Re: Blood and Iron

Capítulo 609

Re: Blood and Iron

Bruno permanecia sozinho em seu gabinete, enquanto o pôr do sol lançava linhas nítidas sobre a madeira polida de sua escrivaninha.

A pasta diante dele não tinha nome, apenas o selo imperial e um carimbo de confirmação desbotado. Era mais antiga do que muitos dos oficiais que atualmente serviam sob seu comando.

As bordas estavam amareladas, a encadernação frágil, mas o conteúdo queimava com a mesma intensidade do dia em que fora selado.

Ele tinha evitado esse dia por mais de vinte anos.

adjustou a gola rígida do uniforme. Era incomum usá-lo em casa, quanto mais o uniforme completo de gala.

Mas hoje não era dia de conforto. Hoje era dia de cerimônia, não para o Reich, mas para um homem.

Erich.

O fogo crepitava na lareira atrás dele, mas ele não sentia calor algum. Sua mão pairava sobre a pasta, os dedos tencionando-se como se estivesse indeciso entre puxar uma espada ou uma pena. Por fim, ele a abriu.

Relatórios digitados, memorandos manchados de sangue, fotos de vigilância granuladas, ordens de morte assinadas.

Cada um contava uma história que a história foi proibida de narrar. Oficialmente, Erich von Humboldt morreu como um oficial desonrado, morto durante a resistência à prisão depois de ultrapassar sua autoridade nos últimos dias da Grande Guerra.

De forma não oficial, ele fora a lâmina nas trevas de Bruno, um açougueiro de traidores, um purificador da podridão.

Houve uma época em que Bruno acreditava que enterrar a verdade tinha sido necessário.

O Reich era frágil... A vitória na Grande Guerra estava ao alcance, e a verdade ameaçava uma rebelião em casa.

AMEAÇAVA o mundo que ele havia construído.

Erich pedira anonimato, fama, se necessário, para proteger a paz pela qual tinham lutado. Para proteger Louise.

Mas a paz gerou apatia.

E agora, os abutres circulavam novamente.

Um anúncio de casamento, seu neto Erich, nomeado em homenagem ao próprio homem, prestes a se casar com Erika von Humboldt, filha do fantasma assassinado.

E certos setores da imprensa, que escapavam ao controle de Bruno — sempre os fiéis vendedores de interesses estrangeiros — avançaram como lobos.

"Traição retorna à linhagem."

"Um casamento feito no sangue."

"O futuro do Reich será construído sobre mentiras?"

Bruno já havia visto o suficiente.

Ele fechou cuidadosamente a pasta e se levantou. Seu uniforme estava impecável, as medalhas conquistadas, não herdadas.

Dirigiu-se ao bar, serviu um copo raso de cerveja — não para celebrar, nem para se entregar aos excessos, mas para acalmar os nervos que, mesmo após uma vida de guerra, ainda tremiam diante daquele momento.

Tomou metade lentamente, limpou os lábios com o punho da roupa e saiu do gabinete.

O sol se punha mais baixo sobre o jardim imperial, lançando ouro nas escadarias de mármore.

Uma grande estrutura fora erguida do lado de fora do palácio, com suas bandeiras de ferro negro flanqueando o palco. Câmeras vibravam.

As redes nacionais estavam ao vivo.

Soldados permaneciam em postura rígida ao redor do perímetro. Civis e nobres lotavam o pátio, murmurando com expectativa incerta.

E então ele avançou.

Bruno von Zehntner. Marechal do Reich. Herói da Grande Guerra. Mas hoje, simplesmente um homem com um peso.

Ele caminhou em direção ao púlpito com passos lentos e deliberados. A multidão silenciou.

Ele não começou com palavras agradáveis.

"Dezoito anos atrás," disse, com voz baixa porém afiada, "um homem morreu em silêncio para que vocês pudessem viver em paz."

O vento carregou suas palavras pelo square.

"Seu nome era Erich von Humboldt. Muitos de vocês o conhecem apenas como traidor. Assassino. Um bode expiatório cuja queda preservou a ordem frágil de nossa vitória."

Uma pausa. Deixou o silêncio crescer impregnado de expectativa.

"Hoje, eu lhes digo a verdade."

Ele levantou a pasta, o selo do Reich brilhando ao sol.

"Este arquivo contém as operações confidenciais de um homem que eliminou a sedição em nossa hora de triunfo iminente. Que eliminou aqueles que desejariam ver a Alemanha cair, mesmo ao sangrar seu último sangue. Homens e mulheres, em conluio com agentes estrangeiros, conspirando abertamente com radicais socialistas — que teriam queimar o Reich por dentro, se ele não os tivesse detido."

Ele bateu a pasta no púlpito com força.

"Erich fez o que eu lhe ordenei. O que nenhum homem deveria ser pedido a fazer. O que somente um patriotaseu aceitaria."

A mandíbula de Bruno se tensionou.

"Ele matou não por poder. Não por vingança. Mas por vocês. Para que seus lares não fossem queimados. Para que seus filhos não morressem. Para que nossos inimigos não se banqueteassem com nossa ruína."

Ele apontou um dedo em direção ao horizonte.

