Livro dos Mortos

Volume 2 - Capítulo 6

Livro dos Mortos

Foi bastante vergonhoso ter esquecido que tinha essa habilidade. Afinal, Tyron estava tão concentrado em aperfeiçoar suas capacidades de avaliar, preparar e ressuscitar esqueletos que suas outras habilidades haviam quase desaparecido de sua consciência.

Em específico, sua habilidade de falar com os mortos.

O feitiço sem dúvida era interessante e algo que ele adoraria estudar mais detalhadamente, mas como não levaria direto à criação de lacaios superiores e, portanto, não o ajudaria a subir de nível, concentrou-se em coisas mais importantes.

Enquanto a noite caía sobre a fazenda, Tyson caminhou hesitante até a casa que estava sendo usada pelos sobreviventes. Quando chegou na porta, respirou fundo, então bateu algumas vezes antes de dar um passo para trás.

Não conseguia escutar muito do outro lado. Na maior parte do tempo, era um silêncio quase anormal, ainda mais ao considerar a dúzia de crianças que havia ali dentro. Quando não estava quieto, geralmente era porque alguém estava gritando ou chorando, ou ambos. Portanto, Tyron preferia o silêncio.

Após alguns segundos, a porta se abriu e ele viu Annette, a senhora que encontrou perto da bomba de mão mais cedo. Ele soltou um suspiro rápido de alívio, embora tenha tentado esconder. De todas as esposas que havia salvado, ela era a mais… capaz, embora ainda estivesse muito ferida e parecesse incapaz de olhá-los nos olhos.

— S-Sim? Há alguma coisa que podemos fazer por você? — perguntou ela de forma tímida.

Na verdade, era uma pergunta um tanto boba. O que eles poderiam fazer por ele?

— Não. Não, claro que não. Na verdade, há algo que eu possa fazer por vocês? Precisam de mais alguma coisa? Se estiver em falta, posso ir procurar.

A jovem viúva levantou as mãos.

— Oh, ah. Estamos bem no momento… obrigada.

Os dois ficaram em silêncio enquanto Tyron lutava para lidar com a estranha situação. Sentia-se terrível pelo que essas pessoas haviam passado, mas qualquer coisa que dissesse ou fizesse seria muito insignificante em comparação com as necessidades delas.

— Eu, uh, só queria dizer que vou usar o pátio para um ritual. Agradeceria se alguém ficasse de olho nas crianças e garantisse que elas não saiam. Pode ser um pouco… perturbador para alguns de vocês verem isso.

Annette arregalou os olhos de medo por um instante, depois olhou para baixo e assentiu várias vezes.

— Sim. Não haverá problemas. Teremos cuidado. Obrigada.

Dito isso, ela deu um passo para trás e fechou a porta suavemente.

Com a tarefa concluída, Tyron se virou e soltou um suspiro explosivo. Cada interação que tinha com os sobreviventes era dolorosa. Ele os salvou de um destino terrível, isso era verdade, mas era difícil para eles sentirem gratidão naquele momento. Perderam seus familiares, seus futuros, o trabalho de uma vida inteira. Alguns deles perderam até filhos.

Eram pessoas despedaçadas que mal conseguiam, por um triz, cuidar umas das outras. Sempre que estava perto delas, ele sentia que tinha que pisar com cuidado, caso contrário muitos poderiam quebrar, cair aos pedaços, como porcelana rachada.

Ele tinha feito tudo o que podia em termos de suprimentos e ajuda, mas essa era a extensão de suas capacidades.

Se sua mãe e pai estivessem aqui, seria uma história diferente. Eles os confortariam, preparariam comida para eles, dariam um ombro para chorarem, um ouvido compreensivo. Ficariam por uma semana ou mais e, aos poucos, os ajudariam a se abrir, a reconstruir suas vidas.

Ele não era assim.

Lidar com pessoas era difícil. Felizmente, agora podia se concentrar em algo muito mais simples, ou seja, lidar com os mortos.

Caminhou pelo pátio, lembrando de como estava após a batalha. Preferia não de que usá-lo, mas quanto mais próximo estivesse do local da morte, melhor seria capaz de usar a magika.

Decidiu que gostaria de conversar com seu velho amigo Davon. Depois de fazer alguns preparativos, começou a entoar o ritual.

