
Volume 3 - Capítulo 152
A Virtude do Demônio
— Nelli, Gondos, o que está acontecendo? — Eiro perguntou e os dois Espíritos olharam para ele com nervosismo claro. Embora Nelli parecesse estar um pouco agitada, Gondos estava estremecendo.
— H-Há algo ali… Tem alguma coisa saindo dali… — O Golem murmurou baixinho e Eiro virou a cabeça para observar a laje de pedra esculpida na frente da sala. De fato havia algumas rachaduras nela. Parecia uma boa ideia sair daqui, ou então isso acabaria muito mal para Eiro.
Antes disso, a laje de pedra se estilhaçou em milhões de pedaços. Como se tivesse virado pó ali mesmo. No lugar em que a laje estava antes, estava uma simples figura. Uma figura feita de… nada. Ela estava ali, e Eiro definitivamente conseguia vê-la, mas ela era invisível.
— Vocês dois conseguem ver isso? — Eiro perguntou para os Espíritos, que assentiram. A figura invisível caminhou. Enquanto fazia isso, a figura estava pegando os passos da laje de pedra que se estilhaçou. As rochas estavam se espalhando pelo seu corpo e fazendo seu corpo físico parecer mais nítido.
Tinha o formato de uma criança andrógina, ainda mais nova do que Leon. Era frágil e estava movendo seu corpo devagar enquanto reintegrava mais partes no seu corpo.
Quando não havia mais espaço para rocha na sua forma regular, começou a crescer, como se estivesse amadurecendo muito rápido. Em algum ponto, a figura começou a agarrar o seu rosto e tremer, como se estivesse em uma dor intensa. Hyjun se desfez em névoa negra e apareceu na frente da criatura feita de rochas.
Ele tentou segurá-la e de alguma forma colocar um selo nela, mas aparente era tarde demais. Sempre que Hyjun tentava segurá-la, ela fazia a parte em que encostava sair do caminho e, em vez disso, colocou a mão no peito de Hyjun. Isso foi logo antes das rochas serem empurradas para o lado de dentro do seu corpo. Através de algumas aberturas entre as rochas, Eiro conseguia ver o leve brilho dourado de uma carta, junto da aura que emanava dela. A carta em si logo desapareceu e se transformou no que quer que fosse sua forma real.
Esse item viajou pelo braço de rocha da figura e apareceu em sua mão, substituindo a rocha em seu indicador. Era uma chave dourada e pequena. Como se o formato dela mudasse constantemente, a cada poucos instantes ela assumia uma forma diferente.
A figura empurrou a chave no peito de Hyjun, mas ela não cortou a sua pele branca. Não, em vez disso, criou um brilho no lugar e o corpo de Hyjun congelou. Em seguida, coisas como os círculos mágicos que Hyjun criava apareceram ao redor do local em que a chave foi inserida e desapareceram.
— Ele acabou de remover os selos que Hyjun colocou em si mesmo…? — Eiro murmurou, confuso, vendo algo mais acontecendo. Parecia que a carta era o sete de paus: a chave que poderia abrir tudo.
O presente que o Comerciante Arcano deu ao homem aprisionado no nível mais profundo de uma prisão impenetrável e inescapável. Com sua ajuda o homem conseguiu abrir as fechaduras de qualquer porta, portão e até mesmo algumas com um leve giro da chave.
Com um olhar penetrante, Eiro olhou para a figura e para Hyjun e pensou.
‘Pelo menos não é uma carta perigosa…’ Embora logo Eiro tenha percebido mais uma coisa. Tudo o que a figura fez foi inserir a chave no peito de Hyjun, ela ainda não foi girada, mas já removeu os selos com tanta facilidade… como se fossem mera sujeira presa dentro de uma fechadura que precisava ser removida.
A figura fez o que não havia feito antes: girou a chave, e algo aconteceu.
O buraco da chave se ampliou e parecia ter se transformado em um buraco de fato, mas Hyjun ainda não sangrava, como se essa cavidade sempre tivesse sido uma parte do corpo dele. O buraco continuou crescendo até que houvesse apenas um pequeno espaço dentro do peito de Hyjun que parecia ser modelado a partir deste mesmo templo. Literalmente. As paredes eram revestidas da mesma madeira e entalhes, as janelas eram iguais e até mesmo mostravam o mundo exterior.
Dentro daquele espaço havia inúmeras figuras, todas com a forma de Hyjun. Uma era feita da névoa negra de Hyjun, outra estava com a boca central aberta, a mesma boca que Zaragon tinha. Outra segurava um livro e o lia, enquanto outra estava formando um desses círculos mágicos. Havia muitas, muitas delas.
Era como se aquela figura tivesse aberto o próprio ser de Hyjun. Ela estendeu sua mão de rochas e segurou uma das figuras, aquela com a boca vertical em seu peito escancarada. Ele não pareceu lutar, e a figura de pedra apenas puxou o pequeno Hyjun para o seu rosto e as rochas o engoliram.
Alguns segundos depois, uma fenda se abriu no peito da figura e se tornou uma boca escancarada, com dentes afiados feitos de rochas.
Eiro percebeu o que estava ocorrendo. Ele tentou ler sobre alguns dos monstros nobres antes… Houve um que o surpreendeu bastante, um nobre que não estava presente entre as gerações atuais. O último desapareceu talvez há centenas de anos. Era um nobre com a habilidade de assimilar tudo em si mesmo e torná-lo parte do seu próprio corpo: <O Mundo>.
‘Então, ele estava selado aqui?’
