
Capítulo 681
O Cavaleiro em Eterna Regressão
681. Brincando com fogo
— O que você está fazendo? — perguntou Anne, coberta de sangue. Encred respondeu, segurando um tronco em chamas.
— Brincando com fogo.
Ele jogou lenha nos arbustos secos junto com o cavalo. Como não chovia há alguns dias, a pilha de gravetos misturada com espinhos secos pegou fogo rapidamente.
Fssss! Fssss!
Bastaram apenas algumas respirações para que as chamas subissem até a cintura de Encred.
— ...sério?
Anne perguntou, mas os outros sabiam por que Encred estava fazendo aquilo. Estava escuro, então ele certamente pretendia iluminar os arredores e fazer com que aqueles que estavam escondidos aparecessem. Vamos observar por um momento. As chamas estavam maiores do que qualquer um ali. Eu acreditaria se dissessem que o gigante do fogo veio brincar. Encred aguçou os sentidos enquanto observava as chamas subirem.
“Onde você está?”
Encred bloqueou o caminho de Anne enquanto mantinha os olhos atentos ao redor. O cheiro ainda estava lá. Ragnar, que percebeu a posição de Encred, aproximou-se e ficou atrás de Anne.
— Por quê?
Anne não sentiu a intenção assassina. Mas, só de olhar para a atmosfera, percebeu que algo estava errado. Nenhum tolo deixaria de notar que aqueles dois estavam posicionados para protegê-la. As algemas foram cortadas acima da minha cabeça e o sangue escorria.
— Parece que eles estão atrás de você. Eles não roubaram Crona e fugiram para algum lugar? — disse Encred em tom de brincadeira.
Então ele olhou para Anne. Seria difícil se a pessoa que ele deveria proteger estivesse apavorada, então ele se perguntou por que tinha dito aquilo. No entanto, Anne não entrou em pânico. Se ela tinha coragem para falar, não seria derrotada facilmente por ninguém. Afinal, ela não era a única mulher que tinha chegado ao topo e até superado os guardas da fronteira?
— Não muita — disse Anne, limpando o sangue escuro que escorria pelo seu rosto.
— Você me devia algum dinheiro?
— Um pouco. Eu estava com pressa na época. Quando você vier, me pague.
— Ah, tudo bem.
Encred também trabalhou como guarda-costas antes de se juntar à Guarda da Fronteira. Embora a maior parte do seu trabalho fosse como um fantoche para uma nobre, ele aprendeu muito naquele período. Se o alvo está claro, o lugar do guarda-costas também está.
— O que é isso?
Ragnar sentiu instintivamente um desconforto, e Encred sabia, por experiência própria, o que era aquela sensação.
— Ordem.
A resposta foi o suficiente. Anne foi fiel ao seu papel. Manteve a boca fechada e ficou imóvel. O ataque aconteceu pouco antes da meia-noite, e eles ficaram acordados a noite toda. O fogo não se espalhou muito. Havia poucos arbustos no início, mas a área não era grande.
— Você não está dizendo que deveríamos todos morrer queimados aqui, está?
Houve momentos em que ele inteligentemente avivou as chamas no meio do desenho. Uma fumaça cinzenta encheu os arredores até o amanhecer, mas o inimigo permaneceu em silêncio. Quando ele acendeu o fogo, a fumaça subiu e bloqueou a visão, o que teria sido uma boa oportunidade. Embora ele não dissesse nada, estava esperando por aquele momento. É claro que tentar apagar as chamas era um dos motivos. Mas ele não atacou. Encred estava perdido em pensamentos.
“Você está sendo cauteloso? Ou está com medo?”
Seria ambos? Como não consigo visualizar a aparência do oponente, é difícil prever. Não, mesmo que eu soubesse, não teria previsto imprudentemente o julgamento do inimigo. Nem todos eles carecem de vigor a esse ponto. No entanto, não era divertido ficar acordado a noite toda em alto nível de vigilância. Era uma noite que irritava os nervos. Ou, poderia dizer que era uma noite que estava corroendo meus nervos.
