
Capítulo 926
O Cavaleiro em Eterna Regressão
926. Ainda era inverno.
— Por que de repente? — Aurélia estava bastante envergonhada, mas não recusou a ordem de Encred.
— Cala a boca e se concentra.
Bem, falando daquele jeito, não havia tempo para pensar em mais nada. Os pensamentos de Encred eram simples. Agora que ele tinha relaxado seus músculos, era hora de trabalhar em sua cabeça.
‘Com essa mente brilhante.’
Ela percorre um caminho solitário. Encred via Aurélia como um corcel que segue por uma trilha solitária. Ela possui um vigor incrível e consegue correr. Mas ela não pode voar. Quando um obstáculo surge de repente, ela não tem outra opção senão saltar sobre ele.
‘Às vezes, você precisa forçar a passagem.’
Às vezes, ela prevê, e às vezes, ela contorna. Ela diversifica, em vez de confinar o pensamento. Ela expande os conceitos de batalha que foram tecidos em nossas mentes. A experiência é a melhor ferramenta para alcançar tudo isso.
‘Sentidos inatos, habilidades motoras e até a velocidade de reflexo.’
Ao discutir talento, nada é deixado de fora. Por isso, ficou claro o que ela precisava agora: uma experiência enraizada em seu corpo, não em sua cabeça.
— Hoje sou eu. Amanhã é Rem, depois Ragna e, então, Audin. Eu não vou morrer.
Aurélia cresceu nos Cavaleiros Templários. Treinar e lutar era uma rotina diária para ela. Era ainda mais depois de treinar bem em frente ao Reino Demoníaco. Só que não havia esses lunáticos por lá. O pensamento de que ela não morreria ressoou profundamente. No dia seguinte, uma lunática chamada Rem se aproximou dela, sorrindo.
— Não tenho a menor inclinação para intimidar os fracos, mas não consigo evitar. Bem, foi um favor ao Sir Cyprus.
Aurélia sentiu calafrios percorrerem sua espinha ao olhar nos olhos expectantes da bárbara. Seus instintos a avisaram para sair dali imediatamente, para não se envolver com aquela desgraçada. Ela suprimiu o impulso com dificuldade e ergueu sua espada. O simples ato disso fez seus braços tremerem.
— O quê? Você está tão feliz que está tremendo?
A maluca do Oeste a espancou até quase a exaustão, cuspindo apenas palavras desagradáveis. No dia seguinte, Ragnar a decapitou em uma visão. Foi um feito que parecia ser baseado apenas em coerção. Aurélia se parabenizou por não ter feito xixi nas calças. O homem-urso que ela encontrou depois tentou arrancar suas juntas torcendo-as até o limite.
— Todos eles eram garotos malucos.
Ela soltou as palavras rapidamente e viu o bastardo louco chamado Chrys acenar em compreensão antes que sua amante de pele escura agarrasse sua orelha.
‘Os Cavaleiros Loucos.’
O nome tocou fundo dentro de mim. Ainda assim, não fugi. Não fui só eu; os dois soldados que conheci durante meu treinamento em Kubo não foram exceção. Inferno ou não, eles também permaneceram. Um dia, quando os encontrei no refeitório, fiz uma pergunta.
— Por que se juntaram ao exército?
O tom foi áspero, mas a pergunta ainda era cortante, e a mensagem foi transmitida. Aurélia expressou curiosidade genuína. Por que eles suportavam esse treinamento? Era pelo ouro? Ou pela honra? Ou para aprender esforço racional? Eles aprenderiam ali para depois fazer uma fortuna em outro lugar?
— Minha família inteira se mudou para cá — disse um dos soldados.
— A pessoa que me salvou quando eu era jovem se aposentou e, depois disso, cuidou de mim como um pai. Bem, eu realmente não quero ser nada além de um soldado.
Então, outro soldado falou. As respostas deles eram diferentes, porém as mesmas. Seus olhos brilhavam intensamente enquanto falavam. Um Guarda de Fronteira é o olhar de alguém que luta pela cidade. O olhar de alguém que protege algo em suas costas.
— Eu realmente odeio o treinamento do inferno.
