
Volume 3 - Capítulo 225
A Virtude do Demônio
— Acho que, comparado a esses, até eu pareço bastante normal, não é mesmo? — Eiro perguntou com um leve sorriso no rosto e Charles não pôde fazer nada exceto acenar com a cabeça, enquanto encarava o Hobgoblin e o slime em forma humanoide deitados no chão no canto do quarto.
— Verdade, agora que tive a chance de olhar melhor, você não parece com o que conhecemos de Diabretes normais. Seu rosto, quero dizer. — Solomon comentou com uma risada e Eiro olhou para ele, devolvendo o sorriso.
— Sim, pareço mais com o de uma pessoa. Se eu tivesse uma cor de pele diferente, talvez até me passasse por uma, ignorando meus chifres e o fato de que não tenho cabelo.
Com um aceno, Solomon concordou.
— Certo, era isso que eu estava pensando! Isso nos leva a outro tópico, na verdade, como você — O Rei começou, embora logo tenha percebido algo enquanto desviava os olhos para o lado. — Ah, desculpa, há mais um detalhe que precisamos discutir em relação à escola. Acho que o outro tópico pode ser mais apropriado de se conversar quando forem nós dois.
Como Eiro já tinha uma breve noção do que Solomon queria mencionar, ele assentiu e esperou que ele continuasse.
— É sobre Felix e a forma como ele poderia frequentar a academia se assim desejasse. — Solomon explicou. Eiro levantou as sobrancelhas e olhou para o jovem, que ainda não havia conseguido compreender tudo o que o Rei disse, olhou para ele e tentou explicar através de sinais de mão, e Felix começou a tremer.
— A-Ah, eu… não acho que conseguiria frequentar a escola, su-sua Majestade… — Felix respondeu nervoso, mas Solomon balançou a cabeça e começou a falar, com Eiro interpretando para ele em linguagem de sinais.
— Como eu disse, é por isso que estou aqui. Veja bem, há um homem muito habilidoso que trabalha como o bibliotecário-chefe da Academia. Ele nasceu surdo e é um grande fã de qualquer arte que possa consumir. No começo, pretendíamos contratá-lo como um instrutor de arte, mas devido à sua condição, era difícil para ele trabalhar com estudantes, mesmo com o auxílio de um intérprete, mas assim que ouvi falar sobre sua condição e as coisas nas quais você tem talento, não pude ignorar isso como uma coincidência. Parecia como se estivesse destinado a ser assim. — Solomon explicou.
Assim que Felix percebeu o que Eiro estava contando para ele por meio dos sinais de mão, começou a ficar bastante nervoso.
— T-Tem certeza de que posso… frequentar a Academia? — Felix questionou e Solomon assentiu num instante. O garoto olhou para Eiro para ver o que ele pensava.
O Demônio sorriu para Felix, fazendo alguns sinais de mão para: {Sua decisão.} No fim, o garoto acenou a cabeça, se curvando um pouco para Solomon.
— Seria uma honra. Obrigado, sua Majestade. — Ele disse e o Rei olhou para Eiro com um sorriso.
— Agora que isso foi resolvido, acho que você e eu temos que conversar sobre outras coisas. Charles, por favor, tente informar a todos sobre as condutas dentro da Academia enquanto estivermos fora. — Solomon sugeriu, se levantando e seguindo Eiro.
Assim, enquanto caminhavam pelos corredores da mansão, começaram a conversar sobre outros tópicos importantes. Um deles é o que Solomon queria conversar mais cedo.
— Quando você foi até o castelo no dia do Solstício, falou sobre algum tipo de organização, não foi? Está planejando se infiltrar nela, não está? — O Rei questionou e Eiro assentiu.
— É o que planejo, sim. Eles têm feito algumas coisas bastante problemáticas até agora e possuem diferentes artefatos que seriam úteis de se possuir.
— Poderia elaborar um pouco mais? O que eles fizeram e o que possuem que você deseja?
Por um instante, Eiro pensou sobre o que poderia contar para Solomon e o que não deveria, mas, no fim, não havia motivos para esconder algo sobre isso.
— Veja, Enka de Argberg era parte dessa organização, assim como a pessoa que tentou matar a Dama do Inverno outro dia. Estou tentando descobrir o que ele tentou ganhar com isso, assim como várias outras informações sobre essa organização, mas é mais difícil do que pensei. Bem, de qualquer forma, o objetivo principal deles é se tornar cada vez mais forte e pessoas assim serão muito problemáticas no futuro, se tiverem sucesso. Eles possuem múltiplas cartas e, de alguma forma, conseguem criar artefatos artificiais a partir delas, com efeitos similares às cartas normais. Isso é algo que eu quero muito, em especial porque eles aparentam saber como aprimorar as cartas para fortalecê-las e melhorá-las ainda mais.
— Aprimorar cartas…? — Solomon questionou. — Espera, isso quer dizer que-
— Sim, Evelyn, a Feiticeira da Pedra de Sangue, é parte dessa organização. O amuleto que ela porta serve para aprimorar a pedra principal incrustada nele, a qual você já conhece como a verdadeira ‘Pedra de Sangue’. — Eiro explicou, mas Solomon não conseguiu acreditar. Isso parecia inesperado para ele.