Comunique-se com os Espíritos era um feitiço curioso. Verdade seja dita, Tyron não entendia metade dele. Mesmo agora, não sabia se o que havia conjurado era um fantasma de verdade, a alma de alguém que havia falecido ou uma… marca psíquica deixada pela magika ambiente.

Havia uma chance real de que o Dove com quem falava todos os dias não fosse, de fato, seu falecido amigo. Poderia ser, mas Tyron não sabia. Era algo em que preferia não pensar.

As palavras saíram de sua língua, cada sílaba dando forma e propósito à magika que extraia dentro de si, montando o ritual peça por peça.

Quando terminou, juntou as mãos com um tapa seco, cortando o fluxo de palavras. Era a primeira vez que usava o feitiço para o propósito pretendido, e estava um pouco nervoso enquanto aguardava que algo acontecesse.

Uma névoa surgiu sobre o local onde Davon havia morrido. O ar esfriou e fluiu para dentro, transformando a névoa em uma coluna giratória. Tyron a estudou. A névoa era densa, semelhante a uma nuvem, e fluía e se contorcia em correntes invisíveis, mas nunca se estendia para muito longe da coluna.

Duas luzes começaram a brilhar dentro dela, frias e azuis. Aqueles não pertenciam a nenhuma criatura viva. Tyron reconheceu o olhar dos mortos.

{Fale.}

Não foi com palavras que a sombra falou, nem com a mente, como o Abismo fazia. Foi o sibilar de uma lâmina deslizando fundo em uma alma. Era o sussurro do inverno roubando o calor de um homem moribundo. Tyron não tinha palavras para descrever como sabia o que havia sido dito. Mas sabia.

— É você, Davon? — perguntou ele.

{Você me trouxe até aqui. Fale.}

O espírito não parecia falante.

— Parece que está com pressa, Davon. Tem algum lugar para ir?

Normalmente, Tyron não zombaria do morto, mas no caso de Davon e sua gangue de arruaceiros, ele poderia quebrar seus hábitos normais. Essas pessoas não mereciam respeito, nem mesmo na morte.

A névoa se agitou mais rápido à medida que a sombra ficava agitava, estreitando os olhos em fendas.

{Você me matou.}

— Com certeza.

{Eu vou te matar!}

A névoa avançou, os olhos e algo mais suspenso em seu interior saltaram para atingi-lo, mas não conseguiram.

Um escudo dourado surgiu ao redor do Necromante, repelindo a névoa, que se retraiu diante dele.

— Não acho que isso vai funcionar, Davon. Você está preso aqui até que eu o liberte — afirmou Tyron com um sorriso sarcástico.

Havia algo doentio em provocar seus inimigos além-túmulo. Tyron sentia que estava gostando disso mais do que deveria. Assim, tentou voltar aos trilhos.

— Dê-me as respostas que quero e você poderá voltar para… seu túmulo.

{Fale!}

A névoa se acalmou de novo, a corrente diminuindo até voltar a flutuar preguiçosamente dentro de si. Os olhos permaneciam frios e ameaçadores, mas Tyron sentiu que não havia muito que pudesse fazer sobre isso.

— Sua pequena gangue aqui. Vocês estavam em quantos?

A sombra hesitou por um instante antes de responder.

{Vinte e cinco.}

Era mais do que esperava. Não havia tantos quando chegou. Ele franziu a testa.

— Quantos Monty levou com ele quando saiu? Ele era o líder do grupo, não era?

{Metade. Foi ideia dele se rebelar. Convenceu os outros.}

Não era o que Tyron queria ouvir. Ele só matou seis bandidos antes que os outros fugissem, assustados por seus mortos-vivos. Isso significava que havia pelo menos dezenove à solta.

— Quase terminamos, Davon. Eu quero que me diga por que Monty saiu. Onde ele foi? Quando você acha que ele voltará?

Aqueles olhos frios queimavam com uma luz selvagem enquanto a sombra respondia.

{Foram recrutar. Fazenda Farringer. Dois dias de Viagem. Mais mãos. Mais garotas. Voltam em breve.}

O rosto do Necromante se contorceu. Aqueles babacas não estavam felizes com o pequeno pedaço de paraíso que haviam conquistado para si? Será que Monty estava tentando se estabelecer como um senhor dos bandidos?

A alegria que viu na sombra o enojou. Essas pessoas ainda eram humanas?

