
Volume 3 - Capítulo 154
A Virtude do Demônio
Eiro encarou na sua frente o que restava de <O Mundo>. As duas Cartas douradas, uma delas mostrava uma carta dourada e decorada, enquanto a outra exibia um círculo com partes azuis, verdes, marrons e brancas em meio a um oceano preto.
<O Diabo> apareceu ao seu lado e pegou uma das Cartas, aquela com a chave.
— Agora, isso foi bastante prazeroso de assistir. De verdade, eu não esperava que você fosse capaz de formar um círculo mágico. — Ele riu e Eiro o encarou de volta.
— Agora o quê? — Ele questionou, e o Diabo continuou sorrindo.
— Você pode tentar se tornar o próximo mundo, mas fique tranquilo, apenas porque tem a Carta e matou um Monstro Nobre não significa que você pode se transformar em um Nobre. Você ainda é muito fraco, então não se cobre demais. — O Diabo avisou. Eiro teve que admitir, ele sentia algo vindo da Carta do Arcano Maior e o fez sentir relutante em pegá-la, mas ele não tinha certeza se era por causa do Arcano Maior no geral, ou se porque ele era, como o Diabo disse, muito fraco para usá-la.
— Bem, deixa para lá. — O Diabo disse, e com um leve sorrio olhou para Eiro por um instante. — Vamos começar com isso. — Ela adicionou enquanto transformava a Carta em sua mão em uma chave, a qual pressionou no centro do peito de Eiro.
Ele abriu um buraco enquanto o Demônio permanecia ali, como se estivesse congelado, e o Diabo devolveu as três coisas que havia retirado.
[Seu medo retornou a você]
[Sua empatia retornou a você]
[Seus instintos paternais retornaram a você]
Eiro ainda continuou ali enquanto o Diabo se inclinava para frente e dava uma olhada no que conseguia ver.
— Mas está bem bagunçado aqui… você deveria fazer alguma faxina, não acha? Suas Cartas estão em cima da mesa, pedras mágicas nas prateleiras e há até mesmo algumas ferramentas jogadas no chão… E esses livros estão quase caindo, que irritante. — O Diabo apontou enquanto acenava a mão para o lado e fazia o portão pelo qual veio aparecer mais uma vez, enquanto retirava a chave do peito de Eiro. — Oh, sem mencionar naquela… pequena surpresa ali. Não é de se surpreender que você seja tão diferente do resto, se ainda tem isso.
Com essas palavras <O Diabo> partiu e o portão que ele criou desapareceu, como se estivesse apodrecendo. E Eiro apenas continuou ali. Com o buraco em seu peito se fechando lenta, e mesmo que os três importantes aspectos tivessem retornado, ele ainda se sentia vazio de alguma forma. Assim, quando o Demônio recobrou o controle sobre seu corpo, olhou ao redro e, mais uma vez, encarou a Carta que <O Mundo> deixou.
Eiro tentou colocar a mão para frente, mas quando fez isso algo o percorreu e o fez estremecer quando pensou que talvez não deveria. Parecia que Eiro ainda estava sendo afetado pela ‘Verdade’ de Sammy. Provavelmente estava enfraquecida, mas durante todo o tempo em que lutou contra <O Mundo>, seu corpo estava letárgico e sua mente lenta. Pelo menos, quando comparado ao normal.
Junto da onda de… seja lá o que for, algo mais passou pela de Eiro. E isso foi o fato de que se tentasse fazer isso, ele morreria. Tinha que haver um motivo para os Nobres serem os mais fortes dos mais fortes, e não era por causa das Cartas do Arcano Maior. Era porque o monstro base era forte.
Por exemplo, Eiro recordou da história que Armodeus contou para ele sobre o pai do Rei dos Monstros, o ‘Lorde Goblin’ que se tornou o <O Imperador> após receber a carta correspondente. Enquanto Goblins normais pudessem ser um exemplo de fraqueza, eles estavam, na verdade, entre os monstros com a maior amplitude de força. Eles poderiam ser fracos, como uma criança frágil, ou fortes o suficiente para trazerem um país inteiro à ruína, assim como o Lorde Goblin era. E isso era sem uma carta.
A única razão para Eiro conseguir derrotar <O Mundo> agora foi porque ele estava preso dentro do selo por pelo menos cem anos, o que o enfraqueceu. Na verdade, quanto mais Eiro pensava sobre isso, mais o seu corpo começava a estremecer devido ao medo devolvido por <O Diabo>.
Mais uma vez isso mostrou a Eiro que ele era mais forte do que muitos…. Só que muitos não significavam ‘todos’. Isso o fez perceber que, mesmo em situações nas quais só queria ajudá-las, as crianças poderiam acabar em perigo. E, dessa vez, a culpa era toda dele.
Eiro não tinha certeza se havia sido afetado pela habilidade única de Leon mais do que pensava, ou se era por causa do miasma ou sua desconfiança instintiva de Hyjun devido à aparência dele, mas por conta da sua estupidez, suas crianças quase perderam a vida.
Isso apenas mostrou para Eiro que ele precisava ter mais cuidado no que fazia. Apesar do fato de precisar de força, ele não poderia fazer o que quisesse, mesmo que isso pudesse lhe beneficiar. E então, algo surgiu na mente de Eiro, que essa poderia ser uma boa chance de se redimir com as crianças.
