Re: Blood and Iron

Capítulo 619

Re: Blood and Iron

As lâmpadas do escritório de Bruno lançavam uma suave luz âmbar sobre as prateleiras e mapas, o ar impregnado com um leve aroma de conhaque e papel.

Do lado de fora, a noite de Berlim vibrava suavemente; a cidade nunca dormia de verdade.

Heidi estava enrolada na cadeira de couro em frente à sua mesa, com um copo na mão, os olhos fixos nele além da borda.

Bruno recostou-se, girando o líquido âmbar no copo antes de falar.

"A saída de Roosevelt dos Aliados conquistou-lhe uma certa popularidade entre o povo," disse, a voz firme, mas com um toque de desgosto.

"As negociações dele para acabar com a guerra nas Filipinas, uma guerra que herdou dos últimos tolos, restabeleceram uma medida de confiança. Principalmente porque ele sobreviveu a uma tentativa de assassinato daqueles terroristas lá do outro lado. As pessoas adoram um sobrevivente."

Heidi inclinou a cabeça levemente. "Mas você não acha que isso será suficiente?"

Bruno sorriu de leve. "Suficiente? Não, mas terá peso. Infelizmente, a guerra na Espanha ainda insiste na memória dos eleitores americanos. Milhares de filhos deles morreram naquela farsa, e não vão perdoar isso facilmente. Pode ser que eles não acreditem nas promessas de que ficarão fora de guerras estrangeiras de novo."

Ela bebeu um gole, pensando. "E, no entanto… você nunca foi de deixar as coisas ao acaso. Você tem... como dizem? Diversificado seus investimentos?"

Ele olhou para ela através da borda do copo, o brilho mais sutil nos olhos.

"Querida... você precisa mesmo perguntar? Tenho comprado influência nos Estados Unidos desde o início do século. Indústria, imprensa, linhas de navegação, bancos. Eu possuo pedaços do mundo deles que nem percebem que são meus."

"E ainda assim," ela disse, com um sorriso suave nos lábios, "você continua preocupado."

"Destino," ele disse de forma seca, "parece favorecer Roosevelt. Não importa quanto dinheiro eu jogue na questão, parece que ela não se resolve..."

Heidi inclinou-se um pouco para frente, apoiando o copo na mesa. "Então talvez a resposta não seja mais dinheiro."

Bruno levantou uma sobrancelha. "Continue."

"Homens como Roosevelt prosperam na ideia de inevitabilidade," ela disse. "Quebre essa ilusão. Encontre a rachadura, e as pessoas deixarão de acreditar que ele é intocável."

O olhar de Bruno permaneceu nela, os cantos da boca puxados em algo entre sorriso e sorriso torto. "Você realmente é a esposa perfeita..."

Ela levantou o copo novamente, encontrando seus olhos. "Não se esqueça disso."

O som do cristal batendo foi o único por um longo momento, o peso silencioso do cálculo político se instalando entre eles como uma terceira presença na sala.

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A sede da campanha era uma casa de pedra convertida, numa rua silenciosa, escolhida por privacidade tanto quanto por conveniência.

A chuva tamborilava contra as janelas, e o ar tinha um cheiro sutil de café frio.

Um mapa dos Estados Unidos cobria a parede do fundo, pontilhado com alfinetes vermelhos e azuis. Ao redor da longa mesa, os assessores seniores de Roosevelt estavam em diferentes graus de fadiga e frustração.

O próprio Roosevelt ocupava a cadeira de cabeça, numa cadeira de rodas inclinada de um jeito, com um cigarro na mão na posição de quem pensa.

"Bruno von Zehntner," disse um dos jovens assistentes, apontando um dedo para uma pilha de relatórios.

"Não conseguimos determinar sua extensão exata, mas ele está em todos os lugares. Em jornais, transporte marítimo, ferrovias, metade da indústria de Chicago, até algumas usinas de aço em Pittsburgh têm suas impressões digitais."

Um estrategista mais velho esfregou os olhos. "Suspeitamos há anos que ele vinha investindo na indústria americana. Nunca conseguimos provar o quão profundos são esses vínculos, intermediários estrangeiros, empresas de fachada, tudo em papel, legal."

Roosevelt apagou a cinza no cinzeiro, expressão indecifrável. "Então, ele decidiu que não se importa com meu governo. E?"

"E," o jovem insistiu, "ele está silenciosamente financiando seu adversário. Não só com dinheiro, mas também controlando editoriais. Está manipulando manchetes sem que ninguém perceba."

Um silêncio caiu, quebrado apenas pelo suave tique do relógio.

Finalmente, Roosevelt falou, com voz calma. "Não importa o quanto ele possua. Ainda é minha eleição para perder. E não pretendo perder."

O estrategista mais velho olhou para cima. "Senhor, isso não é como competir contra um homem. É como lutar contra uma sombra. Você não consegue acertar um golpe nele, porque ele não está aqui."

O queixo de FDR se apertou. "Então, fazemos com que ele venha até aqui."

"Como?" perguntou o jovem assistente.

Roosevelt esboçou um sorriso tênue. "Fazemos ele acreditar que a única coisa que ele não tem, está escapando de suas mãos. E, quando tentar pegá-la—" ele fechou a mão em um punho "—é aí que fechamos a armadilha."

Do lado de fora, a chuva intensificou, correndo em riachos pelo vidro, borrando as luzes docapital ao longe.

