A Virtude do Demônio

Volume 2 - Capítulo 53

A Virtude do Demônio

[Um possível nome foi escolhido para você. Você quer ser chamado de <Eiro>?]

Depois que essa notificação apareceu, o Diabrete leu lentamente e não conseguiu evitar sorrir em resposta.

— Claro.

[Você agora é <Eiro>]

Lentamente, o Diabrete virou-se para as Crianças ao redor dele e se levantou.

— Obrigado por me derem um nome… — O Diabrete disse a eles, e parecia ser difícil para essas Crianças esconderem sua alegria por sua sugestão ter sido aceita.

Um deles fez uma pergunta bem importante.

— E… O que vem depois? — Arc perguntou com um sorriso brilhante, como ele sempre usava nos lábios, enquanto Leon e a Sacerdotisa começaram a chorar quase ao mesmo tempo.

— Por enquanto, vamos comer. — O Diabrete sugeriu, levantando-se lentamente antes de secar a mão acenando para frente e para trás, e ele e as crianças voltaram para a Carruagem, onde Rudy rapidamente pegou algumas coisas diferentes de dentro.

— T-Tem uma coisa que eu quero tentar, então… — Ele murmurou baixinho, segurando o livro de receitas em suas mãos. — Enquanto eu estou preparando tudo aqui, um de vocês pode pegar um pouco de lenha? — O garoto gorducho perguntou com uma expressão nervosa, obviamente animado e assustado para fazer comida para os outros pela primeira vez.

— Eu irei. — O Diabrete disse com um tom claro em sua voz, já tentando dar uma olhada ao redor para ver se havia algo por perto que pudesse ser útil, embora ele também tenha notado que os outros pareciam bastante em conflito sobre isso. Eles provavelmente estavam preocupados em serem deixados sozinhos, mas, felizmente, Arc sintonizou não muito tempo depois que ele percebeu isso.

— Tudo bem, vá logo! Ficaremos bem por alguns minutos! — O jovem garoto exclamou e empurrou seu braço para frente enquanto dava um sinal de positivo para o Diabrete, agora conhecido como Eiro.

Com um aceno lento, o Diabrete então se virou e saiu em direção aos arbustos ao redor deles para que pudesse passar para a floresta. Não demorou muito para encontrar uma quantidade razoável de lenha adequada, o problema era mais sobre tentar carregá-la corretamente, com sua mão no estado em que estava. Ele não conseguia dobrar os dedos corretamente agora, então ele basicamente usou sua mão rígida para empurrar a madeira contra seu peito para mantê-la no lugar.

Naquele momento, Eiro viu um pedaço de madeira que parecia perfeito! Parecia meio fora do lugar, principalmente porque tinha uma cor muito diferente da madeira que o Diabrete estava carregando até agora, e antes que ele percebesse, o pedaço de madeira foi puxado para longe através do arbusto de onde estava saindo, e o Diabrete pôde ouvir uma voz do outro lado, fazendo-o se esconder imediatamente.

— Ah, aqui estava… Quase pensei que o tinha perdido… — Uma voz masculina trêmula disse, antes que passos lentos pudessem ser ouvidos, abafados pela respiração pesada do que parecia ser um animal, o que o Diabrete pôde rapidamente confirmar ao lançar um olhar furtivo por entre uma abertura no arbusto atrás do qual estava se escondendo.

A habilidade de Furtividade de Eiro era bem alta, então isso deveria permitir que ele ficasse ali devidamente escondido até que o velho acabasse com o javali com aquela arma estranha dele.

Para a surpresa do Diabrete… o velho não tentou matar o javali. Em vez disso, ele estava esculpindo o pedaço de madeira, simplesmente sentado calmamente ao lado do javali. Eiro tinha um sentimento bem estranho sobre ele, embora não pudesse identificar diretamente agora.

Se ele quisesse descobrir isso, ele teria que tentar se mover pela pequena clareira para talvez dar uma olhada melhor, embora parecesse que Eiro já tinha sido notado.