Por ora o Diabrete encostou na Carta do Arcano Maior de <O Mundo>. Ele estava certo de que isso não funcionaria de forma diferente das outras cartas, e tinha que ativá-la usando mana. Senão, monstro aleatórios poderiam ativá-la, e isso não seria uma coisa boa.
E quando as pontas dos seus dedos tocaram na superfície dourada e fria, uma notificação apareceu na sua frente.
[Devido à ausência de força, a ativação completa da carta não é aconselhável]
[Em vez de um Nobre de verdade, você agora é um candidato para <O Mundo>, e receberá uma porção minúscula de suas verdadeiras habilidades]
[<O Mundo> Probabilidade de Sobrevivência ao Emparelhar – 1%]
[Habilidade <Fusão Elemental Menor> adquirida!]
[Fusão Elemental Menor – Habilidade que aprimora a fusão da sua Magia Elemental com seu corpo]
Um pouco tonto, Eiro derrubou a Carta de novo, assustado pela chance de ter acabado de cometer um erro incrível, mas no fim, parecia que isso não mudou muita coisa. Conseguiu outra habilidade… Mas pelo menos agora Eiro sabia que estava certo. Ele morreria se a carta fosse ativada.
Devagar, a segurou de novo e a colocou em sua Tesouraria, enquanto se levantava, mas isso ainda era um pouco estranho, a habilidade ‘Fusão Elemental Menor’ soava como algo que Eiro já conseguia fazer… Quando ele usava a magia de uma pedra mágica através do seu corpo e isso mudava ligeira o seu corpo. Talvez isso fosse diferente, afinal…?
— Deixa para lá, primeiro… Nelli, Gondos, vocês podem parar. Eu derrotei <O Mundo>. Não levem Leon para fora da barreira ainda, talvez isso possa retardar o efeito da habilidade dele também, com sorte. Nós precisamos esperar até que ele acorde. — Eiro tentou emitir isso para seus dois Espíritos contratados, enquanto encarava a borda da montanha, logo avistando o grupo que já havia descido até a metade do caminho.
Os dois Espíritos olharam na direção de Eiro e lhe deram um sinal de que tinham entendido, Gondos tentando criar uma superfície plana para descansar em segurança.
— Estarei aí em breve, só tenho que cuidar de mais algumas coisas. — O Demônio explicou, olhando o portão quebrado que levava para o pátio arruinado. O templo em si ainda parecia estar de pé e lá dentro Eiro conseguia sentir muitas coisas acontecendo lá dentro. Enquanto <O Mundo> saía, ele aprecia ter de alguma forma liberado os selos colocados nos monstros que deveriam estar com a ‘monstruosidade’ deles selada, como Hyjun a chamou antes.
E fosse por causa da habilidade única de Leon ou fosse a natureza dos monstros, o número de seres vivos dentro de templo desceu para um décimo do que era antes.
O Diabrete pulou até as rachaduras no chão e caminhou até o templo, tentando não pisar no sangue ou nos pedaços de carne que estava esparramados por todo lugar. Eiro conseguia ver alguns monstros no fim do corredor se alimentando dos outros. O Demônio caminhou pela multidão de monstros que não pareciam prestar atenção nele.
Eiro foi até a sala em que conheceu Hyjun, e viu que o corpo dele estava deitado no chão. Partes dele foram esmagadas ou rasgadas, e parecia que todo o sangue dele havia sumido.
O Demônio se aproximou do cadáver, com o coração começando a bater cada vez mais rápido cada vez que um dos seus pés acertava o chão.
Eiro ainda não conseguia olhar para ele sem sentir raiva ou desgosto, mas ainda havia algo que o Diabrete tinha que fazer. Ele guardou suas armas e segurou a figura pelos quadris, e escolheu carregando-a para o corredor.
Eiro foi a causa da morte dele, apesar de ele ser um dos amigos de confiança de Jura. O mínimo que ele poderia fazer para mostrar remorso era dar a ele um enterro adequado, ou pelo menos o que Eiro pensou que seria o certo a fazer. Era o que Jura queria para ele, então O Diabrete pensou que era algo bom.
O Demônio levou Hyjun para o pátio e, usando sua Magia de Terra, escavou um buraco no qual colocou Hyjun, cobrindo o corpo dele com terra e rochas de novo.
— Desculpa. — Eiro murmurou, e então se virou para fazer outra coisa no templo. Ele queria a única coisa, cujo selo ainda não foi destruído.
Em uma das salas, Eiro avistou uma daquelas figuras com os corpos cobertos por panos, a qual havia levado o núcleo e o corpo do slime, tentando mastigar e comer o slime congelado. Dessa vez, ela tentou prestar atenção em Eiro, embora logo tenha se virado quando viu o sangue negro nas mãos dele, o qual veio de carregar o corpo de Hyjun.
Eiro não se importou, se aproximando da pequena garrafa de vidro que sobrou das poções que Leon tinha que beber para impedir que o selo quebrasse seu corpo e que agora estava abrigando o núcleo do slime, e com ela na mão, Eiro deixou o templo e começou a descer a montanha.