
Volume 1 - Capítulo 27
A Virtude do Demônio
O Diabrete olhou para as crianças à sua frente, tentando descobrir o que queriam dizer. Ele conhecia a palavra ‘Quebrado’, porque estava na história de seu livro, mas não entendia o que realmente significava naquela situação.
Coisas quebradas deveriam ser inutilizáveis, inúteis ou quebradas, mas essas crianças pareciam normais para o Diabrete, mesmo que o fizessem se preocupar com muitas coisas. De qualquer forma, o Diabrete percebeu que não faria sentido ficar tentando adivinhar quando podia apenas perguntar.
— Vocês estão quebrados? — Ele perguntou, e Arc respondeu com um aceno de cabeça:
— Sim, estamos quebrados. Somos crianças que ninguém mais quer, porque nossas habilidades têm controle sobre nós, e não o contrário. O que fará, Sr. Diabrete? Vai nos jogar fora como o resto do mundo, ou vai nos deixar ficar com você? — Arc perguntou, enquanto as crianças atrás dele estavam aparentemente com medo do Diabrete, o próprio Arc não estava.
— Quebrado, como? — O Diabrete perguntou em seguida, porque Arc aparentemente não entendeu o que ele perguntou. Com um suspiro, Arc apenas cruzou os braços e olhou para o gordinho ao seu lado, Rudy.
— Vamos começar com ele. Você já viu, então deveria- — Arc começou, mas antes que pudesse terminar a frase, a garota atrás dele, Sammy, o parou.
— O-O que você está fazendo? É um monstro… Não podemos confiar nele… — Ela disse ao menino, baixinho, pensando que o Diabrete não a ouviu. Diferente do que imaginava, ele ouviu com bastante clareza.
Mas Arc apenas se virou para ela e sorriu normalmente, embora um arrepio profundo percorreu a espinha do Diabrete quando viu apenas o canto dos olhos de Arc.
— Você está dizendo que ele é um monstro, mas e o resto das pessoas? Todo mundo que nos trata iguais animais, como se fôssemos uma ferramenta a ser usada e descartada. Talvez você ainda não tenha percebido, mas estávamos indo para a Capital. Você sabe o que fazem com as crianças quebradas lá? Eles as transformam em ferramentas de guerra! Clementine seria usada apenas para manter os soldados vivos repetidamente, não importa quanto dano sofressem, você seria usada para induzir pessoas a se matarem, Leon seria usado para provocar monstros! — Arc exclamou, começando lentamente a falar cada vez mais alto enquanto falava antes de começar a gritar com a garota na frente dela, os dois, Sammy e também o próprio Arc, tremendo fortemente.
Mas em resposta ao que estava acontecendo, não só a criança que Sammy segurava nos braços começou a chorar, mas a criança que o Diabrete tinha que cuidar começou a chorar também.
Imediatamente o Diabrete correu em direção à carruagem sem hesitar um momento. Quando fez isso, todas as crianças estremeceram em resposta e se afastaram pensando estarem prestes a ser atacadas, mas nunca pensaram que o Diabrete pularia pela porta aberta da carruagem em direção à criança na cesta.
Assim que chegou lá, o Diabrete se inclinou para frente para ver se estava sujo de novo, mas percebendo que não era o caso, pegou rapidamente a mamadeira que estava ao lado e quis dar um pouco de leite para a criança, mas a criança também não parecia estar com fome.
Imediatamente após perceber que algo estava errado, o Diabrete virou-se para as crianças fora da carruagem e pegou a cesta, levando-a para fora antes de olhar para Arc, que parecia ter causado o estado na qual a criança se encontrava.
— Você a machucou! O que você fez? — O Diabrete perguntou com raiva enquanto cerrava os dentes e se inclinava em direção a Arc, e mesmo agora não parecia capaz de se conter e todas as suas emoções vieram juntas, fazendo com que Arc desmoronasse e caísse de joelhos enquanto segurando seu rosto, soluçando.
— E-eu não- eu não fiz nada… nada… eu… — Ele começou a gaguejar, e o Diabrete ficou irritado demais com ele para deixar isso continuar. Ele pensou que essa criança poderia ser útil, mas o Diabrete poderia muito bem usá-la para ficar mais forte novamente, matando-a. Porque era isso que precisava fazer agora.