— Você acha que eles podem me matar, Davon? Quando esse idiota voltar, você acha mesmo que importa quantas pessoas ele trouxer?

{Você vai morrer. Vingança.}

— Depois que eu os matar, eu ressuscitarei seus ossos como novos servos. Então, falarei com você de novo, para que possa dormir para sempre sabendo que eu sobrevivi — Tyron forçou um sorriso doentio. — Na verdade, eu poderia pegar seus ossos agora mesmo. Eu retirei a carne do seu corpo, sabia? Agora eu poderia te ressuscitar para que pudesse contribuir para algo útil pela primeira vez em sua existência miserável.

A sombra se agitou, a névoa se contorcendo em um ritmo furioso. Ela avançou na direção dele mais uma vez, mas Tyron encerrou o ritual com um gesto de desprezo.

De imediato, a coluna de névoa começou a se dissipar, como se estivesse sendo sugada pelo chão. Os olhos perderam o brilho à medida que também eram sugados para baixo, um longo sibilo de raiva e desespero ecoou enquanto a sombra era enviada de volta para onde quer que tivesse se originado.

Quando terminou, nenhum vestígio restava da magika. Tyron permanecia parado sobre a terra e o cascalho que marcavam o local onde Davon morreu.

— Bem — suspirou para si mesmo —, isso foi assustador.

— Se você acha que conversar com uma mera sombra pode ser demais para suportar, estou preocupada com seu futuro.

Tyron pulou ao ouvir uma voz suave soprando em sua orelha. Virou-se para ver Yor parada desconfortavelmente perto, seus traços perfeitos emoldurados por um sorriso sedutor.

Ela conseguiu encontrar um vestido para si em algum momento. Humilde e simples, era provável que pertencesse a alguma dona de casa, mas, de alguma forma, ela o fazia parecer um vestido de baile. A dignidade e graça de sua postura eram tais que não importava o que ela vestisse, ela sempre parecia da nobreza.

O Necromante corou e deu um passo para trás para criar espaço, com o coração acelerado.

— Oh, Ah. Oi, Yor. Eu não percebi que… uh… o sol havia se posto.

Ela assistiu à sua reação com um leve divertimento. Por um instante, ele temeu que ela desse um passo para frente e se aproximasse de novo, mas, para sua felicidade, a vampira permaneceu no lugar.

— De fato — disse ela, arrastando as palavras —, você estava mais concentrado na sua discussão com aquela coisa.

Ela fungou.

— Fantasmas e sombras. Criaturas tão ingratas e indignas. Só se pode confiar nelas quando obrigadas à servidão.

— Você está dizendo… que ele pode ter mentido para mim?

— De fato é possível — sorriu Yor —, mas não é isso que estou dizendo. O que quero comunicar… é que nada é confiável se não estiver atrelado ao seu serviço por correntes mais fortes que aço.

— Então eu não posso confiar em você?

A vampira riu, um som rouco e musical que fez seu sangue acelerar.

— Claro que não, querido. Nunca confie em um vampiro. Isso é senso comum.

Um lembrete oportuno. Ele não sabia como lidar com Yor. Ela era encantadora ao olhar, cada gesto, cada palavra, era pensado para atrai-lo. O que era o objetivo. Ela não era uma mulher, ela era um cálice envenenado. Cada detalhe era uma isca, mas se você tentasse beber, você morreria.

Ou, no caso de Tyron, era provável que se transformasse em uma criatura como ela, talvez obrigado a servi-la por meio de meios que ele não compreendia.

De alguma forma, mesmo sabendo que ela o mataria não foi suficiente para eliminar a atração que sentia por ela. Não era difícil imaginar quão rápido Dove teria morrido nas mãos dela se ainda estivesse vivo.

Ele teria a convidado para um quarto particular dentro de dez segundos após vê-la. Então seria exsanguinado, e ele diria que teria morrido feliz.

— Como você admite que não posso confiar em você — disse ele devagar —, então quero deixar isso claro. Eu ficaria… grato… se você na machucasse nenhuma das pessoas aqui. As mulheres e crianças já sofreram demais. Eu quero poupá-las de mais dor, se possível.

Uma sobrancelha elegante levantou.

— Você acha que eu caçaria essas pessoas?

Foi uma coisa bonita de se ouvir, mas ele ficou confuso.

— Não faria isso? — perguntou.