— Isso não tem graça — Odinkar falou enquanto olhava para o sol nascente. Em vez de responder, Encred continuou em seus pensamentos.
“Você nos vê como presa?”
O cheiro terrível que pairava desapareceu assim que o dia amanheceu. Teria sido o aroma das pétalas de flores secas que perderam a vida, ou alguém removeu a flor propositalmente bem debaixo do nosso nariz? Claro, era a segunda opção. Parecia que tínhamos passado a noite inteira empunhando espadas. Era um inimigo cuja localização eu nem conseguia determinar.
“O que é isso?”
Eu não sei. Só sei de uma coisa. Odinkar disse que não tinha graça, mas eu não concordo. Encred não evita lutar. Essa era a natureza de Encred que nem Grida e Magrun tinham decifrado. Não importa qual fosse a forma da luta, Encred era um lutador que não fugia de combate algum. Se eu não tivesse esse temperamento, não teria nem começado a história da luta Verde até agora. Eu teria desistido quando perdi para um garoto quinze anos mais novo que eu. Lutar não é apenas segurar uma espada contra alguém. Lutar contra o mundo que me diz para desistir, lutar contra mim mesmo que me causa frustração, também é uma luta. Claro, esconder-se assim, fazer truques e cavar por baixo, também é uma luta.
— Preciso ir a algum lugar onde possa conseguir água. Preciso me lavar — disse Encred. Anne estava encharcada com o sangue do demônio. Ela ia se lavar primeiro.
Todos concordaram. Grida levantou-se de seu lugar e levou todos ao riacho que tinham visto na noite anterior.
— Se formos por aqui, encontraremos um riacho.
Ela era uma ótima guia. Encred já tinha sido guia antes, mas Grida era mais talentosa do que qualquer outro que eu já tivesse visto. Ela rapidamente e com precisão compreendia o terreno ao redor. Magrun guiava o caminho, mas Grida tinha levado o grupo até aquele ponto. Era assim até agora. Ela rapidamente encontrou a direção do riacho. Quando estava recolhendo lenha, ela já tinha marcado o caminho cheirando o solo ao redor, observando o crescimento das árvores e a direção na qual a grama verde crescia. Não havia necessidade de água naquela época, então por que ela fez isso? Se ela fosse à guilda dos guias, teria recebido esta resposta: Guias são pessoas que se preparam para várias situações. Além disso, Grida também tinha descoberto os caminhos onde monstros provavelmente apareceriam, rastros de demônios e até os excrementos de animais que sobreviviam na selva. E como ela poderia se tornar uma guia de alto nível imediatamente se fosse à guilda, ela julgou que o ataque da noite passada foi estranho e desajeitado. Normalmente, não haveria ataque algum. Caso contrário, deveria ter havido algum tipo de sinal de alerta. Porque escolhi o caminho certo a seguir.
“Parece uma armadilha que alguém preparou.”
A intuição às vezes é uma arma tão boa quanto a espada em sua mão. Grida sabia disso também. Algo a incomodava. Mas ela não tinha nada a dizer de imediato. Enquanto caminhava pensativa, Grida encontrou um riacho, como esperava. Era um riacho raso, profundo o suficiente apenas para submergir seus tornozelos. Depois de encontrar a água, Grida virou-se para encarar o grupo. Ela viu uma terapeuta com sardas nas bochechas. O nome dela era Anne.
“Por que estão atrás daquela criança?”
Ele mal tinha vinte anos? Ou talvez menos. Mal era um adulto, e era um ótimo terapeuta. Isso era tudo o que eu sabia. Eu poderia ser o alvo. Poderia haver algo que eu não sabia, fosse um rancor ou algum outro motivo. Mas quando penso dessa forma, também não faz sentido. O inimigo não tinha onde se esconder, mas se escondeu e nos observou.
“Isso é comum?”
Um ser que não é afetado pelos seus próprios sentidos ou pelos sentidos de todos os presentes? Não é fácil. Por que existe alguém com tal habilidade? Não havia nada ali que não fosse estranho. O grupo se lavou e bebeu água na beira do riacho. Os cavalos também beberam por conta própria. Após se limparem, eles desceram e começaram a caminhar novamente.
