Re: Blood and Iron

Capítulo 636

Re: Blood and Iron

O barulho da luta de boxe ainda ecoava pelo Coliseu, uma onda de incredulidade percorrendo as cadeiras, quando outro aplauso surgiu do campo.

Desta vez, não pela Alemanha, mas pelos bandeiras branca e azul da Rússia.

Um salto com vara tinha superado uma altura nunca antes atingida por um atleta russo.

Alguns minutos depois, outro competidor, vestido de vermelho-imperial com preto, conquistou o segundo lugar numa corrida, a diferença medida apenas em batimentos cardíacos.

Bruno observou tudo. Todos na cabine do Reichstag também. Não foi por acaso.

Os Romanov haviam estudado.

E copiado.

O marido de Elsa, agora Tsar Alexei, inclinou-se para frente na cadeira com um sorriso raro, seu rosto ainda juvenil sob a coroa de autoridade, mas marcado pelos anos de sobrevivência.

Ele aplaudiu com orgulho deliberado enquanto os compatriotas dele se curvavam. Quando o barulho diminuiu, virou-se para a esposa, pegou sua mão e deu um beijo em seus dedos.

"Meu amor", murmurou em alemão, de modo que apenas os mais próximos pudesse ouvir. "Seu pai nos presenteou com coisas além do imaginável. Estamos aqui só por causa dele, e por você."

A expressão de Elsa não mudou, embora uma tênue fagulha de triunfo brilhasse nos olhos dela.

Ela inclinou a cabeça, aceitando os agradecimentos com a mesma calma elegante que demonstrava em toda vitória.

Do outro lado, Eva cerrava a mandíbula. Reclineda na cadeira, com os braços cruzados, o vestido prateado refletindo a luz, ela lançou à irmã um olhar infantil que carregava mais aço do que palavras.

Como você pôde?

O olhar dizia, puro e sem filtros, como se Elsa tivesse traído algo sagrado na família ao compartilhar demais.

Elsa encarou-a lentamente. Não falou. Não precisava. Seus olhos diziam tudo, glaciais e deliberados: Papai nunca disse que eu não posso contar ao meu marido seus segredos.

O ar entre elas rachou como aço esticado.

Bruno estava sentado entre elas, imóvel, com os olhos fixos no campo, como se nada tivesse acontecido.

Porém, o canto da boca dele o traía. Uma leve curva para cima, tão sutil que só um homem como ele poderia ter conseguido, revelava não aprovação, mas reconhecimento.

Ele já havia visto aquilo antes, há muito tempo, quando duas meninas brigaram com bolsas de moedas ao invés de coroas.

Agora, as apostas eram impérios.

E nenhuma tinha mudado.

As competições continuaram. De campo a pista, de piscina a plataforma, de evento a evento, e através de tudo um ritmo emergiu.

O domínio da Alemanha era indiscutível; seus atletas quebravam recordes como se números assim fossem feitos para serem superados.

Mas por trás deles, na distância suficiente para ser notada, mas nunca alcançada, marchavam os russos.

Segundo lugar. Repetidamente.

Um ouro aqui, outro ali, só para manter a competitividade. Mas nunca numa posição de dominar.

Um nadador russo tocou a parede uma batida do seu rival alemão.

Um halterofilista se esforçou, travou e segurou a barra acima da cabeça, mais forte que qualquer outro, exceto pelo colosso das cores do Reich que tinha passado logo antes dele.

Até na esgrima, onde as lâminas russas dançavam com orgulho herdado, eles vacilaram por um ponto contra o sistema alemão que Elsa mesma havia sussurrado à existência anos atrás.

Ao entardecer do segundo dia, o placar refletia claramente o padrão: Alemanha, primeiro. Rússia, segundo. Todos os demais, bem atrás.

Alexei se endireitou a cada medalha russa, o orgulho aquecendo suas feições, mas algo brilhou por baixo disso.

Uma irritação que ele não conseguiu realmente suprimir. Quando os números foram novamente contados e a Rússia ficou apenas em segundo lugar, sua mão apertou o apoio do assento.

Elsa se inclinou para perto, colocando a mão na dele com uma suavidade que ninguém no estádio teria achado que ela fosse capaz.

Suas palavras, inaudíveis a todos, exceto a ele, estavam embaladas em seda:

"Você foi magnífico, meu Tsar. Você não percebe? Sozinhos estávamos à deriva. Juntos, só estamos atrás do poder do Reich. Você elevou a Rússia mais alto do que ela esteve em gerações."

Alexei exalou, deixando a tensão sair lentamente com um suspiro. Ele virou-se para ela, beijou sua testa e deixou suas palavras se espalharem como bálsamo em uma ferida.

Seu orgulho foi reconfortado. Sua frustração, acalmada. Ele acreditava.

E Elsa, observando-o com aqueles olhos azul glaciação, sorriu sutilmente enquanto voltava o olhar para o estádio. Além da multidão. Além das bandeiras. Além do suspiro consolador do marido.

Seus olhos encontraram o do pai.

Bruno não se moveu, mas a viu. Ele sempre a via. Ela lhe deu uma piscadela discreta, sutil como o tremor de uma vela acesa, e então voltou ao abraço do marido, apoiando a cabeça no ombro dele como se o dia a tivesse cansado.

