A Virtude do Demônio

Volume 3 - Capítulo 158

A Virtude do Demônio

— Concentre-se Leon. — Eiro disse com um tom severo e o jovem sentado na sua frente respondeu com um resmungo baixinho.

— Mas, papai, eu-

— Você está tentando, sei disso. É por isso que eu não quero que você escorregue e perca todo esse esforço. Então, vamos lá, faça como estou lhe falando. — O Demônio disse. — Feche seus olhos e se concentre certo?

— Tá bom… — Leon respondeu.

Eiro estava tentando ajudar Leon a controlar suas habilidades ao ensiná-lo diferentes técnicas de manipulação de mana que poderiam ser usadas enquanto meditava.

Pelo que Eiro conseguia dizer, as habilidades de Leon funcionavam como uma aura. Algo que o cercava constantemente. Se esse fosse o caso, se fosse algum tipo de energia, então devia ser possível para Leon controlá-la.

— Agora, dentro da sua cabeça, forme uma imagem de si sentado como está agora, mas olhe para si da minha posição. — Eiro explicou e continuou alguns momentos depois. — Então, no centro do seu corpo, imagine uma bola pequena, da qual flui água para fora e preenche o seu corpo. Como se você fosse um copo.

Percebendo que os batimentos de Leon desaceleraram, Eiro estava certo de que ele tinha ativado a habilidade de meditação que praticou ao longo dos anos em preparação para esse tipo de coisa.

— Flutuando ao seu redor, tem ainda mais água. É apenas de uma cor diferente. Consegue me dizer de que cor é? — Eiro perguntou e o garotinho não demorou muito para responder baixinho. Não era nada mais que um sussurro, mas Eiro conseguiu escutá-lo sem problemas.

— Tem duas… cores… preto e… vermelho… — Leo murmurou e Eiro suspirou em alívio. Isso significava que Leon era capaz de sentir os efeitos da sua habilidade única. Quando se tratava de tal treinamento mental, as cores não eram tão importantes. Elas eram apenas a representação visual que sua mente formou quando algo não era de fato visível.

Leon estava um pouco assustado com o escuro, então Eiro pensou que a ‘Água Preta’ representava a habilidade ‘Temido pelos Monstros’. E como vermelho era a cor favorita de Leon, Eiro imaginou que a ‘Água Vermelha’ representava a habilidade ‘Amado pelos Monstros’.

— Isso não é bom, a água está fluindo ao seu redor sem você deixar, certo? — Eiro perguntou com um pouco de amargura, para guiar com mais facilidade Leon em seu estado meditativo. Parecia que o coração do garoto começou a bater mais rápido, como se estivesse começando a entrar em pânico.

— Não se preocupe você pode consertar isso. Só precisa ter certeza de que toda a água flua para o seu corpo. — O Diabrete advertiu. Antes mesmo que percebesse, algo mudou.

Como se o medo sumisse do nada, e tudo o que sobrou foi uma atração em direção a Leon. Ele escutou o núcleo do slime na garrafa murmurar algo, mas isso não era importante. Algo que apenas confirmou para Eiro que uma das habilidades foi desativada.

Não demorou muito para que o mesmo ocorresse com sua segunda habilidade. Até mesmo o slime se acalmou. com um sorriso no rosto, Eiro se levantou e acariciou a cabeça de Leon.

— Bom trabalho. Vamos lá, abra os seus olhos. Você finalmente conseguiu. — Eiro disse sorridente. O jovem abriu os olhos e piscou algumas vezes.

— Eu… fiz isso? — Ele questionou surpreso, e Eiro assentiu.

— Sim, você fez. Se sente bem, hein? — O Diabrete riu enquanto se agachava e ajudava Leon a se levantar.

— Sim! — Leon exclamou e Eiro riu um pouco enquanto segurava a mão que Leon esticou para frente e se aproximaram da carruagem. Enquanto fazia isso, Eiro escutou a voz de Sammy ao longe.

Ela já havia conseguido controlar a ‘intenção’ em sua voz, para que sua habilidade única não fosse ativada ontem, mas ela ainda estava tentando praticar mais para que não perdesse o controle em uma situação ruim.

— Venham aqui. — Eiro exclamou para reunir todos, que pararam o que estavam fazendo e se aproximaram. — Vamos partir. Leon conseguiu desativar suas habilidades. — O Demônio anunciou quando chegaram perto o suficiente para escutar. Clementine se aproximou de Leon e deu um abraço de parabéns.

— Arc, vamos lá. Ajudarei a trazer os Arias. — Eiro disse e levantou a mão para pegar as espadas que o jovem estava carregando e colocá-las na carruagem. Arc assentiu e as colocou nas mãos de Eiro, mas quando fez isso, parecia um pouco confuso e assustado.

— O que aconteceu com sua mão? — Arc perguntou e o Diabrete olhou para sua prótese, que tinha vários cortes e entalhes no momento.

— Ah, isso… Não se preocupe, mostrarei para você. — Eiro disse com um sorriso leve e estranho, enquanto colocava a mão na bolsa para retirar uma pequena peça da sua madeira azul, também retirando uma faca de sua Tesouraria e cortando uma pequena lasca de madeira enquanto todos observavam. Eiro pegou essa lascada e a pressionou sem uma das ranhuras que tinha em sua prótese.