— O tempo está realmente bom — disse Anne enquanto olhava para o céu, depois desviou o olhar para frente e continuou.
— Ainda há um longo caminho a percorrer.
Era um dia em que o sol brilhava através das nuvens finas, exatamente como ela tinha dito. Exceto pela pequena floresta na qual eu tinha entrado um pouco antes para encontrar água, não havia nada bloqueando minha visão. Especialmente o caminho à frente. Ao longe, podia-se ver várias colinas irregulares e curvas, mas agora, todas as direções estavam abertas. Em ambos os lados, via-se terra preta que parecia lama batida à mão.
— Dizem que esta área costumava ser uma zona vulcânica. Também dizem que os monstros de fogo trazidos pelos Espíritos Demoníacos se estabeleceram aqui por um tempo — Encred olhou ao redor e disse. Ouvi uma história de que o vulcão entrou em erupção por causa daquele monstro.
A estrada subia gradualmente em elevação. Se continuassem assim, chegariam a um caminho que sobe a cordilheira. Além da colina à frente, podia-se ver uma cordilheira suave. Era parte das Montanhas Pen-Hanil, que são como a espinha dorsal de uma fera gigante que cobre todo o continente.
— Vamos dormir um pouco aqui — ele deu sua opinião como guia. Encred concordou. Ele passou o dia em alerta. Foi algo inesperado. Então, ele poderia descansar para manter a melhor condição física. Foi uma decisão típica de um guia. Além disso, não havia razão para apressar o cronograma.
— A doença que se acredita ser uma maldição não ataca da noite para o dia, nem mata da noite para o dia. A pessoa sofre por pelo menos duas semanas antes de morrer. Pelo que eu sei, a menos que algo tenha mudado.
Magrun assentiu enquanto olhava para Odinkar e Magrun como se pedisse a confirmação do fato.
— Isso mesmo. Você adoece e morre. Mas antes disso, também há sinais de aviso sobre os quais conversamos entre nós.
— É? Isso é uma sorte.
E a resposta veio de Ragnar. Magrun olhou para Ragnar. Por que ele disse felizmente? Porque estava preocupado consigo mesmo? Magrun nunca tinha interagido com Ragnar separadamente. Quando Ragnar partiu, Magrun ainda não tinha idade suficiente para fazer sua parte adequadamente.
— Você pode fazer tudo o que deixou para depois, logo antes de morrer, certo? Não?
Ragnar acrescentou. Magrun não conhecia o Ragnar do passado, então pensou que ele fosse originalmente assim. Mas será verdade que alguém com tanta paixão e entusiasmo deixou Zaun porque achava o treinamento com espada entediante?
“Existe algo que eu não sei?”
Magrun tinha dúvidas, mas elas foram em vão.
— ...Ah, é mesmo — Magrun respondeu a Ragnar, e o grupo decidiu formar pares novamente para ficar de guarda, enquanto Encred decidiu dormir do outro lado de Ragnar.
— Eu odeio esse tipo de coisa — Odinkar disse isso enquanto verificava sua armadura. Odinkar era um dos melhores da Casa Zaun em combate individual, mas odiava lidar com inimigos escondidos ou persegui-los. Se ele não ia lutar com sua espada, por que se apressaria?
Claro, isso não significava que seus sentidos de cavaleiro tinham desaparecido, e como ele tinha aprendido em Zaun, ele sabia como realizar técnicas básicas de rastreamento. É só que ele aprendeu de forma superficial porque não tinha muito interesse, então, faltava prática. Encred foi o primeiro a ficar de guarda com Odinkar. Eles desamarraram a bagagem dos cavalos à luz do dia e a montaram como uma tenda, deixando-a aberta para deixar o vento passar. Os dois se agacharam na frente, bocejaram e passaram o tempo. Não importa o quanto Encred fizesse, ele não podia pedir para treinar ali.
— Não podemos apenas treinar e fazer um pouco de esgrima?
Então, quando Odinkar perguntou isso, Encred pôde repreendê-lo severamente.
— Você está em seu juízo perfeito? Ou você vai apenas deixar sua mente vagar e empunhar uma espada?
