
Volume 5 - Capítulo 195
Life Hunter
Arima trouxe Layla para o reino de sua alma. Os dois estavam sentados no chão, cercados pelo ambiente encantador. As videiras brilhantes, o oceano de cabeça para baixo, as luzes cianas enchendo o ar após a integração da energia Eion e as inúmeras flores e árvores que as videiras enrolavam ao redor.
Arima e Layla estavam sentadas cara a cara em dois pontos onde as videiras haviam recuado para dar lugar à grama verde-escura. Os dois pareciam tão calmos como de costume. Mesmo Layla não parecia estar muito ansiosa.
— Eu não gosto de ser evasivo sobre as coisas. Então, vou ser o mais claro possível — Arima proferiu com uma voz grave. — Se você quer uma resposta clara, não tenho certeza se posso lhe dar uma. Eu não estou abraçando a ideia completamente nem estou rejeitando-a. Não é porque eu já amei alguém que não consiga mais.
Layla fechou os olhos e decidiu ouvir com atenção.
— O amor é uma coisa realmente curiosa, afinal de contas — Arima riu. — Mesmo com todas as vidas diferentes que tenho agora na minha cabeça, ainda não consigo encontrar uma resposta definitiva para as ‘emoções’. Se eu quisesse, poderia dizer que é apenas fisiológico, um pequeno truque do nosso cérebro, mas todos sabemos que não é. As emoções são poderosas. Mesmo que as pessoas possam exagerar as coisas, o amor e a amizade podem torná-lo mais forte — disse ele e fez uma pausa — Mas — seu tom mudou — é de mim que estamos falando. O que eu quero fazer você entender com isso é que me amar pode ser uma coisa muito difícil de fazer no futuro.
Layla estremeceu e arregalou os olhos. Ela olhou para os olhos de Arima e engoliu em seco. Eles geralmente eram afiados e brilhantes, mas agora eram ocos e escuros.
— {Ei, pare com isso} — Malum falou. Arima piscou uma vez e seus olhos voltaram ao normal.
— Desde o Julgamento… não, mesmo antes disso. Eu já tinha entorpecido, eu acho. Tudo ao meu redor não poderia me afetar profundamente o suficiente — afirmou. — Quando Elia questionou minhas emoções, eu disse que poderia controlá-las. Não era mentira. Assim como o fato de que há pessoas que poderiam fazer o mesmo. A única diferença é que eu tenho que controlar minhas emoções para imitá-las — a expressão de Layla afundou. Ela só tinha as memórias de Arima. Ela não conseguia nem começar a se perguntar como sua mente funcionava.
— Claro, eu tenho emoções. Ninguém pode dizer que ele não tem nenhuma e ainda ser capaz de falar. Enquanto você pensa, você sente. Raiva e amor… esses dois estão sempre presentes, por exemplo. Eu valorizo meus amigos, mas eu nem sei se é porque eu alterei minha própria percepção ou não. Layla — Arima levantou a cabeça e sorriu. — Eu gosto de você, mas é impossível para mim amar você, já que eu nem sei se posso realmente fazer isso mais.
Layla respirou fundo.
— Eu não me importo — ela retrucou e Arima sorriu como se ele esperasse isso. — Se o que você diz é verdade, então eu vou ter que fazer você me amar de uma forma ou de outra.
Arima riu.
— A mistura da teimosia de Lilis e a determinação de Lanya é algo. Acho que vou concluir com isso. O amor é tão simples quanto complicado. É complexo porque você pode nunca saber por que você sente isso. É simples porque é fácil se apaixonar. Quando alguém tem sentimentos por você, só precisa abrir seu coração um pouco para fazer o mesmo em troca. Enquanto souber e entender que alguém te ama, nunca será imperturbável eternamente — Arima se levantou. — Se você puder fazer isso comigo, a vitória é sua.
Layla sorriu e se levantou também.
— Eu sei — ela murmurou e invocou seu florete, que apontou para Arima. — E eu vou fazer isso hoje.
Arima piscou em confusão. Ele esperava que essa conversa terminasse, mas surpreendentemente foi pego de surpresa.
— Qual é o seu plano?
— Eu quero um duelo — Layla sorriu suavemente, o que contradizia suas palavras e Arima franziu a testa. — Eu não vou pedir algo tão estúpido quanto uma luta até a morte, não se preocupe. É só até que um de nós não possa mais lutar, mas vou atacar para matar. — Layla acrescentou e sorriu. — Porque eu sei perfeitamente que não posso vencê-lo — acrescentou ela e uma aura preto-prateada apareceu ao seu redor enquanto ela se transformava em sua forma Draconata.
Arima apertou os olhos enquanto sua aura afastava as videiras e criava ondulações no oceano acima delas. Ele acenou com a mão e agarrou SuperIra ao mesmo tempo. Ele não liberou sua aura nem usou sua transformação dracônica.
