O Cavaleiro em Eterna Regressão

Capítulo 660

O Cavaleiro em Eterna Regressão

660. O Santo dos Trapos

[?25h— As pessoas me chamam de o santo dos trapos. Perdoe-me pelo atraso em cumprimentá-lo. Eu estava brincando com este garoto.

Era apenas uma brincadeira, mas na realidade servia para ensinar Seiki o processo de controlar a divindade. O corpo de Seiki possuía uma divindade que se desenvolvera naturalmente, sem qualquer treinamento específico.
Se ele não aprendesse a controlá-la imediatamente, isso poderia acabar prejudicando o corpo da criança, então Audin, preocupado com isso, foi procurar seu pai adotivo, o santo com rosto de trapo.

Essa também era a razão de ele ter vindo para cá só agora. Para ele, salvar o pequeno Seiki bem diante de seus olhos era mais urgente.
Seiki ergueu a mão para cumprimentar o homem que se dizia o santo e falou:

— Parece que você virou ainda mais um monstro.

Desde o momento em que o vira pela primeira vez, Seiki se mostrara uma criança com um talento extraordinário. O ponto de partida desse talento era sua capacidade de enxergar e, desta vez, Seiki percebeu a mudança em Encrid.
Mesmo que não tivesse percebido por si mesmo, não teria como não ouvir as histórias contadas pelas pessoas ao redor.

— Dizem que o líder do esquadrão demoníaco despertou após partir o coração de centenas de mulheres?
— Não é nada disso. Foi porque a Tribo das Fadas reuniu o sangue delas e o bebeu.
— É possível ficar assim só treinando feito um louco?

Embora esses boatos ridículos estivessem se espalhando como fogo em palha seca, Seiki era inocente, mas não bobo. Ele sabia discernir se os boatos eram verdadeiros ou não.

— Tornar-se um cavaleiro virou piada.

Mais uma vez, o santo, que também era o pai adotivo de Audin, falou. Ele usou um tom casual, e um sorriso simples surgiu em seu rosto. Ele deu tapinhas no braço robusto de Audin, um gesto que demonstrava afeição.
Audin apenas ergueu os cantos dos lábios, exibindo seu habitual sorriso gentil.
Aos olhos de Encrid, as habilidades de Seiki pareciam ter mudado, mas o que mais lhe chamou a atenção foi a aparência do santo. Seu nome era Santo dos Trapos, mas suas vestes eram completamente diferentes.

Tirrrrung.

Ao estender a mão para cumprimentá-lo, vi um bracelete de ouro grosso em seu pulso e cinco dedos cobertos de anéis de rubi, esmeralda e safira. Na ponta de seu colar havia um pingente grande com quatro gemas, e os discos que sustentavam as pedras pareciam ter prata na liga.
Suas roupas também eram de seda, com um aspecto macio e suave, parecendo um tecido que nenhum nobre ousaria usar.

“São roupas que um nobre pobre nem sequer conseguiria vestir.”

Andrew, sendo um nobre, ainda usava apenas roupas simples e grosseiras. Pelo menos era assim quando Encrid o vira pela última vez.
Ele dissera que só as comprara para usar quando precisasse de um casaco de zibelina.

— Se economizarmos em vestes e comida, poderemos adicionar mais um pedaço de carne à refeição dos camponeses do feudo. Não há espaço para luxos.

As palavras de Andrew estavam sempre na ponta de sua língua. Eram a mais pura verdade enquanto ele tentava reconstruir a família Gardner. Na realidade, contudo, era difícil viver daquela maneira.
Claro, Andrew havia aprendido a autodisciplina ao observar Encrid, de modo que corria em direção ao seu objetivo sem grandes dificuldades.
O santo dos trapos piscou suas pupilas opacas enquanto falava. Parecia óbvio que sua visão devia ser incômoda, já que seu foco era embaçado.

— É preciso acreditar em Deus, mas, mesmo que você não se torne um cavaleiro, a fé ainda é importante.

O dia estava realmente agradável. Era uma manhã de primavera clara e radiante. Com a primavera em pleno vigor, o frio

o havia se dissipado, e a grama brotava tímida entre as árvores que foram quebradas e estilhaçadas pelo treino de Rem.###TAG###

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Encrid sentiu os olhares de Rem e Ragna emsua direção através do ar quente. Eles olharam para ver o que estava acont

tecendo e, ao notar o santo dos trapos, não pareceram demonstrar muito interesse.
Sachsen havia saído cedo pela manhã,

, dizendo ter assuntos a tratar, e Esther hoje ainda estava na forma de leopardo.
Encrid também planejara descer até a

a cidade pela manhã, mas o santo barrou seu caminho após terminar o treino matinal.

