A Virtude do Demônio

Volume 1 - Capítulo 33

A Virtude do Demônio

Por mais um tempo, o Diabrete apenas continuou testando sua nova arma, descobrindo que conseguia controlá-la como se fosse parte de seu corpo, semelhante à como controlava seu próprio sangue, deixando o calor fluir dentro dela. No começo foi meio difícil, e o Diabrete quase espetou seu próprio olho uma vez, mas um de seus novos chifres felizmente impediu qualquer dano ao bloquear a lâmina.

Ainda doía um pouco, mas pelo menos o Diabrete não estava danificado ou algo assim. E embora não estivesse sendo dominado por essa arma, o Diabrete sabia que estava começando a se sentir incrivelmente cansado após usá-la por muito tempo, e logo tirou seu calor da arma e a fez voltar a se transformar em uma carta.

Isso definitivamente acabaria sendo bastante útil para o Diabrete, mas, por enquanto, queria continuar usando a arma que vinha usando até agora, sua adaga.

— O que era aquela arma? — Arc perguntou, e o Diabrete se virou para ele com uma carranca.

— O Três de… Espada. Ela pertencia a… Gard — O Diabrete explicou, e Arc levantou as sobrancelhas surpreso.

— Ah, aquele cara… Eu não o vi usando, mas parece mais legal quando você a tem… — Arc admitiu, levemente irritado, antes de começar a falar sobre algo que aparentemente acabara de lhe ocorrer.

— Ah, e tem mais uma coisa que preciso te contar… — O garoto explicou, mas o Diabrete apenas continuou olhando para ele, esperando que começasse a falar, até que ele continuou: — Precisamos passar por uma Vila em breve, com muitas pessoas lá… — Arc disse a ele, e o Diabrete olhou para ele confuso.

Por que precisavam ir a uma ‘Vila’? Se havia pessoas lá, o Diabrete não queria ir. Ele mal gostava dessas crianças, não queria ir a um lugar com muitas pessoas diferentes, ou qualquer pessoa.

— Não. — O Diabrete respondeu bem claramente, mas Arc apenas o encarou com um sorriso irônico.

— Err, Senhor Diabrete, precisamos ir lá… não temos muita comida para nós, e a sua vai apodrecer mais cedo ou mais tarde também… E precisamos do leite para os bebês também. Se não tivermos isso, estaremos acabados mais cedo ou mais tarde — Arc explicou, enquanto o Diabrete apenas o ouvia, antes de acenar irritado com a cabeça, fazendo Arc sorrir amplamente em resposta.

— Tudo bem, perfeito! Estaremos lá em cerca de… uma hora? — Arc falou, de uma maneira que parecia insinuar que esse era o plano o tempo todo, e o Diabrete apenas o olhou enquanto rangia os dentes, antes de colocar suas duas cartas no saco e pegar seu livro.

Ele precisava esperar um pouco até não estar tão cansado, enquanto isso, ler seria provavelmente uma boa maneira de passar o tempo. Ele já tinha lido cerca de metade desse livro também, descobrindo sobre muitas cartas diferentes que supostamente existiam. Algumas pareciam úteis, outras não, e algumas o Diabrete nem mesmo tinha certeza do que deveriam fazer, mas todas tinham em comum que foram dadas a alguém pelo “Negociante Arcano”, mesmo que o Diabrete não tivesse certeza exatamente de quem ou o que isso deveria ser.

De qualquer forma, o Diabrete gostava desse livro, ele lhe contava muitas coisas diferentes que ele não sabia antes, e não era assustador como essas notificações idiotas. Mesmo que pudessem ser pacíficas na maioria das vezes, o Diabrete sabia que voltariam para atacá-lo de alguma forma. Isso era algo que tinha certeza.

Mesmo assim, este livro era inofensivo, e mais importante, ele o recebeu de Avalin, e queria cuidar bem dele.

Arc começou a rir um pouco.

— Sabe, a vila para onde estamos indo tem uma livraria. Não temos muito dinheiro, mas talvez possamos economizar um pouco para um ou dois livros a mais? — Arc explicou, e o Diabrete, ligeiramente surpreso ao ouvir isso, virou a cabeça para o menino ao seu lado.

— Há… mais livros? — O Diabrete perguntou, e Arc acenou imediatamente com a cabeça.

— Sim, claro! Quero dizer, acho que tem uma livraria… eu não dei uma boa olhada no lugar da última vez… mas acho que tinha! — Arc explicou, e o Diabrete virou o rosto de volta para o livro que estava atualmente em seu colo, antes de acenar com a cabeça.

— Então podemos… ir para a vila — Com um pequeno aceno, essa foi a conclusão a que o Diabrete chegou. Se houvesse mais livros, então poderia ser uma razão boa o suficiente para ir. Havia muitas coisas que poderia aprender com eles, pelo menos pelo que o Diabrete podia dizer, então talvez pudesse pegar alguns livros que lhe contassem mais sobre essa ‘Magia’, ou essa estranha ‘Bênção’ que ele agora tinha.

E enquanto a criança apenas ria um pouco ao lado do Diabrete, ele mesmo continuou lendo, porque queria terminar este livro antes de começar outros.

Cerca de uma hora depois, que o Diabrete passou fazendo exatamente isso, Arc parou a carruagem à beira do caminho em que estavam agora. A Vila que Arc estava falando podia ser vista ao longe, e o Diabrete podia sentir um sentimento um pouco inquietante vindo de lá, semelhante ao ‘Repelente de Monstros’ que estava na carruagem antes.