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O mensageiro chegou pouco após meia-noite, com uma maleta de couro fina debaixo do braço, a águia do Reich estampada em cera preta no selo.

Ele esperou na sala de estar enquanto Heidi, já de roupão de dormir, se apoiava na porta para assistir Bruno abrir a gaveta.

Lá dentro, havia uma única carta dobrada, escrita em papel creme fino, daquele tipo que as embaixadas usam quando querem que o destinatário se sinta importante.

Bruno leu em silêncio, os olhos se movendo num ritmo constante, sem nenhuma expressão que traísse seus pensamentos.

Quando terminou, deixou a página ao lado do decantador meio cheio e abriu mais um copo.

"Então?" perguntou Heidi.

Ele bebeu um gole longo antes de responder. "Os americanos querem uma reunião privada. Fora do livro. Em Berna."

"Berna?" Ela entrou na sala. "Território neutro."

"Neutro," concordou ele, a palavra carregando a secura suficiente para azedar leite.

Ele entregou a carta a ela. "Alegam que é para discutir acordos comerciais, contingências pós-eleição. Nada vinculante, apenas... conversa."

Heidi leu a página, franzindo o cenho. "É isca."

"Ah, claro que é isca." Bruno se acomodou na poltrona, o copo relaxadamente na mão.

"Esperam me atrair para o teatro deles, fazer eu atuar no palco deles, sob suas luzes. O que significa que acham que têm um roteiro que eu não consigo resistir."

Ela colocou a carta de volta na mesa. "Eles têm?"

O olhar de Bruno se desviou para a janela encharcada de chuva.

As lâmpadas da rua brilhavam pálidas na neblina, refletindo em seus olhos. "Ainda não. Mas vão tentar me convencer de que sim. Essa é a parte interessante."

Ele deixou o silêncio se alongar, o tique do relógio marcando cada pensamento.

"Se eu for, eles vão achar que me pegaram entre precisar de algo e temer algo. Se não for, vão interpretar como se me tivessem assustado."

Heidi atravessou até o bufê, encheu um copo e se apoiou na mesa. "Então, você está considerando."

"Estou pensando se é mais útil entrar na armadilha deles... ou mandar um presente em vez."

"Um presente?"

Bruno sorriu levemente. "Algo que eles vão interpretar como eu me envolvendo... até puxarem a corda e encontrarem só a sombra."

Ele colocou o copo na mesa, o cristal tocando suavemente a madeira.

"De qualquer forma, eles vão me mostrar que jogo acham que estão jogando. E aí—"

Ele se recostou, com os olhos semi fechados, pensativo—"—vou mudar as regras."

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A Sala Oval estava densa de fumaça de cigarro, o ar de inverno lá fora não conseguindo diminuir o calor do grupo de homens reunidos ao redor da mesa do presidente.

"Ele concordou," anunciou o Secretário de Estado, batendo no telegrama para reforçar. "Berna, daqui a dez dias. A própria formulação dele confirma: Bruno von Zehntner vai comparecer pessoalmente."

Um murmúrio de satisfação percorreu a sala.

Roosevelt recostou-se, ajustando os óculos, o suporte de cigarro entre dois dedos.

"Então, é por aí que começamos. Senhores, é hora de escrever os termos antes mesmo dele botar o pé na Suíça."

O Secretário da Guerra sorriu com displicência.

"Ainda acho poético: atraí-lo para território neutro, fazê-lo dançar sem seus exércitos. Podemos cercá-lo com meia dúzia de propostas, cada uma mais perto de forçá-lo a aceitar publicamente."

Um assessor, jovem demais para esconder sua animação, falou. "E se ele reagir mal, vazamos o registro. Fazemos parecer que ele é irracional para as nações neutras. Que ele é o agourento, quem recusa a paz."

Roosevelt assentiu lentamente. "Exatamente. Ele entrou na nossa arena. Agora, o palco é todo nosso."

Do outro lado da mesa, o Secretário do Tesouro clarou a garganta. "Então, acho que é hora de contar que houve… um desenvolvimento."

A sala ficou em silêncio.

"Um desenvolvimento?" Roosevelt perguntou.

"Sim, senhor." O homem empurrou uma folha de papel na mesa.

"Nosso departamento financeiro confirmou que, nas últimas 72 horas, várias grandes empresas americanas de aço e transporte marítimo, com ligações indiretas com o governo, tiveram participações de propriedade compradas de modo silencioso. Os compradores são… empresas de fachada. Registradas no Uruguai, Argentina, até no Canadá. Mas o rastro leva às holdings que sabemos serem controladas pelo trust europeu de Zehntner."

O jovem assistente franziu a testa. "E daí? Ele já vinha comprando indústrias americanas há décadas."

A voz do Secretário do Tesouro era seca. "Essas empresas são as mesmas contratadas para cuidar da logística da expansão da nossa frota no Pacífico, na próxima primavera. Sem elas, não conseguimos movimentar metade do material que prometemos à Marinha."

O cigarro de Roosevelt pausou no ar, quase como se fosse uma peça que parou no meio da jogada.

O Secretário da Guerra murmurou: "Ele já moveu uma peça antes mesmo de começarmos a jogar."

O Secretário de Estado deu um suspiro desconfortável. "Senhores, não creio que Bern seja a armadilha que imaginamos."

Os olhos de Roosevelt estreitaram, um primeiro traço de preocupação se instalando. "Não," ele afirmou lentamente. "Parece que o homem pretende negociar com uma mão… enquanto a outra já está na nossa garganta."

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