Ele era um monstro, por que se importaria em matar uma pessoa? Um Diabrete deveria fazer isso, não? Então por que, por que parecia errado matar essa criança? Estava bem ali, sua adaga estava em sua mão, então o que diabos essa criança estava fazendo com ele para que não conseguisse simplesmente matá-la?
Com raiva, o Diabrete cerrou os dentes e olhou em volta, antes de perceber que a criança que Sammy segurava já havia parado de chorar. Então, o Diabrete achou que era mais importante pensar nisso agora.
— Você, o que há de errado com as crianças? — O Diabrete perguntou enquanto olhava para a jovem, e ela olhou para a criança na cesta e balançou a cabeça.
— Ela… ficou assustada… eu acho… — Ela respondeu nervosamente, e o Diabrete continuou apenas olhando para ela antes de voltar a falar:
— Como se livra do assustada? — Ele perguntou, e lentamente Sammy entregou a criança que ela estava segurando para Rudy, antes de se inclinar em direção à criança na cesta para tentar pegá-la, mas o Diabrete a parou e segurou a adaga na frente dela.
Porque ele simplesmente não perfurou o braço dela para mostrar seu ponto? Nem mesmo ele sabia, afinal, foi isso que fez com aquela mulher antes. Mas de alguma forma, achou que não deveria fazer isso agora.
— Não toque — O Diabrete disse a ela, mas Sammy olhou para ele confuso.
— M-Mas eu-
— Diabrete disse, sem tocar — Ele a interrompeu com um olhar furioso e Sammy deu um passo para trás e acenou com a cabeça.
— E-Então… Segure a criança… — Ela explicou a ele, e o Diabrete assentiu e colocou a adaga no chão para poder usar as duas mãos para isso.
Lentamente, ele a pegou do jeito que achava ser certo, que era debaixo dos braços, mas Sammy rapidamente o parou e balançou a cabeça.
— A-Assim não… — Ela disse a ele, e pegou lentamente a outra criança de Rudy novamente para demonstrar. Ela colocou o corpo da criança contra o seu, a criança em pé, com a cabeça acima do ombro, segurada pela mão direita. E a outra mão estava embaixo da criança para segurar o peso do corpo. Lentamente, o Diabrete tentou segurar a criança assim também, e copiou lentamente o que a viu fazer.
E então, ele agora segurava a criança assim e esperava novas instruções de Sammy.
— Erm… Apenas ande devagar agora… — Ela disse a ele, demonstrando novamente o que acabou de dizer, e o Diabrete fez rapidamente o mesmo, tentando acalmar a criança em seus braços.
E logo, pareceu que finalmente parou de chorar, e o Diabrete olhou para a criança ao lado dele, enquanto agora começava a rir por algum motivo, movendo as mãos alegremente, até mesmo tirando o capuz da cabeça enquanto estava fazendo isso.
O Diabrete ficou um pouco irritado por fazer isso, mas por enquanto, estava pelo menos feliz por não estar mais chorando. Então, Sammy olhou para a criança e abriu os olhos, dando alguns passos para trás confuso.
— Espera… Isso… Esse bebê é… — Ela murmurou confusa, e o Diabrete olhou para ela com a testa franzida, não querendo que ela gritasse e fizesse a criança chorar de novo, mas Sammy apenas continuou, especialmente quando Arc parecia ter se acalmado um pouco e deu uma olhada na criança que o Diabrete segurava.
— Esse bebê é a… — Arc perguntou baixinho, mas o Diabrete apenas mais uma vez o encarou com a testa franzida, embora desta vez estivesse com muito mais raiva, porque Arc foi quem fez a criança chorar em primeiro lugar.
[Resistência à Energia Sagrada Iniciante Subiu de Nível!]
Um pouco irritado com a notificação repentina que apareceu na sua frente também, o Diabrete rapidamente se virou para as crianças:
— O quê? — O Diabrete perguntou, e Sammy e Arc se entreolharam nervosamente, antes de se aproximarem do Diabrete.
