
Capítulo 1
Começando com o Nível SSS: Eu Ganho Uma Nova Habilidade a Cada Transmissão ao Vivo.
Tradutor/Revisor: miggigibe
— Colocar você no mundo foi a pior decisão da minha vida.
Não era exatamente o tipo de coisa que alguém gostaria de ouvir logo pela manhã.
Sentado na cama, permaneci encarando o chão, os ombros caídos, como se cada palavra dela tivesse peso suficiente para me empurrar ainda mais para baixo.
Diante de mim estava a mulher que havia colocado no mundo o inútil em que eu me tornei.
Aquela era a terceira visita dela no mês. Pela terceira vez, o motivo continuava o mesmo.
Ela estava decepcionada.
— Você já tentou, ao menos uma vez, seguir os passos do seu irmão? Na sua idade, ele já tinha começado a própria empresa e parou de depender do nosso dinheiro assim que entrou na universidade. E você? Vinte anos nas costas e ainda vivendo às custas dos seus pais.
As palavras doeram mais do que deixei transparecer.
Como se eu não tivesse tentado abrir minha própria startup.
Ou talvez ela soubesse. Talvez simplesmente não importasse.
Afinal, o mundo só comemora o sucesso. O fracasso é esquecido… ou guardado como munição para momentos como aquele.
— Você pelo menos costumava ser obediente — ela continuou. — E essa obediência lhe rendeu tantas conquistas.
Eu nem precisei erguer os olhos para saber para onde ela estava olhando.
As medalhas.
Competições de arco e flecha. Concursos de piano. Troféus, certificados, lembranças de uma época em que eu fazia tudo o que esperavam de mim.
Houve um tempo em que o piano fazia parte da minha rotina.
Hoje, porém, só de pensar em me sentar diante das teclas eu já ficava cansado. Não era apenas falta de tempo. A verdade é que a vontade também tinha desaparecido.
Quanto ao arco e flecha… bem, não era como se a vida me desse muitas oportunidades de mostrar o quanto eu poderia acertar o olho de alguém se realmente quisesse.
— Kyle, olhe para mim.
A voz dela veio afiada.
Devagar, ergui os olhos e encontrei aqueles olhos azuis penetrantes me encarando com frieza.
— Quando você vai parar de ser tão irresponsável? Só me diga a data. Assim, pelo menos, eu paro de desperdiçar meu tempo vindo até aqui.
Dei de ombros.
— Talvez daqui a uns cinquenta anos… mas será que a senhora vai viver tempo suficiente para ver esse meu lado?
Os olhos dela se arregalaram de fúria.
Antes que pudesse levantar a mão para me dar um tapa, peguei o celular, agarrei minha mochila e passei por ela.
— Estou ficando atrasado. Por favor, tranque a porta antes de ir embora.
Não esperei resposta.
Saí correndo de casa e continuei assim por alguns segundos, até ter certeza de que, mesmo se ela gritasse, sua voz não me alcançaria.
Só então reduzi o passo.
Soltei um suspiro, ajeitei a mochila no ombro e segui em direção à universidade.
Não era tão longe. E, como eu precisava economizar cada centavo, evitava pegar ônibus sempre que podia.
Meu cartão de transporte tinha sido roubado. Como eu não queria pedir dinheiro extra aos meus pais para fazer outro, preferia ir a pé e economizar o pouco que ainda tinha.
Enquanto caminhava, as palavras dela voltaram à minha cabeça.
Por mais que ela acreditasse que eu fosse indiferente ao meu presente e ao meu futuro, eu não era.
Eu também estava preocupado.
O problema era que, diferente do meu irmão — o favorito de Deus, da família e, aparentemente, do universo inteiro —, eu não era excepcional em nada.
Aquelas conquistas que ela mencionou?
Não nasceram exatamente de talento ou paixão. Eram resultado da pressão deles. Da insistência para que eu fizesse as mesmas coisas que o filho perfeito fazia.
Foi justamente por causa dessa obsessão de me transformar numa cópia inferior dele que decidi sair de casa e viver sozinho.
No começo, achei que nunca mais precisaria pedir dinheiro a eles.