— Esta criança e você também... não acreditam em Deus?

É o que dizem.

— Na verdade, não.

Encrid soltou as palavras sem hesitar. Seu tom não era rude; ele apenas dissera o que precisava dizer.
Suas palavr

ras e atitude não chegavam a ser desagradáveis, mas tampouco eram agradáveis de se ouvir.
Sua voz era áspera e seu ros

sto era coberto de sardas. Contudo, ao reparar em sua aparência:[?25l

“Se eu entrar no templo desse jeito, não vou parecer um bispo que suga o sangue dos santos?”

Enquanto pensava nisso, o santo abriu a boca.

— Audin.
— Sim.
— O que você faria se eu lhe dissesse para matar este sujeito agora mesmo?

O santo dos trapos falou com um rosto sorridente. Encrid não interveio. Não se tratava de uma questão de se Audin cai

iria ou não na conversa de seu pai adotivo.

“Christ.”

O temperamento daquele santo parecia ser exatamente esse. Igual ao de Christ, Abnayer e Ermen.
Essas pessoas coloc

cavam múltiplos significados em suas palavras. Suas intenções também eram mistas.
Eran tão boas em esconder seus senti

imentos mais íntimos que Encrid tinha dificuldade para decifrar suas reais intenções.

“Parece ainda mais difícil de ler do que Christ.”

Parecia ocultar ainda mais do que Ermen. De qualquer forma, Audin respondeu sem perder o sorriso.

— Está ficando caduco?

O santo riu com gosto daquelas palavras.

— Ainda não.
— Se estiver doente, há um curandeiro logo ali ao lado que sabe usar feitiços divinos, e um alquimist

ta que pode preparar poções.

Disse Encrid. O santo riu novamente e balançou a cabeça.

— Eu disse que não estou doente.
— Este velhote escreve melhor do que eu, Santo.

Seiki também se intrometeu na conversa. Audin ignorou as palavras do santo.

— Você sempre gostou de falar bobagem. Deve achar que é alguma piada do estilo divino, irmão.

Além das piadas de fadas, também havia piadas sagradas.
Encrid não deu muita importância, mas o Santo dos Trapos a

aproximou-se dele e disse:

— Você está indo para a ferraria? Posso ir com você? Seiki, você precisa fazer o que lhe ordenei todas as manhãs e no

oites.
— Rezar? Que chato.

Respondeu Seiki, fazendo bico.

— Você precisa aceitar esse tédio e aprender a ter paciência. Só assim conseguirá escrever adequadamente.

[?25h

O santo dos trapos ergueu a mão e deu tapinhas no ombro de Seiki, dizendo:
Se antes o santo parecia um bispo sugad

dor de sangue, agora parecia um sábio. Os metais preciosos em seu corpo pareciam brilhar como uma auréola.

— Então, estou indo, Audin.
— Acho que ainda não lhe dei permissão.

Disse Encrid, sem se deixar levar pelo ritmo do outro. Em seguida, as palavras jorraram imediatamente da boca do velh

ho:

— Se não me der permissão, eu o seguirei de longe, mas você seria tão cruel a ponto de tratar mal um velho cego? Esto

ou enganado? Ou este jovem está apenas ansioso para zombar deste velho?

Agora ele parecia mais um velho teimoso e sem noção do que um sábio.

— Você é bom de lábia.

Encrid respondeu.

— Que outro talento você acha que um pobre andarilho teria desenvolvido em sua vida até agora?
— O talento de conj

jurar poderes divinos?
— Essa foi a minha grande cartada. E eu a usei muito bem.

Ele disse isso com uma expressão de quem nunca havia levado um golpe na vida.

— Você disse que estava fingindo não enxergar?
— Audin, você anda falando demais.

O santo dos trapos repreendeu Audin.

— Isso era segredo?
— Não, não era.

Não era brincadeira, e a história era longa. Encrid não tinha motivos para contestar e também queria observar o santo

o de perto, por isso concluiu:

— Vamos juntos.
— Por favor, não seja rude comigo. Se tiver alguma preocupação, eu o ajudarei, irmão.