"E não se enganem. Os inimigos ainda permanecem."

Sua voz se elevou, carregada por uma raiva não de fúria, mas de propósito.

"França, que ainda guarda um rancor venenoso desde 1871. Grã-Bretanha, que oculta sua hipocrisia em veludo e coroa. E a América, esse império inchado de ilusões, que prega a democracia enquanto pratica o domínio."

Suspiros. Murmúrios. A multidão se agitou.

"Eles têm a audácia de envergonhar meu neto por amar a filha de um herói. E desafiar o futuro do nosso Reich enquanto tramam sua morte por trás de sorrisos."

Ele se inclinou para frente.

"Deixem que saibam: não somos uma nação de homens fracos e vontades ainda mais fracas. Não somos as repúblicas que trocam seu legado por uma paz barata."

Sua mão apertou o púlpito.

"Somos a Alemanha. E se o mundo desejar guerra outra vez, se exigirem que provemos novamente nosso direito de existir, então venham!"

As palavras soaram como trovão.

"Nas palavras do nosso Grande Kaiser. Como declarado na primeira Grande Guerra pela sobrevivência da Alemanha... Resistiremos até o último suspiro de homem e cavalo, e lutaremos até o fim contra um exército de inimigos! A Alemanha nunca foi subjugada quando se uniu. Avante com Deus, que estará conosco assim como esteve com nossos antepassados!"

Aplausos irromperam, mas Bruno ainda não havia terminado.

"Este arquivo," disse, levantando-o novamente, "será divulgado. Com censuras para proteger apenas o que deve permanecer oculto por sua segurança. Mas a verdade será revelada. O registro será corrigido. Erich von Humboldt já não será mais lembrado como traidor. Será reconhecido pelo que realmente foi: o homem que pagou nossa dívida com sangue."

Ele deu um passo para trás do púlpito.

Não houve música. Nenhum hino subiu ao auge.

Somente silêncio.

Depois, um aplauso tímido.

Depois, centenas.

Depois, milhares.

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No palácio imperial, nos salões dourados do Palácio de Inverno Romanov, a televisão piscou e se apagou.

Czar Alexei se reclinou na cadeira, o couro envelhecido rangendo sob ele. Ficou em silêncio por um momento, depois assentiu uma vez.

"Como esperava dele," murmurou.

Sua esposa ficou atrás dele, apoiando uma mão no ombro do marido.

Elsa.

Segunda filha de Bruno. Agora, czarina.

Ela não falou, mas o orgulho nos olhos era inconfundível. Seus dedos se apertaram levemente, um gesto silencioso de unidade.

Porém, sob essa unidade, a tensão começava a fermentar.

O olhar de Alexei permaneceu na tela em branco, como se procurasse por algo além dela, uma resposta ou uma garantia que nunca veio.

Durante a Grande Guerra, ele tinha sido apenas um adolescente. Um garoto que assistiu seu pai de pé ao lado da Alemanha.

Faziam-se apenas dois anos desde que herdara o trono. E o havia assumido no meio de uma guerra já vencida, contra um inimigo encurralado.

O tribunal elogiou sua ascensão, chamando-a de impecável. Mas ele nunca experimentara liderança sob fogo. Não como seu pai. Não como Bruno.

Agora, o mundo se agitava novamente.

Ele cerrava as mãos no colo. "E se eu não estiver pronto?" sussurrou. "Se eles vierem e eu falhar com eles?"

Elsa passou ao redor da cadeira e se ajoelhou ao lado dele. "Então, eu não permitirei."

Ele olhou para ela.

"Meu pai não me criou para temer o mundo," ela disse. "Ele me criou para compreendê-lo e moldá-lo. Assim como me moldou. E eu estou ao seu lado, Alexei. Não atrás, mas ao seu lado."

Sua voz serenou suas mãos mais do que qualquer juramento.

Ele se virou para o mapa ao lado, que mostrava a Europa, Ásia, as Américas... até a África, por mais disfuncional que fosse. Dividida não por fronteiras, mas por convicção.

"Se desejarem guerra," afirmou, "nos encontrarão prontos. Mas não ansiosos."

Ela assentiu, colocando a mão novamente na dele.

"Então, que venham," ela sussurrou. "E que aprendam."

Alexei fechou os olhos por um momento, depois os abriu, não como filho nem como sombra do passado, mas como czar.

"Não permitirei que a história volte a se transformar em sangue novamente," declarou.

Um voto, silencioso e resoluto.

E naquele silêncio, o mundo aguardava seu próximo movimento.

Bruno condenara a Entente e as novas potências aliadas.

E fizera isso para cumprir uma promessa. Uma promessa a um homem que sabia ser um monstro. Um monstro que empunhava para seus próprios propósitos.

E ainda assim, era um monstro que Bruno via como amigo, a quem devia tudo.

Ele provocara seus inimigos na arena mundial, de maneira aberta e visceral para todos verem.

E, ao fazer isso, mitificou um homem que havia massacrado seus colaboradores e aliados. Até a última mulher e criança.

Certeza de que haveria uma resposta. Mas por enquanto, o mundo permanecia em espera.

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