
Capítulo 858
Re: Blood and Iron
Eva estava nos corredores do palácio do Kaiser, vestida com um vestido luxuoso e extravagante. Esse tinha sido seu lar desde que se casou com o neto de Guilherme II, quando tinha pouco mais de vinte anos.
Agora ela tinha quarenta e um anos e parecia não ter mais do que trinta. Comparando-se ao seu filho mais velho, nomeado em homenagem ao pai, geralmente chamado de "Bruno, o Júnior", que tinha pouco mais de vinte neste ano, a guerra tinha acelerado sua maturidade a ponto de, ao ficar ao lado da mãe, parecer mais irmão mais novo do que filho.
Especialmente pela maneira como Eva bajulava o jovem herói de guerra. De Sicília a Cuba. Bruno, o Júnior, tinha vivido várias experiências de combate como Gebirgsjäger, e, embora não tão extensas ou sangrentas quanto as que seus primos tinham enfrentado, havia claramente uma lista de medalhas pendurada sobre o coração dele que provava seu valor como soldado.
A expressão do jovem era carregadamente contida, mas tremia discretamente, como reflexo da vergonha de sua mãe ficar um pouco mais afetuosa demais ao receber seu retorno para casa.
— Veja só meu rapazinho! Já crescido e tão bonito! Você parece exatamente com seu avô quando eu era pequena e ele voltava da guerra! Você sabia que sua tia Victoria-Louise foi bastante apaixonada pelo seu avô algum tempo? Que tal, Victoria? Meu pequeno Bruno não conquista seu coração também?
Victoria-Louise quase engasgou com o chá enquanto se acomodava com elegância no sofá, onde a família se reunia informalmente. Ela agradecia por seu marido estar perto para ouvir Eva falar sem pudores sobre seus acontecimentos juvenis.
Ela acabou colocando a cabeça nas mãos e esfregando a ponte do nariz, tentando aliviar a dor de cabeça que já começava a se formar.
— Quarenta anos… Já se passaram quarenta anos, e ainda tenho que aguentar as piadas sobre minhas paixões adolescentes. Podemos parar com esse assunto, por favor?
Bruno, o Júnior, só pôde sentir pena da tia; sabia que o bisavô nunca tinha deixado de fazer comentários de que seria melhor se "Bruno e Victoria tivessem ficado juntos, se o destino não tivesse interferido".
Ele também sabia que Eva sempre o comparava ao avô. Bruno, o Júnior, era de uma linhagem diferente do lendário Reichsmarschall, mesmo sendo parente pelo sangue materno.
Por isso, ele sempre se sentiu distante do seu nome. Apesar de toda essa relação, sua linha paterna carregava outro nome.
No entanto, não podia deixar de notar que sua tia-avó lançava olhares discretos para ele — não de forma romântica, apenas de curiosidade.
— Ele realmente se parece com ele…
Eva não pareceu incomodada com os comentários iniciais de Victoria-Louise, pelo menos não depois que a princesa comentou a aparência do filho dela.
Ela estava prestes a dizer algo mais, que ambos — Victoria-Louise e Bruno, o Júnior — certamente se arrependeriam de ouvir, se não fosse por seu marido interrompendo com uma entrada repentina.
— Meu amor… Posso falar com você um momento? Sua Majestade imperial deseja sua presença.
De repente, parecia que Eva tinha se transformado completamente. De mãe carinhosa e filha adoradora, ela assumiu a postura graciosa de uma imperatriz. Colocou a taça de champanhe sobre um descanso próximo e se levantou, saindo apressada.
— Com licença, parece que estou sendo chamada em outro lugar.
Eva então seguiu atrás do marido, deixando seu filho suspirar aliviado.
Victoria-Louise deu uma goleada no próprio vinho enquanto comentava sobre a quase personalidade múltipla de Eva.
— Ela é assim desde que a conheço. Sua mãe parece outra pessoa quando está com o pai e os filhos, bem diferente de como é com os demais. É impressionante de ver.
Bruno, o Júnior, sabia que sua tia-avó tinha razão, mas sempre achou que o jeito dela com ele e seus irmãos era a verdadeira ela. Qualquer outra coisa era uma atuação para as cortes.
Porém, as palavras da tia-avó deixaram nele uma dúvida.
— Não será só fingimento? Quero dizer, não somos todos diferentes em público, não é?
Victoria-Louise rolou os olhos antes de dar mais um gole no copo.
— Mas agora não estamos em público, estamos? Você viu como ela mudou de postura assim que seu marido apareceu. Sua mãe é muito mais capaz do que revela; na verdade, ela é quem controla meu sobrinho, e não o contrário. Aposto que foi exatamente assim que seu avô planejou.
