
Capítulo 815
Re: Blood and Iron
A conversa interminável do tráfego de rádio ecoava por toda a sala de comando na Baía de Guantánamo. Operadores de rádio e agentes de telégrafo tentavam desesperadamente contatar alguém, qualquer pessoa, de autoridade superior no continente americano.
Mas, independentemente de quantos minutos passassem, o resultado era sempre o mesmo. Chamadas unilaterais, implorando por uma resposta que nunca chegava.
Enquanto isso, fotografias tiradas por aviões de reconhecimento estavam dispostas na mesa na frente dos oficiais reunidos. Cada uma delas era tão silenciosa e imóvel quanto os mortos.
Era uma cena que eles nunca tinham testemunhado antes. Uma força naval de uma era futura, que ameaçava afogá-los todos.
Porta-aviões do tamanho de cidades, com escoltas que pareciam quase afiadas demais em silhueta. Nenhum grande armamento poderia ser visto montado na proa. E, ainda assim, aquilo não inspirava confiança alguma nos oficiais.
Logo atrás, estavam navios de assalto anfíbio e embarcações logísticas carregando homens, blindados e munições necessárias para uma invasão em larga escala. Era uma força projetada para transportar um milhão de homens até as praias do novo mundo.
Talvez, na história da humanidade, jamais tivesse sido reunida uma força naval tão vasta… até agora….
Agora… Ninguém presente ousava enfrentar o que se aproximava deles, pelo menos até que alguém lhes desse a ordem de fazer algo, qualquer coisa.
O silêncio entre os oficiais foi engolido pelo constante murmúrio do rádio até que o homem sentado à cabeceira da mesa finalmente quebrou o silêncio e suspirou.
"Essa inteligência foi confirmada sem sombra de dúvida?"
Um assessor do Departamento de Inteligência Naval estava próximo, fumando compulsivamente. Mais de duas caixas de cigarros usadas estavam espalhadas pelo cinzeiro, que já atingia uma quantidade próxima ao limite. E, mesmo assim, ele ainda conseguiu encontrar espaço.
Ele apagou a última ponta do cigarro com um cozido nervoso, as mãos tremendo ao pegar outro, apenas para descobrir que o pacote estava vazio. Com um suspiro frustrado, pegou a garrafinha escondida no bolso do casaco.
Só após a dose de uísque entrar em seu sangue ele pareceu recuperar o equilíbrio.
"Não tenho certeza de como uma frota tão grande, que navega diretamente em nossa direção, pode ser considerada algo além de uma força hostil de desembarque," disse ele. "Mas sim. A inteligência foi confirmada por canais oficiais, o que ainda existe disso, pelo menos."
Em condições normais, o tom e as palavras do assessor lhe renderiam uma repreensão imediata.
Mas esses não eram tempos normais.
Ninguém ali tinha força para contestá-lo por questão de decoro. Na verdade, suas palavras fizeram apenas diminuir temporariamente o peso da ameaça que pairava na sala, enquanto rádios, telégrafos e telefones continuavam silenciosos, sem resposta de seus supostos superiores.
Justo quando o comandante ia falar, o assessor de inteligência o interrompeu, antecipando a pergunta antes mesmo que fosse feita.
"Você acha que conseguimos falar com alguém que tenha autoridade para autorizar nossa próxima ação?"
Mesmo após o estouro, ninguém o condenou. Ao olhar ao redor da mesa, para os olhos de seus oficiais, e depois para o reflexo no seu próprio rosto refletido na caneca de café preto já frio, ele percebeu que todos compartilhavam do mesmo medo.
Simplesmente não tinham coragem de expressá-lo.
Ele permaneceu em silêncio por vários momentos longos enquanto o barulho do rádio se intensificava de todos os lados.
Então, finalmente, ele perdeu a paciência.
"Que se dane. Que se queiram todos," disse. "Com o jeito que as coisas estão lá em casa, e sem ninguém disposto ou capaz de atender nossas chamadas, vejo quatro opções disponíveis."
Ele soltou um forte suspiro.
"E nenhuma delas é boa."
Todos os olhares na sala se voltaram para ele. O comandante parecia exatamente como eles se sentiam: cansado, esgotado, mas ainda ali, diante do peso de uma possível aniquilação.
"Pelo que vejo," continuou, "nossa primeira opção é obedecer às últimas ordens confirmadas e defender esta base a qualquer custo."
Ele fez uma pausa.
"O resultado seria nossa total extinção. Por uma nação cuja existência não podemos mais sequer confirmar."
As palavras pesaram na sala como uma força de gravidade aumentada. Alguns homens se inclinaram para frente, com as cabeças baixas e os ombros pesados.
Antes que o desespero tomasse conta de vez, o comandante se obrigou a seguir em frente.
"Nossa segunda opção é render-se aos alemães sem abrir fogo."
Uma expressão amarga atravessou seu rosto.
"Isso quase certamente nos catalogaria como traidores diante de qualquer governo que ainda sobreviva lá em casa, supondo que ainda exista um lar para retornarmos e famílias que ainda estejam vivas para nos receber."
A última consideração pairava no ar, não dita até agora, mas impossível de ignorar.
Desesperado para manter o impulso e a esperança, o comandante continuou.
"Não vou mentir para vocês," disse. "Essas duas primeiras opções são provavelmente as mais honestas. As outras duas apenas atrasam o que é inevitável."
Ele fez um gesto em direção à mesa.
"Se não podemos lutar, e não podemos nos render, então temos que abandonar esta posição e tentar se reagrupar com quem estiver disposto a resistir ao avanço alemão… ou approachar Batista e entregar voluntariamente a Baía de Guantánamo ao governo cubano, na esperança de que nossas forças combinadas possam atrasar a invasão o suficiente para fazê-los reconsiderar a ocupação."
Todos na sala entenderam por que o comandante considerava as duas primeiras opções preferíveis.
A terceira envolvia abandonar sem autorização uma das posições mais estratégicas do Caribe. Mesmo que conseguiam se reagrupar em outro local, a prisão e o conselho de guerra ao retornarem eram quase certos.
Já a última opção, Cuba sozinha, não havia conseguido impedir a pressão naval espanhola, quanto mais resistir a uma força expedicionária multinacional que agora representava toda a potência naval das Potências Centrais.
O silêncio voltou à sala.
Até os operadores de rádio pararam de pedir ajuda.
O inimigo se aproximava. A derrota era inevitável.
Agora, os homens reunidos na Baía de Guantánamo só podiam escolher como queriam enfrentá-la, sob qual bandeira morrer, ou aceitar a ignomínia de entregar-se sem nunca disparar um tiro em sua própria defesa.