Alguns momentos depois, essa lasca se fundiu com a prótese e fechou toda a ranhura.

— É algo que minha mão consegue fazer agora. Depois da luta que tive na montanha, minha conexão com a prótese subiu para 70%, então suponho que seja por isso que consiga fazer isso agora. — Eiro explicou. — Então, aproveitei essa chance para cortar algumas partes que estavam deterioradas devido à luta.

— Ah… — Arc disse com uma expressão aliviada, apesar de que quando estava para se virar e ir até os Aria, algo mais veio à sua . — Eeeer… sei que o seu nível aumentou bastante mas com o que exata você lutou lá que tornou isso possível? — O garoto perguntou e o sorriso de Eiro desapareceu.

— … Eu explicarei. — O Demônio disse olhando ao redor para se certificar de que todos escutavam. — Lá em cima, havia um monstro selado, o Monstro Nobre <O Mundo>. Ele estava fraco o suficiente para que eu conseguisse matá-lo, mas por meio disso me tornei um ‘candidato’ para o próximo <O Mundo>. Recebi uma habilidade especial por causa disso e algumas melhorias gerais, uma das quais foi o aumento da conexão com a minha prótese. — O Diabrete explicou e todos, exceto Gondos e Nelli, que já sabiam disso, assim como Felix, que era surdo, olharam surpresos para ele.

Eiro estava um pouco nervoso com a reação deles, afinal tornar-se um dos seres mais temidos nesse mundo podia não ser aceito por todos.

Com uma risada, Arc balançou a cabeça enquanto levava a mão ao rosto.

— Caralho, que foda. — ele riu. — Sério, você está se tornando ridiculamente forte. Eu ganharei qualquer argumento de: ‘Meu pai pode derrotar o seu pai’, no futuro. — Arc comentou e Rudy interrompeu.

— Ignore essas besteiras de Arc, mas tenho que dizer… isso é muito legal, não é? Quero dizer, não é como se você fosse se tornar um senhor do mal de repente. — Rudy adicionou e Eiro ficou aliviado com o que eles pensavam.

Sammy e Clementine pareciam concordar, e Leon e Avalin ainda não compreendiam do que eles conversavam. Na verdade apenas Sammy estava um pouco em conflito, afinal ela era a única entre todos aqui, exceto Felix, que desconfiava de Eiro. Ele viu isso quando estava subindo a montanha. Entretanto, parecia que ela não estava em conflito pelo mesmo motivo que Eiro pensava.

— Então, apenas por causa de nós, você lutou contra um Monstro Nobre? Sério? — Ela perguntou baixinho e Eiro acenou com a cabeça.

— Claro. Eu fiz tudo isso para que eu continue com todos vocês, porque não quero perdê-los. — Ele ressaltou. A princípio, Eiro só queria correr de <O Mundo>. Era perigoso, claro, mas não havia motivo para se colocar em perigo se pudessem apenas correr. Eiro queria se fortalecer, mas não ao custo da vida das suas crianças.

A única razão para ele acabar lutando contra <O Mundo> foi porque <O Diabo> tirou dele tudo o que arruinaria sua vida atual sem nem encostar nas crianças. Sem medo, empatia ou seus instintos paternais… ele não sabia o que teria feito com todas essas crianças depois de um tempo. Isso o aterrorizou. Com sorte Eiro conseguiu pegar tudo de volta depois de matar <O Mundo>.

— Mas não se preocupe, Sammy. Eu lutaria contra qualquer coisa por vocês. — o Diabrete disse. — Como Arc disse, fiquei um pouco mais forte através da habilidade que recebi. Gondos, quer demonstrar? — Eiro sugeriu, tentando mostrar para Sammy que tudo estava bem. O Golem acenou a cabeça e flutuou até Eiro.

O Demônio levantou a camisa e Gondos pressionou suas costas contra o peito de Eiro, afundando devagar nele. De repente, Eiro e Gondos se fundiram.

[Seu corpo se fundiu com o do Golem ‘Gondos Holmstir’.]

Nos mesmos lugares em que havia água quando se fundiu com Nelli, a pele de Eiro foi coberta por uma fina camada de rochas e se tornou um pouco mais cinza, semelhante ao que era quando Eiro ativava a habilidade ‘Pele de Pedra’.

A cauda de Eiro em particular era diferente de quando se fundiu com Nelli, entretanto. Com a Náiade ela foi apenas coberta por uma camada de água, mas com Gondos, ela se tornou muito grossa. Mais grossa que os braços de Eiro, parecida com a cauda de um Homem-lagarto, só que feita de pedras.

Com um sorriso, Eiro olhou para as crianças muito surpresas na sua frente.

— Agora posso me tornar um com Nelli e Gondos. — Ele explicou, embora Gondos tenha saído do seu corpo. — É difícil para a minha mana, mas me torna muito mais forte e ainda consigo usar habilidades espirituais, mesmo que só por um segundo. Quando me fundo com um deles, consigo sentir a mana, criar elementos e até mesmo tentar algum tipo de refinamento… Apesar de não ter certeza de como isso funciona, pois fico sem mana quase na hora.

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