Mas o Diabrete conseguiu superar essas coisas há muito tempo, e não era nada comparado ao que sentia perto daquela ilha flutuante e do lago. Mesmo assim, o Diabrete estava confuso com o motivo de pararem de repente, porque não estavam na Vila ainda, e antes que o Diabrete pudesse sequer perguntar, Arc já o puxava da frente da carruagem para levá-lo para trás.

— O que você… está fazendo? — O Diabrete perguntou confuso enquanto puxava o braço para longe de Arc, e o garoto respondeu bastante rapidamente.

— Bem, você não pode entrar na vila desse jeito, será reconhecido como um monstro imediatamente… e precisamos de alguém para agir como adulto para nós, porque crianças não podem ficar sozinhas assim. — A criança disse a ele, e então abriu lentamente a porta da carruagem.

— Rudy, está tudo pronto? — Arc perguntou, e logo em seguida, o menino saiu e acenou com a cabeça em resposta.

— Sim, aqui está. A máscara deve ser boa o suficiente por enquanto, tem algumas calças sobressalentes que encurtei e apertei, uma camisa, e algumas luvas velhas do Sr. Irnhoff… E claro, alguns sapatos também, embora sejam do Sr. Henson, porque, sabe… — Rudy explicou e apenas apontou para os pés do Diabrete, que eram um pouco maiores em comparação com os de uma pessoa, também devido às pequenas garras nos dedos.

— Legal. Senhor, se vista, por favor! — Arc disse a ele e então entregou a ele todas as coisas que Rudy parecia ter mudado de alguma forma para se encaixarem melhor no corpo do Diabrete. O Diabrete ainda estava um pouco confuso sobre isso.

Por que ele tinha que usar todas essas coisas diferentes e cobrir sua bela pele vermelha?

E como se Arc pudesse ler seus pensamentos, o garoto começou a rir um pouco.

— Como eu disse, você não pode ser reconhecido como um monstro, e eu pessoalmente nunca vi alguém com a pele vermelha, então… Precisamos escondê-la. — Arc explicou, mas o Diabrete apenas estalou a língua e pegou as diferentes coisas das mãos do menino, e então, com algumas instruções das crianças, se vestiu com elas. Elas não eram nem um pouco confortáveis, mas pelo menos serviam nele. O Diabrete esperava se acostumar com elas tão rapidamente quanto se acostumou com a capa.

Afinal, estava constantemente usando aquela capa agora, não importava o que acontecesse, e até fez uma nova depois que a velha foi rasgada. Era estranho usar coisas além da capa, as luvas e os sapatos pareciam especialmente fora de lugar, mas ele apenas teria que conviver com isso. Se alguém percebesse que ele era um monstro, seria provavelmente atacado, certo? E então, o Diabrete teria que fugir, seria morto ou mataria quem o atacasse, e ele não estava com vontade de fazer nada disso agora.

De qualquer forma, a única coisa que o Diabrete de alguma forma não se importava era com a máscara que cobria completamente seu rosto. Ela era lisa na frente e só tinha dois buracos pelos quais ele podia enxergar, mas o Diabrete não se importava necessariamente de usar isso. Não constantemente, mas por enquanto estaria bem.

— Tudo bem, agora ele parece apenas uma pessoa bem pequena! Mas… Como podemos convencer as pessoas de que ele é um adulto? — Arc perguntou com a cabeça inclinada para o lado, comparando sua própria altura com a do Diabrete.

— Ele é muito baixo para ser um adulto — Ele explicou, e o Diabrete pensou sobre esse problema por um tempo também, até que se lembrou de um tipo de pessoa que supostamente era muito baixa, mesmo quando estava no tamanho máximo que poderia alcançar. Avalin mostrou-lhe algumas delas naquela ilha flutuante, afinal.

— Podemos dizer… que sou um Gnomo? — O Diabrete perguntou, lentamente se acostumando um pouco mais com sua nova habilidade de falar corretamente, e Sammy deu um passo para dentro do batente da porta da carruagem e balançou a cabeça.

— Um Gnomo é muito mais baixo do que você, não é? É como… você está no meio de ser um adulto humano e um gnomo? — Ela sugeriu, e Rudy acenou imediatamente com a cabeça, aparentemente tendo uma boa ideia.

— Então vamos apenas dizer que seu Pai era um Gnomo, e sua Mãe uma Humana! — Rudy acrescentou, e Arc sorriu brilhantemente com essa ideia.

— Oh, soa bem! Isso deve funcionar, definitivamente! E a voz do Senhor soa mais adulta do que a nossa também, então deve funcionar! — Arc exclamou, otimista como sempre, e o Diabrete apenas deu de ombros. Eles deveriam conhecer outras pessoas melhor do que o Diabrete, então provavelmente estaria tudo bem.

— Então vamos lá! — Sugeriu o garoto e rapidamente se dirigiu para a frente da carruagem, embora quisesse fazer algo mais agora que o Diabrete não esperava, dando-lhe as rédeas dos cavalos, explicando passo a passo o que ele tinha que fazer por enquanto.

Segundo ele, pareceria estranho se uma criança estivesse dirigindo uma carruagem e o adulto estivesse apenas sentado ao lado dela, lendo um livro.

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