A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 226

A Virtude do Demônio

Eiro parou de repente e encarou Solomon, apertando o pulso enquanto tentava compreender por que Solomon estava perguntando isso. Em primeiro lugar, como ele sabia que Avalin era a ‘Sacerdotisa Sagrada’? Não havia como os outros contarem sobre isso, e considerando quanto vinham praticando a melhor forma de esconder a verdadeira identidade dela, ele definitiva não viu seus olhos.

 — Como você descobriu isso? — O Demônio disse e Solomon olhou para ele, esperando por uma resposta adequada.

— Eu conto se puder entender seus motivos.

Eiro pensou por um instante, mas a este ponto não poderia esconder mais isso. Olhou para Solomon em seus olhos e soltou um longo suspiro.

— Não sou um demônio de verdade. — Eiro explicou. — Pelo menos, não um normal.

— Percebi, considerando que você está conversando comigo dessa forma, casual.

— Não, não é isso que quero dizer. — Eiro respondeu. — Não sou ‘normal’, já que fui criado artificialmente pelo Rei dos Monstros. Algo deu errado comigo e me tornei uma variante, o que me levou a trilhar esse caminho, mas, independentemente disso, o comando do Rei dos Monstros era, e em alguma extensão ainda é, parte de mim. Agora consigo suprimi-lo, não se preocupe, mas, naquela época, eu não conseguia. Quando usei o Ás de Copas pela primeira vez, vaguei pelo castelo da capital do Império. <O Sol> ameaçava os cavaleiros de lá e queria pegar Avalin por conta própria. Em vez disso, eu a peguei e a trouxe comigo para levá-la até o Rei dos Monstros. Eu deveria levar Avalin até ele para que pudesse transformá-la em <O Louco>, mas eu resisti e a criei por conta própria. E acho que essa foi uma boa escolha, pois quando encontrei um Barão do Império Sagrado cerca de um ano atrás, descobri que ela seria uma arma de guerra completa.

Solomon olhou para Eiro com um olhar profundo e por um momento Eiro conseguiu ver que as pupilas do rei se transformaram em uma fenda negra enquanto toda a aura de Solomon mudava, fazendo Eiro sentir arrepios profundos por todo o seu corpo.

Os cantos da boca do Rei se curvaram para cima e ele assentiu.

— Entendo. Estou feliz. Eu sabia que você era um cara legal, mas precisava me certificar disso. Agora, sei que posso confiar em você, o homem que está criando aquela que deveria matá-lo, e está pronto para divulgar tudo isso para mim. — Solomon comentou com um leve sorriso, se virando. — Há algum local em que possamos falar com mais privacidade?

Eiro sorriu e assentiu. Ele sabia que tinha que haver mais em Solomon do que aparentava. O Demônio o liderou pelos corredores da mansão e o levou até a biblioteca, subindo as escadas até o segundo andar dela, abrindo a entrada para a seção secreta da biblioteca.

— É isso que você tinha hein? — Eiro questionou enquanto entrava, e Solomon assentiu.

— Claro que sim. — O Rei olhou ao redor da sala com curiosidade, embora não estivesse nada além de surpreso.

— Você sabia sobre este lugar? — O Diabrete perguntou, e Solomon assentiu.

— Eu sabia que havia um lugar adicional conectado à biblioteca, e muitos outros cômodos desta mansão, mas não sabia do que estava escondido aqui. Embora não seja uma decepção.

Eiro caminhou até o canto da sala, onde havia uma área específica na qual as pessoas podiam se sentar e passar o tempo lendo, com cadeiras, sofás e mesas confortáveis. Sentou-se em uma das cadeiras e esperou que Solomon fizesse o mesmo, aguardando pela explicação.

— Então… — O Rei de Skyhart começou. — É hora de retribuir um pouco do que você me mostrou. Você já sabe sobre a habilidade de Linhagem única que eu e Charles possuímos, mas duvido que saiba com exatidão o que ela é.

— Você tem razão. Estava me perguntando se é uma habilidade que permite fazer seres especiais se transformarem em seus familiares, considerando o que você disse no passado, mas não parece ser o caso, afinal. — Eiro comentou. Com uma risada baixa, Solomon balançou a cabeça.

— Na verdade, você não está muito longe. — Ele explicou. — Embora tenha acontecido de pessoas sem essa habilidade serem capazes de formar contratos de familiar com esses seres, é bastante raro, afinal, se você não possui uma conexão forte com o seu familiar em potencial, ou a diferença de força for muito grande, haverá repercussões severas por formar contratos. Com esse ser em particular, as regras são rígidas, e falhar em formar o contrato leva à morte. Entre outras coisas, a habilidade de linhagem que possuo torna a maioria dessas regras desnecessárias. Claro, uma conexão forte ainda é necessária, mas é mais fácil para formarmos tal conexão com eles em primeiro lugar.

Eiro ouviu, ficando cada vez mais curioso quanto mais Solomon falava. Ele tinha uma ideia de que ‘ser’ era esse, mas não tinha certeza se estava correto ou não. Então, Solomon continuou.

