
Capítulo 712
Re: Blood and Iron
A fumaça se agarrava às ruínas de Norfolk como um segundo céu, densa e sufocante.
Cavava cinzas em espirais lentas, dançando ao vento como confetes queimados de uma festa que ninguém sobreviveu; um funeral para uma república que já havia proclamado sua virtude mais alto do que seus crimes.
Os tumultos tinham sido esmagados.
Mas nada parecia vitorioso.
Dos degraus do que sobrou do Edifício Federal, filas de botas estavam em posição de atenção, costas retas, rifles carregados nos peitos.
Os uniformes deles estavam impecáveis, novos modelos federais em azul-marinho profundo, sem insígnias de unidade, apenas uma única insígnia: uma estrela branca, vazia e fria.
Um exército não oficial para uma guerra não oficial.
Logo atrás, corpos ainda estavam sendo carregados em caminhões — civis, agitadores, unidades da Guarda Nacional que se recusaram a obedecer às ordens.
Ninguém mais se dava ao trabalho de contar. Os números perderam o sentido. A morte era apenas uma linha na planilha federal.
Em Washington, o clima era ainda mais sombrio.
O presidente Franklin Delano Roosevelt se sentava sozinho na Casa Branca, uma única lâmpada de mesa iluminando um mapa da Costa Leste.
Pinos vermelhos marcavam os focos de rebelião, azuis, os deslocamentos federais, e os pretos… os pretos estavam se espalhando.
Uma batida na porta.
Elliott, seu filho e agora atuando como Chefe de Gabinete por direito próprio, entrou.
"Norfolk foi neutralizado," disse ele, secamente. "Não há sobreviventes acima dos 15 anos. Estimamos que o número de mortos vá aparecer como um incidente de 'subversão estrangeira'."
Roosevelt não levantou os olhos. Traçou uma linha no mapa, de Chicago a Atlanta. Problemas estavam surgindo em ambos os lugares. Detroit já estava praticamente perdida, se é que chegou a sobreviver na imprensa.
"E a imprensa?" ele perguntou calmamente.
"Estamos chamando de uma falsa bandeira apoiada pelo Reich. Disseram que os sabotadores foram encontrados com armas e literatura alemã. Temos alguns uniformes excedentes antigos para dar peso à acusação. Pode até hoje serem considerados padrão, mas o povo não perceberá a diferença."
Roosevelt permaneceu em silêncio.
Seus olhos estavam na foto ao lado do mapa, Eleanor, sorrindo.
A foto tinha sido tirada no dia anterior à sua primeira posse. Ele parecia mais jovem. Mais limpo. Mais humano.
Agora? Agora ele sentia como se fosse outra coisa. Uma entidade na cadeira fingindo ser homem, toda máscara, sem espírito, sem centro.
"Quando assinei a Lei de Estabilidade Nacional," disse, a voz rouca, "pensava que seria algo temporário."
Elliott ficou em silêncio.
"Há dois anos, se alguém me dissesse que estaria aprovando execuções sumárias nas cidades americanas, eu teria rido. Dizia que eram atos antipatrióticos."
Ele olhou para cima. "Me diga, o que eu sou agora, Elliott?"
Seu filho engoliu em seco.
"Um sobrevivente," disse finalmente.
Mais tarde naquela noite, numa sala de reunião privada sob o Capitólio, o círculo interno se reunia.
Generais, chefes de inteligência, planejadores econômicos. Nada de reuniões do Gabinete; essas eram apenas para aparência.
Eram conselhos de guerra, do tipo nascidos na desesperança, onde a sobrevivência valia mais do que a legalidade.
O Diretor de Segurança Interna falou primeiro.
"O Modelo Tidewater funcionou. Aplicação rápida de destacamentos blindados, blackout das comunicações e eliminação total dos principais cabecilhas. A resistência desmoronou em menos de 72 horas."
Outra voz se juntou, um general do Teatro do Nordeste.
"Mas ela se espalha. Aceitamos um fogo, e três novos outros surgem. Temos atiradores em Pittsburgh, sabotadores em St. Louis, e uma greve de trabalhadores em Oakland que está perigosamente perto de se transformar numa insurreição total."
"Não podemos continuar enviando tropas regulares," interrompeu o Intendente. "A máquina de guerra precisa de aço e carvão, não de patrulhas de rua. Se as fábricas fecharem…"
"Então perderemos a guerra," disse Roosevelt, finalmente elevando a voz.
Silêncio.
Ele se levantou, mãos na mesa.
"Vocês acham que Berlim está desacelerando? Acreditam que Bruno está tendo crises de existência sobre liberdade e justiça enquanto seus inimigos se ajoelham em valas?"
"Não temos mais o luxo de princípios. Não depois de nossas cidades ardendo e de nossos filhos e nossas próprias praias ameaçadas por um Eixo do Mal do outro lado do Atlântico."
Eixo do Mal... Que frase para descrever as Potências Centrais. Nações que eram legais, ordeiras, e, exceto pela destruição que causaram após tantas guerras, ainda relativamente pacíficas.
Se as Potências Centrais eram o Eixo do Mal, então quem eram as Potências Aliadas? Quem recorreu a violar suas próprias regras só para se manterem à tona?
Ninguém falou. Eles não precisavam.
Já tinham escutado sussurros. Sussurros de que Roosevelt estava vacilando, com remédios demais, peso demais perdido, guerra demais.
Mas agora, ao encarar seus olhos vidrados de fogo, eles viam algo mais:
Convicção. Aço. E talvez… a podridão.
No andar de cima, a três andares de altura, uma ata foi redigida e enviada por meios seguros.
ORDEM PRESIDENCIAL 4017-B
Expansão da Autoridade Executiva para a Estabilização Regional.
Suspensão do habeas corpus em zonas industriais principais.
Requisição de todas as frequências de rádio privadas.
Autorizações para uso de força letal contra "ameaças internas à integridade nacional".
Mandato federal para fiscalização de racionamento sob supervisão militar.
O papel cheirava a tinta e pólvora.
Nessa noite, Roosevelt voltou à Casa Branca. Sozinho novamente.
Serviu-se de um copo de bourbon com mãos trêmulas.
Do outro lado do oceano, Bruno von Zehntner ajoelhava-se em oração na Catedral de São Tiago.
Banhado pela fria luz da lua.
Era um frequentador assíduo da Igreja, tanto como fiel quanto como figura pública.
E em dias como aquele, quando o mundo queimava ao seu redor, e as próprias fronteiras do Reich permaneciam intocadas pelo fogo.
Ele se pedia em silêncio ao Deus que o havia reencarnado.
Quaisquer que fossem suas preces, lamentos pelos caídos, confissões pelos crimes cometidos por sua vontade?
Ou talvez apenas um agradecimento por ter uma chance de corrigir os erros da humanidade e combater as forças do destino que buscavam destruir o mundo.
Ninguém sabia ao certo o que Bruno orava, até que seu silêncio foi rompido por um salmo latino.
"Non nobis, Domine, non nobis; sed nomini tuo da gloriam."
Não a nós, ó Senhor, não a nós; mas ao teu nome dá glória.
E enquanto Bruno rezava em silêncio humilde, Roosevelt bebia com uma consciência pesada.
E lá no fundo, algo se quebrou… silenciosa e irremediavelmente, além do conserto.