
Capítulo 830
Re: Blood and Iron
Bruno permaneceu quieto, ouvindo atentamente as palavras que seu filho adotivo acabara de proferir. Conhecia o homem desde que era um bebê e tinha observado seu crescimento até se tornar um herdeiro capaz e sucessor do Reich.
Se Bruno não visse potencial no homem, nunca teria casado sua filha mais velha com ele.
Eva era uma mulher que herdara o gênio geopolítico de Bruno em nível que nenhum de seus filhos jamais conseguira entender.
E ela passara quase duas décadas envolta do marido, manipulando-o com maestria. Sua influência sobre o homem tinha sido surpreendente, de maneiras que até Bruno não havia previsto.
Porém, Bruno notara nos últimos anos que o comportamento do homem tinha mudado sutilmente. E suspeitava que o Príncipe Wilhelm começava a ficar inquieto. Seu avô persistia como Kaiser numa era em que, historicamente, isso quase se tornara impossível.
Enquanto o Príncipe Herdeiro Wilhelm era três anos mais jovem que Bruno, ele próprio ainda era mais novo – nem chegara aos sessenta anos de idade. Quando o Kaiser finalmente passasse a coroa, ela cairia nas mãos do Príncipe Herdeiro Wilhelm, e talvez por décadas.
Para um jovem, ambicioso e capaz pretendente a imperador, era quase insuportável pensar em esperar mais algumas décadas para que fosse sua hora de brilhar.
Por isso, Bruno estava mais sério do que nunca ao ouvir as palavras: "Quero contratar o Werwolf…". Suspeitava, talvez, que o príncipe estivesse cansado e inquieto de esperar, e agora procurava seu sogro para ajudá-lo a liderar um golpe.
No entanto, Wilhelm surpreendeu Bruno com suas próximas palavras.
"Meu avô já está avançado em anos, e deixou claro que seu último desejo é ver desfeita a Paz de Westfália. Ao longo de suas vidas, vocês dois recuperaram com maestria grande parte das fronteiras do Reich para a Pátria. E ainda assim… Holanda e Suíça continuam desafiando Berlim. Eu quero muito contratar o Werwolf para ajudar meu avô a ver seu sonho realizado antes que ele dê seu último suspiro. Então… vocês me ajudarão?"
Bruno ficou ali, atônito, sem acreditar. Esperava o pior do próprio genro e até elaborava planos de contingência inimagináveis na hora, caso seus piores temores se concretizassem.
Mas o homem acabou expressando um desejo pelo qual Bruno não podia deixar de admirar, mesmo no fundo do coração frio e ressecado dele.
Bruno franziu a testa, apoiando os cotovelos na mesa, percebendo que talvez tivesse ficado paranoico e amargo na velhice.
Pela primeira vez na vida, sentiu uma culpa genuína, por uma suposição dessas. Tirou um momento para respirar e se acalmar antes de continuar. Então, começou a rir suavemente.
"Rapaz… você tem ideia de quanto tempo e recursos são necessários para subverter uma nação de forma a fazê-la acolher estrangeiros como libertadores e não inimigos?"
Durante alguns momentos, silêncio. Depois, uma tonalidade carrancuda apareceu na voz do outro lado.
"Perdoe minha ignorância… Por favor, explique."
Bruno tirou a flask do casaco, acrescentando uma dose de firmeza ao seu café da manhã, antes de dar um gole.
"Uma geração… talvez duas, às vezes três…."
Wilhelm ficou em silêncio mais uma vez, talvez envergonhado por ter chegado à conclusão tarde demais. Não falou novamente, até que Bruno acrescentou algo com um tom de sarcasmo.
"Felizmente para o nosso querido Kaiser… Eu comecei o processo de subversão do mundo lá pelo começo do século. Você achava mesmo que minha influência se espalhava só pelo País, pela Rússia e pelos Estados Unidos, não é?"
Bruno quase podia ouvir o suspiro do príncipe ao perceber a verdade. Quase 40 anos de preparo tinham sido gastos não só para as duas Guerras Mundiais, mas também para o mundo que veio depois.
Até que ponto Bruno tinha enxergado o futuro? O príncipe Wilhelm mal podia imaginar a profundidade do que acabara de ouvir. Mas a linha do tempo era demasiado conveniente… especialmente, considerando as projeções atuais para o fim da guerra.
Wilhelm ficou pasmo, silenciado por um longo tempo, enquanto Bruno continuava a saborear seu café da manhã, observando o relógio. Esperava a resposta do príncipe. E finalmente, ela veio.
"Você planejou tudo isso o tempo todo… por quarenta… talvez até cinquenta anos… Você vinha tramando, maquinando e se movimentando de uma maneira que garante que será lembrado como o maior líder militar da história e também como o Chanceler que desfez os fracassos de Westfália logo no início do mandato, unificando o Reich alemão ao máximo…"
Um sorriso irônico surgiu no rosto de Bruno, enquanto ele terminava de beber de sua xícara e deixava o cafezinho levemente alcoolizado deslizar suavemente pela boca antes de falar.
Ele pousou a xícara de volta no pires, então, felicitou o príncipe.
"Você é muito mais perspicaz do que eu imaginava, garoto. Talvez seja porque é casado com minha filha mais velha, aquela que herdou toda a minha capacidade de raciocínio. Mas até minha esposa, que me conhece melhor do que ninguém neste mundo, não conseguiu perceber essa última parte. Sim… meu objetivo de vida sempre foi restaurar as fronteiras legítimas da Alemanha. E todas as minhas ações nesta vida tiveram esse objetivo."
Wilhelm não sabia exatamente como responder, nem precisava. Bruno continuava a falar, quase como se estivesse feliz que alguém tivesse finalmente percebido seu jogo final.
"Muita gente pensa que, no dia em que eu deixar meu cargo de Reichsmarschall e pendurar a espada de vez, minha história chegará ao fim. Mas a verdade é que ainda há muito a fazer, e não tenho mais anos de vida suficientes para concluir tudo. Mas, desde os meus primeiros momentos neste mundo, até o último, farei meu dever."