Re: Blood and Iron

Capítulo 847

Re: Blood and Iron

Kaiser Wilhelm II e Bruno estavam lado a lado ao entrarem na sala onde todos os demais delegados já se encontravam reunidos.

Bruno viu um mar de rostos que haviam sido decorados nos livros de história de sua vida passada. Seu próprio rosto agora se encontrava entre eles, não como um igual, mas como alguém superior.

Todos os homens se levantaram ao verem o Kaiser e seu Reichsmarschall entrarem na sala. Quaisquer discussões feitas até então não tinham mais validade agora que os protagonistas haviam chegado.

Bruno sentou-se à direita da mesa, enquanto o Kaiser ocupava a cabeça. Olhava nos olhos dos presentes. Reis, imperadores, generais e estadistas.

Uma mesa repleta de homens que definiram uma era e que testemunhariam seu fim. Wilhelm quebrou, por fim, o silêncio sombrio com uma tosse forçada antes de falar como o Imperador que era.

— Estamos todos aqui reunidos para discutir o fim desta guerra. França capitulou, Grã-Bretanha entregou os pontos, os países da América Latina recuaram e assinaram seus próprios tratados. Tudo o que resta aqui e agora é a Austrália, Nova Zelândia e Canadá fazerem o mesmo. Permitam-me esclarecer os termos… Rendição incondicional. Não há mais nada na mesa que será sequer considerado hoje.

Quase se poderia sentir pena dos três líderes aliados, enquanto eles abaixavam suas cabeças envergonhados e derrotados, rodeados por lobos, leões e águilas. Cada um deles os encarava com um olhar cheio de voracidade e fome.

Porém, Bruno continuava tão impassível quanto de costume. Observava atentamente não apenas seus inimigos que se prostravam perante ele, indefesos e implorando por clemência, mas também seus aliados.

Os ombros de Alexei estavam erguidos com orgulho, quadrados, firmes. Ele olhava por cima das próprias mãos, que se entrelaçavam, observando os líderes aliados como uma águia.

Já o Rei Vítor Emanuel III da Itália tinha uma aparência muito mais relaxada. Estava lixando as unhas até formar uma ponta lisa e polida. Pouco se importava com o que os Aliados diziam ou como se comportavam. Para ele, a luta tinha acabado, e tudo não passava de uma formalidade.

Os demais pareciam alternar entre estados de alerta ou completo desinteresse. Bruno então voltou seu olhar para os estadistas aliados, especialmente o primeiro-ministro do Canadá, que expressou sua opinião de forma um tanto hesitante.

— O Domínio do Canadá aceita seus termos e se rende incondicionalmente…

Depois, vieram os primeiros-ministros da Austrália e Nova Zelândia. Ambos se olharam compreendendo, sem palavras, a derrota e a vergonha.

— A Austrália declara formalmente sua rendição incondicional ao Império Alemão e às Potências Centrais.

— a Nova Zelândia se rende totalmente, abandonando quaisquer disputas armadas. O que acontecer com seus territórios fica inteiramente na mão das Potências Centrais.

Somente então, as carniças começaram a descer – cada nação pegando sua parte dos recursos naturais da Austrália e Nova Zelândia como compensação pelos gastos de guerra.

Bruno observou os três primeiros-ministros horrorizados enquanto as Potências Centrais discutiam entre si, sem a participação deles, como iriam dividir corretamente os despojos da guerra.

Recursos e reivindicações eram distribuídos de acordo com as contribuições para o esforço de guerra de cada uma. E limites eram impostos entre os países para garantir que nenhuma nação saísse insatisfeita.

No entanto, Bruno havia deliberadamente guardado as reivindicações do Reich para o final. Afinal, o que sobrasse depois que todas as outras potências reclamassem seus territórios era totalmente dele para tomar.

A Rússia emergiu com a maior fatia de carvão, a Itália ficou com uma boa parte de petróleo e gás natural. Outros países como Grécia, Espanha e Portugal disputavam minerais importantes para eles e madeiras.

À medida que as discussões prosseguiam, Bruno percebeu que o Kaiser olhava para ele nervoso, como se a Alemanha estivesse perdendo ganhos essenciais. Mas Bruno apenas sorriu e balançou a cabeça silenciosamente.

Era um sorriso tranquilizador, que somente o Kaiser notou, enquanto todos os outros estavam ocupados debatendo suas fatias.

Wilhelm confiava em Bruno, repetidas vezes nesta vida, mesmo quando os planos do homem pareciam completamente loucos. Bruno nunca o tinha decepcionado. E não duvidaria da capacidade dele neste momento final.

Assim, o Kaiser permaneceu em silêncio, observando as negociações até que não houvesse mais nada a contestar.