— Não é meio rude espionar um velho indefeso como eu? — Ele perguntou, e o corpo do Diabrete congelou imediatamente.

— Haha, não precisa tentar negar. Eu já sei que você está aí. — O velho riu, e o jovem demônio cerrou os dentes e se levantou.

— Como você sabia?

— Eu ouvi você, de que outra forma? — Respondeu o homem bem rápido, e o Diabrete segurou sua adaga firmemente, simplesmente não acreditando nisso.

— Como você poderia saber que eu não era outro animal? Você me viu, não é?

Se Eiro foi visto, então isso poderia ser perigoso. As pessoas na cidade antes também pareciam legais o suficiente, mas elas acabaram sendo criaturas horríveis em que não se podia confiar. Se o Diabrete fosse visto, ele poderia ter que matar esse homem…

— Oh, não se preocupe… — O velho murmurou baixinho, virando lentamente a cabeça em direção a Eiro, que agora conseguia ver que ele realmente estava dizendo a verdade.

Porque esse velho tinha uma única cicatriz grande atravessando seu rosto. De um olho, sobre a ponte do nariz até o outro olho.

— Posso lhe garantir, eu não vi você. — Com outra risada baixa, o homem se virou para a madeira em sua mão e continuou a esculpi-la, enquanto Eiro apenas olhava para suas costas, confuso. Ele realmente não conseguia vê-lo?

Confuso, o Diabrete se aproximou por trás do velho, mais uma vez segurando sua adaga firmemente. Não importava se ele era realmente “visto”, contanto que se soubesse que ele estava lá, esse homem era perigoso para ele e as crianças.

Ele segurou a adaga na mão esquerda e escolheu empurrá-la direto para a nuca do velho, mas em vez de ter sangue respingado nele como de costume, o que se seguiu foi o som de metal batendo em metal. Eiro realmente não entendeu o que aconteceu, mas parecia que este velho se defendeu perfeitamente contra um ataque em seu ponto cego com uma pequena faca de trinchar…

— Agora, pelo menos espere até eu ajudar esse pequeno, pode ser? — O velho perguntou, virando a cabeça para sorrir para o Diabrete, que lentamente o encarou.

Eiro estava bastante curioso sobre o que o velho estava fazendo, o deixando fazer o que queria por enquanto, e escolheu por um momento apenas observar o que aconteceria a seguir.

E o que aconteceu foi que a madeira foi rapidamente esculpida em diferentes pedaços, que o velho uniu uns aos outros, antes de despejar algum tipo de líquido branco em uma garrafa na perna do Javali. Ou melhor, no que sobrou dela. Parecia que a maior parte do que deveria estar abaixo do joelho simplesmente não estava lá.

Quando o Javali pareceu ter se acalmado, o velho puxou um barbante ao redor da parte superior da perna do Javali e usou outra faca que tinha consigo para cortar a perna em linha reta, deixando o que parecia ser apenas um toco plano abaixo do joelho.

Eiro a princípio pensou que o Javali pularia a qualquer momento por causa da dor que sentia, mas ele simplesmente continuou deitado ali, quieto, até que o velho passou a mão no toco e murmurou algo baixinho.

— Naiad, logris urtur krus thul orgum, jiad harr wass. Jiadis Naiad. — Enquanto o velho falava, a água parecia estar se acumulando lentamente em volta de sua mão, cobrindo lentamente o ferimento na ponta da perna do Javali. Parecia que o sangue do ferimento estava se misturando levemente com a água, mas no final, o ferimento estava se fechando.

O velho parecia bastante exausto depois disso, mas ele ainda continuou. E enquanto ele afastava sua mão direita, que ainda estava “segurando” a pequena bolha de água levemente vermelha, sua mão esquerda estava prendendo a perna de madeira que estava acabada de terminar na ferida ainda não totalmente fechada, empurrando a água de volta contra o lugar onde a madeira e a carne estavam se tocando.

