
Volume 3 - Capítulo 203
A Virtude do Demônio
Eiro se sentou de pernas cruzadas. Infundiu seu corpo com água no segundo estágio de novo e estava tentando transferir as vibrações do solo para o seu corpo como prática. Ele queria compreender formas de aumentar o alcance da sua percepção.
Devido ao aumento de seus atributos mentais, o alcance já havia crescido em uma quantidade incrível, mas Eiro queria alcançar além disso com o máximo de precisão possível. Assim, o Demônio utilizou qualquer tipo de magia que pudesse causar algum tipo de reação sensorial nele. A vibração dos passos de todos na casa, os pequenos insetos, coelhos ou ratos espalhados por aí. O som da respiração de todos, o fluxo sanguíneo em seus corpos enquanto seus corações batiam sem parar.
O fluxo de ar se movia entre as árvores e paredes. Eiro tinha uma imagem em sua mente que era a representação perfeita da propriedade, que incluía a mansão, o jardim e parte da floresta ao redor deles. Claro, ele misturou as coisas que ‘sentia’ com as memórias visuais que tinha daquele lugar em geral, então tudo se tornou muito mais claro desde o começo. Devagar, Eiro tentou abrir seus olhos de novo. Por estar tão concentrado nessa percepção de diferentes sentidos, sua visão também foi muito influenciada.
Eiro viu inúmeras cores flutuando no ar à sua frente, formando ondulações, espirais e linhas simples, cada uma representando um dos outros sentidos que misturou com sua visão.
— Gondos… — Eiro murmurou, enquanto ondulações brancas se espalhavam da boca de Eiro, juntas com as linhas que sumiram logo depois de viajar alguns metros, que eram uma mistura da voz e respiração de Eiro.
O Golem em questão se pressionou contra o peito do Demônio, afundando no seu corpo. Ele mudou de uma forma bastante estranha, desde que se fundiu com um espírito enquanto estava com sua pele aquosa, mas isso não importou muito, pois Eiro não estava se movendo. Qualquer tipo de ondulação no corpo de Eiro era criada pelos tremores no solo em que estava sentado.
Agora que se fundiu com Gondos, ganhou outro nível em sua percepção: percepção mágica. De repente, as cores na visão de Eiro mudaram. Elas mudaram de escuro para claro e de claro para escuro, dependendo ou não se havia algum tipo de magia na área. Ele ainda conseguia ver tudo perfeitamente, mas os locais com mana ou magia eram claros e vibrantes, se destacando para Eiro.
Isso era um novo nível de percepção, um tipo que Eiro teria adorado experienciar mais cedo. De qualquer forma, apenas ver isso não era o seu objetivo. Não, em vez disso, ele estava tentando descobrir algo mais. O fantoche havia se escondido em algum lugar dentro da propriedade e o Diabrete tinha que encontrá-lo.
Era muito, muito mais difícil do que antes, apesar de que o fantoche ainda tinha a mesma ficha de furtividade ativa. Eiro respirou fundo, espalhando mais ondulações e linhas pelo espaço ao redor, então levantou-se do chão até ficar de pé. Estava tentando se certificar de que mantinha esse nível de percepção concentrada a todos os momentos, tentando se recordar de tudo o que sentia. Olhou para os arredores, virando e torcendo o seu corpo algumas vezes.
Assim, começou a se mover. Eiro começou a caminhar ao redor da propriedade. Com o objetivo de encontrar o fantoche escondido, mas não apenas isso, já que, ao mesmo tempo, era uma boa forma de descobrir se havia mais segredos dentro deste lugar, os quais Eiro ainda foi incapaz de encontrar.
Depois de se mover pelo exterior, Eiro entrou na mansão. Com passos lentos e constantes, moveu-se pela casa, olhando para tudo o que conseguia enquanto tentava não perder a concentração.
Viu as salas secretas que já conhecia, o leve fluxo e mana através dos corredores e passagens da mansão, como se fosse apenas um enorme círculo mágico estático, mas não apenas isso, Eiro também viu o fluxo de mana dentro dos corpos das crianças. Ele contou para elas que faria isso hoje, porque não exigia do seu corpo em grandes extensões, o que era bom, desde que sentia que todo seu corpo estava sendo dilacerado e remontado dez mil vezes em um único instante.
Eiro pensou que isso o distrairia, mas esse tipo de coisa na verdade o tornou mais sensível às pequenas mudanças no ar ou pequenos tremores no chão. Isso era muito útil, na verdade. Por algum motivo, fazer isso tornou possível que Eiro relaxasse apesar da dor física que sentia, pois, desse modo, a dor se tornava útil de alguma forma.
— Ei, Eiro, venha aqui! — A voz de Krog ecoou de fora da mansão, fazendo inúmeras ondulações cobrirem a visão de Eiro, enquanto ele sentia que seus tímpanos estavam para se romper.
O Diabrete perdeu sua concentração e para a segurança de Eiro e Gondos, os dois escolheram se separar de novo.