Parecia que Eiro fodeu um monte de pessoas… essa coisa era perigosa… muito, muito perigosa…
Eiro pegou Sammy e Leon na hora, tentando segurar ambos com mais facilidade com o uso dos fios do Três de Espada. O Demônio correu em direção à porta o mais rápido que pôde. <O Mundo> estava muito preocupado, se alimentando com o Hyjun, afinal.
O mais rápido que pôde, Eiro atravessou o templo até voltar para o portão que levava ao pátio. Ele estava tentando pensar em uma forma de levar esses dois para o pé da montanha o mais rápido possível, embora a forma mais rápida fosse fazer um caminho direto com Magia de Terra. Necessitaria de muita mana, mas Eiro não se importava mais.
<O Mundo> era perigoso, Eiro não poderia deixar que ele colocasse as mãos nos seus filhos sob nenhuma circunstância, mas pelo menos ele entendia o porquê de Hyjun estar tão desesperado para selar de novo as habilidades de Leon. Ele era um monstro, então, por mais enfraquecido que estivesse, era influenciado pelas habilidades únicas de Leon. Até mesmo Eiro estava sentindo o efeito, mesmo que não parecesse tão ruim para ele. Talvez fosse sua alta força de vontade, ou apenas porque esteve com Leon por toda a sua vida. Eiro só estava se sentindo um pouco nervoso.
De alguma forma… Assim que Eiro pensou nisso, sentiu algo se aproximando por trás dele. Era uma pressão forte e claro que a origem do miasma que esteve neste lugar durante os últimos 100 anos.
Ele parecia mais controlado, de alguma maneira, mas mesmo assim não conseguiu passar da segunda camada do selo. Porém, isso mudou muito desde que Eiro saiu daquele quarto. Naquele minuto, a figura havia assumido a forma de Hyjun com seus quatro braços e sua boca escancarada estava começando a se mover, enquanto sangue preto fluía entre as rachaduras das rochas.
— Me dê suas habilidades. Elas são… deliciosas. — Ele disse e Eiro o encarou com um rosnado profundo.
— Nem fodendo, seu pedaço de lixo! — Ele gritou e a coisa o encarou de volta. Ele tentou esticar sua mão para frente. A rocha passou pelo portão, mas ela não era mais parte do corpo do <O Mundo> e caiu no chão com um pouco de sangue.
— Por que ele não está usando a chave? — Gondos murmurou, e Eiro continuou o encarando. Honestamente Eiro tinha uma boa ideia do porquê.
— Deve ter um tempo de espera, ou alguma restrição de uso… Ou talvez necessite de muita mana, o que ele não tem agora… — O Diabrete murmurou. — Ou talvez os selos não possam ser abertos de forma simples, afinal? Vamos. Nós precisamos… — Eiro disse, mas notou que o chão abaixo deles estava tremendo e rachando.
Por que ele não notou isso antes? Havia monstros no subsolo! Eles eram atraídos pelas habilidades de Leon e agora estava ocorrendo uma loucura no subsolo!
Além disso eles não apenas começaram a destruir o caminho em si, como o portão que estava prendendo <O Mundo> no templo.
— Gondos! Me ajude aqui! — Ele exclamou e o Espírito olhou para ele com um aceno enquanto começava a assumir o controle sob o solo abaixo deles para, de alguma forma, estabilizá-lo enquanto Eiro começava a correr montanha abaixo, carregando Sammy e Leon. Ambos pareciam estar acordando no momento, o que não ajudava tanto Eiro, que tentava descer a montanha o mais rápido possível.
— Hm… pare… — Sammy gemeu, e Eiro sentiu um zumbido em suas orelhas, todo o seu corpo tensionando. O seu corpo parou de se mover e não estava nem respirando mais. Para ele, parecia que tudo havia parado por um momento. O mundo todo congelou, parecia que havia uma entidade que não foi afetada por isso. Uma que não tinha orelhas para escutar as palavras de Sammy.
<O Mundo> passou pelo portão quebrado e caminhou pelas rachaduras no solo até que estivesse parado logo atrás do Demônio. Com um rosnado profundo, Eiro tentou de todas as formas possíveis forçar o seu corpo a se mover e então desceu os olhos para Nelli e Gondos.
— Peguem… esses dois e saiam… daqui… — Eiro murmurou e fez o Três de Espadas desparecer enquanto tentava entregar as crianças para os Espíritos na sua frente.
Sammy estava acordando aos poucos, então de algum modo conseguia caminhar mesmo que ainda estivesse muito confusa, e Leon era leve o suficiente para ser carregado. De qualquer forma, os dois Espíritos seguiram o pedido que o Demônio fez para eles e puxaram as crianças para longe. Eles tinham certeza de que Eiro conseguiria sobreviver a isso.
Após um tempo, Eiro recuperou a capacidade de se mover, o que ocorreu quando foi forçado a se virar por <O Mundo>.
Eiro olhou para o rosto da criatura na sua frente, mesmo que não fosse de fato uma ‘criatura’. Ele era feito de sangue preto e rochas, e estava segurando Eiro enquanto tentava pressionar a chave em seu peito. E isso eliminou a teoria do tempo de espera, pois a chave entrou em seu corpo sem problemas. Os selos colocados na Marca do Diabo e na Marca da Ira foram desfeitos, e Eiro pôde sentir seu corpo preso afundar no seu peito.
Assim que isso aconteceu, algo mais ocorreu, e isso foi logo atrás do <O Mundo>. Um portão pulsante feito de carne, sangue e ossos que parecia levar direto para o inferno.
E desse portão saiu <O Diabo> bem-vestido.