Audin curvou a cabeça em gratidão. Rem, que estivera observando de trás por um tempo, manifestou-se:

— Você vai encomendar um escudo daquele artesão chamado Eitri? Trate de pedir um bem resistente.
— Ah, certo.



Encrid não se abalou com o comentário e se virou.

— Se vir alguém tentando me assassinar, cuide disso.

O santo dos trapos ao lado comentou:

— Onde e o que você andou fazendo para merecer um assassino?
— É que minhas atividades foram descobertas recenteme

ente. Oficialmente, sou um membro morto da Legião, mas estão relatando que estou vivo e bem. Deve haver mais de uma ou du

uas pessoas querendo me ver morto.
— Pelo visto, acumulou muitos rancores.
— Não muitos. No máximo dez.
— E isso

o é pouco?
— Não é pouco.

Como cada um tem sua própria perspectiva, Encrid não questionou mais.
Audin observou os dois partirem. Ele sabia b

bem que tipo de pessoa seu pai adotivo era; ele não faria mal a ninguém. Portanto, não haveria problema em deixá-los ir s

sozinhos.
O velho no máximo pregaria alguma peça.
Audin lembrou-se da primeira vez que seu pai adotivo viera à Guar

rda da Fronteira e o vira.

— As restrições foram suspensas e a divindade foi recuperada. Vejamos, parece que você encontrou um lugar para ficar.

. Então, está se sentindo melhor agora?
— Está melhorando.
— Você ainda os acolhe?
— Eles aparecem de vez em qua

ando para conversar.

Ele já sabia sobre a visão del garoto que fora arrastado até o santo e morrera, pois fizera algo semelhante a uma con

nfissão.
Diante das palavras de Audin, seu pai riu e tocou em seu ombro. A pergunta que ele fizera ao capitão anterior

rmente era semelhante ao que dissera a si mesmo.
Não havia a menor chance de Audin obedecer a alguém que lhe ordenasse

e matar Encrid. Seu pai provavelmente queria deixar isso claro para o capitão.
Ele não estava associado ao templo agor

ra, mas sim aos Cavaleiros Loucos.

“Eu sei mesmo sem você dizer. Você deveria saber disso.”

Não havia necessidade de enfatizar isso para Encrid.


— Eu sei que Audin pertence aos Cavaleiros Loucos.

Encrid saiu do quartel, saudou os guardas e disse:

— Você está parecendo uma velha preocupada.

Ele havia compreendido o verdadeiro significado do que dissera a Audin na conversa anterior. Era algo que até o santo

o dos trapos sabia e dissera.
Enquanto o santo caminhava batendo sua bengala, Encrid se lembrou de duas pessoas que vi

ira no passado.
Uma delas era o velho cego que se dizia apóstolo. Embora a aparência fosse diferente, a atitude de esc

conder os sentimentos reais, ou melhor, sua natureza sinistra, era semelhante.

“Mas é diferente.”

A aura é diferente, diferente demais. O velho que antes deixara a carta dizendo ser um apóstolo tinha uma agressivida

ade feroz, mas o velho de agora não possuía nada disso.
Se ele fosse capaz de esconder sua agressividade de minha intu

uição neste momento, este velho seria um gato de rua ainda melhor do que Saxon, mas ele não escondia. Era o que sua intui

ição lhe dizia.
E havia mais uma coisa.

“Por que isso?”

A aparência atual do velho me lembra o Rei Anu do Oriente. Eles são pessoas totalmente diferentes e levam vidas compl

letamente distintas.

— Vá cuidar dos seus assuntos.

Disse o santo. Encrid pretendia fazer exatamente isso, mesmo que não lhe tivessem dito.
Os dois passaram lentament

te pelo mercado e seguiram em direção à ferraria de Eitri.

Clang! Fuf, fuf!

O calor emanado do fole sendo acionado, junto ao som do martelo golpeando o ferro, aqueceu seu rosto.

— Estou aqui.

Eitri foi visto em pé a um canto. Seu assistente realizava o trabalho.

— Tem alguma história para contar?

Disse Eitri. Ele esperara por Encrid por vários dias sem sequer tocar em seu martelo.

— Sou grato à sorte. Graças a ela, sobrevivi.