— Ela é… A Sacerdotisa Sagrada, certo…? Aquela que mataria o Rei Monstro com o herói…? — Arc perguntou confuso, mas o Diabrete balançou rapidamente a cabeça.
— Criança… Besta. Diabrete trouxe a criança embora. — Ele explicou, mas nenhuma das crianças entendeu o que ele estava falando. Rudy então se aproximou das outras duas crianças: — O senhor Irnhoff não nos disse que ela deveria poder matar demônios apenas tocando neles? — Rudy perguntou, Sammy e Arc se viraram para ele confusos, antes de Sammy acenar com a cabeça.
— Sim… Imps são demônios, certo? — Ela perguntou em resposta, mas antes que percebesse, outra criança foi até o Diabrete.
— O senhor está se ferindo… — Clementine explicou, e imediatamente Rudy correu até ela e a agarrou sem hesitar para ter certeza de que não poderia se aproximar do Diabrete.
Mas aquele Diabrete ainda estava confuso sobre tudo, embora agora realmente só quisesse saber uma coisa:
— O que é ‘Sacerdotisa Sagrada’? — O Diabrete perguntou. Ele leu a palavra ‘Sagrada’ antes, e fazia parte da notificação flutuando bem na sua frente também. O Diabrete já descobriu que tinha algo a ver com sua criança, mas ele realmente não sabia que era algo ruim que poderia matar o Diabrete tão facilmente.
— O bebê que você está segurando… Seus olhos estão mudando entre todas as cores que existem, ‘Olhos de Cor Arco-Íris’… Essa é uma característica que só a Sacerdotisa Sagrada tem… — Arc respondeu com uma carranca, completamente confuso com o que estava acontecendo no momento, mas o Diabrete apenas olhou para a criança rindo alegremente em seus braços, confirmando que seus olhos estavam mudando de cor.
E quando olhou para as outras crianças, os delas não mudavam de cor, apenas permaneceram as mesmas. Se fosse esse o caso, essa criança deveria conseguir matar facilmente o Diabrete? Mas era tão fraca e frágil, como deveria fazer isso?
Claro, ele sentia um pouco de queimação sempre que tocava, mas não era nada de especial. Apenas uma fraca queimação, como se tivesse batido no braço com muita força.
— Mas… — Clementine murmurou baixinho enquanto olhava para o Diabrete.
— Se a Sacerdotisa Sagrada gosta tanto dele… O Sr. Diabrete pode realmente ser tão ruim assim? — Ela perguntou com a cabeça inclinada para o lado, e Sammy imediatamente respondeu.
— E-Ele matou três pessoas bem na nossa frente sem motivo! Claro que ele é mau! — Sammy exclamou, mas o Diabrete mesmo sem entender direito, não concordava com o que ela estava dizendo. Não era como se os tivesse matado sem motivo. Até o Diabrete aprendeu que não é necessário matar coisas que não te atacaram primeiro, porque isso é algo que Avalin, Thomas e James também sempre fizeram. Havia muitos monstros nas florestas que os observaram por alguns momentos e depois fugiram, e nunca mais os caçaram depois disso.
— Homem branco atacou o Diabrete. — Ele disse a ela em resposta, e Sammy se virou para ele confuso.
— Homem branco balançou o cajado e machucou o Diabrete. Homem forte atacou o Diabrete também. A mulher não ataca o Diabrete, mas a mulher estava com o homem branco assustador, então Diabrete machucou a mulher. O Diabrete matou a mulher, mas a mulher já estava para morrer. — O Diabrete explicou-lhes o melhor que pôde.
Não era como se tivesse algum arrependimento por matá-los, nem um pouquinho, eram perigosos para o Diabrete e para a criança que ele carregava, então foi por isso que o Diabrete precisou matá-los. Além disso, após ser ferido por aquele homem forte, o Diabrete meio que já queria matá-lo, mas também porque o homem forte o atacou primeiro.
O Diabrete não se importava com ‘certo’ ou ‘errado’, apenas se importava com ‘Perigoso’ e ‘Não Perigoso’. Essas pessoas eram perigosas para ele, então o Diabrete as matou. Era apenas isso.
…