faz diferença com a minha-

— Só cala a boca, essa não é a questão. Agora, o que você tem a dizer? — A Nefilim questionou com um tom seco enquanto secava seu corpo para se vestir.

— Você ainda é da opinião de que é um problema eu não querer usar minha filha para guerra? — Eiro respondeu. Ariella suspirou fundo.

— Ela não é sua filha de verdade, sabe disso, certo? Você é um demônio, ela é uma humana. Ela é só algum bochincho de estimação… que você acolheu.

Eiro arregalou os olhos, com seus batimentos intensificando-se enquanto ficava bravo.

— Eu a criei desde que ela era um bebê. Eu estava lá para suas primeiras palavras e primeiros passos. Eu estava lá para ela, acalmando-a sempre que ela chorava. Eu literal daria minha vida por Avalin e você está dizendo que não sou o pai dela? Eu sou mais pai do que o pedaço de merda que a deixou na igreja para transformá-la em uma arma de guerra, como você está fazendo agora.

— Mas você é um demônio, você-

— Eu sou um demônio, mas tenho uma alma humana! E isso não é uma metáfora idiota, é literal. Sou uma criatura criada artificialmente pelo Rei dos Monstros usando a alma de um humano. Algo deu errado e algumas partes da minha alma humana foram mantidas dentro de mim. Esta última parte é uma suposição, mas acho que é bastante razoável, mas isso não significa que eu seja só um humano preso no corpo de um demônio! Eu tenho monstruosidade. Matei pessoas. Comi pessoas quando ainda era muito idiota para formar uma frase completa. O único fato que importa é que eu sou eu. Eu sou Eiro.

Ariella escutou a história de Eiro, descrente. O que ele dizia soava insano, absurdo. Impossível.

— Como você espera que eu acredite nisso?

— Só estou pedindo para que confie em mim. Digo, eu não disse nada sobre seu pai ser um dos maiores babacas deste mundo — Eiro disse. — <O Hierofante>, certo?

Ariella virou o pescoço, encarando o Demônio.

— Mas-

— Neste ponto, você esperava que eu não soubesse? Tenho maneiras de espalhar rumores pelo mundo, mas não tenho formas de encontrar informações? Acompanho as ações de todos os Nobres, o máximo possível pelo menos. <O Hierofante>, supostamente um Kenkraa evoluído. Com habilidades semelhantes às de um sacerdote, mas para um deus maligno. Pelo menos é isso que as pessoas acham, desde que ele utiliza Magia Profana. Além disso, <O Hierofante> foi descoberto por <O Diabo>. No mínimo, costumava fazer parte do exército pessoal de <O Diabo> — Eiro comentou. — Agora, o que você espera que eu pense? Uma criatura profana com asas negras como azeviche. Trazido à vida por <O Diabo>. Então, uma Nefilim tentando matar o Diabo por algum motivo. Com todas essas informações, não é tão difícil de descobrir, é?

— Então? O que você está tentando fazer com essa informação? Me chantagear? Revelar isso para- — Ariella começou. Mais uma vez, Eiro a interrompeu e parou de se importar com o pedido dela de se virar, olhando para os olhos chocados e assustados da Nefilim.

— Você é idiota? Ariella, pare de agir assim. Estou tentando ajudá-la! Nós temos um objetivo em comum. Estou no mesmo nível de escória que o seu pai, também em parte devido à influência de <O Diabo>. Tudo o que estou dizendo é que quero que pare de me tratar como um monstro. Nós dois sabemos que você não se considera um, embora tecnicamente seja, então por que eu sou um monstro, mas você não? Por que é tão inacreditável eu me importar com essas crianças e tratá-las como minhas filhas? Pare de me transformar no vilão aqui.

— Porque você pode estar perto de alguém que pode te matar a qualquer momento! — Ariella exclamou irritada, mas a raiva não era direcionada para Eiro. Ele sabia como era isso e não era assim.

— Terminamos aqui. Colocarei mais próteses em Hannah; quando você tiver terminado, ela terá outro braço e mais duas pernas. Depois disso, te apresentarei para alguém — Eiro se virou e deixou a sala. Hannah estava tentando escutar a conversa que os dois estavam tendo, mas Eiro não se importava.

O Diabrete levou a garota para fora desta sala oculta e a levou de volta à oficina improvisada onde todas as partes das próteses estavam. Eiro a fez se sentar e começou a colocar as próteses em seu braço direito.

— Então… você se importa se eu fizer algumas perguntas? — Eiro perguntou. Entregou um papel para ela escrever com a mão esquerda.

Hannah acenou a cabeça em resposta e Eiro sorriu.

— Então, há quanto tempo você é capaz de usar necromancia?

A garota virou a cabeça para o lado e começou a escrever enquanto Eiro continuava fixando as próteses.

‘Desde que eu morri.’ Ela escreveu.

— Hm, entendo. Sua habilidade única fez alguma coisa enquanto você estava viva? — O demônio questionou e a garota balançou a cabeça.

‘Eu não a tinha antes. Quando eu morri, fui até os céus e os deuses me deram o dom de voltar à vida.’

— Os… os deuses? Eles eram um Elfo, um Humano vestido com roupas estranhas e um Rhida? — Eiro perguntou. A garota inclinou a cabeça para o lado, confusa.

‘O que é um Reeda?’

— É Rhida — O Diabrete corrigiu, escrevendo a palavra no papel, antes de desenhar um pequeno esboço de como eles pareciam. Uma raça de crocodilo humanoide, em essência.

De imediato, a garota assentiu.

‘Esses são os deuses! Eles me deram o dom e a habilidade!’

— O que… — Eiro parou por um momento, atordoado com o que estava acontecendo. Por que eles deram tal dom para uma garota aleatória? Não parecia haver nada de especial no status dela. Que motivo eles teriam? Seria só uma coincidência? Ou era alguma piada de mau gosto, uma reviravolta estranha do destino?

Isso tudo ficava cada vez mais estranho. Parecia que Hannah não queria falar sobre a forma como ela morreu, então Eiro não citou esse tópico, mas ainda fez algumas outras perguntas para distraí-la enquanto montava as próteses. Coisas sobre ela. Seus hobbies, sua cor favorita. Coisas que ela queria ver aqui na capital. Esse tipo de coisa.

Pouco a pouco, Eiro terminou. Logo, Hannah tinha próteses completas para os braços e pernas. Ele ajudou a garota esqueleto a vestir sua capa de novo e entregou para ela uma máscara reserva, que ele mesmo havia feito, para ela vestir.

— Assim, você já conseguirá se passar por uma humana para muitos. — O Demônio sorriu. — Basta manter um bilhete com você dizendo que é uma aventureira notável e entregá-los às pessoas que quiserem causar problemas. Você parecerá mais importante em momentos assim — Eiro explicou para Hannah, que acenou a cabeça, alegre.

Neste instante, Ariella entrou no cômodo. Ela encarou a garota que ontem era feita só de ossos, parada com as mãos e pés expostos. Ela parecia… viva. Mais viva do que há alguns dias, pelo menos.

— Isso é insano… obrigada pela sua ajuda, Eiro, de verdade, apreciamos isso… — A Nefilim disse, mas Eiro olhou para ela com um sorriso sarcástico.

— Do que você está falando? Vou trabalhar no resto do corpo dela também; a única parte que levará um tempo será a cabeça… ela parecerá uma garota normal em alguns dias.

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