— O que diabos… esses idiotas estão fazendo ali fora? — Eiro questionou com um leve gemido, enquanto se virava. Agora, estava no segundo andar, então olhou pela janela que mostrava a direção em que eles estavam, ao mesmo tempo que vestia sua máscara, afinal, havia mais uma pessoa com eles, embora sua mente estivesse muito confusa para descobrir quem era.
Assim, Eiro a viu aqui. Uma mulher com cabelos escuros cor de vinho, vestindo um colar com uma pedra vermelha brilhante no seu centro.
Com um resmungo profundo, Eiro suspirou fundo e usou essa respiração para encher seus pulmões com magia de ar que usou para infundir seu corpo. Então, simples pulou pela janela, usando magia para impedir a queda do seu corpo insanamente leve com uma forte rajada. Isso levantou a poeira e sujeira ao redor de Evelyn, mas Eiro não se importou.
— O que você quer? — Ele questionou com um olhar penetrante, retirando sua máscara. — Eu preferiria que você saísse o mais rápido possível, então se apresse.
James e Krog ficaram surpresos, ou melhor, chocados. Eram os únicos ali, desde que Jess aprecia ter que cuidar de outros negócios na área urbana da cidade.
— Eiro, o que você está fazendo? — James questionou em resposta ao ver que Eiro revelou seu rosto demoníaco para Evelyn e o Diabrete rosnou.
— Ela já sabe. — Eiro disse e Krog olhou para ela com um olhar suave.
— Então, isso significa que ela é alguém próxima a você?
— Não. Ela sabe, não sei como. — O Demônio comentou, bastante irritado sobre isso para ser franco, mas não havia muito mais o que pudesse fazer. Depois de sua evolução, esperava que conseguisse subir de nível para que conseguisse matá-la em breve, mas isso ainda demoraria um pouco, pois até o dia anterior ao Solstício de Inverno, Eiro estaria evoluindo.
— Gostaria que você devolvesse algo que é meu. Ouvi falar que você matou a rainha aranha naquele ninho, não é? Então você deve ter roubado aquele artefato especial. — Ela comentou e Eiro olhou para ela com um suspiro, movendo a mão para o lado. Um momento depois, Eiro segurava a bola de metal com os entalhes no seu exterior.
— Você quer dizer isso? — Ele questionou e Evelyn assentiu.
— De fato. Agora, por favor, entregue para mim. — Ela disse, esticando a mão para frente, mas Eiro soltou o orbe e o fez cair de volta no seu cofre.
— Certo, acho que não. — Eiro respondeu sem pestanejar. — Mas não é como se você tivesse vindo aqui para isso, certo? Você é uma péssima mentirosa, além de ser uma vadia de duas caras, Evelyn. — O Demônio resmungou e o rosto da mulher na sua frente ficou vermelho e brilhante enquanto ela arregalava os olhos.
— O que você está dizendo? — Ela começou, mas foi interrompida por Eiro.
— Não estou no clima para isso. Esse idiota aqui quase me matou com aqueles pulmões do tamanho do corpo inteiro dele. Estou no meio da minha evolução e sentindo muita dor, porque, por algum motivo, meus ossos e carne estão se desintegrando e se transformando em algo diferente. Minha cabeça está me matando porque meus chifres também estão mudando de tamanho e não gosto de você ou aprecio sua companhia, então desista logo. — Eiro disse com um rosnado e Evelyn olhou para ele com um sorriso irônico.
— Você é um Diabrete… Com quem você acha que está falando…? — Ela questionou. — Mas tudo bem, faça do seu jeito. Você está certo, não estou aqui pelo artefato. Temos dúzias deles. Não, estou aqui para tentar te recrutar.
— Oi? — Eiro perguntou. — Já disse que não estou no clima para isso. ‘Isso’ inclui piadas e estupidez descarada. Não vou me juntar a você, vaza daqui.
— Oh… é mesmo…? — Evelyn questionou com um tom baixo. — Então acho que teremos que recorrer à força. — Ela comentou, estendendo sua mão para frente e tirando sangue da ponta dos seus dedos. Na verdade, era sangue demais para uma pessoa normal. Muitas vezes mais. A pedra de sangue aumentava a taxa de recuperação de sangue ao extremo. Evelyn transformou seu sangue em lanças que congelou e fez flutuar ao redor de Eiro.
Enquanto isso, o Demônio estalava seus dedos com o gerador de faíscas e criava chamas, as quais absorveu em sua pele, em vez de magia de vento. Todo o seu corpo emitiu muito calor. A ponta de algumas das lanças de gelo-sangue já estava começando a derreter, desde que Eiro tentava aumentar o calor o máximo possível.
Assim que começaram a derreter, Evelyn usou magia para reverter a magia. Vendo isso, Eiro suspirou profunda.
— Ótimo. Entre. Não estou no clima para lutar agora. — O Diabrete comentou. Ele poderia pelo menos ouvi-la.