Despertar do Talento: A Ascensão do Mestre Multiclasse Subestimado!

Capítulo 1

Despertar do Talento: A Ascensão do Mestre Multiclasse Subestimado!

Tradutor/Revisor: miggigibe


— Já estão se borrando nas calças?

As grandes portas duplas se abriram com um rangido que silenciou todo o salão, e Eddan Ghosthead entrou com a calma preguiçosa de um homem que nunca, nem uma única vez na vida, precisara ser aquele que esperava.

Ele era alto, elegante, e trazia no rosto um sorriso debochado, como se toda aquela tensão — o nervosismo, o suor e os seis mil futuros pendurados na balança — fosse levemente divertida para ele.

Eddan Ghosthead.

Dono da Academia Starfall, supervisor-geral e governador da instituição.

O homem que viera entregar um dos anúncios mais aguardados de toda a cidade.

E os seis mil formandos reunidos naquele salão cerimonial não tinham escolha a não ser se apegar a cada palavra dele.

Estavam ali como gado separado para o mercado, o que, na verdade, era exatamente aquilo. Uma separação. Uma classificação. Um veredito público sobre se a existência inteira de alguém havia produzido algo digno da atenção das Badlands.

Entre eles estava Roman.

Ele esperara por aquele dia a vida inteira. A proclamação final. O certificado. E, acima de tudo, a chance de entrar na terra de crescimento e oportunidades que todos os formandos da Academia Starfall sonhavam em alcançar desde o primeiro ano.

As Badlands.

Sentado ao lado dele estava Alby, seu amigo mais antigo e mais próximo, com quem dividira quatro anos de salas de aula, fracassos compartilhados e noites maldormidas estudando assuntos que nenhum dos dois compreendia por completo. Hoje, finalmente, os dois aguardavam seus destinos juntos.

— Está nervoso, Roman? — Alby lançou a ele um olhar demorado de lado.

— Nem tanto. — Roman balançou a cabeça. — Só… otimista.

Uma mentira, obviamente.

Havia todo tipo de sentimento correndo dentro dele naquele momento, um emaranhado de esperança, pavor e algo mais pesado do que os dois, algo que ele nem sabia nomear. Tudo o que queria era um resultado que lhe desse algum chão. Algo que pudesse levar para casa.

Ele torcia com tanta força que chegava a doer.

Quando Eddan avançou, os murmúrios no salão começaram a se aquietar naturalmente. Alguns alunos riam alto demais, como as pessoas fazem quando estão apavoradas. Outros permaneciam perfeitamente imóveis, como se a imobilidade fosse uma forma de oração.

E, quando Eddan ergueu uma das mãos, o silêncio que caiu foi imediato e absoluto.

— Estudantes da Academia Starfall. — Sua voz se projetou sem esforço. — Vocês estão diante do fim de sua formação e do início de seu julgamento. Um novo capítulo se abre hoje… Para alguns, será um capítulo de triunfo. Para outros, de fracasso.

Ele deixou as palavras assentarem.

— Hoje, muitos de vocês irão comemorar. Alguns irão chorar. Alguns terão de se separar das pessoas ao lado de quem caminharam por anos. Essa é a Lei da Separação, e ela sempre acontece.

— Hoje, a Academia entrega sua avaliação final. Vocês serão chamados pelo nome. Receberão seu Certificado de Posição. E carregarão essa posição consigo até o Zênite Vermelho e para tudo o que vier depois.

— Aqueles com as maiores chances de convocação registradas deverão ser chamados para esse grande mundo de oportunidades.

Ele fez uma pausa precisa, deliberada, e então continuou:

— As Badlands.

Eddan olhou para a lista em suas mãos, quase com descaso, como se aquilo que segurava não fosse o peso comprimido de seis mil vidas.

— E o que posso dizer? Tudo o que posso dizer é… boa sorte.

Foi o que acrescentou antes de começar o anúncio.

— Aiden Croft! Padrão Acadêmico Final: Segunda Classe. Chance de Convocação: sessenta e nove por cento.

