Re: Blood and Iron

Capítulo 683

Re: Blood and Iron

O oberstleutnant Erich von Zehntner fumava um cigarro, encostado em seu veículo de comando enquanto a batalha acontecia bem além de seu alcance.

Disparos de tiros ecoavam ao longe, mesclando-se ao trovão de tiros antiaéreos e explosões de artilharia.

Mísseis antitanque guiados por fio, disparados do topo de veículos blindados, destruíam os blindados franceses antes mesmo de terem chance de revidar.

Tanques leves e médios avançavam com precisão treinada, zigzagueando por entre filas de veículos de combate de infantaria e carruagens de rodas que despejavam homens na batalha.

Através de seus binóculos, com o cigarro preso entre os dentes, Erich observava a luta se desenrolar.

Os alemães se moviam como lobos, coordenados, implacáveis.

Os franceses marchavam em passo de formiga.

Pesados, lentos, como as legiões romanas que um dia subjugaram a Gália.

Talvez, em 1914, colunas assim, reforçadas pela indústria aliada, teriam rompido as trincheiras.

Mas não agora.

Não contra o seu grupo tático de batalhão.

Eles tinham a vantagem numérica, e ainda assim suas máquinas queimavam, uma após a outra.

Infantaria alemã desembarcava de seus transportes, capacetes de fibra de aramida e placas de composite transformando fogo de rifles franceses em algo quase sem efeito.

Eles avançavam sem hesitar, movidos por disciplina, estimulantes, ou algo mais próximo da loucura.

Fogo de precisão derrubava homens mesmo com os soldados franceses virando-se para fugir.

Erich suspirou, abaixando os binóculos. Jogou o cigarro na lama e o pisou sob a bota.

"Tão desnecessário…"

O tenente ao seu lado enrijeceu-se, incerto se devia responder. Erich sequer olhou para ele.

"Vai lá. Diga."

Pegando de surpresa pela permissão, o oficial gaguejou: "Não é nada, senhor. Só… o que o senhor quis dizer com desnecessário?"

Erich manteve o olhar no céu escuro, onde caças alemães destruíam a Força Aérea francesa.

Explosões brilhavam como flores acima das nuvens. Sua voz era plana, quase abafada pelo som da artilharia.

"Esta guerra. Foi tão desnecessária."

O tenente levantou os binóculos e viu o que Erich já havia julgado: centenas de veículos franceses em ruínas fumegantes, soldados espalhados mortos ou sangrando na vegetação.

Cativos que tentaram se render agora se agachavam na lama, sob ameaça de armas, espancados se ousassem falar.

Erich subiu no veículo de comando e acionou o fio. Seu tom era calmo, seco, como se estivesse relatando uma manobra durante um exercício.

"Aqui é Oberstleutnant Erich von Zehntner. O inimigo foi cercado e derrotado. Sobreviventes estão levantando a bandeira branca. Solicito evacuação dos prisioneiros de guerra."

Erich permaneceu agachado no veículo de comando por um bom tempo depois de enviar a mensagem, encarando o fone de rádio como se ele pudesse responder.

Ao seu redor, o barulho da batalha continuava: o som surdo de artilharia ao longe, o rangido das máquinas se deslocando para novas posições, os gritos agudos dos feridos carregados por socorristas em direção às linhas de trás.

Ele esfregou os olhos com o polegar e o indicador. Dormir era um luxo agora. O dever, entretanto, não era.

Pensou novamente em seu avô, nas histórias que Bruno lhe tinha contado sobre a Grande Guerra.

Relatos de trincheiras cheias de lama e gás, de homens levados ao desespero não apenas pelos tiros, mas pelo silêncio que vinha depois.

Bruno sempre terminava essas histórias com a mesma lição: guerra nunca é nobre, apenas necessária.

Na época, Erich tinha acreditado nele. Agora, com fumaça saindo dos destroços de uma coluna francesa ainda em chamas no horizonte, acreditava ainda mais.


Longe, em Berlim, o Estado-Maior analisava mapas, rastreando setas pela Bélgica e França.

Ordens chegavam e saíam, coordenando deslocamentos, abastecimentos, alocações de artilharia.

Um mensageiro aproximou-se com um telegrama e entregou-o na mão de Bruno von Zehntner.

Bruno leu uma vez, dobrou cuidadosamente, e deixou o barulho do quartel desaparecer.

Sua expressão endureceu.

Ele conhecia a dura realidade da logística: não há forma segura de evacuar os prisioneiros presos entre Ypres e a fronteira.

Por pouco conseguiam tirar seus próprios feridos.

E a memória o consumia.

Na Grande Guerra, ele tinha mostrado misericórdia, tratando prisioneiros com dignidade quase luxuosa. Sua recompensa?

Aqueles mesmos homens voltaram para casa para denunciá-lo como um açougueiro e um tirano, histórias que alimentaram o ódio que agora armava outra geração.

Não. Ele não cometeria esse erro duas vezes.

A voz de Bruno cortou o burburinho, fria e definitiva.

"Informe ao Oberstleutnant e a todas as unidades presas entre Ypres e a fronteira belga: não dispomos de meios para evacuar combatentes desarmados. Devem ser eliminados assim que capturados. Entendido?"

O ajudante congelou, os olhos variando em direção aos generais reunidos.

Nenhum falou. Um deixou cair a caneta; outro engoliu em seco. O silêncio pesava como um peso.

O olhar de Bruno fixou o ajudante. "Vai? O que está esperando? Transmita minhas ordens."

A espinha do rapaz ficou rígida. Ele cumprimentou e saiu imediatamente, os passos tocando rápido demais no mármore.

Bruno respirou fundo e voltou à mesa de mapas. "Hoje em dia, é difícil encontrar gente competente, não acha?"

Ninguém respondeu.

Os generais permaneciam rígidos, pálidos, como coelhos diante de um lobo. Finalmente, um murmura o que todos temiam falar.

"Combatentes desarmados…"

Bruno sorriu de lado.

Uma lembrança de outra guerra cruzou sua mente: prisioneiros de guerra alemães no final de 1945, despojados de seus direitos sob aquela mesma euphemismo.

"Sim. Combatentes desarmados. Não são prisioneiros de guerra. Não lhes devemos nada. Está certo?"

As palavras permaneceram no ar como fumaça, uma sombra sobre a sala, mesmo após Bruno fechar a porta de seu escritório.

Bruno sentou-se em sua cadeira, olhando para a foto na sua mesa.

Uma foto de quando era mais jovem.

Quando eram mais jovens.

E quando Erich von Humboldt ainda estava vivo.

Ele já tinha fingido que guerra podia ser travada com cavalheirismo, que um inimigo poderia ser tratado com dignidade e respeito, e que a misericórdia seria lembrada.

Chegou até a exercer essa misericórdia pessoalmente.

Charles de Gaulle foi prisioneiro de guerra, alimentado bem, alojado decentemente, até tratado como homem, e não como animal.

E como a França retribuiu isso? Com veneno.

De Gaulle mesmo era a prova de que a bondade só alimentava mais ódio, que misericórdia não cura feridas, apenas as agrava.

Bruno deixou de acreditar nessas ilusões.

O mundo agora estava mergulhado em outra Grande Guerra, e foi a misericórdia dele que plantou as sementes dela.

Ao devolver a foto ao móvel, lembrou de um velho ditado:

"É melhor ser temido do que amado, se não se pode ter os dois."

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