A sorte mudara a trajetória da espada que o demônio atirara no final. Isso impediu a morte de Shinar.
E se Shinar

 tivesse morrido ali? Ele deveria ter cometido suicídio para regressar?
Encrid não faria isso.
Mesmo que seu coraçã

ão se despedaçasse e ele derramasse lágrimas, ele caminharia em direção ao amanhã.
Esse era o caminho que Encrid escol

lhera.
Ele não repetiria o dia de hoje. Ele estava determinado a seguir em frente rumo ao amanhã, de uma forma ou de o

outra.
Portanto, Shinar poderia ter morrido. Embora ele achasse que isso muito provavelmente não aconteceria.
O que

e o demônio tentara fazer a vida inteira fora tentar as pessoas. Ele provavelmente se tornaria uma pessoa completamente d

diferente, possuído pelo demônio.
Se Shinar tivesse caído nessa e perdido o juízo, Encrid teria lhe dado uns tapas par

ra fazê-lo desmaiar e tentaria de tudo para trazê-lo de volta.
Mesmo que o dia de hoje não se repetisse, ele não desis

stiria. Para ser exato, esse era o caminho que Encrid sempre percorrera.
Por isso, ele estava apenas grato. A espada c

chamada Sorte bloqueara todas as possibilidades de infortúnio.

— Tive sorte. De verdade.
— Fico feliz que tenha gostado. Também recebi o item que você enviou.

Encrid enviara todas as armas e armaduras que obtivera do culto para Eitri.
Encrid viera apenas agora para aperfei

içoar sua esgrima, mas Eitri também precisava de tempo para estudar e fazer experimentos com metais.
Era um tempo nece

essário para ambos.

— Bem.

Disse Eitri, trazendo uma mesa e duas xícaras de chá.
Depois de tomar um gole de chá, Encrid olhou para fora da fe

erraria por um momento. Não havia uma porta separada e, além da entrada aberta, viu o santo dos trapos perambulando.
D

Do outro lado da estrada, botões de flores desabrochavam em uma árvore solitária. Uma brisa de primavera soprava, mas o c

calor da forja afastava o vento.
Olhando para fora, Encrid relatou brevemente o que sabia. Parecia uma história longa,

, mas quando dita em voz alta, não foi tanto assim. Após ouvir o relato, Eitri ficou profundamente pensativo e disse:



— Volte em um mês.
— Está bem.

Não havia nada mais a dizer. Eitri nem sequer se surpreendeu com a história da quebra da prata verdadeira. O assisten

nte de Eitri brandia seu martelo sem parar por um único segundo.
Encrid gostava de ver aquilo. O assistente parecia se

eguir firmemente seu próprio rumo.

— E aquele Prok?

— Ele saiu. Foi buscar suprimentos.
— Entendo.

— Você pode vê-lo na próxima vez — disse o santo dos trapos ao dar um passo para fora.

— Não está com fome? Ouvi dizer que vendem uma carne seca temperada maravilhosa por aqui.
— Sim, vendem.
— Eu p

pago para você.
— Tudo bem.

Os dois seguiram direto para a rua onde se enfileiravam os restaurantes que serviam carne seca temperada.
Desde qu

ue Krais mudara a estrutura da cidade, havia uma rua repleta de restaurantes e hospedarias, vizinha à rua dos ferreiros e

e artesãos.
Uma carruagem também circulava entre as quatro hospedarias centrais da cidade.
Qualquer um podia andar

 de carruagem por apenas uma krona, e, em vez de cavalos, jumentos robustos transportavam as pessoas.
A carruagem não

 tinha teto e era grande o suficiente para acomodar dez pessoas. Não havia necessidade de os dois usarem a carruagem. O s

santo dos trapos caminhava muito bem, e Encrid não era exceção.

— Você está ansioso pelas habilidades do artesão?

Enquanto caminhavam, o santo dos trapos perguntou, referindo-se ao encontro com Eitri.

— Sim, bastante.

Após uma breve conversa, os dois caminharam com passos firmes até chegarem em frente a uma loja que grelhava carne se

eca. Ao lado dela, também era possível ver uma loja que vendia geleia.

— Só o cheiro já me dá água na boca.

Os dois comeram e beberam fartamente um ao lado do outro. Depois, enquanto caminhavam pela cidade, algumas pessoas re

econheceram Encrid.
E o santo observava tudo aquilo.

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