A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 204

A Virtude do Demônio

Eiro levou a Feiticeira da Pedra de Sangue até a mansão, certificando-se de que ela não encontrasse nenhuma das crianças. Ele tinha que assegurar que ela não conseguisse reunir informações relacionadas a elas.

O grupo se sentou na pequena sala que parecia ter sido um escritório antes. Eiro se inclinou contra a escrivaninha enquanto Evelyn se sentava em uma das cadeiras, ao mesmo tempo que Krog e James ficavam na porta por ora.

— Certo, por que eu deveria me juntar à sua organizaçãozinha? — Eiro perguntou com uma expressão irritada e ela cruzou as pernas.

— Primeiro, porque valeria a pena. Podemos fornecer coisas que você nunca obteria de outra forma. Podemos aprimorar o seu corpo e tornar possível que você alcance um ponto nunca visto por um Diabrete.

— Acho que já fiz isso, obrigado. Me dê um motivo de verdade. Não me diga os benefícios e sim o que você quer de mim, o que vocês querem de mim? E como eu deveria ajudá-los a alcançar o objetivo de vocês? — O Demônio disse e Evelyn riu.

— É, então você acha que é esperto, né? Tudo bem, jogarei com você enquanto alimento seu ego. — Ela disse com um tom que o irritou, mas ele ainda se conteve.

— Veja, é simples. Somos um grupo fundado por certas pessoas que querem se tornar mais fortes para escapar do sistema desse mundo. Claro, não o verdadeiro ‘sistema’, mas a ordem desse mundo. A forma como as coisas deveriam ser. Pessoas ficando presas em suas formas básicas e inferiores e monstros limitados em quais habilidades são capazes de aprender. Sabe, conseguimos dar a uma Lesma-do-Mar entendimento de linguagem avançado. Também demos a ela habilidades que necessitariam de membros. Habilidades que ela nunca conseguiria adquirir. — Evelyn explicou de forma presunçosa e Eiro a encarou de volta com uma carranca.

— Então você está tentando me convencer de que, se conseguiram com uma Lesma-do-Mar, conseguiriam comigo? Me colocando no mesmo, ou inferior, lugar que a dita Lesma-do-mar. Vai se foder. — Eiro disse sem rodeios, mas a mulher na sua frente cerrou os dentes.

— Não é isso que eu disse e você sabe.

— Claro que sei, não sou um idiota.

— Então pare de agir como um.

— E você pare de agir como uma pirralha. Meus filhos de sete anos são mais maduros do que você. — Eiro respondeu com um suspiro profundo. Evelyn simples ignorou o que ele disse e continuou.

— Ahem. De qualquer forma, acho que seus ideais combinariam com nossa organização. O apoiaremos com qualquer coisa que precise e, em retorno, você nos faz alguns favores, como pedidos da guilda dos aventureiros, sabe? — Ela explicou. Eiro pensou por um tempo e então coçou sua bochecha.

— Certo, acho que não. Vocês são uma organização que produziu Enka, uma pessoa que aleijou seu próprio filho em vez de admitir a derrota.

— Do que você está falando? — Evelyn questionou com uma carranca. — Enka era um pedaço de merda, mas mesmo ele era melhor que isso.

— Diga isso para Felix. Suas orelhas foram danificadas a um grau e forma que nem mesmo magia de cura de alto nível é capaz de curá-las. Ele ficará surdo para o resto da vida, ou pelo menos até que eu encontre uma forma de reverter essa merda. — Eiro apontou e Evelyn o encarou com uma carranca profunda.

— Certo. De qualquer modo, eu não usaria uma exceção para ditar toda a organização.

— Muito tarde para isso. — Ele respondeu sem pestanejar. Ela suspirou fundo e olhou para Eiro de novo.

— Tudo bem, deixe-me dar alguns exemplos do que podemos fornecer a você. Itens de Cartas Falsas, como aqueles que você viu Enka usar. Podemos aprimorar os efeitos das suas cartas atuais em troca de nos permitir copiar os efeitos delas de vez em quando. Isso é algo para o seu lado ‘normal’. — Evelyn disse com um sorriso presunçoso e continuou. — Também temos algo para o seu lado ‘real’. Como muitos homens e mulheres à sua disposição para fazer o que quiser, se é que me entende. Eles não revidarão se quiser fazer qualquer coisa com eles… ou revidarão, se desejar isso. Você pode comê-los vivos, pode usá-los para experimentos, ou como escravos para satisfazer cada um dos seus desejos. Quero dizer, isso é o que um Demônio como você quer, não é? — Evelyn questionou. A princípio, Eiro ainda a deixaria ir, apesar de estar completamente furioso. Entretanto, ela disse algo que não deveria. — Dessa forma, você não precisará mais utilizar aquelas pobres crianças para satisfazer seus desejos. É uma vitória para todos, certo?

Após escutar essas palavras, a ira de Eiro transbordou. Era difícil se controlar devido a sua evolução, de qualquer forma, mas este era o ponto fraco de Eiro: suas crianças.

O branco dos olhos de Eiro ficou vermelho, enquanto uma notificação aparecia na frente do Demônio.

[Você foi colocado à força no estado de <Ira> direcionado ao indivíduo <Evelyn Simone James>. Atributos serão aumentados temporariamente se estiver enfrentando esse indivíduo, mas serão bastante reduzidos se estiver enfrentando outra pessoa.]

