Re: Blood and Iron

Capítulo 733

Re: Blood and Iron

A viagem de Berlim a Tóquio durou vinte e três horas, com uma parada para reabastecimento em Novosibirsk.

Abaixo, as intermináveis estepes da Sibéria se estendiam como um continente de silêncio congelado.

Ele não visitava o Japão desde o fim da Guerra Sino-Japonesa, quase uma década atrás.

Naquela época, ele tinha transformado várias cidades em cinzas negras. Tudo consumido por um fogo que não deixava ossos, apenas sombras.

O bombardeio termobárico alemão tinha quebrado a espírito japonês mais rápido do que qualquer invasão poderia.

Depois veio a reconstrução: engenheiros alemães, polícia alemã, conselheiros alemães, tijolo por tijolo, o Japão reconstruiu-se sob o olhar de seu conquistador.

Agora, através da janela oval, Bruno via novamente o arquipélago: organizado como um relógio, as luzes reconstruídas de Tóquio formando grades perfeitas ao longo da baía.

Era belo de uma forma que a ordem sempre é, quando comprada pelo caos.

Quando a aeronave pousou no Aeroporto de Haneda, a guarda de honra já aguardava:

Fileiras de soldados imperiais com uniformes cinza-branco, baionetas fixas, rostos sem expressão por trás de máscaras cerimoniais que lembravam viseiras de kendo.

Por trás deles, bandeiras ostentando o insígnia do Comando do Extremo Oriente alemão agitavam-se ao lado do sol nascente.

Dois impérios, um vitorioso, outro preservado apenas pela clemência.

As câmeras da imprensa clicaram uma, duas vezes, depois pararam. Os japoneses aprenderam a discrição.

Bruno desceu a escadaria do avião. Aguardando no chão, estava o General Kuroda, chefe do Departamento de Segurança Metropolitana, o novo exército interno do Japão, treinado por instrutores alemães.

— Reichsmarschall von Zehntner — disse Kuroda, fazendo uma reverência profunda. — O Imperador aguarda no Palácio Imperial. Seus aposentos já foram preparados na Embaixada Alemã.

Bruno assentiu. — Rumo direto ao palácio.

Kuroda hesitou por um instante antes de responder. — Como desejar.


A coluna de veículos avançava lentamente pelo centro de Tóquio sob escolta de motocicletas blindadas.

De ambos os lados da rua, os cidadãos interrompiam seus afazeres para observar, em silêncio, com cuidado.

Ninguém aplaudia. Ninguém protestava. A ocupação durava tempo suficiente para que tanto a gratidão quanto o ódio se tornassem rotina.

Bruno observava pelas janelas esverdeadas: fábricas reconstruídas, letreiros alemães, crianças em uniformes iguais de cinza carregando hinários impressos em ambas as línguas.

Eficiência em toda parte, mas nenhuma alegria. O Japão funcionava, talvez até demais.

— Eles obedecem — ele disse suavemente.

A reflexão de Kuroda na janela mal se moveu. — Eles se lembram do que aconteceu com aqueles que não obedeceram.


O Palácio Imperial só sobreviveu à guerra porque Bruno próprio ordenou que fosse poupado.

Agora, era meio museu, meio embaixada, um mausoléu de soberania de beleza impressionante.

O Imperador aguardava na Sala do Crisântemo, ao lado de dois guardas silenciosos em armadura cerimonial.

Ele estava mais velho do que Bruno lembrava, com os templos grisalhos, sua postura ainda imperial, mas os olhos vazios de quem conhece muito.

Imperador Nobuhito, irmão mais novo do falecido Hirohito, levantou-se do trono e fez uma leve reverência, comedida, suficiente para ser educado, mas sem parecer subserviente.

Seu japonês era formal, ensaiado.

— Reichsmarschall. É uma honra recebê-lo — disse.

Bruno permaneceu firme. Sua recusa em se-curvar não foi por acaso.

Era o mesmo gesto que um dia colocou fim à amizade entre seus impérios, quando Berlim deixou de fazer questão de fingir que outros tronos importavam.

— Majestade. É o Império do Japão que me homenageia, recebendo esta visita em tão curto aviso.

Sentaram-se um de frente para o outro. Um criado despejou chá em silêncio; a porcelana era mais antiga do que ambos juntos.

Após as formalidades cerimoniais, o Imperador dispensou os assistentes. As portas se fecharam com um som como de pedra sela.

— Informaram-me — começou Nobuhito — que seus satélites observaram aeronaves americanas entrando no espaço aéreo das Filipinas.

