Re: Blood and Iron

Capítulo 715

Re: Blood and Iron

Erich estava próximo ao porto, olhando para a travessia do Canal da Mancha.

Um cigarro descansava entre seus dedos, meio esquecido, enquanto a fumaça se curled upward into the gray sky.

Ele deu uma tragada longa e cansada, deixando o gosto amargo se estabelecer em sua língua.

Desde que a França capitulou, e logo depois a Inglaterra, o trabalho era… banalizado. Superficial. Necessário, mas sem inspiração.

Patrulhando locais de reconstrução, mantendo a ordem entre uma população pacificada, coordenando remessas de auxílio do paiol, trabalho que caberia a um oficial de equipe ou logístico, não ao comandante de um batalhão de Fallschirmjäger forjado na dor e na tempestade.

No entanto, as histórias nunca pararam.

Elas flutuavam como fantasmas pelos becos destruídos e paredes de pedra rachadas.

Sobre a Grande Guerra.

Sobre um homem que virou mais mito do que mortal. E como essa guerra, apesar de seu tamanho e horror, lhe faltava algo elementar que os veteranos mais velhos ainda carregavam nos ossos.

Sentado perto dele, havia um pequeno grupo de soldados da paraquedista, descansando, almoçando ao vento frio, enquanto seu suboficial, um homem com cabelos grisalhos e marcas da guerra marcando a testa, falava de dias passados.

"…ele mesmo pegou na metralhadora," dizia o homem, com a voz seca como cascalho. "Na linha de frente. Nos deu uma noite de descanso enquanto fazia a vigília toda naquela área sozinho."

Erich não precisou virar para saber quem estava falando.

Aquela voz, cansada, deliberada, sem glória ou dramatização, falava como um homem que nunca realmente deixou o campo de batalha.

Era o tom do Stabsfeldwebel Oskar Keller.

O público de Keller eram três jovens, recém-batizados na guerra.

Eles se alistaram após a França começar exercícios de "treinamento" perto da fronteira, destruindo fortificações fronteiriças sob a absurda justificativa de manobras de paz.

Uma provocação conveniente. Só o suficiente para desencadear a guerra. Só o suficiente para dar aos jovens a desculpa de se tornarem mais endurecidos.

Agora, eles estavam agachados ao redor de uma caixa de munição, fumando sem parar, com os rostos angulosos pelas semanas de combate.

Naquela visão, não havia admiração, apenas respeito. Respeito pelo homem que viveu três guerras, e pelo comandante que um dia guiou-o.

"Foi na Caroáthias?" perguntou um deles.

"Não," respondeu Keller, descartando a cinza do cigarro.

"Alpes italianos. 1915. Os austríacos planejavam manter os passos altos enquanto o resto do K.u.K. e nosso 8º Exército esmagavam a Sérvia. Mas perderam o controle da crista no inverno de 14. Depois que tomamos Constantinopla, voltamos para o oeste e avançamos pelos Alpes Tiroleses, empurrando os italianos de volta às suas próprias montanhas. Eles rendiam-se mais rápido do que eu esperava. Mas por algumas noites, seguramos a linha sozinhos."

O mais jovem do trio, um rapaz de Danzig com olhos muito brilhantes, inclinou-se para a frente. "É verdade? O Marechal do Reich costumava entrar na terra de ninguém só com uma faca e uma pistola?"

Keller riu baixinho. "Não presenciei isso pessoalmente. Mas não duvido. Durante o cerco de Tsaritsyn, dizem que ele foi pioneiro em ataques de trincheira. Atacava à noite. Matava no corpo a corpo. O cara era como um fantasma. Um ceifador. Você encontraria metade de uma trincheira bolchevique massacrada, sem uma única granada disparada."

Erich ajustou seu posicionamento, olhos fixos no mar.

A tensão em seus ombros era quase imperceptível.

Claro que eles estavam falando do seu avô. Bruno von Zehntner. Mas não como parente. Nem mesmo como comandante. Eles falavam dele como um demiurgo.

Ele virou levemente a cabeça. No instante em que os soldados perceberam, suas posturas mudaram: costas retas, cigarros escondidos, botas bem próximas.

Keller deu um aceno de cabeça e o cumprimentou com um gesto firme. "Herr Oberstleutnant."

"Continuação," disse Erich em voz baixa.

Mas seus olhos ficaram fixos na manga de Keller. Logo abaixo do insígnia régio havia um Totenkopf branco desbotado, o crânio da Divisão de Ferro.

Não oficial. Contra regulamento. Mas tolerado. Honrado, até.

Keller parecia jovem demais para ter marchado para a Rússia em 1905 com a primeira Divisão de Ferro.

Não… ele não era.

Isso significava algo mais.

8º Exército.

Comando pessoal de Bruno.

A descoberta caiu silenciosamente, com peso.

Keller era um de seus homens, um dos poucos sargentos ainda na ativa, carregando a tocha de uma era quase perdida no tempo.

A Divisão de Ferro conquistou seu nome na Guerra Civil Russa de 1904–06, formada por uma brigada de veteranos, fuzileiros Seebataillon e fanáticos.