Percebendo isso, Eiro continuou.
— Esta é a razão para eu dizer que não precisamos dela durante o Solstício quando nos apresentou. Então, em outro momento, ela veio até aqui e tentou me convidar à organização, para que eu pudesse ‘saciar meus desejos doentios com mais facilidade’, todos eles inventados por ela mesma. E durante o Solstício, ela tentou me manipular para que eu revelasse que eu era um Demônio, ao que eu joguei junto e mostrei isso para você, mas ela assumiu que isso teria feito você ordenar os guardas a me matar ou algo do gênero. De qualquer modo, pelo que sei, ela é uma pessoa horrível.
— Entendo… — O Rei murmurou. — É difícil acreditar que o membro de uma família tão importante faça parte de uma organização como essa, mas isso faz sentido com as coisas que vi. — Solomon comentou enquanto olhava para o chão, olhando para Eiro de novo. — Mas que tipo de plano você tem? O que fará depois de se infiltrar na organização?
— Hmm… não tenho certeza ainda. Não tenho um plano definido. — Eiro respondeu. — Mas isso porque ainda há muito sobre o que eu não sei. Não conheço a estrutura da organização, nem sei quais áreas e pessoas são mais importantes. Nem mesmo sei onde encontrá-los. — O demônio explicou.
— Mas você deve ter algum tipo de ideia do que deseja fazer depois de se infiltrar, certo? Qual é o seu objetivo? — Solomon perguntou e Eiro compreendeu o que ele queria saber.
— Ah, certo. Em sua maioria, só quero informação. Quero ser capaz de ver o que seus membros estão fazendo ou planejam fazer e se isso for prejudicial para mim, pensarei em uma forma de impedi-los. No começo, pensei que talvez devesse destruir a organização, mas tenho considerado assumi-la. Se eu a destruir, então todas essas pessoas ficarão livres sem que ninguém as impeça e não teríamos ideia de quem elas são e o que planejam. Bem, dependendo do que eu descobrir, posso acabar a destruindo, mas não tenho certeza. Primeiro, chegarei ao ponto em que possa substituir o chefão, de qualquer maneira.
Solomon suspirou e assentiu.
— Entendo. Deveria ter esperado algo desse tipo de você. Então, como planeja fazer isso? Não seria um problema se acabarem descobrindo sua identidade?
— Claro que sim, por isso que estou trabalhando em uma forma de me disfarçar. Posso tentar substituir alguém de alto escalão dentro da organização. — O Demônio explicou. — Esse disfarce ficará pronto em alguns dias, então não se preocupe com isso. Se necessário, me livrarei de todas as pessoas que possam descobrir que sou um demônio, em vez de uma pessoa. Simples assim.
— Certo, é simples assim. — Solomon respondeu com uma risada, indo para o próximo tópico. — Bom, eu apreciaria se me mantivesse atualizado sobre esse tópico no futuro, mas há mais algo que precisamos discutir, já que não tenho certeza do que pensa sobre isso. Eiro, você é um Nobre, por ter matado o antigo <O Mundo>?
Eiro olhou para ele, sorrindo e balançando a cabeça.
— Não, não sou um nobre. Sou um candidato para me tornar um, mas ainda não sou forte o suficiente para me tornar o próximo <O Mundo> com segurança.
Com um suspiro que só poderia ser de alívio, Solomon assentiu.
— Compreendo. Entretanto, não sei se isso me faz sentir melhor ou não. Eiro, consegue me assegurar de que suas intenções não mudarão depois que se tornar <O Mundo>? Não sei o que acontece com os monstros depois que se tornam Nobres, mas isso deve impactá-los profunda, assim como na mentalidade deles, não estou certo?
— Hm, acho que não, na verdade. A maioria deles só se torna tão forte que consegue se entregar a tudo o que quiser fazer, mas não podiam porque eram fracos demais para conseguirem. Muitas pessoas fazem o mesmo quando recebem uma Carta do Arcano Menor, não é? — Eiro ressaltou. — Não se preocupe, entre meus atributos, aquele com o maior valor natural é Força de Vontade. Minha percepção é fortalecida por uma das minhas cartas. Pode ficar tranquilo, não há muito que possa me abalar. Pelo contrário, na verdade. Ficar mais forte ao me tornar um Nobre aumentará ainda mais minha Força de Vontade.
— Entendo. Então, não tenho motivos para me preocupar, tenho? Desculpa se o ofendi de algum modo. — Solomon explicou, colocando as mãos atrás das costas. — Então, há uma última pergunta que gostaria de fazer.
— Claro, o que é, Solomon? — Eiro perguntou com um leve sorriso. Claro, ele sabia que o Rei confiava nele, mas a pergunta que Solomon fez em seguida ainda o chocou bastante.
— Por que você, um demônio, está criando a Sacerdotisa Sagrada como sua filha?