Aurélia bufou com o comentário adicional. "O que vocês estão fazendo não é treinamento do inferno". "O verdadeiro inferno reside dentro dos Cavaleiros", ela insistiu. Os dois soldados murmuraram que não tinham desejo de se tornarem Cavaleiros. No entanto, vendo o quão dedicados eles eram ao treinamento, talvez um dia eles mesmos se tornassem Cavaleiros. Aurélia amava aquele lugar. A atmosfera, o espírito, o ar. Tudo nele era maravilhoso. A visão daquelas pessoas vivendo cada dia como se fosse um ano, suando profusamente, mas rindo e conversando com o povo da cidade, tocou seu coração.
‘No Sul também.’
Naquele momento, seu sonho também foi decidido.
‘Primavera no Sul, também.’
Vamos trazer a estação em que os ventos da magia chegam. Vamos trazer uma brisa quente para o lugar onde meus cavaleiros estão. Era uma promessa para si mesma de fazer exatamente isso. Esperanças e sonhos eram os pilares que sustentavam o presente de Aurélia.
— Morra. Morra.
A assassina louca do machado, a chamada “bastarda Rem”, desabou e estava prestes a bater a cabeça onde tinha acabado de cair. Mesmo enquanto ouvia, ela pensava na brisa da primavera. Aurélia estava se tornando mais flexível e forte. O leve aumento nos gritos era um efeito colateral menor.
— Vá morrer você, sua selvagem maluca.
Moedas foram trocadas entre Pell e Lawford enquanto as palavras saíam reflexivamente.
— Viu, você não conseguiu durar nem uma semana?
— Droga, você nem tem um pódio. Você agiu como se falasse muito, mas não conseguiu durar nem uma semana e agora está falando bobagem?
Parecia que ele estava apostando em si mesmo, e parecia que aquele filho da mãe chamado Lawford tinha vencido.
‘Vingança de primavera, não, brisa de primavera.’
Aurélia tentava repetidamente se recompor. Caso contrário, a situação teria sido difícil de suportar.
O mundo é vasto.
Encred não se limitou a um único caminho para se tornar um cavaleiro.
‘Cada um segue um caminho diferente.’
Mas o destino é semelhante. Depois de derrotar a todos, incluindo Rem e Ragna, não faz muito tempo, todos estavam treinando intensamente, mas nenhum deles pediu direções.
‘Porque instintivamente sei que existe mais de um caminho.’
Isso não significa que não haja preocupações, no entanto. Rem seguirá seu próprio caminho, e Ragnar seguirá o dele. Foi por um motivo semelhante que Saxon estava exalando suor há três dias seguidos.
— Selvagem, arrisque metade da sua vida e venha para cima de mim.
Isso era algo que não tínhamos visto antes de Saxon. Ele foi o primeiro a procurar Rem e propor um duelo.
— Por quê? Quer apanhar?
Rem o cumprimentou como de costume. Seus duelos tomavam uma forma única. Uma vez, eles se enfrentaram de frente na arena de treinamento, e Saxon perdia consistentemente. Após três ou quatro lutas tão intensas que qualquer soldado comum poderia questionar se eles não estavam fazendo o máximo para matar um ao outro, Rem ofereceu um contra-ataque.
— Ei, garoto, mude o campo de batalha.
Depois, os dois entraram nas Montanhas Pen-Hanil à noite. Encred ficou impressionado com a visão.
‘Ajudando um ao outro?’
Eles provavelmente negariam em voz alta, mesmo que isso significasse que suas vidas fossem arruinadas, mas um olhar mais atento revela que eles estão apoiando um ao outro. Saxon está aprendendo com o senso de equilíbrio de Rem, e Rem, por sua vez, está experimentando a habilidade requintada de Saxon. O motivo de terem mudado os campos de batalha provavelmente se deve à justiça. Quando o campo de batalha muda, o estilo de luta também muda. Rem está familiarizada com montanhas, mas para Saxon, lutar apenas com uma espada no campo de treinamento era como lutar com todos os membros cortados.
— Traga algo além de uma espada. Não vou morrer com seus truques.
