Re: Blood and Iron

Capítulo 660

Re: Blood and Iron

A neve castigava o Neva como um chicote.

Além das janelas congeladas do Palácio de Inverno, a cidade de São Petersburgo brilhava sob uma névoa de luz de tempestade, cúpulas e torres sobressaíam na escuridão congelada, como as costelas de algum leviatã antigo.

Por dentro, o fogo arderia baixo, crepitando na lareira enquanto sombras vacilavam em volta de molduras douradas e santos pintados.

Elsa von Zehntner, czarina da Rússia, estava enroscada numa cadeira de encosto alto, vestida com bico de peles de texugo.

Suas mãos de luva repousavam suavemente sobre uma pilha de relatórios, com o selo do Estado-Maior impresso em cera.

Ela já os tinha lido duas vezes, embora mal precisasse. Conhecia as palavras, o tom, o ritmo de meias-verdades disfarçadas de progresso.

Do outro lado da mesa, Alexei, czar de Toda a Rússia, inclinava-se com os dedos entrelaçados sob o queixo, estudando-a.

Seu rosto pálido na luz do fogo carregava o cansaço de inúmeras audiências, mas ainda havia uma centelha de orgulho em seus olhos.

Orgulho e desafiança, ambos.

"Nossos novos E-50s estão saindo da linha de montagem em Chelyabinsk," ele anunciou finalmente, como se estivesse revelando um milagre. "Duas brigadas até a primavera. Blindagem mais espessa que qualquer coisa que os aliados possam produzir, motores duas vezes mais potentes e tripulações treinadas em manobras modernas. Uma verdadeira lança de aço para o Império."

Os olhos azuis de Elsa ficaram no papel.

Esquemas técnicos.

Números de produção.

A silhueta do próprio tanque.

Por padrão russo, era ágil, angular, brutal — prático.

Mas, à sua vista treinada por Bruno, aperfeiçoada ao longo de anos de observação da doutrina blindada do Reich, ela também parecia incompleta.

"Você se orgulha," disse ela suavemente, sem maldade.

Alexei recostou-se, observando-a. "Não deveria?"

Ela deixou a pergunta pendurar antes de responder.

"Blindagem de aço fundido. Motores a diesel que superaquecerem em nevascas. Sem carregadores automáticos. E esses atiradores…"

ela bate na margem de um relatório, "estão olhando através de ópticas que meu pai descartou há uma década."

O maxilar do czar se fechou com força. Por um momento, a tempestade lá fora parecia ecoar dentro dele.

"Você sempre nos compara à Alemanha," ele disse.

"Com as máquinas do seu pai, com os milagres dele. Mas a Rússia não é a Alemanha. Lutamos para sair da ruína. Do caos. Sem ele, sem você, não sobraria império algum para construir tanques."

Elsa abaixou o olhar, ajeitando a ponta do pergaminho com os dedos. Ela sabia a verdade nas palavras dele.

Ela tinha sabido sobre o avanço do pai pela Rússia em 1905 por grande parte da vida.

Quando a Divisão de Ferro de Bruno cruzou a fronteira e estrangulou a serpente bolchevique antes que pudesse nascer.

Cresceu sabendo que as escolhas do pai salvaram a Rússia, preservaram a dinastia.

E, no entanto…

"Você pediu sinceridade," disse ela, com a voz silenciosa como a neve caindo.

"E a verdade é esta: o Reich constrói tanques que lutam na escuridão com olhos que veem o calor em si. Eles os blindam com compósitos que desviam obuses. Conectam-nos em rede com aeronaves, infantaria, satélites acima das nuvens. E aqui…,"

ela levantou o papel delicadamente, quase tristemente, "ainda lançamos chassis de aço e rezamos."

Alexei permaneceu em pé, caminhando até a janela, com as mãos entrelaçadas atrás das costas. A neve atacava o vidro, formando uma cortina branca entre ele e a cidade que governava.

"Você acha que não sei disso?" Sua voz era baixa, áspera. "

Todos os dias eles me lembram. Todos os dias sento diante de Bruno, dos seus marechais, dos seus irmãos, e vejo a lacuna. É uma ferida que nunca cicatriza. Meu pai se aliou a eles achando que seria uma parceria igualitária. E apesar de o Rússia estar mais forte do que nunca por causa dos nossos acordos de pesquisa conjunta, o Reich avança. Suficiente para nos manter firmes, mas nunca para nos igualar."

Elsa levantou-se silenciosamente, indo até ele. Sua mão deslizou na dele, dedos frios aquecidos por sua palma.

"Foi intencional," admitiu ela.

"Meu pai nunca diria isso, mas eu sei. Ele te mantém perto. Confia em você. Mas não pode arriscar a paridade. Se a Rússia algum dia igualar a Alemanha, a aliança se tornará rivalidade."

Alexei se virou para ela, os olhos buscando os dela. "E o que você acha disso?"

Ela manteve o olhar sem recuar. "Acho que você tem razão em se orgulhar. Reconstruir o que quase se perdeu não é pouca coisa. E acho que meu pai te ama mais do que qualquer aliado que ele tenha. Mas amor não é igualdade. Nunca foi."

O silêncio caiu entre eles, pesado como a tempestade de neve contra o vidro.

Finalmente, Alexei exalou, soltando um suspiro longo, cansado. "Então a Rússia sempre será segunda."

"Segunda a nenhuma a não ser pelo Reich," Elsa corrigiu suavemente. "E neste mundo, isso pode bastar. Melhor ser segunda do que destruída."

Ele olhou para ela, para a determinação de aço na sua voz, para a certeza silenciosa herdada de sua linhagem. A filha de Bruno, o Leão do Tirol, falando não como esposa, mas como soberana.

Seus ombros relaxaram, ainda que levemente. Ela beijou sua mão, fechando os olhos por um momento.

"Você é meu fogo, Elsa," murmurou ele. "Sem você, eu veria só sombras."

"E sem você," ela respondeu, puxando um fio de cabelo do rosto dele, "a Rússia viraria cinzas. Não se esqueça disso. Meu pai pode dar armas, mas só você pode empunhá-las."

lá fora, a tempestade rugia. Dentro, o fogo continuava a queimar, crepitando na silêncio.

E Elsa, olhando para as chamas, pensava, não pela primeira vez, se essa aliança de gigantes era uma fundação de pedra… ou meramente gelo esperando rachar sob o peso da guerra.

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