— Esse ‘ser’ nada mais é do que a nobre raça dos Dragões. Bestas mágicas com força e autoridade imensas.

— Ah, então era isso, hein? Então, você tem um Dragão como familiar? — Eiro perguntou, e Solomon acenou com a cabeça.

— Sim, em particular o Dragão da Verdade e da Justiça, Lognir. Como ele é meu familiar, recebi um pouco do seu poder. Embora seja muito enfraquecido devido à distância existente entre nós, ainda assim, sou capaz de ver através de mentiras. Você viu isso, não viu? Eu percebi que você estava dizendo a verdade. Não consigo usar essa habilidade com tanta frequência, e está bem fraca agora, por isso que eu não sabia que você era um demônio, então não pense que eu te enganei, além disso, consigo ver através de ilusões.— Solomon explicou com uma leve risada.

De repente, tudo fez sentido para Eiro.

— Isso significa que você viu através das lentes de contato de Avalin?

O Rei assentiu.

— Sim, embora apenas recentemente. As ilusões que elas usam são potentes, sabia? Você deveria me contar de onde recebeu objetos tão especiais. — Solomon riu, tentando aliviar a atmosfera um tanto tensa. — Na verdade, foi durante o Solstício de Inverno. Fortes emoções de qualquer tipo tendem a amplificar essas habilidades aleatória, e nesse dia eu estava sentindo fortes emoções.

— … Entendo. Posso perguntar por que você e seu dragão, Lognir, estão tão distantes um do outro? — O Diabrete questionou e a resposta foi bastante simples.

— Ele saiu do meu lado para procriar com um dragão fêmea. Ele volta de vez em quando para me informar de como as coisas estão indo, e parece que terá que ficar e proteger os ovos e a dragão por um tempo, até que eles eclodam.

— Pelo que parece, ambos vocês são pais dedicados. — Eiro riu e Solomon olhou para o Demônio com um sorriso.

— Você que o diga.

— Eu sei, eu sei. Bem, estou feliz que tenha me confiado isso. Então devo compartilhar mais algumas informações que você também não sabe. Primeiro, eu fui marcado por <O Diabo>. Uma certa situação produziu outra marca a partir daquela e, desde então, tenho a tendência de ficar irritado com muita facilidade. Algumas vezes isso me beneficia, mas, na maioria do tempo, só é irritante, mas não precisa se preocupar, <O Diabo> não tem intenção de me causar mal agora, e não parece que ele tem intenção de atacar esse lugar também. Então, estamos bem por enquanto. — Eiro explicou sem pestanejar. Isso foi algo que Solomon não esperava ouvir tão de repente.

— Uma marca de <O Diabo>? Tem certeza de que está bem? — Solomon perguntou com uma leve carranca, mas Eiro assentiu.

— Claro que sim, estou total bem. Não se preocupe, estou trabalhando nisso.

— Se você diz, então confiarei por enquanto… mas, por favor, continue explicando isso para mim. — Solomon pediu e Eiro assentiu. Ele imaginou que era um pedido razoável, afinal era algo que poderia acabar afetando o futuro de Solomon, e apenas dizer que: ‘Está tudo bem’ não seria suficiente para relaxá-lo depois de escutar algo desse tipo.

Depois de ouvir toda a história de como a marca afetou Eiro até então, Solomon não tinha certeza do que deveria pensar.

— De fato, até agora, parece que a marca foi bastante útil para você, mas se ela se tornar cada vez mais difícil de suprimir, apesar do fato de você ser capaz de suprimir até mesmo os comandos do Rei dos Monstros… Então, deve tentar se livrar dela logo, não é?

— Claro, estou tentando investigar, mas não é algo fácil de se livrar…

— Compreendo… confio no seu julgamento. Claro, durante os anos com Lognir ao meu lado, me tornei capaz de julgar as pessoas muito bem. Apesar de saber que não devo confiar nesse julgamento completamente… — O Rei falou, pensando no incidente envolvendo Charles.

— Ah, falando em julgamento. — Eiro apontou, tentando mudar de tópico, e Solomon levantou as sobrancelhas.

— Sim?

— Por acaso, você conhece alguém do Clã Golias dos Humanos que seja confiável, bom e, de preferência, um pouco distante? — O Demônio questionou, mas Solomon não tinha certeza se entendia por que ele queria encontrar um tipo tão específico de pessoa, ainda mais uma combinação que deveria ser difícil de encontrar.

Pensou sobre o assunto por um instante e balançou a cabeça.

— Não acho que conheço. Se estiver tentando encontrar alguém ‘diferente’ entre os Golias, não deve ser difícil. A maioria dos Golias que viajam sozinhos são anomalias de uma forma ou de outra, e a maioria deles não pertence a uma tribo específica. No entanto, isso não significa que agem de forma diferente, como se fossem parte de uma tribo, mas por que está procurando por um? Está pensando em chamá-lo para o seu grupo?

— Hm? Oh, não. Rudy é um Golias, e depois de escutar como eles são, ele não estava se sentindo muito bem… Então, queria que ele conhecesse um Golias que se desviasse da ‘norma’ o máximo possível, para fazê-lo se sentir um pouco melhor.

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