Rem rosnou. Embriagados pela vitória, eles não parariam por aí. Essa mentalidade surgiu naturalmente. Vamos chamá-los de Ragnar e Audin. Eles se enfrentaram incansavelmente. Um dia, lutaram apenas com as mãos e os pés; outro dia, Audin empunhou dois bastões curtos de ferro. Então eles trocaram de oponentes. Saxon lutou contra Audin, Ragnar e Rem lutaram. Às vezes, chamavam Temares para entrar na briga. Cinnar nunca mais saiu depois de entrar na cidade das fadas, e Fel, Lawford e Teresa, que estavam assistindo, ficaram ainda mais exaltados, sua rivalidade crescendo mais do que antes. Encred observava tudo isso, perdido em pensamentos.
‘Se você cair, levante-se.’
Quando as coisas não funcionam sozinhas, eles buscam os outros. É isso que significa ser humano. Não podemos sobreviver sozinhos. Observando-os, Encred repetia a mesma coisa. Era um ciclo implacável de treinamento.
— Hmm, Mestre. Isso é bom. Mestre Encred. — Lawford olhou para Encred e disse. "Era um título apropriado para alguém que liderava os Cavaleiros Loucos e era um modelo para todos." Encred estava calmo, e ninguém objetou ao título.
Lawford olhou para Encred e disse:
— O nome da minha espada é “Muralha do Castelo”.
Rampart [1]. Foi a arma gravada escolhida por Lawford. Eitri lançou a fundação, e seu aprendiz a completou, com um artesão anão ficando acordado a noite toda por vários dias para ajudar. Mesmo enquanto a arma gravada estava sendo feita, Lawford treinava diligentemente com uma adaga. Era duas vezes mais pesada e grossa que uma espada normal, com uma lâmina larga, mais parecida com um bastão de ferro. A habilidade de Lawford também melhorou à medida que Fel, sozinho, alcançou a iluminação, graças à sua nova arma.
‘A vontade é influenciada por uma força intangível e invisível, ultimamente pela vontade.’
Essa foi a conclusão de Encred após observar os dois. Ainda havia muito o que aprender com eles.
‘Aprendo muito enquanto ensino.’
Luagarne ainda permanecia ao lado de Encred, voluntariando-se para escrever o que ele dizia.
— Você está planejando estabelecer um caminho para se tornar um cavaleiro?
Prock era perspicaz.
— Graças a você, ficarei mais rápido.
Encred prontamente aceitou sua ajuda. Todos mudaram. Era natural que alguns ficassem perturbados com isso. Dunbakel conseguia descansar confortavelmente mesmo em meio ao despertar ativo dos outros, mas Teresa não. Ela não conseguia escapar facilmente de suas preocupações. Foi quando Fel, com seu pensamento simples como especialidade, espantou suas preocupações, e Lawford estava tentando desesperadamente criar sua própria arma gravada.
— Irmão Audin, a natureza divina é imutável. Isso está correto?
Rem, Ragna e Sinar arriscaram tudo em Encred, percebendo algo e estabelecendo seus próprios métodos de treinamento. Até Rem, Lawford e Dunbakel mudaram seu curso depois de ver Encred. Todos ao redor nunca esconderam o que estavam fazendo, então não era difícil descobrir se você apenas olhasse um pouco mais de perto. Teresa, vendo a todos, percebeu que havia perdido o rumo e questionou aquele que a levara até aquele ponto. Ele era aquele que nem se preocupava enquanto todos os outros avançavam. Enquanto ela respondia aos chamados de Ragna e dos outros para treinar, ela mesma nunca avançou de verdade. Ou seria porque ela já estava completa e não podia avançar mais?
‘Ou talvez seja porque não sou qualificada.’
A pergunta autodepreciativa foi engolida. Devo dizer que era uma afirmação que se tornaria realidade se eu a cuspisse? Devo sequer ousar manipular o divino? Não era uma pergunta que vinha de dentro de Teresa. Ela era um membro de um culto, uma gigante mestiça. O passado não muda. Talvez ela passe a vida inteira questionando suas qualificações e buscando respostas. Teresa sentiu algo como um limite, e sua pergunta se ramificou em uma direção diferente. O divino é imutável. Isso não é o oposto da mutabilidade da Vontade?