— Confirmaram — respondeu Bruno. — Emissários, tropas, conselheiros. Os Estados Unidos querem rearmar as ilhas. Já percebemos negociações em andamento com o Conselho Transitório.

A expressão do Imperador não mudou. — Então, começa outra guerra. Espero que aqui não.

— Guerras começam onde as linhas de suprimento exigem — disse Bruno. — Mas o Pacífico continua uma mesa aberta. Não podemos permitir que outra potência fortaleça seu flanco ao alcance de nossas rotas marítimas.

Nobuhito cruzou as mãos. — Você fala como se o Japão ainda comandasse o Pacífico.

Bruno o encarou nos olhos. — O Japão manda o que a Alemanha permite.

O silêncio que se seguiu foi cortante.

O Imperador não hesitou, mas algo passou por trás de seu rosto: uma centelha de orgulho antigo, rapidamente apagada.

— Vocês nos reconstruíram — disse Nobuhito após um momento. — Salvaram-nos do caos. Mas também nos transformaram em espelho. Nossas polícias usam seus uniformes, nossas escolas ensinam seus métodos. Até nosso hino toca sob sua direção em eventos oficiais. Diga, Reichsmarschall, a Alemanha deseja nos transformar em europeus ou em servos?

Bruno inclinou-se levemente para frente. — Nem uma coisa nem outra. A Alemanha quer que o Japão permaneça útil.

— E se ficarmos cansados de ser úteis?

— Então vocês serão substituídos, assim como impérios substituem dinastias. Precisa que eu relembre que os tailandeses têm se manifestado ansiosos por crescer sob nossa orientação?

A mandíbula do Imperador se tensou. — Você fala com franqueza.

— Acho melhor quando falo com homens inteligentes — respondeu Bruno. — Você sabe, assim como eu, que seu trono sobrevive porque oferece estabilidade. O povo japonês obedece ao crisântemo. Se quiser continuar soberano, ajude-me a manter o equilíbrio que mantém ambos.

Nobuhito olhou para o chá. — E qual é esse equilíbrio?

— Que nenhuma nação a leste da Índia possa projetar poder sem nosso consentimento — explicou Bruno. — Isso inclui os Estados Unidos. A Alemanha reconstruiu o Japão para que ele atue como nossa guarda-costas no Pacífico, não como mestre, mas como guardião.

O Imperador sorriu de leve. — Uma palavra bonita para um carcereiro.

— Prisões mantêm a ordem — disse Bruno, em tom firme. — Sem elas, reina o caos. Você viu como o caos se manifestou nas suas próprias ruas quando as bombas caíram.

A conversa pairava no ar como fumaça. Lá fora, o vento soprava suavemente contra os biombos de papel.

Por fim, o Imperador falou novamente, agora com voz mais suave. — Você nos pede para vigiar os americanos. Para relatar. Talvez até para impedir.

— Peço que lembre quem reconstruiu suas cidades, quem guarda suas fronteiras, quem faz suas fábricas funcionarem quando o mundo ainda resiste à sua bandeira. Se os americanos se estabelecerem em Manila, o Pacífico vira seu campo de operações. A Alemanha não permitirá isso.

O Imperador assentiu uma vez, com expressão indecifrável. — E se o Japão se recusar?

O tom de Bruno não mudou. — Então, vamos lembrá-los do que acontece quando levantam suas baionetas contra Berlim...

Nobuhito fechou os olhos brevemente... tempo suficiente para esconder a tempestade que carregava por dentro.

Quando os abriu novamente, era Imperador, sereno e inflexível.

— Então, instruirei meu Primeiro-Ministro a colaborar com sua embaixada. Os serviços de inteligência japoneses monitorarão a situação nas Filipinas. Terão nossos relatórios.

Bruno levantou-se. — É tudo o que peço.

O Imperador também se levantou. — E o que a Alemanha oferece em troca?

Bruno hesitou, refletiu. — Continuidade. Paz. A oportunidade de o Japão permanecer como é, mesmo que o mundo mude novamente.

Nobuhito deu um sorriso seco. — Paz, então. Outra palavra para obediência.

Bruno inclinou a cabeça. — Você age como se nunca tivesse vivido sem ela. Todo homem deve responder a algum mestre. Até eu tenho que responder ao Kaiser, e ele ao nosso pai nos céus.

As palavras ecoaram pelo salão, embora o silêncio absoluto que as seguiu fosse ensurdecedor.

Comentários