Mas, na verdade, eles nunca foram voluntários. Eram a lâmina do Paiol, enviados sob falsas pretextos para sangrar por ordem.

Bruno os liderou. Havia até formado a divisão pessoalmente. Assim, virou lenda através deles.

E quando a Divisão de Ferro foi reorganizada para o serviço ativo, o 8º Exército levou sua bandeira e seu legado, que sobreviveram em histórias sussurradas e em tecido desbotado costurado nas mangas dos uniformes.

Uma irmandade silenciosa, de irmãos.

Hoje, os que sobreviveram se tornaram a espinha dorsal do Reich.

Ministros. Professores. Generais. Magistrados. Uma fraternidade de guerreiros, moldando o mundo que seu comandante uma vez sonhou.

Como Keller permaneceu um sargento depois de tantos anos, Erich não conseguiu explicar.

Mas uma coisa era clara:

Apesar do nome… ele não era um deles.

Ainda não.


Os corredores do posto de comando de Dunkirk ainda tinham cheiro de sacos de areia, café frio e pedras esmagadas.

Erich entrou na sala de operações e cumprimentou com a mão.

O marechal Heinrich von Koch estava à frente de uma mesa, com uma mão apoiada num mapa do norte da França, enquanto a outra segurava uma xícara de porcelana com café preto bem quente.

"À vontade, Erich," disse Heinrich, com um sorriso cansado e leve. "Vamos lá. Talvez não devamos fingir que estamos em Berlim."

Erich relaxou a postura. "Sim, senhor."

O comandante mais velho o observou com aprovação silenciosa. "Dunkirk está segura. Insurreições civis controladas. Você superou as expectativas."

"Obrigado, senhor."

Heinrich pegou uma caixinha de madeira e tirou uma cruz de prata, presa a uma fita de cetim preto e branco.

Ele a segurou com reverência sutil.

"Sua Majestade, o Kaiser, decidiu autorizar uma nova geração de Cruz de Ferro, para uma nova geração de guerreiros. E aqueles que a conquistaram."

Erich aceitou a medalha com as duas mãos.

Era pesada.

Na base, gravado: 1938.

O ano em que começou esta guerra.

Ele estudou o símbolo. A mesma medalha que seu avô conquistara décadas antes nos Balcãs.

Mas essa ainda não tinha sangue. Ainda.

Heinrich percebeu a hesitação em seus olhos.

"Se está se perguntando, você está recebendo essa honra pelos seus atos ao tomar esta cidade. Tomar Dunkirk talvez não tenha rendido manchetes como quando marchamos para Paris com o 8º Exército às costas, mas cortou os acessos às praias e ao Exército francês."

Erich olhou para a medalha brilhando nas mãos sob a luz artificial.

"Será que realmente mereço essa honra? Ou é porque carrego o nome dele?"

Heinrich riu baixinho. "Acredite, Bruno não é do tipo sentimental com a própria descendência assim que ela veste o Feldgrau. Ele também não é explicitamente cruel. O Exército é tanto a família dele quanto sua casa. Tem um milhão de filhos, e você, seu neto, é um deles. E também faz questão de não tratar ninguém com favoritismo, incluindo você."

Colocou a mão no ombro de Erich, firme e solidamente.

"Se quiser se sentir melhor, Bruno conquistou sua primeira cruz de ferro destruindo o Exército sérvio no início da Grande Guerra. Então, diria que você está em boa companhia…."

Houve uma breve pausa, a hesitação de Heinrich desapareceu, substituída por uma determinação firme em seus olhos azuis.

"Sei disso."

"Ótimo." Heinrich voltou ao mapa. "O Atlântico ficará quieto por enquanto. Mas a verdadeira guerra do mundo ainda está por vir. O Novo Mundo não vai se render sem luta. E os inimigos que pensávamos derrotados também não."

Erich assentiu uma vez, depois informou-se, com a medalha na mão.

Quando saiu ao alvorecer pálido, o vento do mar chicoteou seu grande sobretudo, balançando-o suavemente, como uma bandeira.

Logo abaixo, o porto gemia com o som de guindastes, botas e ordens aos berros — uma cidade em transição, do caos para o renascimento.

Mas, em sua mente, algo roía.

Falavam de Bruno como uma lenda porque precisavam acreditar que lendas ainda caminham entre eles.

Usavam o Totenkopf não por medo, mas por fé. Um símbolo de afronta, de vontade inquebrável. Ainda assim, Erich não havia conquistado essa fé. Ainda não.

A Cruz de Ferro pesava pesado em sua mão, não por causa do metal, mas pelo que exigia.

Não por lembrança. Prova. Prova de que ele tinha seu lugar.

De que era mais que um nome, mais que um oficial favorito ou fruto de linhagem.

Que poderia carregar o fogo adiante, não apenas manter suas brasas aquecidas.

Olhou mais uma vez para o mar, suas ondas cinza-ferro agitando-se rumo a costas invisíveis.

Em algum lugar lá fora, além do Atlântico, aguardava a próxima provação.

As potências aliadas, do outro lado do oceano, agitavam-se como o nascimento de titãs.

E desta vez, não haveria mito para guiar os filhos do Reich no campo.

Apenas homens.

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