Poucos momentos depois, o velho colocou sua mão direita ao lado e deixou a água escorrer por seus dedos até o chão, enquanto sua mão esquerda corria sobre a perna de madeira mais algumas vezes, antes que o velho se levantasse usando ambas e então pegasse as diferentes ferramentas que estavam ao seu lado e as colocasse em uma grande caixa, aproximando-se lentamente de Eiro quando terminou.

Claro que o jovem Demônio ficou confuso com o que exatamente estava acontecendo e se preparou para atacar o velho, mas, em vez disso, o velho apenas se virou, direto na direção do javali.

— Um Caçador armou uma armadilha aqui, viu? — Ele disse depois de um tempo, e o Diabrete lentamente se virou para ele surpreso, mas antes que Eiro pudesse fazer uma pergunta, o velho continuou. — Isso acontece surpreendentemente com frequência. As pessoas passam por aqui em suas viagens, montam acampamentos e, como é claro que querem comer, também montam armadilhas. Algumas delas acabam não sendo usadas por um tempo e depois não são desmontadas. A armadilha dessa vez foi bem horrível, causando a cena de antes. Não achei que deveria deixar um animal tão lindo morrer por nada. — O velho riu, antes de lentamente apontar o dedo para a frente, onde o Javali podia ser visto se levantando.

Não parecia estar com nenhuma dor maior agora, mesmo que não estivesse acostumado a andar com essa perna falsa de madeira. De qualquer forma, por um momento, o Javali olhou para Eiro e o velho, antes de soltar ar pelas narinas e grunhir.

O Diabrete pensou que viria atacá-los agora, mas em vez disso, ele apenas se virou e foi para as profundezas da floresta.

— Agora, devemos continuar de onde paramos antes? Há algum motivo para você querer me matar?

Lentamente, o Diabrete apenas olhou para ele, de cima a baixo algumas vezes, e então suspirou.

— Não há. Erro meu, desculpe. — Eiro disse, olhando para a madeira em seus braços, bem como para os grandes pedaços ainda no chão onde o velho estava esculpindo antes.

— Posso levar essa madeira? — Ele perguntou, e surpreso, o velho assentiu.

— Vá em frente, rapaz.

Satisfeito com a resposta, o Diabrete caminhou lentamente até lá e empilhou tudo nos gravetos em seus braços, antes de ouvir o velho falar novamente.

— São crianças que estou ouvindo com você? — O velho perguntou curiosamente, e o Diabrete imediatamente se virou.

— São, não chegue perto delas. — Eiro disse a ele sem um segundo de hesitação, antes que o velho simplesmente risse.

— Desculpe-me, eu estava apenas um pouco curioso. Não é todo dia que você vê crianças assim viajando com um Demônio, afinal.

No exato momento em que esse homem revelou que sabia quem, ou melhor, o que, Eiro era, ele largou a madeira no chão sem hesitação e empurrou sua mana para o ‘Três de Espadas’, tentando atacar o velho para se livrar dele. Ele era perigoso demais, afinal.

Em vez de ter sua garganta perfurada, o velho simplesmente desviou do ataque do Diabrete com um único passo para o lado. Ele imediatamente virou seu corpo para tentar atacá-lo com sua adaga e o ‘Três de Espadas’ ao mesmo tempo, mas novamente, o velho simplesmente desviou de seus ataques com uma agilidade incrível.

Por um breve momento, o Diabrete quase exauriu completamente a pouca energia que lhe restava em seu corpo, e então apenas olhou para o homem com um suspiro profundo.

— Quem… é você…? — Eiro perguntou, e o velho apenas colocou as mãos atrás das costas e balançou a cabeça enquanto estalava a língua.

— Os jovens de hoje em dia… nem sequer têm educação para se apresentar primeiro… — O velho murmurou baixinho, enquanto o Diabrete percebia algo. Ele percebeu o que era esse sentimento estranho que ele tinha sobre esse homem.

— Meu nome é Jura, sou Protesista.

Este velho era dono de uma carta.

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