Pelo que sabia da vampira, ela não se importava com nenhum tipo de mortal. Eles eram comida para ela, pouco mais que gado.

Yor suspirou.

— Pode ficar tranquilo. Não tenho intenção de me alimentar desses humanos. Por ora, estou bem saciada, não estou com urgência em matar minha sede. Eles estão a salvo de mim.

—… por ora?

Os olhos dela brilharam. Mais uma vez, ele vislumbrou a besta selagem que habilitava aquela concha sedutora.

Por ora — confirmou ela. — Se minha necessidade se intensificar, então me alimentarei de qualquer fonte que estiver disponível. Tudo o que posso prometer a você é que, se a necessidade surgir, elas não sofrerão.

Dizendo isso, ela se virou e se afastou, logo desaparecendo nas sombras e sumindo do pátio. Tyron ficou olhando para o local em que ela desapareceu por um minuto antes de se livrar de seu estupor.

Aquela foi uma concessão maior do que ele esperava dela. Ela nunca demonstrou nada além de um completo desprezo pelos vivos. Haveria algo nesses sobreviventes em particular para que Yor evitasse feri-los se pudesse? Ou ela só estava tentando deixá-lo feliz na esperança de que aceitasse a oferta dela?

O pensamento o preocupou, mas ele o afastou. Havia aprendido outras coisas que precisavam ser resolvidas. As casas estavam escuras agora, apenas algumas velas acesas dentro dos prédios projetavam uma pequena luz tremeluzente do lado de fora. Com uma palavra, Tyron invocou um globo de luz para iluminar o caminho e correu para dentro da casa que compartilhava com Dove.

— Como foi, garoto? Teve uma boa conversa com o morto?

— De certa forma. Pelo que parece, as pessoas com quem lutamos eram apenas metade deles. A outra metade foi com o líder “recrutar” em outra fazenda.

— Bem… merda. Isso não é bom.

— Não, não é. Podem ser até trinta ou mais voltando, e não temos ideia de quando eles podem chegar. Da última vez, eles ficaram assustados com os esqueletos e fugiram, mas estarão prontos dessa vez, assumindo que se reencontrem com os outros.

Sem a vantagem do fator surpresa, seus esqueletos não seriam tão eficazes. Eles eram lutadores decentes, em especial contra os antigos trabalhadores rurais sem habilidades de combate, mas não eram confiáveis em uma luta onde eram superados em números. Ter mais lacaios do que o inimigo era o mais seguro.

— Tenho muito trabalho a fazer — lamentou Tyron. — Preciso ressuscitar mais esqueletos. Qualquer coisa menos que vinte não será nem de perto o suficiente.

— Você tem restos mortais suficientes — comentou Dove. — Você poderia até trabalhar em uma armadura de ossos com o restante. Ou você poderia fugir — adicionou o crânio. — Você não tem obrigações de estar aqui quando aqueles bandidos voltarem.

Tyron congelou. Era uma opção, isso era verdade.

— E os sobreviventes? — disse ele.

— Garoto, eles também não precisam estar aqui. Podem correr como loucos de volta para o leste e se encontrarão com Exterminadores e marechais.

— Isso é muito perigoso — Tyron franziu a testa —, com as criaturas das fendas ainda à solta, eles não irão muto longe. Tendo que viajar com as crianças, não há chance de sequer escaparem dos bandidos e eles com certeza vão atrás deles. Sabe disso, Dove.

O crânio ficou em silêncio por um momento.

— Só tenha cuidado, garoto — disse ele. — Você não tem motivos para se matar protegendo outros. Acha que essas pessoas te protegeriam? Dos marechais? Dos Magistrados? Elas te entregariam com um sorriso no rosto, não importa o que tenha feito por elas. Você já quase morreu por eles. Isso deve ser mais que o suficiente. Não se esqueça de quem você é, Tyron. Não se esqueça da situação em que está. Você é um foragido, assim como aqueles bandidos, e se os marechais te alcançarem, vocês compartilharão o mesmo destino. Não tome uma decisão emocional, é só isso que estou dizendo.

Tyron cerrou os punhos.

De muitas formas, Dove estava certo. Ele sabia disso. Entendia, mas não significava que tinha que aceitar.

— Não vou deixá-los para morrer — rugiu ele.

Subiu as escadas a passos largos, sentou-se na mesa coberta por ossos e começou a trabalhar.

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