Para Alexei e os Romanov, ela era a esposa dedicada, a consorte que tinha aproximado a Rússia da glória mais do que ela jamais tinha estado.

Mas, sob o cetim, sob a postura, as raízes de Elsa eram mais profundas do que os palácios de São Petersburgo.

Ela nasceu filha da Prússia. Elevada à posição de Grã-Princesa do Tirol, criada pelas mãos do pai.

E embora tivesse se tornado uma imperatriz na Rússia, fez isso unindo-a, fiapo por fiapo, juramento por juramento, criança por criança… para sempre à Alemanha.

Seu marido poderia ver uma medalha de prata como perda.

Mas Elsa sabia que era melhor do que isso.

Era a distância perfeita.

Prata para o ouro da Alemanha. Sempre em segundo. Sempre presa.

--

Os dias finais dos Jogos foram menos competição e mais coroação.

A Alemanha não venceu apenas; ela dominou. Recorde após recorde caía sob a precisão e o preparo de seus atletas.

O placar dizia claramente: o Reich em primeiro em ouros, pratas e bronzes, primeiro em todas as categorias importantes.

Logo atrás, como Elsa quase tinha orchestrado, a Rússia erguia-se orgulhosa em segundo.

Seus atletas mostraram-se formidáveis, seu treino refinado, mas sempre um passo atrás, sempre meio suspiro mais lento.

Prata sobre prata. Uma sombra respeitosa projetada abaixo do brilho da Alemanha.

Terceiro lugar para a Itália, cujo esgrimistas e velocistas conquistaram seu espaço além das expectativas.

Sem dúvida, Anna ajudou a impulsionar sua ascensão. Apesar de seu tempo como princesa ter sido breve.

Ela também começou a tecer a teia que Elsa há muito tempo conseguiu capturar o czar e toda a Rússia.

Eles se curvaram com orgulho, mas sua vitória foi abafada, eclipsada pelos dois impérios que os superavam.

Abaixo, ressentimentos fermentavam.

Os americanos estavam de mau humor, com menos medalhas do que o orgulho exigia.

Seus jornais prometiam um desafio à Europa; ao invés disso, seus atletas voltaram humilhados, despojados de ilusões.

A delegação francesa estava vermelha de raiva, murmurando sobre "vantagens injustas" enquanto seus boxeadores ainda estavam saboreando sangue.

Os britânicos pareciam sérios, seu orgulho imperial esgotado pelos números no quadro.

Quando a cerimônia de encerramento começou, o estádio explodiu em trovão.

As bandeiras dos vencedores foram hasteadas, o hino do Reich inundado por metais e tambores enquanto a tocha olímpica se consumia em brasas.

Um hino que uma vez imitou a melodia de "God Save the King" agora a superava completamente, em grandeza e prestígio.

Atletas abraçaram-se, choraram, saudaram. A multidão rugiu com admiração, e o mundo inteiro assistiu, compreendendo o significado.

Não era só esporte. Era prova. Prova do sistema de uma nação, sua disciplina, seu futuro. Prova de poder.

E quando a tocha finalmente foi extinta, quando os últimos aplausos silenciaram na noite de Berlim, os verdadeiros jogos tiveram início.

Em uma sala secreta na embaixada britânica, longe do barulho do estádio, três delegações se reuniram.

O Primeiro-Ministro britânico encarou as folhas de medalhas dispostas diante dele como se fossem relatórios de baixas.

De frente, o ministro das Relações Exteriores francês andava de um lado para o outro como um animal enjaulado, cuspindo maldições na própria língua sobre humilhação e a "propaganda alemã".

O enviado americano permanecia tenso, com a mandíbula cerrada, as mãos cruzadas para não revelar a fúria que carregava.

"Isso é intolerável", reagiu o francês.

"Não podemos permitir que desfilem seu sistema para o mundo como se fosse a verdade absoluta. Nossa gente vê esses números, e vão começar a acreditar."

"Eles já acreditam", murmurou o americano, com voz baixa, pesada pelo reconhecimento.

"Esse é o problema."

Finalmente, o britânico levantou-se, seu rosto pálido.

"O problema não é acreditar. É que funciona."

Ele clicou as folhas com um dedo trêmulo.

"Toda criança na Alemanha é treinada, moldada e condicionada como soldado. Se eles conseguem fazer isso nos esportes, o que imaginam que farão na guerra?"

Silêncio pesado e amargo se instaurou.

Ninguém falou de alianças. Ainda não.

Ninguém teve coragem de dizer em voz alta o que já começava a surgir na mente de todos: que esses Jogos não foram mera competição, mas um aviso.

Em Berlim, as multidões tinham aplaudido. No salão escondido da embaixada, os rivais do mundo se sentaram com punhos cerrados, dentes rangendo de frustração, unidos não pelo triunfo, mas pela humilhação.

A Alemanha conquistou o ouro.

A Rússia aceitou a prata.

A Itália sorriu com o bronze.

E para os EUA, França e Grã-Bretanha, restou apenas o gosto amargo da derrota.

Os Jogos terminaram.

A tempestade que ainda viria mal tinha começado.

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