Só o primeiro nome já provocou uma onda de reações. Olhos se arregalaram e cabeças se viraram quando Aiden caminhou até o pódio de queixo erguido e peito aberto, com a passada de alguém que se preparara exatamente para aquele momento. E o salão o observou como sempre observava aqueles que tinham conseguido.

Então o nome seguinte ecoou, e, de repente, Aiden foi esquecido.

— Sera Finn! Padrão Acadêmico Final: Primeira Classe. Chance de Convocação: oitenta e oito por cento.

Ninguém ficou exatamente surpreso, porque Sera passara quatro anos sendo o parâmetro pelo qual todos os outros eram medidos. Seus treinamentos de combate eram cirúrgicos. Suas notas de teoria de sobrevivência nas Badlands eram lendárias. Se alguém sairia da Starfall com uma Primeira Classe, com certeza seria ela.

Ainda assim, ouvir aquilo confirmado em voz alta fez o salão prender a respiração.

No entanto, ela tinha um rival.

E, curiosamente, ele era o próximo.

— Khan Mourne! Padrão Acadêmico Final: Primeira Classe. Chance de Convocação: noventa e um por cento.

O salão não apenas aplaudiu.

Explodiu.

Noventa e um por cento.

A maior marca que qualquer um vira em anos, vinda do melhor aluno que a Starfall produzira em uma geração.

Dava para ver a expressão impressionada no rosto de Eddan.

As pessoas ao lado de Khan o agarraram pelos ombros e o sacudiram, e ele permitiu, porque até Khan, controlado e indecifrável, não conseguiu conter por completo o salto em seu peito.

Ele não correu até o pódio.

Ele caminhou.

Porque, quando você tem noventa e um por cento, conquistou o direito de deixar as pessoas olharem.

Roman assistiu a tudo de seu assento, quieto e imóvel, virando cada nome e cada número na mente como quem examina pedras na palma da mão. Medindo a distância entre eles e ele mesmo. Esperando, desejando, quase implorando para que essa distância fosse menor do que temia.

E foi então que seu nome foi chamado.

— Roman Rings.

Seu coração travou.

Ele olhou para Alby.

Alby já estava olhando para ele.

O amigo lhe deu um aceno curto, daqueles que serviam como incentivo.

Roman soltou o ar devagar, longo e controlado, daquele jeito que era basicamente medo usando uma máscara de calma.

— Padrão Acadêmico Final…

Ele agarrou a borda do assento.

— Quarta Classe.

Naquele exato momento, a expressão de Roman desabou.

O murmúrio se ergueu na mesma hora. Não era alto, mas vinha de todos os lados ao mesmo tempo, aquele som específico de uma multidão processando algo que, no fundo, já esperava, mas ainda assim sentia prazer em confirmar. Cada rosto que se virou para ele carregava uma variação diferente da mesma expressão.

Roman sentiu cada uma delas.

— Chance de Convocação: trinta e seis por cento.

Ele não conseguiu se mover.

Por um longo momento, suas pernas simplesmente se recusaram a obedecer.

Eddan não esperou. Pegou o certificado, segurou-o à distância por um instante e depois o deixou de lado com a eficiência seca de alguém tirando uma bagunça de cima da própria mesa.

Quando Roman finalmente conseguiu se arrastar de pé e caminhar até o pódio, Eddan olhou para baixo, para ele, com uma expressão entre pena e tédio.

— Bem, senhor Rings. — Sua voz atravessou perfeitamente o salão silencioso. — Boa sorte sendo pescador na Cidade do Lago.

A risada veio de todos os lados ao mesmo tempo, súbita e incontrolável, enchendo o salão como água invadindo um cômodo.

Roman ficou parado diante do pódio e sentiu aquele som pressioná-lo de todas as direções. Existem momentos na vida de uma pessoa que não parecem reais enquanto acontecem, que só se tornam reais depois, quando você está sozinho e os revive em pensamento.

Aquele era um desses momentos.

Ele queria que o chão o engolisse inteiro.

Pegou o certificado com as duas mãos e voltou para o assento, sem ousar levantar os olhos.

Mas, em algum ponto dos escombros daquela caminhada, ele se agarrou a uma coisa…

Alby.