Então, e só então, Bruno apareceu, percorrendo várias regiões da Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Terras não desenvolvidas, em sua maior parte ainda inexploradas.

Terras que passaram despercebidas pelos demais. No momento em que Bruno as circundou com uma caneta vermelha, falou.

— Todos vocês receberam sua parte dos despojos, como é seu direito. A Alemanha não exige muito. Apenas uma concessão de uso dessas terras por noventa e nove anos, pelo preço fixo de uma marca alemã por quilômetro quadrado.

As palavras de Bruno fizeram a sala ficar em completo silêncio. Alexei foi o primeiro a sentir que algo estava errado.

Não era a primeira vez que Bruno esperava seus aliados reclamarem suas parcelas antes de exigir uma concessão de uso de terras aparentemente inúteis.

Ele fez o mesmo com os países latino-americanos quando se renderam também. Na época, achou aquilo natural, acreditando que Bruno só queria fechar o acordo e acabar com a luta.

Mas, ao ver duas vezes aquilo acontecer diante de seus olhos, Alexei percebeu que havia algo mais. Afinal, Bruno era, de fato, seu sogro.

Um homem a quem Alexei cresceu idolatrando, e é seguro dizer que, nesta sala, só Wilhelm compreendia Bruno melhor do que ele.

Talvez por isso, só Alexei questionou Bruno sobre suas reivindicações.

— Tem certeza? Essas terras são áridas, inexploradas e, por tudo, consideradas inúteis. Depois de tudo o que a Alemanha fez para garantir a vitória das Potências Centrais, você realmente quer pouco mais do que cascalho e lama em troca do Reich?

O Kaiser não falou; deixou Bruno se defender, pois realmente não entendia por que Bruno tinha escolhido essas terras. Só sabia que elas valiam algo, mesmo que não conseguisse imaginar exatamente o quê.

Bruno estava preparado para isso.

— Garanto que será suficiente. É verdade que o Reich arcou com o maior custo nesta guerra, mas também começamos tudo quando a França atacou nossas fronteiras sob o pretexto de operações de treinamento mal realizadas. Como fomos nós os que declararam guerra, nenhum de vocês era realmente obrigado a se juntar ao nosso lado. E, mesmo assim, responderam ao chamado. Se, no final, todos vocês ganharem a maior parte dos despojos, considerem isso um agradecimento por sua lealdade e coragem.

Alexei sabia que Bruno escondia sua verdadeira intenção por meio de palavras humildes e bajulatórias. Mas, infelizmente, ele era o único a perceber isso.

Os outros monarcas acreditaram nas palavras de Bruno como se valessem ouro. Pensando que ele era de fato o último homem com algum senso de cavalheirismo, honra e decência no mundo.

Alexei sabia melhor, mas não tinha como provar… só podia soltar um suspiro e aceitar o resultado. Enquanto o Kaiser se inclinava para Bruno e perguntava, enquanto o tratado era redigido em uma linguagem jurídica extremamente precisa, e assinado pelos presentes:

— Sei que você planeja algo, mas diga de uma vez: será que saímos daqui com apenas cascalho e lama…?

Bruno fez questão de sussurrar tão baixo que só o Kaiser pôde ouvir, revelando a verdade.

— Petróleo e carvão são as fontes de energia do velho mundo… Com o fim desta guerra, garanto que a Alemanha controla o futuro…

O Kaiser não precisava saber detalhes agora. Basta ter a certeza, por meio de Bruno, de que a Alemanha saiu como verdadeira vencedora, e isso era mais do que suficiente, enquanto ele sorria vitorioso.

— Bem-vindo ao novo mundo…

Bruno exalou lentamente, deixando a pesada carga dos anos descansar sobre seus ombros e, logo depois, se libertar. Colocou a pena e assinou seu nome por último entre os presentes.

Olhou uma última vez ao redor da mesa e falou com firmeza.

— Com a assinatura deste tratado, a guerra terminou.

As palavras ficaram no ar por mais tempo do que o esperado. Alguns delegados trocaram olhares até que o primeiro-ministro finalmente falou.

— E os Estados Unidos?

Bruno fez uma pausa. Depois, olhou para eles, não com raiva, não com satisfação, mas com algo mais frio.

— Não existem mais Estados Unidos, — disse. — O último homem capaz de se render morreu numa fortaleza, escondido de seus próprios cidadãos.

Silêncio absoluto seguiu essas palavras até Bruno decidir falar novamente.

— O que restar não será unificado. Será fragmentado, lutará e se exaurirá. Do jeito que as coisas estão, essa guerra nunca vai realmente acabar.

Levantou-se da cadeira.

— E isso não nos pertence mais.

Bruno virou-se e deixou a sala.

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