Re: Blood and Iron

Capítulo 662

Re: Blood and Iron

A neve rangeu sob os passos dele enquanto Bruno entrava no cemitério.

Cada passo afundava na neve, o som agudo e oco na quietude do entardecer.

Ele não tinha ido direto para casa após a morte do pai, ocorrida há poucas horas.

Em vez disso, visitou o túmulo militar onde estavam sepultados os maiores heróis da Prússia, todos recebendo honras de destaque.

Ele caminhava sem lanterna, sem guia. Não precisava de um.

Não havia hesitação, nem pausa para procurar direção. Seu corpo sabia o caminho.

Ele já percorreu esse trajeto tantas vezes que virou memória muscular, tão natural quanto as rotas de patrulha de um soldado.

Uma vez, fora de Tsaritsyn, ele e Erich trilhavam os mesmo circuitos noite após noite, enfrentando lama e geada enquanto cercavam a cidade que os Vermelhos haviam tomado em 1905.

Naquele tempo, os pés dele marcavam linhas na terra, assim como agora as pegadas na neve formavam o caminho.

O vento cortava seu rosto, afiado e abrasivo, mas ele continuava, impassível.

O frio não era novidade para ele. Já suportou muito pior nas trincheiras e, se o frio não conseguiu derrubá-lo lá, não o faria agora.

Finalmente, chegou ao túmulo.

Parou, ficando em silêncio. A noite não havia vento.

Apenas o suave cair de neve que perturbava o mundo, pousando em seus cabelos, agarrando-se aos ombros, cobrindo a pedra diante dele.

Por um bom tempo, ficou calado.

Então, finalmente, numa voz quase sussurrada, falou.

"Pensar que, de todos os homens que enterrei nesses anos… você é o que mais tento revisitar."

Seu hálito se transformava em vapor na frieza do ar, desaparecendo rapidamente, como as próprias palavras.

Ele olhou para a lápide, com a inscrição clara, mesmo através do orvalho:

Erich von Humboldt: Herói do Reich.

"Nem sempre foi assim, foi?" Bruno murmurou. "Você era o moleque mimado, o cadete protegido que zombava de mim a toda hora. Devia ter te odiado para sempre. Talvez até tivesse, nos primeiros dias."

A neve assobiava sutilmente contra seu sobretudo, a única resposta.

"Mas a Academia te quebrou. Tirou toda a suavidade de você. Vi o garoto que zombava de mim ser forçado a sangrar, a suportar, a se levantar de novo. Quando o mundo nos levou à guerra, você virou outra coisa. Você virou meu amigo… Meu irmão."

A palavra Irmão… Uma que normalmente evocava camaradagem, de afeto materno ou fraternal. Uma que não tinha significado para Bruno. Não por muito tempo.

Ele refletiu sobre os anos de infância, quando seus próprios irmãos o tratavam como um lixo. Ou pior: como se ele não existisse.

Um suspiro pesado escapou de seus lábios, o hálito quente formando vapor na fria brisa de inverno, enquanto olhava novamente para o nome inscrito na lápide.

"Nunca amei meus irmãos… Para um homem, é uma vergonha admitir isso. Acredite, eu sei disso no meu coração, melhor do que ninguém. Mas você e Heinrich eram os irmãos que encontrei nesta vida. Não de sangue, mas de sangue derramado em busca de glória, fidelidade, dever…."

Seus olhos se fecharam, e viu de novo, a chuva de 1916, o céu negro sobre o Reich, lá no fundo atrás das linhas de frente, as trincheiras, onde sangue e ossos apodreciam sob a lama.

O último aceno de Erich, firme e decidido. A ordem que Bruno deu. A obediência com que Erich marchou em direção à morte.

"Disse a mim mesmo que era dever," Bruno falou baixinho. "Que era necessário. Que o Reich exigia. Talvez fosse mesmo. Mas vivi tempo suficiente para saber a verdade: tudo isso foi inútil. Enviei você para a morte porque não enxerguei outro caminho. Não consegui imaginar um. E por esse fracasso, condenei ambos."

Sua mão tocou a pedra fria, varrendo a neve dela.

"Fiz as pazes com isso, se a paz for possível. Cumpri minha promessa, pelo menos. Agora, o mundo te chama de herói, não de traidor. Cantam seu sacrifício. Sua família se orgulha. A história te lembra como eu quis. Mas você e eu sabemos a verdade. E Deus também."

O cemitério se estendia silencioso ao seu redor, um bosque de pedras brancas.

Aqui jaziam generais que marcharam ao seu lado, príncipes que brindaram à vitória em salões iluminados por velas, soldados que morreram sem nome, mas não esquecidos.