— Sim, isso mesmo. — Audin respondeu.
— Então, o que devo fazer?
Teresa revelou seus desejos em vez de fazer perguntas dolorosas. Para Audin, a pergunta era justificada. Enquanto isso, o espírito competitivo oculto de Teresa não parecia tão ruim. Pel, Lawford, Dunbakel e Teresa consideravam secretamente uns aos outros como rivais. Não seria agradável ser deixado para trás enquanto os outros avançavam.
— Primeiro, murmure.
— Hã?
— Você vai cantar o cântico sem parar por um mês inteiro. A cada momento que abrir os olhos, faça isso. Mesmo quando estiver comendo, faça isso.
Audin não preferia dar a resposta primeiro, e Teresa estava acostumada com isso.
— Então você terá que encontrar o próximo caminho por conta própria.
Então, como de costume, ele falou com um sorriso. Teresa obedeceu, e Audin decidiu que era hora de partir por um tempo. Fazia menos de um mês desde que ele retornara da Frente Sul.
— Irmão Capitão, irei para a Legião com as Irmãs Gigantes.
Como sempre, Encred não se deu ao trabalho de perguntar por quê. Em vez disso, Christ perguntou.
— O que o traz aqui?
Ele de repente disse que estava partindo, mas ninguém pensou que ele deixaria os Cavaleiros Loucos e retornaria para os Cavaleiros Sagrados.
— Por quê? Você vai rezar a Deus por medo de se tornar o mais jovem novamente?
Rem estava apenas provocando.
— A oração por si só não mudará nada, irmão.
Audin falou como sempre e respondeu às palavras de Christ.
— Minha armadura e meu martelo estão lá.
— ...Você tem uma armadura que caiba nesse corpo?
Até Roford perguntou surpreso.
— Não é para combate.
Naquela estrada, Audin e Teresa deixaram o Guarda de Fronteira por um tempo.
— Eu irei para a Casa Jawoon também.
Desta vez, ele pretendia transmitir o que havia aprendido. Ragna tentou sair sem dizer uma palavra a Encred, mas Krys conseguiu detê-lo e trouxe Roford com ele.
— Estou ansioso por isso, porque acho que aprenderei muito.
Lawford aceitou prontamente, e os dois logo partiram. Com Shinar, Audin, Teresa e Ragnar fora, os campos de treinamento ficaram um pouco mais silenciosos, mas nada mudou. Cartas continuavam chegando das nobres, assim como cartas frequentes do Rei do Leste, Krang, e do Santo Imperador Noah. Encred ocasionalmente respondia, ocasionalmente descendo para a cidade para explorar. Não era algo que ele fizesse por nenhum propósito em particular. Então, Vingança o convidou para jantar.
— Não sei se posso te chamar.
— Sou eu quem recebe o benefício.
Não era algo que ele fizesse com nenhum propósito em particular. Encred sentou-se à mesa de Vingança e observou a criança. Seus olhos brilhantes, suas mãos agitadas, sua boca muda constantemente expressando sua vontade.
— A criança é bastante viva.
Vingança falou, e Encred sorriu para a criança. Se alguém lhe perguntasse por que empunhava sua espada, ele responderia prontamente hoje. O ensopado estava quente, a criança estava cheia de risadas, Vingança o tratou com amabilidade, e sua esposa o provocou, dizendo que era um desperdício, relembrando o passado. O fato de ela ter se sentido atraída por Encred no passado agora era motivo de piadas. Foi um momento que foi além do afeto, deixando-o sentindo-se exausto. A lareira estalante era o cenário, e conversas passageiras foram trocadas. Encred comeu uma refeição farta e partiu. A brisa fria lá fora rapidamente fez o calor da lareira desaparecer. Ainda era inverno lá fora, um vento forte e cortante soprando.
— Eu estava esperando. Enki.
Uma bruxa de cabelos pretos o chamou enquanto o vento soprava.
[1] - Muralha ou baluarte; estrutura defensiva de fortificação.