Você não pode ter uma sessão de treino adequada se mantiver seu estado de alerta no nível mais alto. Pelo contrário, se você se concentrar demais no treino, seu estado de alerta tende a cair.
— Eu sei que não está certo.
— Você tem o hábito de fazer perguntas, mesmo sabendo a resposta. Esse é um mau hábito. Conserte isso.
Odinkar tinha o hábito de escolher suas palavras ao falar com qualquer pessoa, não porque estivesse preocupado em cometer erros e ser mal interpretado, mas porque não queria ter que dizer algo duas vezes por não ser entendido. No entanto, Encred entendia tudo o que ele dizia e, além disso, entendia suas intenções. Graças a isso, Odinkar conseguia falar confortavelmente apenas com Encred.
— Você tem o hábito de falar bobagens.
— Ah, certo. Você pode me dizer o que está te incomodando.
Assim como agora, ele conseguia ir direto ao ponto de uma só vez, mas também conseguia falar de uma maneira que não o incomodava, mesmo que desse voltas. Ele era muito bom em notar quando estava enrolando por preocupação. Odinkar pensou consigo mesmo: "Que cara estranho", e soltou as palavras que estavam em sua mente.
— Ao contrário dos filhos da casa dentro de mim, Jawoon é tudo para mim.
Isso deve ser verdade. Odinkar estava sempre pronto para retornar e não escondia seu respeito pela família.
— No entanto?
Quando Encred começou a falar, Odinkar soltou:
— Estou com um mau pressentimento.
— Um mau pressentimento? Vamos descobrir o que é.
— É apenas um palpite. Sinto que algo aconteceu com a família. Eu sei. Este lugar ainda não é território da família, nem é território imperial, como Magrun disse. Você tem que passar pelas colinas e montanhas que vê ali para chamar de território imperial. Claro, isso também não é completamente território imperial.
Odinkar apontou para a cordilheira distante com o dedo indicador esquerdo e falou. Era plena luz do dia, então ele podia ver longe. Pouco se sabe sobre a forma do Império. Odinkar, que cresceu na família Zaun, não sabia muito sobre isso, então não tinha mais nada a dizer, mesmo que perguntasse. O que ele queria dizer agora não era sobre o Império.
— Ainda assim, sinto que tenho que ir proteger minha família.
Parecia uma mistura de senso de pertencimento e ansiedade. Encred não ofereceu nenhum conforto especial.
— Eu não deveria estar onde deveria estar? Eu penso sobre isso também.
Pelo que ouvi, Odinkar não queria se envolver nisso desde o início.
— Ragnarok Jawoon. Sim, eu sei disso. Mas não teria sido suficiente mesmo se eu não o tivesse trazido?
— Se é isso que você pensa, por que você veio?
Encred pegou um graveto e rabiscou na terra. A ponta afiada do graveto desenhou várias linhas, todas relacionadas à esgrima.
— Eu também disse que não havia ninguém para ir.
— E?
Existe outra razão pela qual o final é ambíguo. Encred sabia que Odinkar sempre tinha o hábito de dizer coisas importantes pelas costas. Ele conseguia perceber sem nem trocar algumas palavras. Se você ouvir e se aproximar dele com uma atitude de escuta adequada, são coisas fáceis de perceber.
— O chefe da família me disse para partir.
Foi uma decisão semi-forçada. Encred sentiu isso. Após a conversa trivial, os dois caíram em seus próprios pensamentos. Algumas horas depois, quando o turno da noite terminou, Ragnar e Magrun acordaram.
— Durmam um pouco. Vocês ainda têm um longo caminho pela frente.
Magrun disse em turnos. Mesmo que você faça uma pausa, o trabalho não muda. Encred também sabia disso. E quando fechou os olhos, usando a tenda como teto e sua mochila como travesseiro, Encred percebeu que seu corpo estava em um barco balançando. O barqueiro que ele não via há algum tempo estava bem na sua frente. Na ponta da proa balançante, uma lâmpada roxa espalhava luz. Através do brilho roxo difuso, ele podia ver a pele cinzenta e a linha do queixo esguia.