— Tudo bem, eu aceito seu duelo — disse ele e girou a arma em sua mão.
Layla sorriu enquanto tomava banho de luz prateada.
— Não — ela expressou lentamente e Arima ficou muito confuso. — Eu não quero lutar com você assim. Não tem sentido.
— Você mesmo disse isso; você não pode me vencer. Eu não preciso ir mais longe.
Layla balançou a cabeça.
— Não é isso que quero dizer. Você pode usar qualquer forma que quiser. Eu só quero que você me lute com a sua verdadeira natureza.
A expressão de Arima mudou drasticamente. Ele olhou para Layla por alguns minutos e levantou a mão esquerda. Ele cobriu o rosto com a palma da mão e ficou em silêncio. Mesmo o ar ao redor parecia ficar mais pesado quando sua presença escureceu.
Ele esfregou o rosto e estendeu a mão. Layla estremeceu novamente. Não conseguia evitar. Lilis foi quem deu a Elia seu poder de ver emoções em primeiro lugar. Ela também poderia fazer o mesmo. Se aquela elfa estivesse aqui agora, ela teria morrido de medo.
Layla estava olhando para Arima, mas não conseguia ver nenhuma cor. Ela podia ver essas cores/emoções a qualquer momento, sempre, mas agora que ela não estava vendo nenhuma, nem mesmo branco, isso a deixou extremamente desconfortável.
Ela não podia mais ver a ‘cor’ de Arima, mas em vez disso, uma coisa ainda mais assustadora ocorreu. Ela sentiu como se algo invisível estivesse saindo dele para devorar seu espírito.
Sua expressão estava longe de ser amigável também. Seu rosto não mostrava nenhum tipo de emoção, mas o verdadeiro problema estava em seus olhos. Eles estavam cheios de escuridão como se tivessem sido preenchidos com tinta. Não sobrou nada das pupilas de prata de sempre. Mesmo a luz emitida pelo corpo de Layla não conseguia produzir um reflexo.
— Era isto que queria? — Sua voz soava como se ele estivesse falando com um estranho. Layla se sentiu magoada por dentro, mas assentiu calmamente.
— Sim.
— {Porra. Eu deveria ser sua parte sombria. Por que estou com medo de você?} — Malum reclamou. Se pensasse sobre isso, Elia não era a única que havia notado o que Arima estava escondendo.
Chronepsis tinha notado isso também. Quando eles se conheceram, o Rei Dragão chamou Arima de “louco”. Este último até fez um pequeno discurso semelhante ao que acabara de dizer a Layla.
Depois de Chronepsis, foi Evergreen. Ela o chamou de “doido”. E até hoje, ela ainda não conseguia se livrar do medo nas profundezas de sua mente.
— Aqui vou eu — declarou Layla e chutou o chão. Ela apareceu bem na frente de Arima e seu florete estava apontando direto para a cabeça dele.
Seus olhos se estreitaram e ele ergueu SuperIra. Ele bloqueou o florete com a armação de sua arma e Layla parecia ter um aperto forte, pois a lâmina não se desviou.
Ele moveu o dedo e Layla também. Ambos pressionaram o gatilho e fizeram suas balas colidirem.
***
***
Noturno parou de comer seu crepe e Karma já havia terminado há um minuto. Eles se entreolharam e viram a expressão um do outro.
Noturno suspirou.
— Eu tenho que ser honesto. Até eu tenho medo disso — ele sorriu amargamente. — Bem, se mesmo aquele Malum está intimidado, quem não ficaria?
— {Obviamente} — A voz de Malum ressoou nas cabeças de Noturno e Karma. Ele se isolou de Arima e conseguiu se conectar ao exterior. – {Mas não se engane. Eu não estou com medo só porque ele tem um rosto assustador. Eu não sou como você} — disse Malum e Noturno bufou. — {Eu estava bem no meio disso. Cada vez que esse cara mata… não, libera suas emoções, sinto tanto frio e medo como se algo fosse me engolir inteiro. Eu não gosto de dizer isso assim, mas eu me sinto como uma criança que acabou de ver uma mão assustadora saindo debaixo de sua cama. E agora eu tenho que ficar em silêncio e quieto.}
Noturno nem se atreveu a rir. Isso realmente soou muito assustador, mas ele entendeu o que Malum queria dizer. Ele estalou a língua e colocou todo o crepe na boca.
— {Ei, posso assumir o controle do seu corpo para comer um? Eu nunca tive a chance de provar algo, como um ser espiritual.}
— Me recuso.
Malum grunhiu e perguntou a Karma, mas ela estava comendo tudo do cardápio para tirar Arima da cabeça, então ela nem respondeu.
‘Sério, apenas terminem essa briga de amantes. Não consigo nem dormir enquanto Arima estiver assim’ ele reclamou interiormente e decidiu matar o tempo importunando Noturno.
…