Ele caminhou entre eles por anos, vendo as fileiras aumentarem a cada estação.

E, cada vez mais, percebia-se o último a ficar de pé em cada lembrança.

O peso da sobrevivência pressionava mais do que a própria sepultura nunca poderia.

Seu olhar vagou entre as tumbas, e sentiu o peso dos anos sobre ele.

"Meu pai já se foi. Hoje, vi ele morrer, assim como vi você. Sua mão era frágil, quase transparente, mas naquele último momento, ela segurou a minha com a força de um século."

Bruno permaneceu ali em silêncio por alguns momentos, desesperado para encontrar palavras que fizessem justiça ao homem que ele havia perdido.

"Ele era de uma raça diferente. O último de uma era que já passou. Um Junker prussiano que viu o velho Kaiser sendo coroado, que sepultou imperadores e viu o Reich surgir do ferro e do sangue."

Sua voz embargou, um leve gaguejar escapando de seus lábios, ameaçando se partir sob o peso da emoção.

"E agora, ele também foi enterrado, deixando-me a dúvida se vivi à altura do homem que me criou, ou se traí o mundo em que ele acreditava."

Sua respiração ficou pesada enquanto Bruno lutava contra as lágrimas que se acumulavam atrás de seus olhos cor de céu.

"Nicholas, partiu. Até Wilhelm está desaparecendo, e logo o mundo o baixará na terra também. Tudo que criei, tudo que lutei para preservar, vai sendo levado, uma coisa após a outra."

Ele deu uma longa inalação, o gelo saindo de seus lábios como uma fumaça.

"Achei que essa vida fosse uma dádiva, uma segunda chance. Mas agora vejo o que ela realmente é: um palco de perdas. Até minha Heidi, até meus filhos, brilhantes, rindo, vivos — um dia, estarei sobre seus túmulos como estou sobre o seu."

Os olhos de Bruno ficaram vidrados como se a dor tivesse penetrado fundo, atingindo seu coração como uma baioneta. Instintivamente, ele se segurou no peito, olhando para baixo, enquanto as palavras escapavam de seus lábios.

"Ou pior, eles irão ficar sobre o meu… Essa é a maldição do amor, não é? Vencer o mundo e ainda assim ser impotente para impedir que ele escorregue entre os dedos."

A quietude se acentuou. Bruno endireitou-se, erguendo os ombros contra o frio, a mão ainda repousando sobre a lápide.

Depois, mergulhou a mão no bolso e puxou um maço de cigarros novo.

Um vício que há muito tempo abandonara.

A última vez que fizera isso fora quando ordenou o fim da guerra entre Alemanha e Japão — com fogo e fúria.

Agora, havia voltado ao velho e nojento hábito. Não por estresse, mas por luto.

Enfiou o cigarro na boca enquanto tentava, com mãos trêmulas, acendê-lo.

Dedos que pararam no instante em que a velha droga cancerígena entrou em seus pulmões.

A fumaça se elevou para a noite, e por um breve instante, quase sorriu.

"Sabe," ele murmurou, com o olhar fixo na pedra, "Heidi me mataria se soubesse que estou fumando de novo…"

Mas não houve risadas.

Nem momento de catarse compartilhada entre irmãos de armas, trocando comentários sombrios sobre seu destino.

Havia apenas silêncio.

E essa era a parte mais cruel de tudo.

Pelo menos, Erich não tinha resposta, nem uma piada grosseira para aliviar o peso. Nenhuma maldição cuspida ao mundo que ambos odiavam.

Apenas silêncio, e a lápide que não respondió nada.

Não foi alívio o que Bruno sentiu ao soltar a fumaça após anos.

Não, foi vergonha… remorso, culpa até.

E então, ele olhou para o céu, dando mais uma tragada.

Porque às vezes, o que é necessário… é vergonhoso.

Um suspiro pesado escapou de seus lábios.

"Às vezes me pergunto… qual foi o sentido de tudo isso?"

Depois, jogou o cigarro no chão e pisou, apagando-o com força—culpando-se, sentindo o julgamento invisível do amigo do além.

"Descanse agora, Erich. Você carregou meus fardos uma vez. E não deveria mais ser o peso que eu lhe imponho."

Ele virou-se, a neve rangeu de novo sob seus sapatos enquanto caminhava na direção do portão.

No limiar, parou, voz baixa, lançada à noite vazia:

"Qual é o propósito do dever, se ao final, tudo que lutei tanto para preservar se torna memória no fim? E quando até a memória desaparecer, o que sobra de nós afinal?"

A neve não respondeu. Apenas silêncio profundo e eterno.

Comentários