Criei um canal de lives. Usei minhas economias para tentar abrir uma startup.
Mas, no fim, aqui estava eu.
De cabeça baixa.
Engolindo o resto da minha dignidade.
Pedindo dinheiro de novo.
E, quando digo “a eles”, quero dizer que tive que pedir uma mesada ao meu maravilhoso irmão mais velho, para que ele pudesse, mês após mês, me lembrar da diferença entre nós dois.
Cheguei à União Acadêmica Arthur, uma universidade batizada em homenagem ao seu fundador.
Não era uma instituição grandiosa nem famosa o bastante para impressionar alguém, mas, se eu me formasse ali, sendo honesto, conseguiria um emprego decente. O suficiente para pagar minhas contas e comer três vezes por dia.
Para mim, já seria uma vitória.
Respirei fundo e entrei no campus.
O burburinho dos estudantes me envolveu de imediato.
Grupos conversavam, riam, caminhavam juntos. Alguns acenaram para mim. Outros sorriram de passagem.
Eu não era exatamente um solitário.
Só não me encaixava em lugar nenhum.
Meus hobbies eram estranhos, meu humor nem sempre ajudava, e eu ainda era o tipo de idiota que considerava os amigos da escola amigos de verdade.
Então, sim.
Eu era aquele cara que todo mundo conhecia, mas ninguém chamava para sair.
Ao atravessar o corredor, olhei em volta, procurando a pessoa que eu esperava encontrar no portão.
Mas ela estava atrasada.
De novo.
Entrei na sala com uma nuvem de mau humor sobre a cabeça.
Enquanto seguia até minha carteira, ouvi algumas garotas conversando.
— Você acha que o Ethan vai notar meu perfume?
— Nem sonhando. Ele provavelmente jogaria seus chocolates fora achando que alguém está tentando envenená-lo.
— Bem, ele é tão charmoso… não dá para culpá-lo por ser cauteloso. — A garota suspirou, com um sorriso bobo. — Se eu pudesse, eu o dopava e trancava no meu quarto pelo resto da vida.
Ah, sim.
Uma conversa perfeitamente normal naquela turma.
O centro da atenção de quase todas as garotas da sala — ou melhor, de quase todas as garotas do campus — era aquele único rapaz que todas admiravam de longe.
Sentei-me, peguei o celular e abri a última mensagem que eu havia enviado para ela na noite anterior.
[Vamos nos encontrar na estação amanhã às 7?]
Ela não tinha visualizado.
E eu havia mandado a mensagem às nove da noite. Definitivamente, não era tarde o bastante para ela já estar dormindo.
Ela simplesmente não tinha aberto a mensagem.
E aquela não era a primeira vez.
Nos últimos seis meses, eu tinha começado a perceber o padrão.
Depois das aulas, sempre que eu mandava mensagem, quase nunca recebia resposta. Quando recebia, era algo curto. Um “preciso ir”. Um “minha mãe está chamando”. Uma desculpa simples, rápida, distante.
Tentei ligar algumas vezes.
Ela desligava na hora.
Em outras, o celular estava desligado.
Os minutos passaram, e os alunos foram ocupando seus lugares.
Eu continuei esperando.
Apenas dois lugares continuavam vazios.
Fiquei ali, sentado em silêncio, até a professora entrar na sala e apoiar os materiais sobre a mesa.
— Peguem suas anotações. Vamos continuar de onde paramos ontem.
Minhas mãos obedeceram.
Minha mente, não.
Ela continuava presa em Amanda.
Pouco tempo depois, duas pessoas apareceram apressadas na porta da sala.
Um garoto.
Uma garota.
O primeiro era o tipo de pessoa que roubava a atenção de todos assim que entrava em qualquer lugar. Das alunas. Da professora. Até de quem dizia não se importar.
Ethan Lockhart.
A outra pessoa era…
Minha namorada.
Amanda.
Então… eles estavam juntos.
Nossos olhares se encontraram.
Pela primeira vez, não consegui encará-la por mais do que alguns segundos.
Desviei o rosto, como se não a conhecesse.
Mas a verdade era simples.
Meu coração tinha acabado de se partir.
E eu sabia exatamente o que precisava fazer.