
Capítulo 626
Re: Blood and Iron
O local de lançamento em Peenemünde estava silencioso, exceto pelo baixo zumbido dos geradores e o ocasional sibilo do vazamento de criogenia.
Além da cerca de segurança, o vento do Mar do Norte varria as dunas, trazendo consigo o cheiro de sal e ferro.
No palco, erguia-se Wotan, um monstro de três estágios, movido a combustível líquido, pertencente à mesma família das mísseis balísticos lançados por submarinos do Reich, elegante, cinza-ardósia, repleto de antenas.
Ele não ostentava marcas de propaganda ou bandeiras; isso não era para os jornais. Era para a história.
Bruno permanecia na galeria de observação blindada, ao lado do Kaiser Wilhem II, do Príncipe Herdeiro e de um pequeno círculo de altos comandantes.
Ele carregava o leve sorriso de quem já sabia o resultado. Anos de investimento em foguetes, em sistemas de orientação aperfeiçoados para mísseis anti-navio e baterias de mísseis antiaéreos tinham culminado naquele momento.
O mundo esperava que o programa espacial do Reich estivesse anos distante de realizar feitos. Estava enganado.
Isso não era um Sputnik, Bruno pensou ao ver o produto final pela primeira vez.
Um produto da amizade e cooperação alemã e russa.
Agora, Bruno estava entre os líderes do Reich alemão e do Império Russo, compartilhando seus pensamentos sobre esse novo avanço.
"Isto é um olho nos céus. Uma máquina que verá tudo." Nos próximos cinco anos, mais virão, formando a rede de inteligência por satélites, um sistema global de posicionamento e capacidade de reconhecimento que nenhuma outra nação conseguirá rivalizar nas próximas três décadas."
Um estalo afiado cortou o ar, seguido pelo estrondo retumbante da ignição. A chama engoliu a base de Wotan enquanto ele se desprendia da Terra.
Cada homem na galeria viu o vidro tremer sob seus pés enquanto o foguete ascendia, encolhendo contra o céu sem nuvens.
Minutos depois, veio a confirmação: o primeiro satélite de observação militar da história estava em órbita estável, com suas câmeras já varrendo a Europa e além.
Bruno simplesmente cruzou as mãos atrás das costas.
"Senhores", ele disse, com a voz firme. "Agora temos a vantagem suprema."
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O ar na Sala do Gabinete estava pesado com fumaça de tabaco e tensão.
No centro da mesa de carvalho polido, espalhavam-se jornais, telegramas e fotografias apressadas da ascensão do foguete alemão.
A manchete do The Washington Herald brilhava no meio, como uma joia da coroa:
ALEMANHA ABRE OS CÉUS – PRIMEIRO OBJETO ARTIFICIAL ALÉM DA TERRA!
Roosevelt inclinou-se para frente na sua cadeira de rodas, as mãos unidas, os olhos estreitados.
"Bem, senhores", começou, "todos podemos concordar que isso não é apenas uma jogada de publicidade."
O contra-almirante William Leahy tocou a imagem granulada do foguete com o dedo indicador.
"É grande demais para ser um balão meteorológico ou sonda atmosférica. E os relatos de Estocolmo confirmam o sinal; ele ainda está transmitindo."
General George Marshall ajustou-se na cadeira.
"Dizem que é um satélite, mas isso é só a ponta do iceberg. Se eles podem colocar algo em órbita, podem colocar qualquer coisa lá em cima. Câmeras de reconhecimento. Relés de comunicação. Até… armas."
Henry Morgenthau franziu a testa. "Armas? Nessa altitude? Isso é absurdo—"
Marshall o interrompeu. "Assim como metade das inovações que vimos surgir do Reich há apenas dez anos."
Harry Hopkins, o mais próximo conselheiro de Roosevelt, tossiu suavemente.
"Senhor, isso muda o jogo. Imagine eles mapeando nossos movimentos de tropas, a posição de nossas embarcações, sem jamais sobrevoar nossos céus."
O olhar de Roosevelt desviou-se para o canto mais distante da sala, onde, sem provas, mas com certeza, sabia-se da existência de algum dispositivo de escuta alemão escondido. Escolheu cuidadosamente suas palavras.
"Só direi isto: nossa posição permanece a mesma. A América… enfrentará esse desafio no devido tempo."
Para seu círculo íntimo, o tom foi claro; haveria uma corrida silenciosa por respostas. Para os microfones ocultos, era a voz da calma indiferente.
Mas sob a mesa, o dedão de Roosevelt batia devagar, de forma medida, contra o apoio do braço da cadeira. Em sua mente, a conta já se formava:
Se podem enxergar o mundo de cima, podem nos enxergar. E se podem nos enxergar, podem nos atacar antes mesmo que saibamos que estamos em guerra.
A sala de reuniões ornamentada do Ministério da Guerra, adornada com molduras douradas e pesadas cortinas vermelhas, parecia incomumente fria.
Do lado de fora, as badaladas de Notre-Dame marcavam a hora da tarde. Dentro, o ar carregava o som do farfalhar de papéis e o ruído surdo dos dossiês sendo colocados sobre a mesa.
Charles de Gaulle erguia-se ao centro, alto e imóvel, com as mãos entrelaçadas atrás das costas.
À sua frente, a última edição do Le Figaro exibia uma imagem da plume branca do foguete alemão, que se torcia na escuridão do espaço. A manchete dizia:
L’EMPIRE ALLEMAND OUVRE OS CÉUS – UM OBJETO ARTIFICIAL EM ÓRBITA.
O olhar de De Gaulle percorreu seus ministros, com os rostos pálidos, lábios finos, a orgulho que havia desaparecido há pouco tempo.
Nem há muito, comemoravam o protótipo final do enorme tanque superpesado francês, um titã de aço destinado a dominar o campo de batalha e restaurar o prestígio francês.
Agora, as celebrações pareciam vazias.
O general Alphonse Juin rompeu o silêncio.
"Se esse satélite for mesmo o que os americanos afirmam, nosso novo Char Cuirassé pode ficar obsoleto antes mesmo de entrar em ação. Que sentido tem blindagem se o inimigo pode rastreá-la do céu?"
Pierre Cot, Ministro da Aeronáutica, ajustou os óculos.
"Não apenas rastrear, general, coordenar ataques. Imagine o poder de sua artilharia, de suas aeronaves, guiadas com precisão a partir de cima. Isso tornaria nossas fortificações irrelevantes."
De Gaulle apertou a mandíbula. "Não vamos entrar em pânico. Esse… teatro, não muda nada a curto prazo. Os alemães podem olhar para baixo na Terra, mas eles ainda sangram, eles ainda morrem."
"Talvez, mon Général", disse Cot, em tom calmo.
"mas eles também mostraram ao mundo que lideram a corrida rumo ao futuro. Nós somos—" ele hesitou, "—um passo atrás."
De Gaulle endireitou-se, com a voz seca.
"Então, daremos dois passos adiante. Duplicaremos o investimento em nosso programa de foguetes. Se eles querem subir mais alto, nós os encontraremos nas estrelas. A França não será envergonhada a ponto de se render."
Os ministros assentiram, mas a dura verdade permanecia.
Na mesa, a foto do jornal parecia zombar deles, com o arco branco e fino subindo sempre mais, levando olhos alemães aos céus enquanto a maior conquista da França ainda permanecia em um hangar, presa à terra.