Seu amigo mais antigo, para quem ele esperava um bom resultado, para quem ele desejava uma convocação, e que, acreditava, ainda estaria ali quando Roman voltasse ao assento. Porque era isso que quatro anos de amizade deveriam significar.

Era isso que tinha de significar, certo?

Ao chegar ao lugar, sentou-se e se virou para Alby.

Alby não disse nada.

Na verdade, seus olhos estavam fixos no pódio, a mandíbula tensa, as mãos espalmadas sobre as coxas. Mas Roman entendeu.

Alby estava nervoso por causa do próprio resultado. Roman não insistiu, porque não faria sentido. Apenas ficou sentado e esperou, tentando se manter inteiro.

Não demorou para o nome de Alby ser chamado.

— Alby Norlan! Padrão Acadêmico Final: Segunda Classe. Chance de Convocação: sessenta e nove por cento.

A tensão se desfez do rosto de Alby como gelo rachando na primavera. Ele soltou o ar, fechou os olhos por exatamente um segundo, então se levantou e caminhou até o pódio sob aplausos genuínos, inclusive, apesar de tudo, os de Roman.

Porque o que mais ele poderia fazer?

Era Alby.

E assim a cerimônia continuou.

— Ren Bitters! Quarta Classe. Trinta e um por cento.

— Clara Beastborn! Segunda Classe. Setenta e um por cento.

— Tyler Strings! Quinta Classe. Chance de Convocação… Tsc. Dezoito por cento.

Nome após nome.

Número após número.

Até que horas se passaram, o último certificado foi recolhido e o salão, enfim, começou a respirar de novo.

Os formandos se moveram em grupos, separando-se por instinto de acordo com o resultado, como água encontrando seu próprio nível. Os de pontuação alta gravitavam uns para os outros, já barulhentos e elétricos com a energia de pessoas cujos futuros acabavam de ser confirmados.

O Zênite Vermelho começaria em breve.

Quando isso acontecesse, formandos de academias do mundo inteiro seriam puxados para as Badlands. Poucos seriam selecionados, apenas aqueles escolhidos por alguma força invisível responsável por decidir quem era digno. Para ter uma chance real, era preciso apresentar um Padrão Acadêmico Final acima da média e uma Chance de Convocação superior a sessenta por cento.

Roman tinha trinta e seis.

Ele dera tudo de si.

Quatro anos de tudo. Manhãs cedo, noites maldormidas, refeições puladas, anotações emprestadas e uma última tentativa em cada prova que quase o derrubara. Ele entregara tudo com uma única imagem na cabeça.

Seu pai, sentado no escuro da cozinha, uma garrafa ao alcance da mão. O homem que, segundo sua mãe, um dia tivera um sonho.

Seu pai tentara chegar às Badlands.

Tentara e fracassara.

E aquele fracasso quebrara algo dentro dele que nunca cicatrizou. Primeiro o transformou em um homem calado. Depois, amargo. Depois, ausente de um jeito pior do que realmente ir embora.

Roman crescera à sombra daquele fracasso e jurara, desde que tinha idade suficiente para entender o peso de um juramento, que consertaria aquilo. Que entraria nas Badlands e traria de volta algo do qual a família Rings pudesse se orgulhar.

Trinta e seis por cento.

Ele pensou no rosto da mãe e não conseguiu concluir o pensamento.


Roman encontrou Alby perto da saída leste, cercado por alguns outros rapazes, Vardy e Finn, dois dos melhores formandos da Segunda Classe, que já riam de alguma coisa da qual Roman não fazia parte. Ele vinha procurando Alby desde o fim da cerimônia e não conseguia entender por que o amigo fora embora sem procurá-lo primeiro.

Ele deixou passar.

Acreditou que os resultados tinham sido intensos demais, e que cada um estava processando tudo do próprio jeito.

— Ei — disse Roman, aproximando-se. — Eu estava te procurando por toda parte.

Alby se virou.

E, de repente, algo mudou em seu rosto. Uma alteração rápida e deliberada, como uma porta sendo fechada por dentro.

— Por quê? — Sua voz estava vazia. — Eu te devo alguma coisa?

Roman piscou.

— O quê? Não… Eu quis dizer para a gente ir para casa juntos…

— Ir para casa juntos. — Alby repetiu as palavras como se provasse algo estragado.