[Você conseguiu controlar sua <Ira>. Benefícios e penalidades serão ligeira reduzidos enquanto estiver nesse estado.]

— O que… diabos você acabou de dizer…? — Eiro questionou, dando um passo na direção de Evelyn, enquanto a mulher parecia bastante confusa.

— O quê, eu disse algo errado? Não vai me dizer que acha que é o pai delas, certo?

Com ódio puro e profundo dentro de si, Eiro retirou o Três de Espadas e o ativou, fazendo as cinco lâminas flutuarem ao redor do rosto de Evelyn. Ele fez duas delas baterem entre si para criar uma faísca que se transformou em chamas infundir suas mãos e as lâminas com o segundo estágio.

— Fantoche… — O Demônio rosnou e do teto do cômodo, a boneca de madeira caiu na direção de Evelyn, enquanto Eiro jogava a ficha de combate corpo a corpo na direção de James, que a colocou no peito do fantoche. Como Evelyn não conseguia se mover por causa do Três de Espadas pressionado contra ela, antes que conseguisse reagir com seus baixos atributos físicos, o fantoche já havia passado um dos seus braços em volta da garganta dela, enquanto usava o outro para segurar a cabeça dela no lugar, forçando-a a olhar para o rosto furioso de Eiro.

— Deixe-me esclarecer isso: aquelas crianças são meus filhos. Podem não ser do meu sangue, mas elas são a coisa mais importante para mim neste mundo. O mero fato de você insinuar que posso estar fazendo algo para prejudicá-las é o suficiente para eu te matar. E tem tudo o mais que você disse. Primeiro, eu nem tenho desejo sexual. Mesmo se eu rasgasse suas roupas e fizesse você se abrir na minha frente com lubrificante por todo o seu corpo, eu não sentiria nada. Também não iria querer te comer, já que não como carne humana há sete anos. Quer saber por quê? Porque a maioria de vocês tem um gosto nojento. Já consigo sentir o cheiro podre de suas personalidades, então teriam o mesmo gosto. — Eiro disse com um rugido, enquanto sua voz entrava pelas orelhas de Evelyn.

— Agora, quer saber o que acho de você? — Eiro questionou, mas não esperou pela resposta, ele continuou. — Você não é nada além de um ser horrível e podre até suas raízes. Nem mesmo quero matar você, por isso eu percebo que nunca conseguiria me livrar do cheiro do seu sangue lamacento e nojento deste quarto. E, honestamente eu gosto deste lugar. Você é pura mentira e não disse a verdade uma única vez hoje, exceto quando me insultava, não é mesmo? O que quer que seja que estivesse fazendo para deslocar minha percepção de você simples desapareceu. Poof. Sumiu. Como se nunca existisse. Então, hoje posso ver através de você.

Eiro encarou a pessoa na sua frente, estalando seus dedos, como se tentasse não matar Evelyn, que estava sentada ali com uma expressão calma e confusa.

— Isso é… estranho. Você não tem desejo sexual? Não quer comer humanos? Isso é hilário. — Ela riu. — Não sei quem te convenceu de que isso era possível para seres inferiores, como você, mas ele fez um bom trabalho.

— Vá para o inferno. — Eiro rosnou e empurrou o Três de Espadas na direção do rosto de Evelyn, mas de repente, o avanço foi impedido. Pelo sangue negro escorrendo do rosto dela.

— Você acha que é esperto, mas tudo que me mostrou hoje é quão fácil é para mim te enganar. — Ela riu alto. Com um aceno de sua mão, o sangue negro empurrou o Três de Espadas para trás e se moveu para trás dela, cobrindo a pele do fantoche. Assim, o boneco foi forçado à submissão, sendo controlado por Evelyn.

Com um leve suspiro, a mulher se levantou da cadeira e parou na frente de Eiro, que ainda a encarava com fúria e descrença.

O Diabrete cerrou seus dentes enquanto tentava se livrar do sangue negro, mas ela o suou para torcer o corpo de Eiro de forma não natural, então… Eiro escutou um estalo alto.

[Aviso! Seu braço direito foi quebrado.]

— Seu pedaço de merda! — Eiro gritou, mas assim que fez isso, o sangue negro fluiu para dentro da sua boca e penetrou no seu corpo.

Então, ela soltou Eiro e o fantoche, se virando com um pequeno sorriso.

— Espero que você repense sobre isso. Acho que um bom momento para se decidir seria daqui a… vamos ver, duas semanas. O Solstício de Inverno parece bom, certo? Espero que tome a decisão certa. — Evelyn disse com uma piscadela e saiu da mansão em linha reta.

Enquanto isso, Nelli começou a curar o braço do Demônio, enquanto o próprio Eiro encarava o chão. Sua ira não diminuía. Ele odiava aquela mulher. A desprezava de verdade, profundamente. Eiro compreendeu o primeiro passo para ganhar força suficiente para cumprir seu objetivo.

Sem que Nelli tivesse terminado, Eiro saiu pela porta, onde Krog e James esfregavam sua pele onde quer que Evelyn tivesse usado o sangue negro para restringi-los.

— Voltem aqui na noite anterior ao Solstício de Inverno… Até lá, deixem-me em paz. Preciso de um tempo sozinho… — O Demônio disse e começou a caminhar pelos corredores da mansão com seus olhos profundamente vermelhos.

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