Outra vez, seu avô. Sempre que essas palavras surgiam, raramente se referiam ao Príncipe Herdeiro Wilhelm.
Bruno, o Júnior, hesitou antes de falar, pegando o copo da mãe e bebendo seu champanhe, até que finalmente teve coragem.
— Como ele era? Quando você o conhecia, quero dizer… Ouvi muitas histórias sobre ele a vida toda, conheci-o em encontros familiares. Mas o homem que conheci é tão… diferente das histórias que ouvimos.
Victoria-Louise zombou quando ouviu as palavras de Bruno, depois deu uma aula sobre o assunto.
— Não é surpresa. Você só o conheceu nos momentos de descanso entre guerras e em festas. Mas eu cresci neste palácio, vendo seu avô chegar e partir ao longo dos anos. Na verdade, mesmo que eu não me lembre, a primeira vez que nos encontramos foi na minha festa de segundo aniversário. Ele divertiu meu pai e seus convidados com um duelo contra um príncipe mediatizado, por causa do honra de sua noiva.
Victoria-Louise fez uma pausa, parecendo tentar evocar uma memória que seu cérebro guardava, mas que estava tão atrás de outras lembranças que ela não conseguia acessá-la completamente.
Por fim, ela pareceu desistir, tomando mais um gole de seu copo antes de continuar.
— Não me lembro de muita coisa naquela noite, se é que lembro algo… Mas, pelo jeito como meu pai fala, foi como se ele estivesse assistindo ao último cavaleiro realizar o ato final da cavalaria que o mundo verá. Depois disso, meu pai acompanhou de perto a carreira acadêmica do Bruno e até escreveu uma carta de recomendação para a principal academia de oficiais da Prússia.
Bruno permaneceu em silêncio, ouvindo uma história sobre seu avô que tinha apenas adquirido por rumores, em pedaços e fragmentos. Enquanto isso, Victoria-Louise continuava, não exatamente contando uma história do passado, mas revivendo as memórias naquele momento.
— A próxima vez que o vi, já estava na minha adolescência. E havia algo nele… Difícil de explicar em palavras… Pode parecer demais vindo de uma princesa criada por um imperador, mas quando vi seu avô pela primeira vez foi como se eu estivesse testemunhando a verdadeira grandeza, muito antes de ele deixar sua marca no mundo.
Victoria-Louise ficou silenciosa após isso, apenas bebendo ocasionalmente, olhando para o nada.
O que estivesse na cabeça dela, só ela sabia. Bruno não quis adivinhar, nem se importava, tinha seus próprios pensamentos sobre o que ela tinha dito.
Finalmente, o silêncio estranho foi quebrado quando Victoria-Louise falou novamente.
— Sua mãe tem razão… Você realmente se parece com ele… É quase inacreditável o quanto vocês são semelhantes. Duvido que o próprio filho e o neto dele se pareçam tanto quanto você agora.
Victoria-Louise percebeu como os ombros do neto pareciam afundar, como se ele estivesse envergonhado de parecer mais com o avô materno do que com a linhagem paterna.
Isso fez a mulher rir suavemente, fazendo graça do próprio sobrinho-neto.
— Acredite, isso é uma coisa boa. Não estou dizendo que meu irmão ou sobrinho são feios, mas seu avô tinha uma beleza tão impressionante que conquistou o coração de moças de quatro cortes imperiais só de estar na sala. E conquistou todas elas… sem nem notar que estavam lá.
As palavras ficaram no ar, pesadas de uma forma que Bruno, o Júnior, não esperava.
Por um instante, ele começou a observar o ambiente, não as pessoas, mas os retratos nas paredes, rostos de reis, príncipes e imperadores do passado.
Ele caminhou por esses corredores inúmeras vezes, memorizando as faces e nomes de cada quadro.
No final de um corredor, havia uma foto de Kaiser Guilherme II em sua juventude, ao lado de Bruno von Zehntner. Antes de se tornar o Grão-Príncipe do Tirol, antes de ser Reichsmarschall.
Olhando para a imagem, ele fixou o olhar na juventude do avô, eternizada naquele momento. Bruno, o Júnior, percebeu algo inquietante… Nem a mãe nem a tia mentiam. Ele realmente tinha uma semelhança assustadora com o seu avô.
Victoria-Louise parecia perceber onde os pensamentos do neto estavam se dirigindo e foi rápida em interrompê-lo.
— Você está pensando demais. Ninguém espera que você seja o homem que seu avô foi. Apenas querem que você seja um homem digno de usar a coroa que um dia herdará…