Ele olhou para Vardy e Finn, depois de volta para Roman. Quando voltou a falar, sua voz tinha algo novo. Não era exatamente raiva. Era algo mais calculado do que raiva.

— Pra você me passar seu azar? Não, obrigado.

Roman ficou muito quieto.

— Alby. O que você…

— Não, não. Guarda isso. — Alby balançou a cabeça devagar. — Você não vai tornar isso estranho, Roman. Eu não vou entrar nessa.

— Eu só… — Roman parou. Tentou de novo. — Você é meu melhor amigo.

— Ah, cai na real. — As palavras saíram rápidas e secas, como algo que ele vinha pensando havia bastante tempo. — Você nunca foi meu melhor amigo. Era só meu colega de carteira. O cara que mora na mesma cidade que eu. Só isso. Não tem nada além disso.

As palavras o atingiram com aquela força específica das coisas que a gente não entende por completo no primeiro instante, até o significado finalmente alcançar.

— Você é um fracasso, Roman. Não serve para ser um Desperto. Sua Chance de Convocação é de só trinta e seis por cento. Isso não é uma chance, mal chega a ser um número. Por que eu iria querer isso me seguindo para o meu futuro? — Alby não elevou a voz. Essa talvez tenha sido a pior parte.

— Eu preciso ficar com pessoas que estejam no mesmo nível que eu. Pessoas que não decepcionaram a própria família. Diferente de você.

A mandíbula de Roman se contraiu.

Aquela frase em específico acertou fundo o bastante para deixar marca.

E foi justamente quando o clima começou a pesar que Vardy bateu no ombro de Alby por trás, já se movendo.

— Bora, bora. A Lua Vermelha está chegando. Você não vai querer ser convocado no meio da rua.

— Certo. — Alby se endireitou e olhou para Roman uma última vez. — Bom. Como Eddan disse, boa sorte sendo pescador na Cidade do Lago.

Ele foi embora com Vardy e Finn.

A multidão os engoliu.

E Roman ficou parado ali, encarando o espaço onde sua amizade mais antiga havia estado.

Em algum momento, percebeu que as pessoas próximas estavam olhando para ele, e foi então que entendeu que precisava sair dali.

Voltar para casa sozinho parecia errado de um jeito que não tinha nada a ver com a distância. Costumava ser ele e Alby em todos os fins de semana, em todos os encerramentos de período, em todas as caminhadas de volta depois de qualquer coisa que importasse. Ir sozinho naquele dia parecia menos solidão e mais a prova de algo que ele não queria ver provado.

Quando já estava quase em casa, Roman decidiu fazer um desvio até o apartamento da namorada para desabafar sobre a própria miséria.

De todas as pessoas em sua vida, acreditava que Tessa seria a mais compreensiva depois de sua mãe.

Eles namoravam havia quase um ano, embora Roman nunca tivesse passado desse limite com ela. Dizia a si mesmo que ainda não era a hora certa…

Algo assim…

Ou talvez fosse mais honesto admitir que ficava nervoso com a ideia de fazer “aquilo”.

O apartamento de Tessa ficava três ruas fora do caminho para casa. Ela morava sozinha desde que o irmão havia despertado e ido para as Badlands, dois anos antes. Os dois eram órfãos, e o irmão dela sempre fora quem se virara para cuidar dela.

Roman apressou o passo e chegou ao apartamento em poucos minutos. Depois de bater várias vezes na porta, ninguém abriu.

Mas ele acreditava que ela estava em casa.

Aquele dia era feriado mundial por causa do Zênite Vermelho, então não havia como ela não estar em casa naquele horário. Além disso, Tessa não era exatamente o tipo de pessoa que gostava de sair.

Depois de bater mais algumas vezes, Roman decidiu entrar, já que a porta estava destrancada. Não a viu em lugar nenhum da sala, então seguiu direto para o quarto, chamando o nome dela repetidamente pelo caminho, sem receber resposta.

E, quando chegou lá…

O que ele viu…

— Te… Tessa?

Dessa vez, Roman ficou paralisado, rígido e contorcido pelo choque, como uma estátua grotesca.

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